Livro V

LIVRO V

I – No consulado de Lúcio Domício Aenobarbo e de Ápio Cláudio Pulcro, César, deixando os seus quartéis de Inverno para ir à Itália, como tinha o costume de fazer todos os anos, ordena aos lugar-tenentes que pusera à cabeça das suas legiões que tenham o cuidado, no decorrer do Inverno, de construir o maior número de navios que seja possível e de reparar os antigos. Determina as suas dimensões e forma. Para que se possa carregá-los e pô-los em seco rapidamente, manda-os fazer um pouco mais baixos do que aqueles que temos o costume de usar no nosso mar; dado ter observado que, em consequência do fluxo e do refluxo, as vagas do Oceano são menos fortes. Para as cargas e o grande número de animais de carga que estavam destinados a transportar, encomenda-os um pouco mais largos que os navios de que nos servimos nos outros mares. Ordena que sejam todos à vela e a remos, o que a sua pouca altura torna muito fácil. Manda vir de Espanha tudo quanto é útil (cobre, ferro e junco para as cordas) para o armamento destes navios.

Em seguida, depois de haver terminado as suas questões na Gália Citerior, parte para a Ilíria(compreendia então uma parte do Friuli, da Istria e da Dalmácia), dada a notícia de que osPirustae (provavelmente habitariam o norte do Epiro) assolavam com as suas incursões a fronteira desta província. À sua chegada, ordena aos Estados que recrutem tropas e marca-lhes um local de concentração. Sabedores disso, os pirustas enviam-lhe deputados, afirmando-se dispostos a prestar todas as compensações pelos seus actos e violência. César ordena-lhes que tragam reféns, fixando o dia da sua entrega; declara-lhes que de outro modo fará a guerra ao seu Estado.

Trazem-lhe os reféns no dia marcado; nomeia árbitros para avaliar os danos sofridos por cada Estado e para fixar a reparação.

II – Depois de ter regulado estes assuntos e encerrado as sessões, volta à Gália Citerior e de ali parte a juntar-se ao exército. Assim que chega, visita todos os quartéis de Inverno e vê que, apesar da penúria de materiais, o afã dos soldados fora bastante para construir cerca de seiscentos navios do modelo descrito e vinte e oito navios longos inteiramente armados e prontos, ou pouco faltando para o estarem, pois que foram lançados ao mar passados poucos dias.

Depois de ter felicitado vivamente os soldados e aqueles que haviam dirigido a obra, explica-lhes o que deles espera e dá-lhes ordem para se reunirem todos no porto de Ício, de onde sabia que o trajecto para a Bretanha é muito cómodo, ficando apenas a 30.000 passos do continente.

Deixando o número de tropas que lhe pareceu necessário para acompanhar os navios, partiu com quatro legiões, sem bagagens, e oitocentos cavaleiros para o país dos tréveros, porque estes não vinham às assembleias, não obedeciam às suas ordens e tentavam, dizia-se, atrair a aliança os germanos transrenanos.

III – Este Estado tem a cavalaria mais poderosa de toda a Gália, possui muitas tropas a pé e está em comunicação com o Reno. Ali dois homens disputavam o poder, InduciomarusCingetorix (genro do primeiro).

Cingetórige, mal soube da vinda de César, veio procurá-lo, garantindo-lhe que ele e todos os seus se manteriam no dever e não faltariam à amizade do povo romano, e instruiu-o do que se passava entre os Treveri.

Induciómaro, pelo contrário, pôs-se a alistar cavalaria e infantaria e a preparar a guerra, escondendo na floresta das Ardenas aqueles que a idade incapacitava para empunhar armas, floresta que se alonga por uma imensa extensão, no meio do território dos tréveros, do Reno até às fronteiras dos Remi. Mas quando viu muitos dos principais do Estado, arrastados pela sua amizade com Cingetorix e assustados com a chegada das nossas tropas, a procurar César, temeu ser abandonado por todos e enviou deputados: «se não quisera deixar os seus e ir procurá-lo, fê-lo para reter mais facilmente o Estado no dever, no temor de que, se toda a nobreza partisse, o povo imprevidente se viesse a revoltar. Tinha então todo o poder e, se César o permitisse, viria ao seu campo para lhe confiar a sua própria sorte e a do seu Estado».

IV – Para não ser obrigado a passar o Verão entre os tréveros, pois que tudo estava pronto para a guerra na Bretanha, ordenou a Induciómaro que o viesse procurar com duzentos reféns, o seu filho entre eles e todos os seus próximos.

Depois fez comparecer perante si os principais dos tréveros, e uniu-os um por um a Cingetórige, a quem era justo recompensar pelos seus serviços. Foi para Induciómaro um golpe duro de suportar este atentado à sua influência entre os seus; e o ódio que já tinha contra nós exasperou-se ainda mais com o seu ressentimento.

V – Regulados estes assuntos, César parte para o porto de Ício com as quatro legiões. Ali é informado que sessenta navios, construídos nos Meldi, colhidos por uma tempestade, não haviam podido manter a sua rota, tendo voltado ao ponto de partida. Todos os outros estão prontos a navegar e encontram-se munidos de todo o necessário.

Junta-se-lhe a cavalaria de toda a Gália, em número de 4.000 homens, bem como os principais de todos os Estados; César resolvera deixar na Gália apenas aquele pequeno número cuja fidelidade lhe era certa, e levar consigo os outros como reféns, porque temia um levantamento da Gália na sua ausência.

VI – No número destes chefes encontrava-se o éduo Dumnorix. Este começou por tentar, por meio de rogos, que o deixassem ficar na Gália, alegando ou a sua falta de hábito de navegação e o seu receio pelo mar ou pretensos impedimentos religiosos. Quando viu que isso lhe era recusado, começou a lançar intrigas junto dos outros chefes, tomando-os de parte e exortando todos a que ficassem no continente: «não era sem razão, dizia ele, que se despojava a Gália de toda a sua nobreza; César tinha o desígnio de os levar para a Bretanha para aí fazer perecer todos aqueles que não ousava matar diante dos olhos dos gauleses». Estas intrigas eram denunciadas a César por numerosos relatórios.

VII – Depois de haver permanecido cerca de 25 dias no local, porque o vento do noroeste, que sopra habitualmente nestas costas durante esta época do ano, o impedia de navegar, aproveitando enfim um tempo favorável, deu às suas tropas e aos seus cavaleiros ordem de embarcar.

No decorrer do embarque, sem o conhecimento de César, Dumnorix abandona o campo com a cavalaria dos éduos e toma o caminho de regresso ao seu país. Então César, suspendendo o embarque, envia em sua perseguição uma grande parte da cavalaria, para o trazer de volta e, se resistisse, com ordem para o matar.

Dumnorix foi rodeado e morto; os cavaleiros éduos voltaram para junto dos romanos.

VIII – César deixou no continente Labieno com três legiões e 2.000 cavaleiros, para guardar os portos e providenciar quanto ao trigo.

Com cinco legiões e outros 2.000 cavaleiros, levantou âncora pelo pôr-do-sol; empurrado por um ligeiro Áfrico, que cessou pelo meio da noite, não pôde manter a rota e foi arrastado para longe pela maré. Ao nascer do Sol, apercebeu-se que havia deixado a Bretanha à esquerda; então, deixando-se ir no refluxo, empregou os remos para chegar àquela parte da ilha que havia encontrado no Verão anterior como muito propícia a um desembarque: os nossos soldados, nos navios de transporte completamente carregados, igualaram, não parando de remar, a velocidade dos barcos longos. Pelo meio-dia todos os barcos alcançaram a Bretanha, sem que o inimigo se deixasse ver naquele local(Sandown Castle, ao norte de Deal).

César soube mais tarde, por prisioneiros, que consideráveis contingentes se haviam reunido ali, mas que assustados com o grande número de navios (com os navios do ano anterior e aqueles que os particulares haviam construído para seu uso, ele tinha aparecido com mais de oitocentos de uma só vez), tinham abandonado o litoral para se irem esconder nas elevações.

IX – César desembarcou as suas tropas e escolheu uma localização conveniente para o seu campo. Instruído por prisioneiros do local onde estacionavam as forças do inimigo, deixou perto do mar dez coortes e trezentos cavaleiros para a guarda dos navios; depois, a partir da terceira vigília, marchou contra o inimigo; temia tanto menos pela sua esquadra quanto a deixava ancorada numa praia suave e plana; e deu o comando deste destacamento e dos navios a Quinto Átrio.

Fizera já durante a noite cerca de 12.000 passos quando avistou as forças do inimigo (em Canterbury). A sua cavalaria e carros dispunham-se à beira de um rio e, postados sobre uma elevação, puseram-se a cerrar-nos o caminho e a dar-nos batalha (no dia seguinte).

Repelidos pela nossa cavalaria, os bárbaros esconderam-se no bosque; dispunham ali de uma posição singularmente fortificada pela natureza e pela arte, de que pareciam haver disposto no passado para alguma guerra intestina: com efeito, tinham abatido um grande número de árvores e obstruído todas as áleas. Havendo-se espalhado, lançavam frechas dos matagais e proibiam-nos a entrada nas suas fortificações. Mas os soldados da sétima legião, tendo formado o testudo e levantado um terrado até aos entrincheiramentos, penetraram-nas e, com muito poucas perdas, desalojaram-nos dos bosques. César proibiu que os perseguissem mais longe, porque não conhecia o país e, tendo já decorrido grande parte do dia, queria empregar o restante na fortificação do seu campo.

X – No dia seguinte de manhã, dividiu os infantes e os cavaleiros em três corpos e enviou-os em perseguição do inimigo. Porém, cavaleiros enviados por Quinto Átrio vieram anunciar que, na noite anterior, se havia levantado uma tempestade muito forte, que quebrara e atirara à costa quase todos os navios, porque as âncoras e os cordames não puderam resistir à violência do temporal: assim, os barcos, havendo embatido uns contra os outros, estavam muito danificados.

XI – César ordena que chamem as legiões e os cavaleiros, pondo termo à perseguição; regressa para ver os seus navios: cerca de quarenta estavam perdidos; os outros podiam ser reparados à força de muito trabalho.

Escolheu operários nas legiões e mandou vir outros do continente. Escreveu a Labieno para construir, com as legiões de que dispunha, o maior número de navios que pudesse.

Puxam-se todos os navios para a praia, reunindo-os ao acampamento numa única fortificação. Gastam-se cerca de dez dias nestes trabalhos, sem que os soldados tenham, mesmo de noite, o menor repouso.

Com os navios em terra e o campo notavelmente fortificado, deixando de guarda aos navios a mesma guarnição anterior, volta ao local de onde partira.

Ali chegando, depara com uma importante concentração de tropas de Britones, que ali se haviam reunido vindos de todos os lados. O comando supremo e a direcção da guerra tinham-no confiado, com consentimento unânime, a Cassivellaunus, cujo pais está separado dos Estados marítimos por um rio que se chama o Tamesis, a cerca de oitenta mil passos do mar. Em tempos anteriores, tivera guerras constantes com os outros Estados; mas, assustados com a nossa chegada, os bretões confiaram-lhe o comando supremo da guerra.

XII – O interior da Bretanha é povoado por habitantes que se apresentam, segundo uma tradição oral, como indígenas; a parte marítima, por hordas vindas da Bélgica para pilhar e fazer a guerra (quase todas elas conservaram o nome dos Estados de que eram originárias, quando vieram para o país, de armas nas mãos, para ali se fixarem e cultivarem o solo). A ilha é imensamente povoada. Nela as casas são abundantes, quase semelhantes às dos gauleses; o gado é ali muito numeroso. Como dinheiro, servem-se do cobre, de moedas de ouro (as moedas mais antigas encontradas na Grã-Bretanha são, efectivamente, moedas de ouro) ou de lingotes de ferro de um determinado peso. As regiões do centro produzem estanho (erro: as minas de estanho encontravam-se na Cornualha e nas ilhas que prolongam essa península; essas ilhas eram chamadas na Antiguidade, Cassitérides = “ilhas do estanho”); as regiões costeiras, ferro, mas em pequena quantidade (erro: a Grã-Bretanha é rica em ferro; porém, os Britanni apenas exploravam as minas superficiais); o cobre que empregam vem-lhes de fora (é verdade que os Britones não exploravam o cobre da sua ilha). Existem árvores de toda a espécie, como na Gália, com excepção da faia e do pinheiro. Consideram a lebre, a galinha e o pato como alimento proibido, no entanto criam-nos por gosto e como forma de divertimento. O clima é mais temperado que o da Gália e os frios são ali menos rigorosos.

XIII – A ilha tem a forma de um triângulo, em que um lado fica de frente para a Gália (a costa sul). Dos dois vértices angulares deste lado, um deles, na direcção de Cantium (Câncio; actual Kent), onde aportam quase todos os barcos vindos da Gália, volta-se para oriente; o outro vértice, mais baixo, está ao sul; este lado tem uma extensão de cerca de 500.000 passos. O segundo lado está voltado (erro, devido à má orientação das cartas antigas) para Hispania e o poente; nestas paragens encontra-se a Hibernia (a Irlanda), que passa por ser metade da Bretanha; ela está à mesma distância da Bretanha que esta está da Gália; a meio caminho fica a ilha que se chama Mona (a ilha de Man); acredita-se que há na vizinhança várias outras ilhas mais pequenas, a propósito das quais certos autores escrevem que a noite dura ali trinta dias seguidos na época do solstício de Inverno; as nossas investigações nada nos ensinaram sobre este ponto; o que constatámos, pelas nossas clepsidras, é que as noites eram ali mais curtas que no continente (as noites mais curtas, em Roma, eram de nove horas; na Grã-Bretanha, sete horas e meia); o comprimento deste lado, se dermos crédito aos autores, é de setecentas milhas (700.000 passos). O terceiro lado fica de frente para o norte (mesmo erro de orientação) e não está voltado para terra alguma, a não ser, na sua extremidade, para a Germânia; o comprimento desta costa é avaliado em 800.000 passos.Assim, a ilha, no seu conjunto, tem cerca de vinte vezes cem mil passos de perímetro.

XIV – De todos os bretões os mais civilizados são, de longe, os que habitam o Câncio, região inteiramente marítima e em que os costumes não diferem muito dos gauleses. A maior parte dos que ocupam o interior não semeiam trigo: vivem de leite e de carne e vestem-se com peles. Todos os bretões se pintam com pastel, o que lhes dá uma cor azulada e aumenta, nos combates, o horror do seu aspecto. Usam o cabelo comprido e barbeiam todas as zonas do corpo, com excepção da cabeça e do lábio superior. Juntam-se aos dez ou aos doze para terem mulheres em comum, particularmente os irmãos com os irmãos e os pais com os filhos; mas os filhos que nascem desta comunidade são considerados como pertencentes àquele que introduziu a mãe, ainda rapariga, na casa.

XV – Os cavaleiros e os carros inimigos travaram um vivo combate com a nossa cavalaria enquanto estávamos em marcha (do acampamento em Canterbury para o local que haviam abandonado aquando da tempestade), mas os nossos em toda a parte tiveram vantagem e repeliram-nos para os bosques e as colinas. Porém, depois de haverem feito grande carnificina, perseguiram-nos com demasiado ardor e perderam alguns dos seus.

Algum tempo depois, quando os nossos de nada desconfiavam e se ocupavam dos trabalhos do campo, de repente, lançaram-se das suas florestas, caíram sobre os que estavam de guarda em frente do campo e com eles travaram um violento combate; duas coortes, as primeiras das duas legiões, foram enviadas em seu socorro; tomaram posição não deixando entre elas senão um intervalo muito pequeno; mas o inimigo, surpreendendo-as, precipitou-se com extrema audácia entre as duas coortes e saiu-se bem, sem perdas. Nesse dia, Quinto Labério Duro, tribuno militar, pereceu. Lança-se na batalha um maior número de coortes e o inimigo é repelido.

XVI – no decorrer deste tipo de combate, travado diante dos olhos de todos, em frente do campo, os nossos soldados, carregados com armas pesadas, não podendo perseguir o inimigo, se ele retirasse, e não ousando afastar-se das suas insígnias, estavam mal preparados para tal adversário; o combate também oferecia grandes perigos aos nossos cavaleiros, porque quase sempre os bretões fingiam fugir e, quando atraíam os nossos para longe das legiões, saltavam dos carros e travavam a pé um combate desigual. Acrescente-se a isto que nunca eles combatiam em massa, mas com tropas isoladas e a grandes distâncias; e que tinham postos de reserva escalonados, permitindo recuar sucessivamente de um para o outro e substituir os homens fatigados por reservas frescas.

XVII – No dia seguinte os inimigos estabeleceram-se longe do campo, nas colinas; só se mostraram em pequenos grupos e atacaram os nossos cavaleiros com menos vigor do que na véspera. Mas pelo meio-dia, havendo César enviado à forragem três legiões e toda a cavalaria às ordens do lugar-tenente Caio Trebónio, eles caíram de súbito, de todos os lados, sobre os nossos forrageiros, a ponto de só pararem junto das nossas insígnias e das nossas legiões. Os nossos, caindo sobre eles com vigor, repeliram-nos e só deixaram de os perseguir quando os nossos cavaleiros, fortes com o socorro das legiões que vinham atrás deles, os carregaram e massacraram em grande número, sem lhes darem tempo a juntarem-se, a pararem ou a apearem-se dos carros.

Esta derrota provocou a partida das tropas auxiliares dos bretões, que haviam acorrido de todos os lados; e nunca mais, a partir de então, o inimigo travou combate com o conjunto das nossas forças.

Caius Trebonius fora questor em 60 e, como tribuno do povo de 55, foi ele o proponente da lei que prorrogou por mais cinco anos o proconsulado de César. Na guerra civil, é enviado a Espanha, contra Afrânio; encarregam-no depois de sitiar por terra Marselha. Pretor em 48, depois governador de uma das Hispânias, foi cônsul em 45. Sendo-lhe atribuída a província da Ásia, entra na conjura dos Idos de Março. Após a morte de César, parte para essa província; ali é morto (em Esmirna) por Dolabela, que viera para o substituir.

XVIII – César, informado do que se passava no campo inimigo, conduziu o seu exército para o Tamisa, no território de Cassivelauno (sul do Tamisa).

Este rio só é vadeável num lugar, e não sem dificuldade. Chegado lá, avistou forças inimigas consideráveis alinhadas na outra margem; a margem estava, aliás, defendida por uma paliçada de estacas afiadas, e havia estacas do mesmo género enterradas no leito do rio e encobertas pela água. Avisado por prisioneiros e trânsfugas, César enviou na frente a cavalaria e fê-la seguir de perto pelas legiões. Os soldados lançaram-se com tanta rapidez e impetuosidade, ainda que só tivessem a cabeça fora de água, que o inimigo não pôde aguentar o choque das legiões e dos cavaleiros, abandonou as margens do rio e pôs-se em fuga.

XIX – Cassivelauno só conservava cerca de 4.000 essedários; mantinha-se um pouco afastado do caminho, escondia-se nos lugares inextricáveis e arborizados e, lá onde sabia que íamos passar, empurrava animais e gente dos campos para as florestas. Quando a nossa cavalaria se afastava um pouco mais no campo para pilhar e devastar, ele lançava os seus essedários para fora dos bosques, por todos os caminhos e todos os carreiros, e travava uma acção com grande perigo para os nossos cavaleiros, que este temor impedia de ir mais longe. Não restava a César outra solução que não fosse a de proibir que se afastassem demasiado da coluna legionária, e a de prejudicar o inimigo devastando os campos e fazendo incêndios.

XX – Entretanto, os Trinobantes (habitavam os actuais condados de Suffolk e do Essex), que eram talvez o Estado mais poderoso destas regiões, enviam deputados a César. Eram os compatriotas do jovem Mandubrácio, que se afeiçoara a César e viera procurá-lo no continente; seu pai exercera a realeza neste Estado e fora morto por Cassivelauno; ele próprio só evitara a morte pela fuga. Os trinobantes prometem a César submeter-se e obedecer às suas ordens. César exige-lhes quarenta reféns e trigo para o exército; e envia-lhes Mandubrácio, para que se torne seu chefe e soberano.

XXI – Os cenimagnos (Cenimagni; condados de Norfolk e de Cambridge), os segoncíacos(Segontiaci; Hampshire e Berkshire) os ancálites (Ancalites; de origem belga; norte do Berkshire e o oeste do Middlesex), os bíbrocos (Bibroci; actuais condados de Surrey e de Sussex, a oeste do condado de Kent, e um pouco do Ampshire e do Berkshire) e os cassos (Cassi; desconhece-se qual o seu território) também enviam embaixadas e submetem-se a César (curiosamente, as iniciais das últimas três tribos “fazem ABC”...).

Por eles soube que a praça-forte de Cassivelauno não está muito afastada, que é defendida por pântanos e bosques e que um grande número de homens e de animais ali se encontra reunido.

Os bretões chamam praça-forte a uma floresta pouco praticável, defendida por um entrincheiramento e um fosso, que lhes serve de refúgio habitual contra as incursões dos inimigos.

Para lá conduz as suas legiões, encontrando uma posição notavelmente defendida pela natureza e pela arte; contudo, ataca-a por dois lados. Os inimigos opuseram primeiro alguma resistência; depois, não suportaram a impetuosidade dos nossos soldados e fugiram por outro lado da praça. Encontrou-se grande quantidade de gado e muitos fugitivos foram presos ou mortos.

XXII – Enquanto isso, Cassivelauno envia ao Câncio – que é governado por quatro reis: Cingetorix,CarviliusTaximagulusSegovax (ou Segonax) – mensageiros com ordem para que reúnam todas as suas tropas e assaltem, por surpresa, o campo dos navios.

Ao lá chegarem, os nossos fizeram uma surtida e mataram um grande número, prendendo mesmo um dos chefes, Lugotorix.

À notícia deste combate Cassivelauno, desencorajado por tantas perdas, vendo a devastação do seu país e, sobretudo, acabrunhado pela defecção dos Estados, envia deputados a César, por intermédio do atrébate Cómio, para negociar a sua rendição.

César, decidido a passar o Inverno no continente, por causa dos súbitos movimentos que podiam produzir-se na Gália; vendo que o Verão se aproximava do seu termo e o inimigo facilmente podia arrastar a questão por muito tempo, exige reféns e fixa o tributo que a Bretanha havia de pagar todos os anos ao povo romano; proíbe formalmente a Cassivelauno que faça guerra a Mandubrácio e aos trinobantes.

XXIII – Depois de ter recebido os reféns, conduz o seu exército para a costa e encontra os navios reparados. Mandou lançá-los à água e, como trazia grande número de prisioneiros e como muitos navios se haviam perdido na tempestade, decide levar o seu exército em duas travessias (finais de Agosto e meados de Setembro). E quis a sorte que de tantos navios e em tantas travessias, nem neste ano, nem no anterior, nenhum dos navios que transportavam soldados se perdesse; mas daqueles que lhe foram enviados vazios do continente, depois de terem desembarcado os soldados da primeira travessia, ou dos sessenta navios que Labieno mandara construir após a partida da expedição, muito poucos chegaram ao destino, quase todos dando à costa. Depois de os ter esperado em vão durante muito tempo, temendo ver-se impedido de navegar na sazão, porque se aproximava o equinócio, foi obrigado a amontoar os seus soldados, muito apertados, e tirando partido de uma calmaria que se seguiu, levantou âncora pelo começo da segunda vigília e alcançou terra pelo nascer do dia, sem ter perdido um só navio.

XXIV – César mandou pôr os navios em seco; e dirigiu a assembleia dos gauleses em Samarobriva (= “ponte sobre o Samaro”); como a colheita desse ano fora pouco abundante por causa da seca, foi obrigado a organizar a invernagem do seu exército de modo diferente dos anos anteriores e distribuir as suas legiões por um maior número de Estados: enviou uma para os mórinos, às ordens do lugar-tenente Caio Fábio (nomeado legado em 56); outra para os nérvios, com Quinto Cícero; uma terceira para os Esuvii, com Lúcio Róscio; uma quarta recebeu ordem de invernar nos Remi, na fronteira dos tréveros, com Tito Labieno; colocou três entre os belóvacos, sob o comando do questor Marco Crasso e dos lugar-tenentes Lúcio Munácio Planco e Caio Trebónio. Enviou uma legião (a que recrutara mais recentemente, em 57, para além do Pó) e cinco coortes aos Eburones, de que a maior parte vive entre o Mosa e o Reno e que eram governados por Ambiórige e Catuvolco; estes soldados foram colocados às ordens dos lugar-tenentes Quinto Titúrio Sabino e Lúcio Aurunculeio Cota.

Ao distribuir assim as legiões, César acreditou poder remediar muito facilmente a escassez de trigo. E, por outro lado, os quartéis de Inverno de todas estas legiões, salvo a que Lúcio Róscio fora encarregado de conduzir para uma região muito pacífica e muito tranquila, estavam contidas num espaço de cem mil passos. César resolveu ficar na Gália até saber que as legiões estavam bem instaladas e os seus quartéis de Inverno fortificados.

Quinto Túlio Cícero, irmão mais novo do orador, nascido em 102; casou com Pompónia, irmã de Ático. Foi edil em 66; pretor em 62; governador da Ásia em 61, ficando nesta província até 58. Tornou-se lugar-tenente de César em 54. Em 51 deixa a Gália, juntando-se a seu irmão, procônsul da Cilícia. Na guerra civil, declara-se primeiro por Pompeu, mas, após Farsália, adere a César. Após a morte deste, pronuncia-se violentamente contra António; é proscrito e morto em 43.

Lúcio Róscio, pretor em 49 e deputado de Pompeu junto de César, em Ariminum, com propostas de paz; é morto em Modena em 43.

Tito Átio Labieno, o melhor lugar-tenente de César na Gália. Tribuno do povo em 63 e acusador de Rabírio. Na guerra civil, se bem que cumulado de favores por César e enriquecido pela guerra das Gálias, toma o partido de Pompeu; depois de Farsália passa à África; a seguir, a Espanha, onde morre em Munda, em 45.

Marco Crasso era o filho mais velho de Crasso. Sucede a seu irmão junto de César em 56. Permanecerá fiel a este durante a guerra civil; em 49 será governador da Gália Cisalpina.

Lúcio Munácio Planco, oriundo de uma ilustre família plebeia, foi um dos mais fiéis partidários de César. Seu lugar-tenente em Espanha, em 49; depois, em África. Em 44 governa a Transalpina, menos a Narbonesa e a Bélgica; funda ali a colónia de Lugdunum, em 43. Cônsul em 42, toma parte na guerra de Perúsia; torna-se depois governador da Síria. Segue primeiro S. Pompeu no Egipto, passando-se depois para António, a quem propõe, em 37, a outorga do título de Augusto. Censor em 22. Foi vizinho de campo e amigo de Horácio, que lhe dedicou uma das suas odes.

XXV – Havia entre os Carnutes um homem de elevado nascimento, Tasgécio, cujos antepassados tinham exercido a realeza no seu Estado. César restituíra-lhe a posição dos seus avós. Reinava havia três anos quando os seus inimigos o assassinaram em segredo, encorajados, aliás, abertamente, por um grande número dos seus concidadãos.

Temendo, dado o número de culpados, que a sua influência conduzisse à defecção do seu Estado, César ordena a Lúcio Planco que parta rapidamente da Bélgica com a sua legião para ir invernar entre os carnutos, e que prenda e lhe envie aqueles que soubesse haverem participado no assassínio de Tasgécio.

Entretanto todos aqueles a quem confiara as legiões lhe deram a saber que haviam chegado aos quartéis de Inverno e fortificado os campos.

XXVI – Havia cerca de quinze dias que tinham chegado aos quartéis de Inverno, quando começou uma revolta súbita e uma defecção provocadas por Ambiórige e Catuvolco; estes tinham vindo às fronteiras do seu país para se porem à disposição de Sabino e de Cota e enviaram-lhes trigo para os seus quartéis de Inverno; porém, solicitados a isso por enviados de Induciómaro, sublevaram os seus súbditos.

Caíram de repente sobre os nossos abastecedores de madeira e vieram em grande número atacar o acampamento. Os nossos empunharam rapidamente as armas e subiram ao entrincheiramento, enquanto os cavaleiros espanhóis, saindo por uma porta, travavam com êxito um combate de cavalaria. Os inimigos retiraram; depois, soltando grandes gritos, segundo o seu costume, pediram que alguém dos nossos avançasse para conversações.

XXVII – São-lhes enviados Caio Arpineio, cavaleiro romano e amigo de Sabino, e um certo Quinto Júnio, espanhol, que cumprira já várias missões de César junto de Ambiórige. Este disse-lhes que «reconhecia que devia muito a César pelos seus favores; graças a ele fora libertado do tributo que habitualmente pagava aos aduátucos, seus vizinhos; e fora César quem lhes restituíra seu filho e o filho de seu irmão, que, enviados como reféns aos aduátucos, haviam sido mantidos em servidão e em cadeias. Quanto ao ataque ao campo, não agira por sua própria opinião ou sua própria vontade, mas sob o domínio do seu Estado...que só pegara em armas pela impossibilidade de resistir à conjura comum a toda a Gália. Todos os quartéis de Inverno de César deviam ser atacados no mesmo dia, para que uma legião não pudesse socorrer outra. Não era fácil a gauleses dizer que não a outros gauleses, principalmente quando se tratava de recuperar a liberdade comum...suplicava a Titúrio, em nome da hospitalidade, que providenciasse à sua salvação e à dos seus soldados. Uma grande força de germanos mercenários atravessara o Reno e estaria ali dentro de dois dias. Cabia-lhes decidir se queriam, antes que os povos vizinhos de tal se apercebessem, fazer sair os seus soldados dos seus quartéis de Inverno e conduzi-los ou para junto de Cícero ou de Labieno (os acampamentos romanos mais próximos). Pelo que lhe tocava, prometia, e à fé de juramento, dar-lhes livre passagem pelo seu território. Fazendo isto, servia o seu país, que a partida das tropas aliviaria, e reconheceria as mercês de César.» Tendo feito este discurso, Ambiorix retirou-se.

XXVIII – Aos lugar-tenentes o que mais os impressionava é que não era de acreditar que um Estado obscuro e fraco, tal como o dos Eburones, houvesse ousado por si mesmo fazer guerra ao povo romano. Levam, portanto, o caso perante o conselho e trava-se uma viva discussão.

Lúcio Aurunculeio, e com ele vários tribunos e centuriões da primeira coorte, eram de opinião «que não se devia fazer nada às cegas nem abandonar os quartéis de Inverno sem ordem de César.» O trigo não faltava e, antes de se chegar a isso, vir-lhes-ia socorro dos quartéis de Inverno mais próximos ou de César; enfim, que havia de mais leviano e de mais vergonhoso que ser determinado, em circunstâncias tão graves, pela opinião do inimigo?»

XXIX – Mas Titúrio exclamava «que seria demasiado tarde para agir, quando os reforços dos Germanos tivessem chegado ou quando acontecesse alguma infelicidade nos quartéis vizinhos. César sem dúvida partira para Itália. Ele considerava o aviso em si mesmo e não o inimigo que o dava...enfim, quem poderia acreditar que Ambiorix viesse dar tal aviso sem dele estar certo? Chegar-se-ia sem risco à legião mais próxima. Se a Gália inteira estava de acordo com os germanos, não havia salvação senão na rapidez. A que conduziria a opinião de Cota e daqueles que pensavam como ele? Senão a um perigo imediato, pelo menos a um longo cerco com a ameaça da fome.»

XXX – Como Cota e os centuriões da primeira coorte resistissem energicamente: «Está bem. Seja – disse Sabino – pois que assim o querem!» e elevando a voz para ser ouvido pelos soldados: «Eu não sou de vós, quem mais teme a morte; aqueles ali ajuizarão sensatamente e, se acontecer alguma desgraça, pedir-te-ão contas; enquanto que, se quisesses, reunidos em dois dias aos quartéis vizinhos, eles sustentariam em comum com os outros as sortes da guerra, em vez de ficarmos abandonados, desterrados longe dos outros, para perecer pelo ferro ou pela fome.»

XXXI – Há quem se levante para abandonar o conselho; há quem se aperte em volta dos dois lugar-tenentes; suplicam-lhes para que não tornem a situação ainda mais perigosa com a sua divisão e a sua teimosia. A discussão prolonga-se até meio da noite. Por fim, Cota, muito comovido, rende-se. Anuncia-se que se partirá ao romper do dia. O resto da noite passa-se em vigília, procurando cada soldado naquilo que lhe pertence o que pode levar e o que é obrigado a deixar do seu equipamento de Inverno. Fez-se tudo que é possível imaginar para que não se partisse de manhã sem perigo e para que o risco ainda fosse aumentado com a fadiga dos soldados e pela sua insónia.

Abandonou-se o campo (próximo de Aduaca ou Aduatuca, praça-forte dos eburões; não confundir com o oppidum dos aduátucos; estaria situada sobre a colina de Berg, um pouco a noroeste da actual cidade de Tongeren, no Limburgo belga) ao romper do dia com tanta segurança como se o aviso de Ambiorix houvesse sido dado, não por um inimigo, mas pelo melhor amigo. O exército formava uma muito longa coluna, com numerosas bagagens.

XXXII – Os inimigos armaram uma dupla emboscada nos bosques, num lugar favorável e encoberto, a cerca de dois mil passos, e ali esperaram a chegada dos romanos; quando a maior parte da coluna se enfiou por um grande vale muito profundo (o de Geer), apareceram de súbito dos dois lados deste vale; caíram sobre a nossa retaguarda, impediram a nossa vanguarda de subir e encurralaram-nos num combate numa posição muito desfavorável.

XXXIII – Deram ordens de abandonar as bagagens e formar em círculo...o que teve um efeito perverso, pois que em toda a parte os soldados abandonaram as insígnias, para correrem às bagagens e delas tirarem o que possuíam de mais precioso.

XXXIV – Os bárbaros, ao contrário, não falharam no bom senso: os seus chefes mandaram anunciar por toda a linha de batalha que ninguém deveria abandonar a sua fileira; que tudo o que os romanos deixassem seria do seu saque e que este lhes era reservado.

Os nossos colocavam toda a esperança de salvação na sua coragem, e sempre que uma coorte se lançava no ataque, grande número de inimigos tombava desse lado. Ambiórige, havendo-se apercebido disso, ordenou aos seus que lançassem as suas frechas de longe, sem se aproximarem, e que cedessem no ponto onde os romanos carregassem; a leveza das suas armas e o seu treino diário preservá-los-iam do perigo; só se perseguiria o inimigo quando ele retirasse para as suas insígnias.

XXXV – Esta ordem foi escrupulosamente observada; sempre que alguma coorte saía do círculo e fazia uma carga, os inimigos fugiam a toda a velocidade; entretanto, o lado vazio ficava forçosamente a descoberto e o flanco desguarnecido recebia frechas. Depois, quando a coorte tratava de regressar ao seu ponto de partida, era envolvida pelos inimigos que haviam cedido terreno e por aqueles que se tinham mantido nos seus flancos. Se, pelo contrário, as coortes mantinham as suas posições, o seu valor tornava-se inútil e os soldados, apertados uns contra os outros, não podiam evitar as frechas lançadas por tão grande multidão.

Todavia, apesar de todas estas desvantagens, os nossos soldados, cobertos de ferimentos, resistiam ainda: grande parte do dia (estava-se na sua oitava hora) se passara e o combate durava já desde o nascer do dia; é então que Lúcio Cota é atingido por uma esfera de funda em pleno rosto.

XXXVI – Sabino envia a Ambiorix o seu intérprete, Gneu Pompeu, para lhe rogar que o poupasse, a ele e aos seus soldados. O gaulês responde «que se Titúrio queria conferenciar com ele, que podia; que esperava obter dos seus que fosse deixada a vida aos soldados; que nenhum mal lhe seria feito e que disso lhe dava a sua palavra. Titúrio informa disto Cota e propõe-lhe que ambos vão conferenciar com Ambiórige. Cota declara-lhe que não irá junto de um inimigo em armas e persiste nesta recusa.

XXXVII – Sabino ordena aos tribunos militares que tinha junto de si e aos centuriões da primeira coorte que o sigam; tendo avançado até perto de Ambiorix, recebe ordem para baixar as armas; obedece e ordena aos seus que façam o mesmo Enquanto discutem as condições, o gaulês arrasta propositadamente a conversa; Sabino, pouco a pouco envolvido, é morto. Então, seguindo o seu hábito, gritam vitória, soltam urros, lançam-se contra os nossos e estabelecem a desordem nas nossas fileiras. Lúcio Cota encontra a morte combatendo, com a maior parte dos seus soldados; os que restam retiram para o campo de onde haviam partido. Até à noite, aguentam penosamente o assalto; pela noite, desesperando já da salvação, eles próprios se matam até ao último. Um pequeno número, os que escaparam do combate, por caminhos incertos através dos bosques, alcançam os quartéis de Inverno de Labieno e informam-no do que se passou.

XXXVIII – De imediato Ambiórige parte para o país dos aduátucos; marcha de dia e de noite, sem parar, fazendo-se seguir de perto pela infantaria. Anuncia a vitória e subleva os Aduatuci. Chega no dia seguinte ao país dos nérvios: «Que não seria difícil cair subitamente sobre a legião que inverna com Cícero (em Binche, a oeste de Charleroi, na actual Bélgica) e massacrá-la»; promete-lhes a sua ajuda. Os nérvios aderem.

XXXVIX – Imediatamente enviam mensagens aos ceutrones (pequeno belga povo cliente dos nérvios que habitava perto do Mosa, nos confins dos grúdios e dos menápios), grúdios (Grudii; Flandres oriental, nos arredores de Oudenaarde), levacos (Levaci; margens do Liève, perto de Gand), pleumóxios (Pleumoxii ou Pleumosii), geidumnos (Geidumni; margem direita do Mosa, entre os aduátucos e os pleumóxios), todos sob a sua dependência; reúnem o maior número de tropas que podem e lançam-se de surpresa sobre o campo de Cícero, antes que lhe chegue a notícia da morte de Titúrio.

Aconteceu também o que era inevitável, que vários soldados, que se haviam espalhado pelas florestas, para ali procurar madeira e faxinas, fossem surpreendidos pela súbita chegada dos cavaleiros. Envolvem-nos e, em massa, eburões, nérvios, aduátucos, bem como seus aliados e auxiliares de todos estes povos, começam o ataque à legião. Os nossos logo correm às armas, sobem ao entrincheiramento. Foi um rude dia.

XL – Cícero envia imediatamente uma carta a César e promete grandes recompensas aos correios se a fizerem chegar; mas todos os caminhos estão guardados e os mensageiros são detidos. Durante a noite, com a madeira que trouxeram para fortificar o campo, erguem cento e vinte torres; termina-se o que parecia faltar às obras de defesa.

No dia seguinte, com forças muito mais numerosas, os inimigos assaltam o campo e enchem o fosso. Do nosso lado, opõe-se a mesma resistência que na véspera; o mesmo sucede nos dias que se seguem.

Trabalha-se à noite sem descanso; prepara-se de noite o que é preciso para a defesa no dia seguinte; endurece-se ao fogo e afia-se grande número de estacas, fabrica-se grande quantidade de dardos próprios para serem lançados do alto das fortificações; guarnecem-se as torres de plataformas; mune-se a muralha de seteiras e de caniçados. O próprio Cícero, não obstante a sua saúde muito delicada, não concedia a si próprio nem sequer o repouso da noite.

XLI – Então os chefes dos nérvios e os principais deste Estado, que dispunham de algum acesso junto de Cícero, mandam-lhe dizer que desejam uma entrevista. Fazem-lhe as mesmas declarações que Ambiórige fizera a Titúrio; aludem mesmo à morte deste. «Seria – dizem eles – uma ilusão contar com o socorro de legiões que desesperam da própria salvação. De resto, longe de ter qualquer intenção malévola em relação a Cícero e ao povo romano, não lhes pediam senão que abandonassem os seus quartéis de Inverno e que não viessem a implantar tal hábito; podiam sair do campo com toda a segurança e partir sem receio na direcção que quisessem.» Cícero respondeu apenas com estas palavras: «não era uso do povo romano aceitar qualquer condição de um inimigo armado; se queriam depor as armas, poderiam, com a sua ajuda, enviar deputados a César; esperava que obtivessem da sua justiça o que pediam.»

XLII – Então os nérvios cercam os quartéis de Inverno com uma muralha de dez pés de altura e um fosso de quinze pés de largo. Haviam aprendido estes trabalhos em contacto com as nossas tropas nos anos anteriores, e aproveitavam as lições que lhes davam alguns prisioneiros do nosso exército. Tal era o seu número que em menos de três horas acabaram de erguer uma linha de entrincheiramento com quinze mil passos de perímetro Nos dias seguintes, empreenderam levantar torres à altura da muralha e outros trabalhos, segundo as lições dos mesmos prisioneiros.

XLIII – No sétimo dia do assédio, tendo-se levantado grande vento, puseram-se a lançar para as casas, que segundo o uso gaulês estavam cobertas por colmo, esferas de funda ardentes, feitas de uma argila fusível, e dardos inflamados. As casas depressa começaram a arder e a violência dos ventos dispersou este fogo por todos os pontos do acampamento. Os inimigos, soltando um imenso clamor, puseram-se a empurrar as torres e os testudos e a escalar a muralha. Mas os nossos soldados, apesar de embaraçados por toda a parte pelas chamas e de serem acossados por uma saraivada formidável de frechas, não obstante saberem que todas as suas bagagens e os seus bens ardiam, não abandonaram a muralha, combatendo com o maior entusiasmo e a maior bravura.

Foi de longe o dia mais duro para os nossos; mas teve também este resultado: que um número muito grande de inimigos ali foi ferido ou morto, porque, amontoados mesmo na base da muralha, os últimos que vinham incomodavam os primeiros na retirada.

XLIV – (legenda chocarreiro-épica dos centuriões Tito Pulo e Lúcio Voreno (ou Vorano?); momento “literário” de César que faz lembrar um conto do argentino Borges.)

XLV – De dia para dia o cerco se fazia mais penoso e mais rude, tanto mais que, estando esgotada grande parte dos soldados pelos ferimentos, se viam reduzidos a bem poucos defensores. E de dia para dia Cícero despachava para César mais cartas e mais correios, porém, na sua maior parte, eram presos e, diante dos olhos dos nossos soldados, entregues à morte entre mil suplícios. Havia no campo um nérvio, de nome Vértico (tal como os nomes dos dois centuriões do item XLIV, este nome também parece “alegórico”), homem de bom nascimento que, desde o começo do cerco, viera como trânsfuga para junto de Cícero e lhe jurara fidelidade. Convence um dos seus escravos, com a esperança da liberdade e de grandes recompensas, a levar uma carta a César.

O homem levou-a atada ao seu dardo; também ele gaulês, passa pelo meio dos inimigos sem despertar suspeita, chega junto de César e dá-lhe a conhecer a situação (finais de Outubro).

XLVI – César de imediato envia um correio ao território dos belóvacos, ao questor Marco Crasso, cujos quartéis de Inverno estavam afastados cerca de 25 milhas. Dá a esta legião ordem para partir a meio da noite e vir ter com ele rapidamente; Crasso sai do seu campo com o correio. Um outro é enviado a Caio Fábio, para lhe dizer que conduza a sua legião ao país dos atrébates, por onde César havia de passar. Escreve a Labieno para vir com a sua legião à fronteira dos nérvios, se o pudesse fazer sem nada comprometer. Reúnem-se, como cavaleiros, cerca de quatrocentos homens retirados dos quartéis vizinhos.

XLVII – Pela terceira hora (do dia), avisado pelos batedores da chegada de Crasso, nesse mesmo dia avança vinte mil passos. Entrega a Crasso o comando de Samarobriva e confia-lhe a sua legião, porque ali deixava as bagagens do exército, os reféns entregues pelos Estados, os registos e todo o trigo que mandara transportar para passar o Inverno. Fábio, de acordo com a ordem que recebera, reúne-se a ele no caminho com a sua legião, sem grande atraso. Labieno, que tinha conhecimento da morte de Sabino e do massacre das coortes, estava então exposto a todas as forças dos tréveros; respondeu, portanto, a César com uma carta em que lhe dizia do perigo que corria se fizesse sair a sua legião do campo; conta-lhe em pormenor o que se passara com os eburões; dá-lhe a saber que todas as forças de cavalaria e de infantaria dos tréveros se estabeleceram a três mil passos do seu acampamento.

XLVIII – César aprovou estas decisões e, ainda que reduzido das três legiões que esperara a duas, não deixou por isso de colocar toda a esperança de salvação numa acção rápida. Chega, em grandes etapas (pela estrada principal de Amiens a Charleroi) ao país dos nérvios. Convence então um cavaleiro gaulês a levar uma carta a Cícero; estava escrita em caracteres gregos, para que o inimigo, se a interceptasse, não conhecesse dos seus projectos; no caso de não poder chegar até Cícero, o cavaleiro tem ordem de atar a carta à correia da sua trágula e de a arremessar para dentro da fortificação, o que o gaulês fez. O dardo cravou-se por acaso numa torre, onde ficou dois dias sem ser notado; pelo terceiro dia um soldado viu-o, arranca-o e leva-o a Cícero, que lê a carta e lhe dá leitura perante as tropas. Avistam-se então ao longe fumos de incêndio, e já ninguém duvida da chegada das legiões.

XLIX – Os gauleses, postos ao corrente pelos seus batedores, levantam o cerco e marcham ao encontro de César com todas as suas tropas: cerca de sessenta mil homens em armas. Cícero, graças a Vértico, encontra um gaulês para levar uma carta a César, em que lhe anuncia que o inimigo o deixou e dirige-se com todas as suas forças contra ele. César recebeu-a a meio da noite; participa-a aos seus soldados e exorta-os ao combate.

No dia seguinte, ao romper do dia, levanta o acampamento e, após haver avançado cerca de quatro mil passos, avista a multidão dos inimigos para lá de um vale atravessado por um curso de água (em Binche, o pequeno vale de Estine).

Era expor-se a grande perigo dar batalha em posição tão desfavorável a forças tão numerosas. Parou então e escolheu, para levantar o seu campo, a melhor posição possível. O campo era de pequena extensão, dado ser apenas para 7.000 homens, para mais sem bagagens; enviam-se batedores em todas as direcções a fim de reconhecer o caminho mais cómodo para transpor o vale.

L -Neste dia houve algumas escaramuças de cavalaria à beira da água, mas cada uma das partes ficou nas suas posições.

Pelo nascer do dia (seguinte), a cavalaria dos inimigos aproxima-se do campo e trava combate com os nossos cavaleiros; César ordena aos seus que recuem e voltem ao campo, ao mesmo tempo ordena que aumentem em toda a parte a altura da muralha, que fechem as portas e actuem em tudo com extrema precipitação, simulando medo.

LI – Atraídos por todas estas simulações, os inimigos atravessam e alinham em batalha numa posição desfavorável. Vendo que os nossos haviam até evacuado a muralha, chegam mais de perto, lançam de todos os lados dardos para o interior das fortificações e mandam anunciar a toda a volta do campo, por arautos, que todo o gaulês ou romano que queira passar para o seu lado antes da terceira hora o poderá fazer sem perigo; que depois desse prazo já não o poderão fazer. Enfim, sentiram por nós tal desprezo que, julgando impossível forçar os nossos portões, uns trabalharam com as mãos a fazer uma brecha na paliçada, outros, a encher os fossos.

Então, fazendo uma surtida por todas as portas, César lançou sobre eles a cavalaria, que bem depressa os pôs em fuga.

LII – César, receando persegui-los demasiado longe, por causa dos bosques e dos pântanos, e vendo por outro lado que já não era possível fazerem-lhe o menor mal, nesse mesmo dia foi ao encontro de Cícero. Constata, ao passar em revista a legião, que nem um décimo dos soldados está sem ferimentos. Dá a Cícero e à legião os vivos elogios que merecem; felicita individualmente os centuriões e os tribunos militares.

LIII – A notícia do desaire chegou aos tréveros e Induciómaro foge durante a noite, conduzindo de volta ao seu território todas as suas forças.

César reenvia Fábio para os seus quartéis de Inverno; ele próprio, com três legiões (a sua, a de Crasso e a de Cícero, que retira do território dos nérvios), invernou em três campos ao redor de Samarobriva. Ficou todo o Inverno junto do exército. Quase não houve dia, nesse Inverno, em que César não recebesse com inquietação alguma mensagem sobre os projectos e as movimentações dos gauleses.

LIV – Mas César chamou a si os principais de cada Estado e, assustando uns, porque se mostrava sabedor das suas manobras, exortando outros, manteve no dever grande parte da Gália.

Entretanto os Senones, um dos primeiros Estados gauleses pela força e grande crédito (sul da Champagne e norte da Borgonha; a capital era Agedincum, a actual Sens; praças-fortes principais: Metiosedum, hoje Melun; e Vellaunodunum, entre Montargis e Château-Landon), resolvem em assembleia pública matar Cavarino, que César lhes dera como rei (era seu irmão Moritasgo quem reinava à chegada de César à Gália).

Cavarino pressentira-lhes os desígnios e fugira, sendo perseguido até à fronteira. Depois de o haverem expulso do trono, enviaram embaixadores a César para se justificarem; tendo este ordenado que todo o senado dos sénones comparecesse perante si, não obedeceram.

Os bárbaros haviam ficado tão impressionados por aparecerem alguns audaciosos a declarar-nos guerra, e mudaram-se de tal modo as disposições de todos os povos, que, com excepção dos éduos e dos remos, quase não houve cidade na Gália que não nos fosse suspeita.

E eu não sei se alguém se deva surpreender, sem falar de muitos outros motivos, que haja parecido muito penoso a uma nação, considerada outrora como a primeira entre todas pela sua virtude guerreira, ver-se decaída na sua fama ao ponto de estar submetida ao jugo imperial dos romanos.

LV – Quanto aos tréveros e a Induciómaro, não pararam durante todo o Inverno de enviar deputados para além do Reno, de ali solicitar os Estados, de prometer subsídios, dizendo-lhes que grande parte do nosso exército estava destruída e que o que dele restava era bem menos de metade. No entanto nenhum Estado germano se deixou convencer a atravessar o Reno.

Perdida esta esperança, Induciómaro nem por isso deixou de reunir tropas, de as treinar, de se fornecer de cavalos entre os vizinhos, de atrair a si, por grandes recompensas, os exilados e os condenados de toda a Gália. E de todos os lados a ele acorriam deputações, que solicitavam, a título público ou privado, o seu favor e a sua amizade.

LVI – Quando viu que a ele acorriam com tanto empenho; e que, de um lado, os sénones e os carnutos a isso eram empurrados pela recordação do seu crime; que, do outro, os nérvios e os aduátucos se preparavam para a guerra com os romanos; que não lhe faltariam tropas de voluntários uma vez que se pusesse a avançar para fora do seu país; vendo pois tudo isto, convoca a assembleia armada.

Era, segundo o uso dos gauleses, o começo da guerra: uma lei comum obriga todos aqueles que têm idade de homem a ali comparecerem armados; o que for o último a chegar é morto, diante dos olhos da multidão, em cruéis suplícios. Nesta assembleia Induciómaro declara inimigo público Cingetorix, seu genro, chefe da outra facção, que se afeiçoara a César e lhe continuava fiel; os seus bens são confiscados.Feito isto, anuncia na assembleia que, chamado pelos sénones, pelos carnutos e por muitos outros Estados da Gália (céltica), para lá se dirigirá passando pelo país dos remos, aos quais devastaria as terras; mas que antes de assim proceder atacaria o campo de Labieno. Dá para isso as instruções necessárias.

LVII – Labieno, que se mantinha num campo igualmente bem fortificado pela natureza e pela mão dos homens, nada temia por si nem pela sua legião; só pensava em não perder a oportunidade de uma acção feliz.

Posto ao corrente do que se passara por Cingetórige, envia mensageiros aos Estados vizinhos e em toda a parte chama cavaleiros.

Entretanto, quase todos os dias, Induciómaro, com toda a sua cavalaria, rondava pelas imediações do campo, quer para reconhecer a situação quer para nos assustar; quase sempre todos eles lançavam dardos para o interior do entrincheiramento.

LVIII – Enquanto Induciómaro de dia para dia se aproximava com mais desprezo do nosso campo, Labieno fez nele entrar, numa única noite, os cavaleiros que mandara chamar de todos os Estados vizinhos e soube tão bem, com vigilante guarda, reter todos os seus no campo, que de maneira alguma a coisa pôde ser espalhada ou chegar ao conhecimento dos tréveros.

Entretanto, como era seu hábito, Induciómaro aproxima-se do campo e ali passa a maior parte do dia; os seus cavaleiros arremessam dardos e, por violentas invectivas, provocam os nossos ao combate; sem haverem recebido nenhuma resposta, quando se fartaram, pela tarde, dispersos e em desordem, vão-se embora.

Então, de súbito, Labieno lança por duas portas toda a sua cavalaria; envia as suas coortes para apoiar os cavaleiros; promete grandes recompensas àqueles que matarem Induciómaro; este é apanhado no vau do curso de água e morto; a sua cabeça é trazida para o campo; os cavaleiros perseguem e massacram o mais que podem.

À notícia deste sucesso, todas as forças dos eburões e dos nérvios, que se haviam concentrado, retiraram.

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