Livro II

LIVRO II

I – Os belgas trocavam entre si reféns...temiam que...o nosso exército marchasse contra eles.

II – César alistou duas novas legiões (XIII e XIV) na Gália Citerior e enviou-as, no começo do Verão, para a Gália Interior, às ordens de Quinto Pédio (sobrinho de César pela sua irmã mais velha, Júlia, e seu lugar-tenente na Gália; em 55 abandona o exército; em 54 foi edil; lutou por César durante a guerra civil e ligou o seu nome à lei votada contra os seus assassinos; cônsul sub-rogado em 43, morre nesse mesmo ano).

César junta-se ao exército quando se começa a poder fazer forragem. Encarrega os sénones e os outros gauleses vizinhos dos belgas de saber o que se passa entre eles e de tal o informarem: todos lhe dizem que se recrutavam tropas e se reunia um exército. Depois de se ter abastecido de trigo, levanta o campo e chega ao cabo de cerca de quinze dias à fronteira dos belgas.

III – Os Remi, entre os belgas, os mais próximos da Gália (o território dos remos estendia-se ao longo do Aisne; capital: Durocortorum; actual Reims; Bibrax era uma das suas praças-fortes mais importantes; hoje o burgo de Beaurieux, a 11 km de Berry-au-Bac), enviam dois deputados, Ício e Andocumbório, os primeiros do seu Estado, para lhe dizerem «que punham as suas pessoas e os seus bens à guarda do povo romano; que estavam prontos a dar-lhe reféns, a executar as suas ordens, a recebê-lo nas suas cidades, a fornecer-lhe víveres e toda a espécie de socorro; que todos os outros belgas estavam em armas...e que a animosidade geral era tal que eles próprios, irmãos e aliados dosSuessiones (suessiões; no Axona, entre Berry-au-Bac e a confluência com o Oise, no antigo Soissonnais; capital: Noviodunum Suessionum, na colina de Pommiers, perto de Soissons), unidos com eles pela conformidade das leis e do governo, submetidos ao mesmo chefe de guerra e ao mesmo magistrado, não puderam afastá-los de tomar parte no movimento».

IV – César soube por estes deputados «que a maior parte dos belgas eram de origem germânica, que outrora atravessaram o Reno, que se fixaram naqueles lugares por causa da fertilidade do solo, e deles expulsaram os habitantes gauleses; que sozinhos, no tempo dos nossos pais, enquanto os teutões e os cimbros devastavam toda a Gália, eles os impediram de entrar nos seus territórios».

Quanto ao seu número, os remos diziam-se mesmo capazes de o saber exactamente; «porque ligados com eles pela vizinhança e pelo parentesco, sabiam o que, na assembleia-geral dos belgas, cada um tinha prometido para aquela guerra».

Os mais poderosos entre eles pela coragem, pela influência, pelo número, eram os belóvacos(Bellovaci; do Somme ao Oise e ao Sena; a região de Beauvais). Podiam armar cem mil homens; tinham prometido 60.000 mil de elite e exigiam para eles a direcção suprema de toda a guerra.

Os suessiões, que eram seus vizinhos, possuíam um território muito extenso e muito fértil, no qual reinara, ainda no nosso tempo, Divicíaco, o mais poderoso chefe de toda a Gália, que juntava a uma grande parte destas regiões o império da Bretanha; hoje tinham por rei Galba, ao qual todos os aliados, de comum acordo, concederam o comando pela sua prudência e pela sua equidade; tinha doze cidades; prometia 50.000 homens.

Os silvanectas, os meldos (Meldi; pequeno povo habitando entre o Sena e o Marne, na planície de Brie; capital: actual Meaux) e os veromânduos (Veromandui; o território do antigo Vermandois; actuais departamentos do Aisne e do Somme) eram clientes dos suessiões.

Os nérvios (acantonados entre o Escalda e o Sambre; a norte, o seu território ia até à região ocidental de Antuérpia), que passam por ser os mais bárbaros entre estes povos e que não são os mais afastados, prometiam outro tanto (50.000).

Os atrébates (Atrebates; no antigo Artois; departamentos do Somme e do Pas-de-Calais), 15.000.

Os ambianos (Ambiani; nas duas margens do Somme, ao norte dos belóvacos, ocupando um território mais ou menos correspondente ao actual departamento do Somme; capital:Samarobriva, que significava “ponte sobre o Samaro”; hoje, Amiens), 10.000.

Os mórinos (Morini; povo do litoral, entre os ambianos e os menápios; ocupando a parte ocidental dos departamentos do Pas-de-Calais e do Nord e da província belga da Flandres), 25.000.

Os menápios (Menapii; bocas do Reno e do Escalda, ao norte dos mórinos, dos nérvios e eburões), 7.000.

Os caletos (Caletes; pequeno Estado cliente dos belóvacos; actual região de Caux, no departamento do Sena Marítimo), 10.000.

Os veliocasses (ou Veliocassi; habitavam o Vexin normando, departamento do Sena Marítimo; capital: Rotomagus; a actual Rouen) e os veromânduos, outro tanto.

Os aduátucos (Aduatuci; nas margens do Mosa e do Sabe, nas actuais províncias de Liège e Namur), 19.000.

Os condrusos (Condrusi; pequeno povo cliente dos tréveros; o seu Estado estendia-se pela margem sul do Mosa, de Namur a Liège); eburões (Eburones; clientes dos tréveros; parte da província de Liège e do Limburgo, chegando até ao Reno, na direcção de Colónia, pelo antigo ducado de Juliers); ceresos (Caeroesi; pequeno Estado belga cliente dos tréveros; ocupando, ao norte de Trèves, uma parte do Eifel) e pemanos (Paemani; pequeno povo de origem germânica cliente dos tréveros, habitando a leste do Mosa); todos compreendidos sob a denominação de “germanos”, cerca de 40.000.

Nota: algumas das tribos belgas expandiram-se à Grã-Bretanha. Os belgas eram da mesma origem dos celtas, mas vieram do outro lado do Reno, o que explica que César os declarasse «saídos dos germanos».

César, por duas vezes, e Hírcio, por quatro, usam o termo”Bélgica” para designar, não toda a região ocupada pelos belgas, mas o centro desse país: os territórios dos belóvacos, ambianos e atrébates.

V – César ordenou ao senado dos remos que viesse para junto dele, e aos principais cidadãos que lhe trouxessem os filhos como reféns. Todas estas condições foram exactamente cumpridas no dia marcado.

Faz um instante apelo ao éduo Divicíaco, dizendo-lhe «quanto importa à república e à salvação comum dividir as forças do inimigo, para não ter uma tão grande multidão a combater de uma só vez: a coisa é possível, se os éduos lançarem as suas tropas sobre o território dos belóvacos e se puserem a devastar os seus campos». Envia Divicíaco com esta missão.

Quando vê que todas as forças dos belgas, depois de se terem concentrado, marcham contra ele, quando soube, pelos batedores que enviara e pelos remos, que já não estavam muito longe, apressou-se a fazer com que o seu exército atravessasse o rio Axona (em Berry-au-Bac), que fica na extrema fronteira dos remos, e aí levantou o seu campo (colina de Mauchamp). A sua retaguarda estava protegida do inimigo e podia sem perigo fazer chegar comboios dos remos e de outros estados. Havia uma ponte sobre este rio: nela estabelece um posto e deixa na outra margem o seu lugar-tenente Quinto Titúrio Sabino com seis coortes; fortifica o seu campo com uma tranqueira de doze pés de altura e um fosso de dezoito pés.

VI – A oito milhas deste campo ficava uma cidade dos remos chamada Bibrax: os belgas, ao passarem, fizeram-lhe um grande assalto. Nesse dia só com grande dificuldade se resistiu. Gauleses e belgas têm a mesma maneira de dar assalto. Começam por se espalhar em multidão em volta das fortificações, de todos os lados lançam pedras contra as muralhas, depois, quando a muralha está desguarnecida dos seus defensores, aproximam-se das portas formando a tartaruga e sapam a muralha. Esta táctica era então fácil, porque diante de tal multidão alvejando as fortificações com pedras e dardos, ninguém podia ficar sobre a muralha. A noite pôs termo ao assalto. O remo Ício, que comandava então a praça, mandou dizer «que não podia aguentar mais tempo se não tivesse socorro».

VII – A meio da noite, César, utilizando como guias aqueles que lhe tinham trazido a mensagem de Ício, envia em socorro dos sitiados númidas, archeiros cretenses e fundibulários baleares.

Depois de um breve tempo em frente da praça, depois de terem devastado as terras dos remos, queimado todas as aldeias e todos os edifícios que puderam atingir, marcharam com todas as suas forças para o campo de César e acamparam a menos de 2.000 passos; o seu acampamento, a julgar pelo fumo e pelas fogueiras, estender-se-ia por mais de 8 milhas.

VIII – César, por causa do grande número de inimigos e da sua excelente reputação de bravura, resolveu em primeiro lugar adiar o combate. Contudo, todos os dias, por recontros de cavalaria, experimentava a coragem do inimigo e a audácia dos nossos. Quando viu que os nossos não lhes eram inferiores, e que o espaço que se estendia diante do campo era naturalmente favorável e próprio para desdobrar um exército em batalha (porque a colina sobre a qual o campo estava assente elevava-se insensivelmente acima da planície e na frente era justamente bastante larga para nela manobrar um exército; porque ela baixava nas suas extremidades e, elevando-se ligeiramente no centro, apresentava-se em inclinação suave no sentido da planície), mandou cavar nas duas extremidades da colina um fosso transversal de cerca de quatrocentos passos; na ponta destes fossos, estabeleceu fortes e dispôs máquinas para impedir que os inimigos, uma vez que tivessem desdobrado o exército em batalha, não pudessem, dado o seu número, apanhar de flanco os seus soldados e envolvê-los no decurso do combate. Feito isto, deixou no campo as duas legiões recentemente formadas, para que pudessem, se fosse necessário, ser trazidas em reforço, e dispôs em batalha as outras seis legiões diante do campo. O inimigo, do mesmo modo, fizera sair e desdobrara as suas tropas.

IX – Um pântano (o de Miette) pouco extenso estendia-se entre o nosso exército e o dos inimigos. Estes esperavam, para ver se os nossos o transporiam; os nossos, por seu lado, tinham as suas armas prontas para cair sobre o inimigo no caso deste, tomando a iniciativa de atravessar o pântano, se encontrar em dificuldade. Entretanto um combate de cavalaria travava-se entre as duas linhas. Mas não querendo nenhum dos adversários ousar a passagem, César, depois de ter obtido uma vantagem para os nossos no combate de cavalaria, conduziu os seus soldados para o campo. De imediato os inimigos caminharam direitos ao Axona, nas traseiras do nosso campo. Nele encontrando vaus, tentam fazer passar parte das suas forças, com a intenção de tomarem a tranqueira comandada por Quinto Titúrio e cortar a ponte ou, se não conseguissem, para devastar o território dos remos, que nos ofereciam grandes recursos nesta guerra, e impedir o nosso reabastecimento.

X – César, avisado por Titúrio, atravessa a ponte com toda a sua cavalaria, os seus númidas armados ligeiramente, os seus fundibulários, os seus archeiros e marcha contra o inimigo. Houve neste lugar um combate encarniçado. Tendo os nossos surpreendido o inimigo nos embaraços da passagem, mataram muitos; os outros, cheios de audácia, tentavam passar por cima dos corpos dos seus companheiros: foram repelidos por uma saraivada de frechas; aqueles que primeiro atravessaram foram envolvidos pela cavalaria e massacrados.

Vendo que não podiam apoderar-se da praça ou atravessar o rio; que nós não avançávamos para travar batalha; e começando a sofrer a falta de víveres, reúnem em conselho e decidem que o melhor era voltar cada um para sua casa, para aí estarem prontos a acorrer em socorro daqueles cujo país os romanos invadissem primeiro; combateriam com mais vantagem no seu próprio território do que no de outrem e utilizariam para o reabastecimento os recursos internos do país. O que os decidiu, entre outras coisas, foi a notícia de que Divicíaco e os éduos se aproximavam da fronteira dos belóvacos. Era impossível convencer estes últimos a ficarem por mais tempo sem socorrerem os seus.

XI – Abandonam o seu campo à segunda vigília, com grande barulho, em tumulto, sem ordem nem disciplina, indo cada um pelo primeiro caminho que se lhe oferecia e tendo pressa de chegar a suas casas.

César foi prevenido pelos seus espiões, mas não atinou com a causa desta retirada, temeu uma emboscada e reteve o exército e a cavalaria no campo. Ao nascer do dia, melhor instruído pelos seus batedores, destacou toda a cavalaria para flagelar a retaguarda inimiga, ao mando de Quinto Pédio e Lúcio Aurunculeio Cota. Tito Labieno seguiu-os com três legiões.

Alcançaram a retaguarda e perseguiram-na durante muitas milhas, matando grande número de fugitivos: os últimos, uma vez alcançados, estacaram e aguentaram valentemente o choque dos nossos soldados; mas os que os precediam, vendo-se fora de perigo e não sendo retidos nem pela necessidade nem pela ordem de nenhum chefe, logo que ouviram o clamor do combate romperam fileiras e puseram-se em fuga. Assim os nossos mataram neles sem perigo, tanto quanto a duração do dia lhes permitiu; pelo pôr-do-sol, cessaram com a carnificina e retiraram para o nosso campo, seguindo a ordem que haviam recebido.

XII – no dia seguinte César conduziu o exército ao país dos suessiões, os mais próximos dos remos. Depois de uma longa marcha (de Berry-au-Bac a Soissons são 45 km) chegou à praça deNoviodunum Suessionum. Tentou tomá-la de passagem, porque ouvia dizer que estava sem defensores; mas não o conseguiu, apesar do pequeno número destes, por causa da largura do fosso e da altura das muralhas. Pôs-se então a entrincheirar o seu campo, a fazer avançar manteletes e a preparar tudo o que era necessário para um cerco. Entretanto, toda a multidão dos suessiões em derrota se encerrou na noite seguinte na praça. Rapidamente se empurravam os manteletes contra a praça, se elevou o aterro e se construíram as torres: surpreendidos com a grandeza daqueles trabalhos que nunca ainda tinham visto e de que nunca tinham ouvido falar, enviaram delegados a César para capitular. A pedido dos remos, foi-lhes poupada a vida.

XIII – Entregam como reféns importantes personalidades do Estado e dois filhos do próprio rei Galba, entregam ainda todas as armas existentes na praça. Recebida a submissão dos suessiões, César marcha contra os belóvacos.

Estes haviam-se encerrado com todos os seus haveres na praça de Bratuspâncio (Bratuspantium; na vizinhança de Beauvais). Os romanos estavam a cerca de 5.000 passos dela quando todos os anciãos, saindo da cidade, estenderam as mãos para César e lhe pediram a palavra, dizendo que se entregavam à sua discrição e que não empreenderiam luta contra o povo romano.

XIV – Divicíaco falou a seu favor (desde a retirada dos belgas, tinha reenviado as tropas éduas e voltara para junto de César). «Os belóvacos, disse ele, foram sempre os aliados e os amigos da nação édua; foram arrastados pelos seus chefes, que lhes diziam que os éduos, reduzidos à escravatura por César, suportavam todos os géneros de injúrias e de afrontas; que eles se tinham afastado dos éduos e empunhado armas contra o povo romano. Os que provocaram esta decisão, sentindo a que infelicidades tinham entregue o Estado, refugiaram-se na Bretanha. Não eram apenas os belóvacos que lho suplicavam, eram também os éduos que intervinham a favor destes, para que os tratasse com clemência e brandura. Se agisse assim, aumentaria o crédito dos éduos junto de todos os belgas que lhes forneciam habitualmente, em caso de guerra, tropas e recursos.»

XV – Por consideração a Divicíaco e aos éduos, César aceitou a sua submissão e deixou-os viver; porém, como o seu Estado tinha uma grande influência sobre os belgas e se impunha pelo número da população, exigiu-lhes 600 reféns. Depois de lhos entregarem e de lhe haverem trazido todas as armas da praça, marchou sobre o país dos ambianos, que imediatamente se renderam: corpos e bens.

Tinham por vizinhos de fronteira os nérvios. César informou-se do carácter e dos costumes deste povo. Soube que os mercadores não tinham acesso junto deles; que proibiam absolutamente a importação no seu país do vinho e de outros produtos de luxo, porque os consideravam próprios para amolecer as almas e enfraquecer a coragem; que eram bárbaros de uma grande bravura; que censuravam vivamente aos outros belgas terem-se entregue aos romanos e abjurado a virtude de seus pais; que afirmavam que não enviariam deputados e não aceitariam a paz em condição alguma.

XVI – Depois de três dias de marcha através do seu país, César soube pelos prisioneiros «que o Sambre não estava a mais de dez mil passos do seu campo e que todos os nérvios se tinham estabelecido do outro lado do rio para ali esperarem a chegada dos romanos. Estavam reunidos com os atrébates e os veromânduos, seus vizinhos. Esperavam também as forças dos aduátucos, que vinham a caminho.»

«As mulheres e aqueles que a idade parecia tornar inúteis para o combate ficaram juntos, num lugar de que os pântanos proibiam o acesso a um exército».

XVII – Munido com estas informações, César envia batedores e centuriões para escolher um terreno conveniente onde acampar. Um grande número de belgas submetidos e outros gauleses tinham acompanhado César e seguiam o mesmo caminho; alguns, como depois se soube pelos prisioneiros, haviam observado, nos últimos dias, a ordem de marcha do nosso exército; foram de noite ao encontro dos nérvios e explicaram-lhes que cada legião estava separada da seguinte por uma grande quantidade de bagagens, que seria fácil atacar a primeira legião à sua chegada ao campo, quando as outras legiões estivessem ainda a uma grande distância, que uma vez esta legião posta em fuga e as suas bagagens pilhadas, as outras já não ousariam fazer-lhes frente.

Os nérvios, fracos em cavalaria, têm o hábito antigo, para obstarem mais facilmente às incursões dos seus vizinhos, de cortar e curvar árvores jovens, cujos numerosos ramos, crescidos em largura e cruzando-se com espinheiros e silvados nos intervalos, formam vedações semelhantes a muros, uma barreira impenetrável à vista. Com tais obstáculos entravavam a marcha do nosso exército.

XVIII – A natureza do terreno que os nossos escolheram para o campo era a seguinte: uma colina, desde o seu cimo, inclinava-se insensivelmente para o Sabis. Em frente, na extremidade oposta, elevava-se uma colina de declive também suave; a sua parte inferior, em cerca de duzentos passos, estava descoberta; a sua parte superior era assaz arborizada para que o olhar nela não pudesse penetrar facilmente. Era nestes bosques que o inimigo se mantinha escondido; na parte descoberta, ao longo do rio, não se viam mais que alguns postos de cavaleiros. A profundidade do curso de água era cerca de três pés.

XIX – César, precedido pela sua cavalaria, seguia a pouca distância com todas as suas tropas. Mas o plano e ordem da sua marcha diferiam daquela que os belgas tinham relatado aos nérvios. Ao aproximar-se do inimigo, César, segundo o seu costume, pusera à cabeça as seis legiões e colocara as bagagens de todo o exército atrás delas. Depois duas legiões, as que tinham sido alistadas mais recentemente, fechavam a marcha e guardavam as bagagens. Os nossos cavaleiros atravessaram o rio com os fundibulários e os archeiros e travaram combate com a cavalaria dos inimigos. Estes, alternadamente, retiravam para o interior dos bosques, para junto dos seus, depois, voltando a sair, carregavam contra os nossos; mas os nossos não ousavam persegui-los, quando eles recuavam, para lá do limite do terreno descoberto. Entretanto, as seis legiões que chegaram primeiro traçaram o recinto do campo e puseram-se a fortificá-lo. Assim que os inimigos que se haviam dissimulado nos bosques avistaram as primeiras bagagens do nosso exército (era o momento que tinham estabelecido para travar o combate), lançaram-se de repente, com todas as suas forças, e caíram sobre os nossos cavaleiros. Depois de facilmente os terem derrotado e dispersado, correram para o rio com uma tão inacreditável velocidade que quase pareciam estar ao mesmo tempo diante dos bosques, no rio e já em luta com os nossos. Com a mesma velocidade, treparam a colina oposta, marchando para o nosso campo e contra aqueles que se preparavam para o fortificar.

XX – César tinha tudo para fazer ao mesmo tempo: era preciso desfraldar o estandarte, que dava sinal para correr às armas, fazer soar a trombeta; chamar os soldados do trabalho, mandar procurar aqueles que estavam um pouco afastados por causa do aterro, dispor o exército em batalha, falar às tropas, dar o sinal de ataque; o pouco tempo e a aproximação do inimigo tornavam impossível grande parte destas medidas. Nestas dificuldades, duas coisas ajudavam César: a habilidade e o treino dos soldados, que, exercitados pelos combates precedentes, não eram menos capazes de a si próprios traçarem uma conduta que de aprendê-la dos outros; e em seguida, a proibição estabelecida por César aos seus lugar-tenentes de se afastarem do trabalho e das suas legiões, antes dos trabalhos do campo estarem terminados. Cada um deles, pela razão da proximidade e da velocidade do inimigo, não esperava agora as ordens de César, mas fazia o que lhe parecia ser bem.

XXI – César, depois de ter dado as ordens necessárias, correu a falar aos soldados do lado que o acaso lhe ofereceu e caiu na X legião. Quando o inimigo já estava ao alcance dos dardos, deu o sinal de combate. Depois, indo à outra ala para ali fazer as mesmas exortações, encontrou os seus embaraçados. O ataque fora tão rápido e o inimigo tão ardente a combater que não houve tempo para formar segundo as insígnias, nem mesmo para pôr os capacetes e tirar as capas dos escudos. Cada um, ao voltar dos trabalhos, colocou-se ao acaso sob as primeiras insígnias que avistou.

XXII – Como o exército se dispusesse em batalha segundo a natureza do terreno e o declive da colina, e consoante a necessidade urgente mais que segundo a ordem e a regra da arte militar, as legiões, isoladas, defendiam-se contra os inimigos cada uma de seu lado, separadas umas das outras por aquelas sebes muito espessas que impediam de ver; não se podia empregar com precisão as reservas, nem prover ao que era necessário em cada ponto, nem conservar a unidade de comando. Assim, numa tal desigualdade de circunstâncias, a fortuna das armas foi igualmente muito variada.

XXIII – Os soldados da IX e da X legiões, que se encontravam colocados na ala esquerda do exército, depois de terem lançado os seus dardos, caíram sobre os atrébates (porque eram eles que ocupavam esse lado), estafados pela corrida e cheios de feridas, e bem depressa os repeliram da elevação até ao rio. Estes tentavam transpô-lo; os nossos, perseguindo-os à espada, mataram-nos em grande parte. Eles próprios não hesitaram em atravessar o rio e, avançando num terreno desfavorável, onde o inimigo se voltou para resistir, lhe deram derrota num segundo combate. De modo semelhante, num outro ponto da frente, duas legiões isoladas, a XI e a VIII (no centro), depois de terem vencido os veromânduos que se lhes opuseram, tinham-nos perseguido desde a elevação até às margens do curso de água.

Porém, encontrando-se agora o campo quase inteiramente descoberto no centro e na esquerda, como a XII legião estava formada na ala direita com a VII não longe dela, todos os nérvios, em colunas compactas, conduzidos por Boduognato, o seu chefe supremo, caíram sobre esta ala, e, enquanto uns envolviam as duas legiões pelo flanco descoberto, outros ganhavam o cimo do campo.

XXIV – No mesmo momento, os nossos cavaleiros e os nossos soldados de infantaria ligeira, que os acompanharam e haviam sido com eles repelidos, encontraram o inimigo pela frente ao retirarem para o campo e fugiram de novo, numa outra direcção.

Os servos, que da porta decumana, no cimo da colina, viram os nossos atravessar o rio como vencedores, saíram para fazer saque; quando, ao voltarem-se, viram o inimigo no nosso campo, puseram-se a fugir de cabeça baixa.

Simultaneamente, elevava-se o clamor e a gritaria daqueles que chegavam com a bagagem e que, aterrorizados, fugiam em todas as direcções.

Enlouquecidos pelo espectáculo, os cavaleiros tréveros, particularmente afamados pela sua bravura entre os gauleses, e que o seu Estado enviara a César como auxiliares, vendo o nosso campo cheio de inimigos, as nossas legiões acossadas e quase cercadas, os servos, os cavaleiros, os fundibulários, os númidas dispersos e em fuga por todo o lado, julgaram a nossa situação desesperada e voltaram para os seus.

XXV – César, na ala direita, vendo os seus soldados acossados de perto, as insígnias juntas no mesmo lugar, os soldados da XII legião amontoados e embaraçando-se uns aos outros no combate; todos os centuriões da IV coorte caídos, o porta-estandarte morto, o estandarte perdido; quase todos os centuriões das outras cortes feridos ou mortos, entre os quais o primipilus Públio Sêxtio “Báculo”, soldado de uma muito grande coragem, atingido por feridas tão numerosas e tão graves que já não podia aguentar-se de pé, os restantes muito abatidos; alguns homens das últimas fileiras, cessando de combater, a retirarem e a porem-se ao abrigo das frechas; o inimigo que não parava de subir desde o sopé da colina para o nosso campo e de nos acossar pelos dois flancos...vendo pois tudo isto, como a situação era crítica e como não dispunha de qualquer reserva de que pudesse esperar socorro, César pegou no escudo de um soldado da retaguarda, pois não tinha o seu, e avançando para a primeira linha, dirigiu-se aos centuriões...deu ordem para fazer avançar as insígnias e alargar as fileiras, para que o emprego da espada pudesse ser mais fácil.

XXVI – Notando que a VII legião, combatendo perto dali, era também acossada pelo inimigo, avisou os tribunos militares para que aproximassem pouco a pouco as duas legiões e as encostassem para fazer frente ao inimigo. Desta maneira, os soldados prestavam um mútuo socorro e, não temendo já ser apanhados pela retaguarda e cercados, começaram a resistir mais ousadamente.

Entretanto, os soldados das duas legiões que, na retaguarda, guardavam as bagagens, pondo-se em passo de corrida ao anúncio dos combates, mostravam-se aos inimigos no alto da colina.

Por seu lado, Tito Labieno, que se apoderara do campo dos inimigos e vira da elevação o que se passava no nosso, enviou a X legião em nosso socorro.

XXVII – A sua chegada alterou de tal maneira a face das coisas que aqueles dos nossos que, esgotados pelos seus ferimentos, jaziam no solo, apoiando-se agora nos seus escudos, recomeçaram a bater-se; os servos, vendo o inimigo assustado, atiravam-se, mesmo sem armas, sobre os adversários completamente armados; os cavaleiros, para abolir pela sua bravura a vergonha da fuga, em toda a parte tomavam a dianteira aos soldados legionários. Mas os inimigos, mesmo reduzidos à sua última oportunidade de salvação, mostraram tanta coragem que, quando os primeiros entre eles ficavam caídos, os que os seguiam subiam para os seus corpos e combatiam; e, quando tombavam por sua vez e os cadáveres se amontoavam, os sobreviventes, como do alto de um cabeço, lançavam dardos contra os nossos e voltavam a atirar as azagaias que erravam o alvo.

XXVIII – Depois desta batalha, os velhos que eles tinham reunido em lagoas e pântanos (na foz do Escalda) com as mulheres e as crianças, não vendo já obstáculo para o vencedor nem segurança para o vencido, enviaram, com o consentimento unânime dos sobreviventes, deputados a César e renderam-se. Querendo descrever a infelicidade do seu Estado, disseram que de seiscentos senadores não restavam mais que três, que de sessenta mil soldados, mal restavam quinhentos que pudessem empunhar armas. César, para demonstrar a sua misericórdia para com estes infortunados e estes suplicantes, teve grande cuidado com a sua conservação, deixou-lhes o gozo do seu território e das suas cidades, e ordenou aos seus vizinhos que evitassem ultrajar e lesar as suas pessoas.

XXIX – Os aduátucos, que vinham em socorro dos nérvios com todas as suas forças, à notícia da batalha arrepiam caminho e voltam para o seu país; abandonando todas as suas praças e todos os seus fortes, reuniram todos os seus bens numa única praça que a natureza tinha notavelmente fortificado. Cercada em todos os pontos da sua muralha por rochedos a pique de onde a vista se alongava, como único acesso só dispunha de um declive suave, de duzentos pés de largo quando muito. Eles tinham defendido este acesso com uma dupla muralha muito alta, coroada por blocos de pedra de grande peso e por estacas afiadas.

Eles próprios descendiam dos cimbros e dos teutões, que, na sua marcha sobre a nossa Província e a Itália, deixaram na margem esquerda do Reno os carros que não puderam trazer consigo, com 6.000 para os guardar e vigiar. Estes, depois do aniquilamento do seu povo, estiveram durante muito tempo em guerra com os seus vizinhos, ora atacando ora sendo atacados. Fizeram por fim a paz e de comum acordo elegeram domicílio naqueles lugares.

XXX – Nos primeiros tempos que se seguiram à chegada do nosso exército, faziam frequentes surtidas travando com os nossos pequenos combates; depois, quando se levantou uma circunvalação de quinze mil pés de circuito bem como numerosos redutos, mantiveram-se encerrados na sua praça. Quando viram que depois de termos empurrado manteletes, elevado um aterro, construíamos de longe uma torre, puseram-se a rir do alto da sua muralha e a cobrirem-nos de sarcasmos: «Com que finalidade se levantava tão grande máquina a tal distância?»

XXXI – Mas quando a viram oscilar e aproximar-se das suas fortificações, vivamente impressionados por este espectáculo novo e estranho, enviaram a César, para pedir a paz, deputados. Declararam que depunham em seu poder as suas pessoas e os seus bens. «O seu único pedido, a sua única súplica era a de que os não despojasse das suas armas. Quase todos os seus vizinhos eram seus inimigos, não poderiam defender-se deles se depusessem as armas. Preferiam, se fossem reduzidos a tal infortúnio, sofrer do povo romano fosse que sorte fosse a perecer em tormentos às mãos daqueles homens entre os quais sempre tinham dominado».

XXXII – César respondeu que «a sua clemência habitual, mais que a conduta deles, o comprometia a conservar a sua nação, se eles se rendessem antes de o aríete ter tocado na muralha; mas que a rendição estava condicionada pela deposição das armas. Faria por eles o que fizera pelos nérvios: imporia aos seus vizinhos que não insultassem um povo que se rendera aos Romanos». Depois de terem levado a resposta de César aos seus, os deputados vieram dizer que se submetiam às suas ordens. Do alto da muralha atiraram para o fosso, que estava em frente da praça-forte, uma grande quantidade de armas; no entanto, como depois se descobriu, tinham escondido e guardado cerca de um terço na praça; abriram as portas e aquele dia passou-se em paz.

XXXIII – Pela tarde, César mandou fechar as portas e sair os seus soldados da cidade, para evitar as violências que poderiam cometer à noite contra os habitantes. Mas estes tinham preparado uma surpresa; acreditaram que, depois da sua rendição, as nossas portas estariam desguarnecidas ou, pelo menos, guardadas negligentemente; uns pegaram então nas armas que tinham guardado e escondido, outros em escudos de cortiça ou de vime entrançado, que haviam guarnecido de peles; à terceira vigília, fizeram de repente uma surtida com todas as suas forças do lado onde a subida para os nossos entrincheiramentos era menos rude. Depressa, seguindo as prescrições dadas antecipadamente por César, foi dado o alarme por fogos; acorreram de todos os fortes vizinhos; os inimigos lutando num lugar desvantajoso contra os nossos soldados que sobre eles atiravam frechas, do alto do entrincheiramento e das torres, bateram-se com o encarniçamento de homens desesperados, que põem na sua coragem a suprema esperança de salvação. Foram mortos cerca de quatro mil; os restantes foram repelidos para a praça. No dia seguinte foram arrombadas as portas, que já ninguém defendia; os nossos soldados entraram na cidade; César mandou pôr todos em hasta pública num só lote. Soube pelos compradores que o número de cabeças era de cinquenta e três mil.

XXXIV – Ao mesmo tempo, César foi informado por Publius Licinius Crassus Dives” (adulescens; será áugure em 56), que enviara com a VII legião aos vénetos, aos unelos, aos osismíos, aos curiosolitas, aos esúvios, aos aulercos, aos rédones, povos marítimos nas costas do Oceano, que todos estes povos estavam sob o domínio e em poder do povo romano.

Veneti, na região de Vannes, no Morbihan, Bretanha. Unelli, na Normandia, no Contentin; actual departamento da Manche. Os Osismii ou Osismi habitavam o actual departamento de Finistère, na Bretanha. Curiosolites, no actual departamento de Côtes-du-Nord, à volta da baía de Saint-Brieuc. Esuvii (não há qualquer dado sobre tal povo). O território dos Redones ou Rhedonesabarcava a maior parte do actual departamento de Ille-et-Vilaine; o seu nome “reencontra-se” no da cidade de Rennes.

Os Aulerci ocupavam uma boa parte da actual Normandia e subdividiam-se em três grupos: os Aulerci Diablinti, ocupando a bacia de Mayenne; os Aulerci Cenomani, a sudeste dos diablintes, no actual departamento do Sarthe; os Aulerci Eburovices, a nordeste dos diablintes, no departamento do Eure.

XXXV – Toda a Gália se encontrou pacificada por estas campanhas, e a fama que delas chegou aos Bárbaros foi tal que muitos dos povos habitando para além do Reno enviaram deputados a César(toda esta “tirada” é absolutamente “descarada”: a Gália não estava nem pacificada nem conquistada) para lhe prometerem entregas de reféns e a submissão às suas ordens. César, com pressa de voltar à Itália e à Ilíria, disse a estas embaixadas que voltassem no começo do Verão seguinte. Conduziu as suas legiões para que estabelecessem quartéis de Inverno entre os carnutos, os andes, os turónios e os povos vizinhos das regiões onde fizera a guerra, e partiu para Itália. Dados estes sucessos, no seguimento de um relatório de César, foram decretados quinze dias de suplicações, o que ainda não acontecera a ninguém.

O Estado dos Carnutes ou Carnuti estendia-se pelo antigo Orléanais e pela região de Chartres, indo até Mantes e ao Sena; abarcava a maior parte dos actuais departamentos do Loiret, do Loir-et-Cher e do Eure-et-Loire. A sua capital, Genabum (Génabo; mais tarde, Civitas Aurelianorum; actual Orléans). Era nas florestas dos carnutos que se encontrava a sede principal do druidismo.

Os Andes, a norte do Loire e nas duas margens do Mayenne; entre os namnetes (região de Nantes) a oeste, os aulercos cenomanos a norte e os turónios a leste. Ocupavam o antigo Anjou; departamento do Maine-et-Loire e uma parte do departamento de Sarthe.

Os Turones, na antiga Touraine.

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