Capítulo XV - Aníbal Barca desafia Roma

A SEGUNDA GUERRA PÚNICA

O COMEÇO DA GUERRA.

 

Aníbal regressa a Carthago Nova. Com a presa de guerra tomada em Sagunto recompensa generosamente os soldados. As tropas ibéricas são licenciadas para o Inverno, comprometendo-se a regressar na Primavera.

O seu irmão Asdrúbal assume o comando na Iberia, onde irão permanecer consideráveis forças navais e terrestres formadas em boa parte por líbios. Grandes contingentes de soldados ibéricos são enviados a África.

Necessitando de informações sobre a situação na Itália do norte e para o itinerário, envia “esclarecedores” e agentes à Transalpina e à Cisalpina e recebe embaixadas vindas dessas regiões. As informações que lhe chegam são favoráveis: os gauleses da Itália do norte prometem-lhe o seu apoio; a passagem dos Alpes, se bem que difícil, é praticável.

 

Após a queda de Sagunto o senado enviara a Cartago uma embaixada chefiada por Quinto Fábio Máximo, reclamando a entrega de Aníbal e dos senadores púnicos que o haviam seguido à Iberia. Em caso de recusa, os embaixadores deviam declarar a guerra a Cartago.

Os romanos apresentam o seu ultimato ao senado púnico e um senador respondeu-lhes, expondo o ponto de vista de Cartago. Os romanos não perderam tempo a contestá-lo. Diz Lívio (XXI, 18) que Fábio, enfiando uma mão na toga, como se tivesse algo sob ela, exclamou: «Trago-vos aqui a guerra e a paz. Escolhei!» A resposta foi: «Escolhe tu próprio!» Então Fábio, descobrindo a mão, proclamou: «Dou-vos a guerra!»

 

A guerra foi declarada pelos romanos no início da Primavera. O plano preparado pelo senado previa dois golpes simultâneos: em África e em Hispania. Um dos cônsules de 218, Públio Cornélio Cipião dirigir-se-ia à Iberia; o outro, Tibério Semprónio, desembarcaria em África, com a Sicília a servir-lhe como base de apoio.

O plano romano desconhecia as intenções de Aníbal. O cartaginês propunha-se a invasão da Itália através dos Alpes.

A Aníbal só interessava uma guerra ofensiva que destruísse as fontes do poderio romano, somente essa estratégia lhe dava possibilidades de êxito, e essas fontes estavam na Itália. Como Roma tinha agora o domínio absoluto do mar o único caminho disponível era o que passava pelos Alpes.

A EXPEDIÇÃO DE ANÍBAL A ITÁLIA.

 

Em finais de Abril ou nos começos de Maio de 218 parte de Nova Cartago, com 90.000 infantes, 12.000 ginetes e algumas dezenas de elefantes.

Após cruzar o Ebro submete as tribos que então viviam no que hoje é a Catalunha, sofrendo grossas perdas. Para manter o território conquistado deixa ali 10.000 homens. Licencia quase outros tantos, as tropas mais indisciplinadas, que se mostraram descontentes ao anúncio da iminente expedição à Itália.

Com 50.000 infantes, 9.000 ginetes e os elefantes, atravessa os Pirinéus e marcha ao longo da costa da Gália, em direcção ao Ródano (Rhodanus).

 

Roma é informada pelos embaixadores de Massília de que os púnicos haviam cruzado o Ebro. Simultaneamente chega a notícia da sublevação dos boios e dos ínsubres, assediando as recém-construídas fortalezas romanas da Cisalpina.

De imediato enviam a sufocar a rebelião parte das tropas que haviam destinado a Hispania, com Cipião a retardar a sua partida para recrutar uma nova legião.

Por fim, no início do verão, Tibério Semprónio zarpa para Lilibeu com 160 quinquerremes. E Públio Cornélio, com 60 naves, para Massília. O que demonstra que os romanos ainda não haviam compreendido o plano de Aníbal, pois, caso contrário, não teriam desguarnecido a Itália. É provável que o senado haja pensado que o objectivo púnico seria Massília.

Chegando à foz do Ródano Cipião é informado de que Aníbal já havia cruzado os Pirinéus. Sem pressa, inicia-se o desembarque das tropas, na convicção de que os cartagineses não conseguiriam abrir facilmente caminho através da Gália meridional. Mas pouco tempo depois, para seu grande espanto, Cipião recebe a notícia de que já haviam atingido o Ródano. Cipião trata então de apressar o desembarque e envia um contingente de cavalaria em reconhecimento.

 

Aníbal atingira o curso inferior do Ródano num ponto a cerca de quatro dias de marcha da foz. Havia atravessado os territórios dos aliados de Massília valendo-se ora da força ora da corrupção.

Mas no Ródano depara com uma grande massa de gauleses sobre a margem esquerda, disposta a cerrar-lhe o passo.

Os púnicos reúnem todas as embarcações que conseguem encontrar e constroem grande quantidade de balsas. Já tudo preparado para a travessia, é enviado rio acima, em segredo, um forte contingente. A cerca de 40 km do campo púnico o destacamento cruza o rio sem qualquer oposição. Descendo pela margem esquerda, a divisão posiciona-se na retaguarda dos gauleses e dá disso sinal a Aníbal. Começa então a travessia do rio pelo grosso das forças. Enquanto os gauleses lutavam para a impedir, o destacamento ataca e incendeia-lhes o acampamento. Desorientados, os gauleses fogem em desordem. Os púnicos cruzam o rio.

 

Alguns dias antes, 500 ginetes númidas enviados em reconhecimento haviam encontrado tropas romanas e travado recontro, perdendo 200 dos seus. Os romanos tinham-nos seguido até ao acampamento púnico, regressando de seguida a avisar Cipião. Este, com todas as suas forças, marcha ao longo do Ródano, mas apenas para encontrar trincheiras vazias. Aníbal partira há já 3 dias, subindo a marchas forçadas o curso do Ródano.

Cipião regressa para reembarcar. O plano de Aníbal era-lhe agora perfeitamente claro. Envia a maior parte do exército para a Ibéria sob o comando do seu irmão Gneu, e regressa a Itália com algumas naves.

 

Aníbal chega à confluência do Ródano com o Isère, uma região fértil rodeada pelos cursos dos dois rios e pelas montanhas, densamente povoada por tribos de alóbrogos (Allobroges). Decorria então uma luta pelo poder entre dois irmãos e Aníbal interveio a favor do mais velho, assegurando-lhe a vitória. Reconhecido, o alóbrogo aprovisiona o exército púnico.

Nos finais de Setembro Aníbal chega à cadeia principal. Lívio e Políbio, as nossas duas fontes principais a este respeito, não nos dizem qual foi a passagem usada pelo exército. Apenas se pode afirmar que os Alpes foram cruzados entre o pequeno São Bernardo (a norte) e o Monginevro (a sul).

Nos passos de montanha já começara a tombar a neve, o que tornava difícil a marcha, sobretudo à cavalaria e aos elefantes. Animais e homens despenhavam-se nas estreitas sendas de montanha, o frio atormentava-os e as tribos montanhesas atacavam-nos de surpresa, provocando-lhes grandes perdas.

Exausto, o exército atinge o vale do Pó. A marcha desde Cartagena durara cerca de cinco meses. Restavam 20.000 infantes e 6.000 ginetes (seriam 38.000 infantes e 8.000 ginetes quando cruzaram o Ródano).

 

OS PRIMEIROS RECONTROS: O TICINUS E O TREBIA.

 

Às tropas era necessário um período de repouso, ainda que para Aníbal cada hora fosse preciosa. Queria ocupar o vale do Pó antes que os romanos ali chegassem em força, visando obrigar as tribos gaulesas ainda indecisas a passarem para o seu lado. Os ínsubres acolhem-no com entusiasmo, mas as tribos líguro-célticas dos taurinos mostram-se-lhe hostis.

Aníbal, mal os seus se recompõem um pouco das fadigas, põe sítio à cidade principal dos taurinos (a actual Turim), que toma ao fim de três dias, massacrando a população. Esta chacina acabou com as mostras de hostilidade e as indecisões entre as populações do curso superior do Pó. Aníbal pôde obter delas uma grande quantidade de homens e cavalos.

 

Comandadas por Públio Cornélio Cipião, duas legiões romanas já se encontravam então no vale do Pó, a oeste de Placentia.

Regressado de Massilia e havendo informado o senado, o cônsul de imediato se dirigira para a Cisalpina, cruzando a Etrúria. Ali chegado, assume também o comando das tropas já estacionadas na região, que se ocupavam da repressão da rebelião gaulesa.

O senado confirmara todas as medidas por ele tomadas, ordenando ainda a Tibério Semprónio que suspendesse todos os preparativos para a expedição a África e que acorresse a Itália em auxílio do colega. Semprónio, que já iniciara com êxito as operações navais contra os cartagineses, começa a transferir rapidamente os seus mais de 25.000 soldados de Lilibeu para Ariminum. Ao fim de 2 meses, nos finais de Novembro, o segundo exército consular já estava pronto a operar em conjunto com o de Cipião.

Cipião já entrara em contacto com as forças de Aníbal. Cruzando o Pó perto de Placentia, seguira ao longo da sua margem esquerda, passando o afluente Ticino sobre uma ponte flutuante. Erguido o acampamento a oeste do rio, o cônsul sai em reconhecimento com infantaria ligeira e cavalaria e encontra-se com a cavalaria de Aníbal. Os romanos são derrotados e o próprio Cipião é ferido, sendo então salvo pelo seu filho de dezassete anos. Só o cair da noite lhes permitiu escapar.

Esta primeiro choque demonstrou-lhe a superioridade da cavalaria cartaginesa, o que fazia da planície do Pó um terreno de batalha desvantajoso. Havia também que esperar por Semprónio. Pela calada da noite os romanos levantam o acampamento e voltam a cruzar o Ticino, alcançando sem dificuldades a ponte sobre o Pó perto de Placência. A cavalaria de Aníbal seguira-os, mas só consegue capturar o esquadrão de protecção aos sapadores incumbidos de destruir a ponte sobre o Ticino.

De novo na margem direita do Pó, os romanos afastam-se consideravelmente para oeste e ocupam uma boa posição defensiva. Aníbal também já cruzara o rio, montando o seu acampamento não longe dos romanos.

2.000 gauleses das tropas auxiliares romanas, matando as sentinelas, fogem para os cartagineses.

Sujeito a todo o momento ao estalar duma rebelião dos gauleses dos arredores de Placência, o cônsul retira para a margem direita do Trébia, para um local escarpado. Cipião vai curando o seu ferimento enquanto espera Semprónio. Este chega por fim, sem que Aníbal lhe tivesse saído ao caminho.

 

Semprónio, ambicioso, no termo do seu período de consulado, não queria deixar a outro os louros da vitória sobre Aníbal. Um pequeno recontro favorável aos romanos faz-lhe crescer ainda mais a determinação. Assim, e contra a opinião de Cipião, decide travar a batalha o mais cedo possível. Jazendo então aquele enfermo, Semprónio tinha o mando dos dois exércitos.

Aníbal, seguramente bem informado do que se passava no acampamento romano, coloca de noite, em segredo, uma divisão de 2.000 homens de infantaria e cavalaria na planície, ao mando do seu irmão Magão, numa depressão que densa vegetação escondia. Espalha outras tropas pelos matagais envolventes. Estava-se no mês de Dezembro e fazia muito frio.

Na manhã seguinte, bem cedo, a cavalaria númida é enviada à margem direita do Trébia a provocar os romanos. Enquanto isso os púnicos restauravam forças, alimentavam os cavalos e preparavam-se para a luta.

Quando se iniciam as escaramuças entre a cavalaria númida e as guardas avançadas romanas, Semprónio ordena a todas as suas forças que atravessem o Trébia e formem para a batalha na planície. A maioria dos romanos não teve sequer tempo para comer, e todos tiveram de cruzar o rio mergulhados em água gelada até à cintura.

Cada adversário dispunha de cerca de 40.000 homens, mas Aníbal tinha uma vantagem em cavalaria de 10.000 para 4.000 homens.

 

Os elefantes e a cavalaria obrigam a cavalaria romana a retirar e os flancos da infantaria romana, descobertos, são atacados pela infantaria ligeira. As tropas de Magão, descobrindo a emboscada, atacam a retaguarda. Os romanos começam a recuar em desordem para o rio, onde a maior parte tomba sob os golpes da cavalaria e dos elefantes. Apenas um grande contingente de cerca de 10.000 homens, comandado por Semprónio, consegue abrir caminho através das linhas púnicas e refugiar-se em Placentia, onde se lhe reúnem os restantes sobreviventes dos dois exércitos romanos com Cipião.

As perdas de Aníbal foram sobretudo de tropas gaulesas. Mas os púnicos sofriam enormemente com o frio e quase todos os elefantes (menos um) morrem.

 

Semprónio retorna a Roma para dirigir as eleições e logo volta a Placência.

 

Com a vitória, muitas das tribos gaulesas ainda indecisas aderem a Aníbal. Só os cenomanos e os vénetos (que não eram gauleses) se mantiveram fiéis aos romanos. Placência e Cremona resistem graças aos abastecimentos trazidos por via fluvial com o auxílio dos vénetos. Aníbal não as pôde tomar por não dispor de máquinas de assédio.

 

O LAGO TRASIMENUS.

 

Em 217 o povo elege como cônsul o seu favorito, Flamínio, apesar da forte oposição do partido senatorial. O outro cônsul foi Gneu Servílio, um representante da nobreza.

Diz Lívio (XXI, 63) que Flamínio partiu quase em segredo, sem ter cumprido as cerimónias habituais, por temer que o senado lhe criasse dificuldades. Mas é bem possível que Lívio falsifique aqui a realidade, dando eco à tradição senatorial, inimiga de Flamínio.

 

A estratégia do senado, em 217, visava a defesa da Itália central. Aníbal podia invadi-la através da passagem montanhosa próxima de Rimini, no ager Gallicus, ou de um dos passos dos Apeninos que desembocam na Etrúria do norte.

Em Ariminum esperava-o Servílio, com duas legiões. O acesso à Etrúria era defendido por Flamínio, com outras duas.

 

No início da Primavera os púnicos deixam o vale do Pó. Os gauleses haviam sido  obrigados a manter o exército durante todo o Inverno e não estavam dispostos a ver o seu país transformado em campo de batalha; acreditavam ainda esperá-los na Itália central uma presa fácil.

Aníbal escolhe a via mais curta, a de Bononia Pistorium (Bolonha, Pistóia), que também lhe abriria o caminho mais rápido para Roma. Como sempre, estava bem informado sobre as forças e os chefes que o defrontavam. O seu plano era impedir a junção dos exércitos inimigos e derrotar pelo menos um deles.

O Arno ia cheio e o degelo formara grandes pântanos entre Pistóia e Florença. Por quatro dias e três noites o exército marcha com água até à cintura. Não havia uma língua de terra seca. Os homens descansavam sobre os cadáveres de animais de carga ou sobre o equipamento amontoado. Aníbal viajava sobre o único elefante que sobrevivera. Os miasmas dos pântanos provocam-lhe uma inflamação num olho, que quase perdeu.

Surpreendendo de todo Flamínio, o exército púnico surge sobre o flanco esquerdo dos romanos. Aníbal tenta provocar a batalha em campo aberto, mas Flamínio não se deixa tentar.

Então os púnicos deslocam-se em torno de Aretium, desde o oeste, e marcham depois para sul, devastando e pilhando toda a região. Flamínio agora não se contém. Sem esperar por Servílio, abandona o campo fortificado de Aretium e lança-se no encalço dos cartagineses.

Na costa norte do lago Trasimeno, num vale circundado de três lados pelas montanhas e limitado a sul pelas águas, Aníbal preparou a ratoeira. Pelo oeste entrava-se no vale por uma estreita garganta. De noite a cavalaria coloca-se à entrada da garganta, escondida pelas colinas, de modo a golpear os romanos pela retaguarda. Próximo da entrada, numa escarpada colina, posicionou-se a infantaria ligeira. Aníbal, com a infantaria líbia e a ibérica, ocupou as elevações centrais, paralelas à costa.

 

Às primeiras horas da manhã de 21 de Junho de 217 os romanos, que haviam perdido desde a véspera o contacto com os cartagineses, entram na garganta, numa densa névoa. O exército romano estende-se agora numa longa coluna. Desencadeia-se o ataque e os romanos são empurrados para o lago. A batalha transforma-se numa tremenda carnagem. Em menos de três horas os romanos são liquidados. Morrem 15.000 e milhares são feitos prisioneiros. Flamínio terá morrido às mãos de um ínsubre. Só a vanguarda romana, com cerca de 6.000 homens, consegue sair do vale, colocando-se em posição defensiva numa das aldeias da vizinhança. Mas rodeada pela cavalaria de Aníbal, sem víveres, é forçada a render-se.

Enquanto os prisioneiros romanos são encadeados, aos itálicos é dada a liberdade. Aníbal diz-lhes que não tinha vindo para os combater, mas sim para lutar contra os romanos e pela liberdade da Itália.

Servílio entretanto marchava em auxílio do colega, com uma grande divisão de cavalaria de 4.000 homens na vanguarda. Aníbal, informado pelos seus espias, envia ao seu encontro infantaria ligeira e cavalaria. Ao primeiro recontro a divisão romana é destruída, rendendo-se cerca de 2.000 homens.

 

A DITADURA DE FÁBIO MÁXIMO.

 

À notícia da derrota os romanos são ganhos pelo desespero. Aníbal tinha agora livre o caminho para Roma. De um momento para o outro, pensavam, os púnicos iriam surgir diante dos muros da cidade. Febrilmente, começam a tomar medidas para a defesa de Roma. Reforçam-se as muralhas e os bastiões, destroem-se as pontes...

Mas Aníbal não tinha qualquer intenção de marchar contra Roma. Com as forças de que dispunha teria sido insensato lançar-se ao assalto de uma grande cidade fortificada ou tentar fazê-la render-se por assédio. Propunha-se, sim, saquear de modo sistemático a Itália e destruir por golpes sucessivos o poder romano. Contava para tal com a secessão dos itálicos.

Após a batalha atravessa a Úmbria e dirige-se ao Piceno, saqueando tudo o que encontra pelo caminho. Ao fim de dez dias de marcha chega à costa adriática, carregado com o saque. Aí concede às tropas um longo descanso. Nesta fértil comarca, rica em vinho e em cereais, os homens e os animais recompõem-se. Aníbal aproveita a pausa para equipar o seu exército com as excelentes armas romanas que lhe haviam caído nas mãos.

Depois, do Piceno, marcha para sul, ao longo da costa, invadindo e devastando a Apúlia. Em nenhum lugar encontra resistência. Apenas as cidades fortificadas, sem intenção de se renderem, lhe fecham as portas.

 

O senado decide recorrer à nomeação de um ditador. Mas não sabia quem nomear, dado que um dos cônsules morrera e o outro estava ausente. Então, pela primeira vez na história, a eleição do ditador é confiada aos comitia centuriata. É eleito um homem de grande experiência, o senador Quinto Fábio Máximo.

Segundo o costume era o ditador a escolher o seu comandante da cavalaria. Porém, também este foi eleito pela assembleia, com a escolha a recair em Marco Minúcio Rufo, um homem dos democráticos.

 

Uma vez no cargo, Fábio parte com quatro legiões para a Apúlia (duas recém-recrutadas e as duas que Servílio lhe entregara). Ali as suas forças travarão pequenos recontros com as púnicas, mas Fábio não aceita a batalha que Aníbal com insistência lhe oferece.

Aníbal cruza os Apeninos, saqueia uma parte do Sâmnio e invade a Campânia. Fábio segue-o a uma distância prudente, limitando-se a escaramuças. Após a marcha, os romanos sempre se detinham em locais montanhosos, onde era impossível o emprego da cavalaria. Todas as tentativas de Aníbal para os fazer descer à planície foram vãs.

Consciente da superioridade da cavalaria cartaginesa, Fábio jogava com o prolongamento da guerra. Quando em Roma se soube que as regiões mais férteis da Itália estavam a ser devastadas sem que Fábio houvesse tomado qualquer iniciativa para o impedir, os círculos democráticos começam a semear o alarme e o descontentamento entre a opinião pública. É então que aparece a célebre alcunha de Cunctator (o Contemporizador), com que Fábio passou à história.

Depois de devastar a Campânia e de recolher um enorme saque, Aníbal prepara o regresso à Apúlia para aí invernar. Fábio bloqueia-o entre a Campânia do norte e o Sâmnio, ocupando todos os passos, e estabelece o seu acampamento perto do de Aníbal, colocando 4.000 homens junto da passagem mais próxima.

De noite, os púnicos reúnem cerca de 2.000 bovinos e colocam-lhes nos chifres tochas acesas, fazendo o gado mover-se para um outro passo próximo. Vendo os fogos a andarem naquela direcção, os romanos, convencidos de que Aníbal ia tentar esse outro caminho, deslocam-se para lá. Sem encontrarem qualquer obstáculo, Aníbal e o grosso das suas tropas atravessam pelo passo agora desguarnecido.

Esta foi a gota que fez transbordar o vaso da paciência. A pretexto de uma celebração de rituais religiosos, o ditador é chamado a Roma, ficando Minúcio no comando.

Minúcio conseguiu causar perdas significativas aos destacamentos púnicos que se ocupavam na Apúlia do saque de provisões de Inverno. O entusiasmo que isto provocou em Roma foi tal que a assembleia popular, por disposição especial, investiu Minúcio de poderes extraordinários idênticos aos de Fábio. Houve assim, simultaneamente, dois ditadores em Roma.

Quando Fábio regressa ao teatro de operações o exército é dividido em dois, cada um com o seu comandante e o seu acampamento, mas não longe um do outro.

Aproveitando a situação, Aníbal atrai Minúcio a uma emboscada. O exército deste só escapou à destruição porque o de Fábio lhe acudiu.

O incidente pôs a nu o erro que a divisão de forças representava e os exércitos são de novo reunidos, com Minúcio a retomar o seu posto de comandante da cavalaria.

 

CANNAE.

 

Nos finais de 217 findaram os 6 meses da ditadura de Fábio, que entrega o mando aos antigos cônsules (Gneu Servílio e um outro, eleito em lugar do defunto Flamínio).

No termo do ano consular de 217 as eleições celebrar-se-ão num ambiente de encarniçada luta política. O partido senatorial faz eleger, a grande custo, Lúcio Emílio Paulo. O outro cônsul, eleito pelos democráticos, é Marco Terêncio Varrão, filho de um rico mercador de carnes, um experiente político com grande influência nas massas populares.

A tradição historiográfica, que deriva de Políbio (amigo de Cipião Emiliano, que era neto de Emílio Paulo), apresenta Emílio como exemplo do valor e da nobreza romana. Terêncio Varrão, ao invés, como demagogo estridente, cobarde e fanfarrão.

 

A atitude dos aliados itálicos provocava cada vez maior alarme, levando o próprio senado a convencer-se de que seria impossível continuar a arrastar por mais tempo a guerra.

Na Primavera de 216 Aníbal deixa a Apúlia do norte, dirige-se para o sul e ocupa a cidade de Canas, sobre o Ofanto, o maior depósito de víveres dos romanos na região.

A queda da cidade reforçou no senado a determinação de pôr fim à guerra. São dadas instruções nesse sentido aos cônsules e é reforçado o exército em operações na Apúlia.

Quando os cônsules ali chegam com os reforços, começam entre os dois as querelas. Dado que a sul de Canas havia uma planura ideal para a movimentação da cavalaria cartaginesa, Emílio Paulo insistia em que se avançasse ainda mais para sul, para tomar posição nas colinas. Terêncio, pelo contrário, queria dar de imediato batalha.

As discussões entre os cônsules prolongaram-se por vários dias. Até que a 2 de Agosto de 216, dia em que lhe correspondia o mando, Terêncio decidiu travar batalha na planura.

 

Segundo Políbio (III, 113-114), as forças romanas estavam formadas por 80.000 infantes e cerca de 6.000 ginetes. As cartaginesas, por «um pouco mais» de 40.000 infantes e até 10.000 ginetes.

Lívio (XXII, 36) fala de um máximo de 8 legiões, que juntas às tropas aliadas poderiam perfazer cerca de 80.000 homens. Tal como Políbio, calcula que os cartagineses dispusessem de 50.000 homens.

Se, por um lado, a maioria dos autores aceitou as cifras de Políbio, há também quem afirme que os romanos seriam em número de 40.000 a 50.000 e os cartagineses cerca de 35.000.

É incerto o local da batalha, se na margem esquerda do Ofanto, se na direita. Políbio e Lívio dizem que a ala direita romana se apoiava no rio e que a frente estava voltada para sul. Se assim foi, então a batalha  travou-se na margem direita. Porém, nesse caso, a retaguarda romana posicionava-se do lado do mar, o que era sumamente perigoso, e torna-se difícil de crer que o mando romano tivesse aceite batalha em tais condições.

 

Sobre o flanco direito romano, apoiada no Ofanto, a pouco numerosa cavalaria de cidadãos romanos. O grosso da cavalaria aliada concentrava-se sobre o flanco esquerdo, dominando a planura. A infantaria concentrava-se ao centro, num conjunto compacto, com os intervalos entre os manípulos encurtados, formando mais em profundidade que em largura, de modo a poder golpear com maior violência o centro inimigo. A infantaria ligeira, como era usual, foi colocada diante dos manípulos.

Um forte vento austral lançava sobre os romanos as nuvens de pó levantadas pelos cartagineses em marcha.

 

Aníbal dispôs as suas forças em forma de meia-lua, com a convexidade virada ao inimigo. No centro os gauleses e os iberos. Sobre os dois flancos do arco, em posição mais recuada, os líbios, o escol da infantaria. A cavalaria gaulesa e ibérica formaram junto ao rio, na extrema do flanco esquerdo, enquanto a cavalaria númida se colocava sobre a ala direita.

 

A batalha iniciou-se com o confronto da infantaria ligeira, seguida pelo grosso da infantaria romana, que arroja todo o seu peso contra o centro púnico. Este vai retrocedendo: a convexidade em meia-lua da frente cartaginesa começa a evoluir para uma concavidade em forma de U.

À medida que a infantaria romana se fundia na formação inimiga a sua frente estreitava-se nas alas e aumentava de profundidade. Antes que o centro púnico pudesse ser rompido, a infantaria líbia, com as suas forças frescas, ataca os flancos dos romanos.

Simultaneamente dera-se o ataque da cavalaria. A gaulesa e a ibérica, mais numerosas, são lançadas sobre a ala direita contra os ginetes romanos, que são destroçados. Logo uma parte delas é enviada em reforço dos númidas, com a outra parte a atacar pela retaguarda a infantaria romana. A cavalaria númida, agora reforçada, destroça a dos aliados de Roma, obrigando-a a uma fuga desordenada, e completa o cerco da infantaria romana.

Pressionados pelos líbios sobre as alas, atacados pela cavalaria na retaguarda e incapazes de romper a frente formada pelos gauleses e iberos, os romanos tinham sido apanhados na terrível tenaz que Aníbal lhes preparara. Amontoados, sem liberdade para manobrar, eram um alvo que nenhuma flecha, nenhuma pedra podia falhar.

Cerca de 70.000 homens das forças romanas terão tombado no campo de batalha, com os restantes a serem postos em fuga ou aprisionados. Emílio Paulo morre no combate, Terêncio Varrão foge. Aníbal perdeu 6.000 homens, 4.000 dos quais gauleses.

 

APÓS CANNAE.

 

Aníbal, procurando conseguir a secessão dos socii, marcha através do Sâmnio e da Campânia, enviando Magão à Lucânia e ao Brútio. As suas esperanças pareciam estar a ponto de se cumprirem, com a federação itálica a ameaçar desfazer-se. Aderem-lhe muitas cidades da Apúlia. Pouco tempo depois, as tribos montanhesas do Sâmnio central seguem-lhes o exemplo. A Lucânia e o Brútio, com a excepção de algumas cidades gregas, já então haviam rompido com Roma. Cápua, a segunda mais rica cidade de Itália, por obra do partido democrático, abre-lhe as portas no Outono de 216.

Aníbal ofereceu a Cápua condições de aliança extremamente vantajosas. Os seus cidadãos não tinham de prestar serviço militar no exército cartaginês. A cidade conservava plena autonomia. Aníbal entregou aos Capuenses 300 prisioneiros romanos para serem trocados por 300 ginetes da cidade, aprisionados pelos romanos na Sicília como retaliação pela aliança com os púnicos.

O exemplo de Cápua depressa foi seguido por outras cidades campânias. Só Neapolis, Nola e algumas outras cidades costeiras permaneceram fiéis aos romanos.

Mas a Itália central, o pilar principal do poderio romano, manteve-se solidamente ao lado de Roma.

 

Em Roma de início reinou o pânico. Não havia família que não houvesse perdido algum dos seus na guerra. As mulheres amontoavam-se no forum e às portas da cidade, lamentando os seus e espalhando todo o tipo de boatos.

O senado toma então medidas drásticas. Proíbe às mulheres a presença nos lugares públicos e o pranto em público dos mortos. Nas portas da cidade guardas impediam a saída a quem quer que fosse.

Entretanto chegam notícias fidedignas sobre o que se passara. Terêncio prestou uma informação detalhada e o senado pôde fazer uma ideia precisa sobre as dimensões da catástrofe.

É eleito um ditador, Marco Júnio Peto. É decretado o recrutamento geral de todos os jovens com mais de 17 anos de idade. Os aliados têm de mobilizar todos os homens capazes de pegar em armas. E é tomada uma medida verdadeiramente excepcional, com a compra aos particulares de 8.000 jovens escravos que vieram a formar duas legiões.

Dada a falta de armas, põem a uso os troféus de guerra guardados nos templos e nos pórticos.

 

Quando Terêncio volta a Roma, os senadores, seguidos por uma enorme multidão, terão ido ao seu encontro às portas da cidade, expressando-lhe o seu reconhecimento por não se ter deixado desanimar e haver reunido os restos do derrotado exército (com os dispersos formaram-se 2 legiões que foram enviadas para a Sicília).

Por muito tempo não se ouvirá falar em Roma de lutas de partidos.

 

Quinto Fábio Pictor é enviado a Delfos para interrogar o oráculo de Apolo e saber «com que preces e sacrifícios os romanos deviam congraçar-se com os deuses e qual seria o fim de tão grandes desventuras».

Dando livre curso às superstições da multidão, é retomado um antigo rito bárbaro, com um homem e uma mulher gauleses e um grego e uma grega a serem sepultados vivos no forum boarium.

 

Nesta época, necessitando de dinheiro, Aníbal terá proposto a liberdade aos prisioneiros romanos contra o pagamento de resgate (os prisioneiros itálicos já haviam sido libertados sem qualquer resgate). Os prisioneiros nomeiam uma delegação que Aníbal deixou partir sob palavra, acompanhada por um plenipotenciário púnico.

Quando o senado é informado da aproximação da delegação o ditador envia ao seu encontro um lictor, a ordenar ao embaixador cartaginês que abandonasse de imediato o território romano. À delegação de prisioneiros foi consentida a entrada na cidade.

Durante a discussão que se seguiu, o senado decide-se pela rejeição da proposta, alegando que o tesouro estava exausto, que a Aníbal faltavam então recursos e que aceitar o resgate, além do mais, era fomentar a cobardia e a falta de ânimo a sacrificar-se pela pátria.

 

O CURSO POSTERIOR DA GUERRA EM ITÁLIA E NAS ESPANHAS.

 

Nos finais de 216 duas legiões ao mando de um pretor são aniquiladas na Cisalpina, ficando a região desguarnecida de tropas romanas.

 

Na Itália meridional retoma-se a táctica de Fábio Máximo. Apoiando-se nas praças-fortes que ainda detinham, os romanos conduzem-se prudentemente, evitando a batalha e tratando de assediar as cidades insurrectas que Aníbal não podia defender.

Algumas cidades gregas do Brútio são obrigadas a submeterem-se aos cartagineses, enquanto que os romanos conseguem a rendição de diversas praças na Apúlia, Sâmnio e Campânia.

No período de 215 a 213 o mais grave desaire romano dá-se com a queda de Tarento. Graças à traição do partido anti-romano, pela calada da noite, os púnicos entram na urbe. Mas a guarnição romana manteve-se na inacessível cidadela, dominante sobre o porto e a própria cidade.

Gradualmente, os efectivos romanos vão atingir um número enorme. Em 212 os romanos contavam com vinte e cinco legiões nos diferentes teatros de guerra, num total de cerca de 250.000 homens. Dez delas estavam espalhadas pela Itália do sul.

Em Itália as forças de Aníbal  não cresceram tanto como as romanas. Os seus aliados itálicos e gregos não lhe forneceram grandes contingentes e de África e da Ibéria era impossível receber reforços por mar, dado o domínio absoluto da frota romana.

Imediatamente após Canas, Magão é enviado a Cartago com a notícia da vitória e um pedido de reforços. Como prova do triunfo faz amontoar diante dos senadores os anéis de ouro tomados aos nobres romanos mortos, desencadeando com isso uma explosão de alegria indescritível. O governo cartaginês decide enviar a Itália, com Magão, 12.000 infantes, 1.500 ginetes e 20 elefantes, mas os acontecimentos na Ibéria obrigam-no a mudar de planos.

 

Em 218 Gneu Cipião desembarcara em Empórias (Emporiae; hoje, Ampúrias), iniciando de imediato operações contra as guarnições cartaginesas da Catalunha. Em menos de dois meses toma toda a região a norte do Ebro.

No Verão de 217 Asdrúbal chega à zona com forças terrestres e navais. Mas a frota romana, ajudada pelos Massilienses, derrota os púnicos na foz do Ebro, obrigando-os a retirar também em terra.

Apesar da grave situação em Itália, Públio Cornélio Cipião fora enviado à Hispania com reforços. Os dois irmãos cruzam o Ebro e avançam para sul, até Sagunto.

Na Bética os turdetanos (Turdetani) sublevam-se contra os cartagineses. Alarmada, Cartago envia então reforços a Asdrúbal (em 215).

Entretanto os Cipiões sitiavam Dertosa, no curso inferior do Ebro. Asdrúbal ataca-os com um exército de 25.000 homens. Os romanos, dispondo aproximadamente do mesmo número de homens, derrotam os púnicos numa sangrenta batalha. Asdrúbal consegue escapar a custo com um pequeno grupo de sobreviventes.

Não se podia mais pensar no envio de reforços, desde a Ibéria, a Aníbal. Com as tribos a mostrarem-se prontas à revolta, o próprio domínio cartaginês na península estava em perigo.

 

Nesse momento Siface (Syphax), rei da Numídia ocidental, talvez em parte movido por influência dos Cipiões, rompe com Cartago. Começa uma guerra de três anos (214 a 212) que obriga os cartagineses a chamarem Asdrúbal. Por fim Siface é de novo submetido.

 

Na ausência de Asdrúbal, os Cipiões conquistam Sagunto e outras cidades. Mas nos finais de 212, com o seu regresso, a situação muda bruscamente. Em 211, concentrando três exércitos contra os dois dos romanos (compostos em grande parte por iberos), Asdrúbal manobra de modo a dividi-los e vence-os separadamente, primeiro o exército de Públio, depois o de Gneu. Ambos os Cipiões são mortos, com os restos dos seus exércitos a retirarem-se para lá do Ebro, onde conseguirão manter a custo o domínio sobre a Catalunha.

 

SICÍLIA.

 

Enquanto Hierão foi vivo os siracusanos permaneceram fiéis à aliança com Roma. Hierão morre no Verão de 215, deixando no trono o neto Hieronymus (Jerónimo), de quinze anos de idade. No conselho de regência começa de imediato a luta entre os partidários de Roma e os de Aníbal. Este enviara agentes a Siracusa, propondo um tratado de aliança. Era oferecido aos siracusanos o domínio sobre toda a ilha. Em troca teriam de prestar a sua ajuda à campanha em Itália.

O pretor romano enviou embaixadores a Jerónimo, recordando-lhe o velho tratado que o ligava a Roma, mas aqueles são mal recebidos. Outras tentativas diplomáticas ulteriores dos romanos resultarão também em nada.

No Verão de 214 Jerónimo é assassinado numa conjura do partido aristocrático, amigo de Roma. Mas os romanos não intervêm a tempo e as tropas siracusanas, favoráveis a Cartago, elegem dois agentes de Aníbal como comandantes. O partido pró-romano é deposto e os seus chefes são mortos. O senado cartaginês aprovara a aliança com Siracusa e os Syracusanus iniciam as acções bélicas contra os romanos.

O exército romano na Sicília era comandado pelo cônsul de 214, Marco Cláudio Marcelo, que já se  distinguira na guerra com Aníbal. A frota estava ao mando do pretor Ápio Cláudio.

Em 213 as forças de ambos iniciam o ataque a Siracusa. A cidade dispunha de boas fortificações e de enormes provisões de víveres; e Arquimedes encarregara-se da construção de máquinas bélicas de um poder excepcional, facilitando notavelmente a defesa da cidade. Políbio (VIII, 7, 8): «Arquimedes havia construído máquinas capazes de lançar projécteis a qualquer distância. Se o inimigo navegava ao longe...usava uma máquina de longo alcance; se ele se aproximava, empregava máquinas de menor poder, usando sempre a mais adequada à distância em causa. Desse modo punha em dificuldades o inimigo e infundia-lhe um tal terror que ele não ousava aproximar-se da cidade com as suas naves...Além dos projécteis, as máquinas podiam lançar uma âncora de ferro fixada a uma cadeia, em cujo extremo havia um cabrestante que se lhe unia firmemente. Dirigida violentamente contra a nave, a âncora cravava-se nela e, ao ser retirada por meio da cadeia, levantava a nave, provocando o seu afundamento».

Dado ser impraticável o assalto à cidade os romanos passam a um prolongado cerco. Parte do exército assentou arraiais num campo entrincheirado a sudeste da cidade, as restantes tropas, a nordeste.

 

Os cartagineses desembarcam 25.000 infantes, 3.000 ginetes e 12 elefantes no sudoeste da ilha e tomam Agrigento.

Marcelo, com as suas forças ocupadas no sítio de Siracusa e na repressão do movimento anti-romano em outras cidades, não pôde evitar a queda da cidade. Apesar de Roma lhe ter enviado uma legião de reforço, dispunha apenas de quatro legiões incompletas.

O exército cartaginês acerca-se de Siracusa por sudoeste e assenta acampamento nas proximidades dos romanos. Mas tampouco os púnicos tinham forças suficientes para lhes atacar as posições fortificadas.

 

Nos começos da primavera de 212 Marcelo consegue apoderar-se de Hepipolis, o bairro ocidental de Siracusa. Aproveitando a embriaguez da guarnição durante a festa de Artemisa, pela noite, um contingente romano munido de escadas de assalto consegue apoderar-se de uma pequena secção das muralhas setentrionais e duma porta, por onde entrou o exército acampado a norte.

Os outros bairros, com fortificações independentes, mantiveram-se nas mãos dos siracusanos.

 

A frota cartaginesa, aproveitando um forte vento, entra no porto, trazendo ajuda aos sitiados. Porém, para sorte dos romanos, no Verão de 212 o acampamento púnico sofre uma epidemia, causada pelos miasmas dos pântanos que rodeavam Siracusa. Se bem que as enfermidades também tenham castigado os romanos foram bem menos devastadoras entre eles, enquanto que os cartagineses perdem quase todo o exército e os seus comandantes.

 

Na Primavera de 211 uma grande frota de guerra púnica, com barcos de transporte carregados de víveres, dirige-se para Siracusa. Mas à aproximação da esquadra romana o seu comandante amedronta-se e faz meia volta, selando assim o destino da cidade.

O partido pró-romano inicia negociações de paz com Marcelo, o que provocou a fúria da guarnição (que incluía muitos desertores romanos). Enquanto na cidade estalavam as desordens, um dos chefes mercenários é convencido a abrir as portas de Ortígia. Depois rende-se também Acradina (o bairro da cidade velha).

Marcelo submete a cidade a saque, no decurso do qual Arquimedes será assassinado por um soldado romano. Um enorme despojo veio encher as exaustas arcas do Estado romano. Muitas obras de arte são destruídas e muitas outras são levadas para Roma.

Com a queda de Siracusa aos romanos foi fácil submeter o resto da território. Em 210 cai Agrigento, graças a uma traição, e os restos das forças púnicas abandonam a ilha.

 

Entre os planos de Aníbal incluía-se o de criar uma aliança de Estados não itálicos inimigos de Roma. A Sicília, que devia ser o elo mais forte dessa cadeia, fora destroçada ao fim de 5 anos.

 

A PRIMEIRA GUERRA MACEDÓNICA.

 

O segundo elo seria a Macedónia. Filipe V seguira atentamente o curso da guerra. Após a batalha do Trasimeno, em Setembro de 217 acorda a paz com os etólios em Naupactos, tratando de ter as mãos livres, e de imediato inicia operações militares na Ilíria.

No início do Verão de 216 a frota macedónia entra no Mar Jónico, navegando para norte, quase até Apolónia. Informado da aproximação dos romanos (que só tinham dez naves de linha), Filipe amedronta-se e volta à Macedónia.

No Verão de 215 chegam ao campo de Aníbal embaixadores de Filipe. É celebrado um tratado preliminar. Políbio (fragmento do livro VII): «Deste modo juram o comandante Aníbal, Magão, Mircão, Barmocar, todos os membros do conselho de anciãos cartaginês que se encontram junto dele e todos os cartagineses que participam da sua expedição, ao ateniense Xenófanes, filho de Cleómaco, enviado do rei Filipe, filho de Demétrio, por conta dos macedónios e dos seus aliados: ante Zeus, Hera e Apolo; ante os génios cartagineses, Hércules e Iolau; ante Ares, Tritão e Poseidon; ante os deuses reunidos do Sol, da Lua e da Terra; ante os rios, os golfos e as águas; ante todos os deuses que dominam sobre Cartago; ante todos os deuses que dominam sobre a Macedónia e o resto da Hélade; ante todas as divindades da guerra que presenciam este juramento...» A Macedónia comprometia-se a fazer guerra a Roma em aliança com Cartago, reconhecendo os cartagineses os direitos de Filipe sobre as costas ilírias, Corcira, Apolónia, Epidamno e outras cidades. Os aliados estavam obrigados a prestarem-se ajuda mútua com o envio de contingentes armados aonde deles houvesse necessidade. Terminada que fosse a guerra, a aliança assumiria um carácter defensivo contra eventuais ataques da parte de Roma. Filipe contaria com a ajuda da frota cartaginesa e Aníbal com a ajuda dos macedónios na Itália.

Mas a ratificação do tratado pelo rei da Macedónia e pelo senado cartaginês sofreu uma série de atrasos. Quando regressavam do acampamento de Aníbal, os embaixadores macedónios foram aprisionados pelos romanos, o que obrigou Filipe a enviar nova embaixada. Perderam-se assim 6 meses.

 

Havendo tido conhecimento do tratado Roma toma medidas preventivas, designando o pretor Marco Valério Levino para vigiar as águas do Adriático com uma esquadra e um exército.

Assim, quando no Verão de 214 Filipe surge de novo no Adriático e tenta cercar Apolónia, os romanos puderam enviar reforços à cidade. O acampamento macedónio foi tomado e saqueado, com a frota romana a cortar a retirada por mar a Filipe, obrigando-o a queimar os seus navios e a regressar por terra.

Os romanos estabelecem-se solidamente sobre a costa ilíria.

Filipe, não podendo contar com a ajuda da frota púnica, então ocupada nas operações na Sicília, permanecerá algum tempo inactivo.

Já em 213 os macedónios levarão a cabo bem sucedidas operações em terra, conseguindo reduzir os romanos a uma estreita faixa costeira.

Intervém então a diplomacia romana. Em 212 Levino estabelece contactos secretos com a Liga Etólica, concluindo com ela rapidamente um tratado. Os etólios actuariam por terra contra Filipe e os romanos no mar, com não menos de vinte e cinco embarcações de linha. Com a guerra os etólios ganhariam vantagens territoriais; os romanos, todo o despojo. Os romanos comprometiam-se ainda a ajudar os etólios na conquista da Acarnânia (região do Epiro). Ambas as partes se obrigavam a não fazer a paz por separado com Filipe.

A coligação antimacedónica depressa se estendeu à Élida, Esparta, Messénia e até a Átalo I, rei de Pérgamo. Entretanto o norte da Macedónia era atacado pelos ilírios e os dárdanos (habitantes de região do centro da península balcânica, a sul da Mésia).

Filipe defende-se e devasta impiedosamente os territórios gregos, em particular as regiões marítimas.

Em 208 as esquadras reunidas de Roma e Pérgamo encontraram-se frente à cartaginesa, vinda em auxílio de Filipe. Mas Átalo é obrigado a voltar a Pérgamo, ameaçado pela invasão de Prúsias, rei da Bitínia, e a frota cartaginesa comportou-se passivamente, não travando batalha.

Em 207, com Asdrúbal a entrar em Itália, sendo Roma obrigada a mobilizar todas as suas forças, Filipe aproveita e passa à ofensiva, cruzando a fronteira da Etólia e forçando a Liga a concluir uma paz por separado com a Macedónia. Aliás, já desde há algum tempo, vários países neutrais, o Egipto, Rodes (Rhodos) e outros vinham mediando negociações nesse sentido.

 

Roma viu-se de novo sozinha contra Filipe. Mas agora a situação era bem distinta, sendo quase certo que Aníbal iria perder a guerra. E o único objectivo dos romanos na sua política grega era o de impedir o auxílio aos púnicos.

A paz foi concluída em 205. Os romanos conservaram as suas possessões ilírias mais importantes. Mas as cidades gregas tiveram de ceder parte dos seus territórios no continente a Filipe.

 

CÁPUA E A MARCHA DE ANÍBAL SOBRE ROMA.

 

Só em 212, quando conseguem estacionar cerca de dez legiões na Itália meridional, os romanos irão tentar a reconquista da cidade.

Aníbal, então nas cercanias de Tarento, é informado das intenções do mando romano e encarrega Hannon de aprovisionar Capua. Chegado ao Sâmnio, Hannon estabelece o seu acampamento perto de Benevento e começa a recolher grandes quantidades de grão.

Os cônsules Quintus Fulvius Flaccus e Appius Claudius Pulcher, que se encontravam em Boviano, aproveitando a ausência do grosso das forças púnicas atacam-lhes o acampamento e apoderam-se das provisões já acumuladas. Hannon retira para o Brútio.

Entretanto à volta de Capua ia-se estreitando um anel de forças romanas. Aníbal acorre e obriga-as a levantar o cerco. A região apresentava-se devastada e a cidade dispunha de poucos víveres pelo que Aníbal depressa teve de regressar ao sul.

Os romanos retomam as operações de assédio. Acumulam grande quantidade de víveres nas fortalezas vizinhas e rodeiam a cidade com um fosso duplo.

Aníbal retorna mas os romanos não abandonam o cerco. Protegidos pelas suas fortificações, fazem fracassar todos os ataques dos púnicos.

Após 5 dias de permanência em Capua, depois de acenderem os fogos do acampamento, os púnicos partem em silêncio durante a noite, sem que os romanos se apercebam de nada. Aníbal decidira marchar sobre Roma.

Rapidamente atingem o Sâmnio, inflectem depois para ocidente e marcham directamente sobre Roma pela chamada “rota latina”. Não encontrando qualquer resistência, chegam a cerca de 8 km da cidade e ali montam o acampamento.

Aníbal, em jeito de provocação, galopa com a cavalaria até à porta Colina. A aparição dos cartagineses, completamente inesperada, produziu enorme alarme: «Hannibal ante portas». Mas encontravam-se então na cidade quatro legiões e as suas poderosas muralhas excluíam qualquer veleidade de tentativa de assalto.

Alguns dias mais tarde, depois de haver saqueado os arredores, Aníbal enceta o caminho de regresso para a Itália meridional. As legiões que assediavam Cápua não haviam caído na armadilha, mantendo o cerco, e Aníbal teve de retornar ao Brútio sem poder prestar qualquer auxílio à cidade assediada.

Ao saberem-se abandonados os Capuenses rendem-se incondicionalmente em 211. Os membros do seu senado e algumas dezenas de notáveis são executados. Uma boa parte da população é reduzida à escravatura e todas as terras são confiscadas. A cidade perde a sua independência, sendo desde então governada por um pretor, como comunidade em sujeição.

 

A SITUAÇÃO EM ITÁLIA.

 

A queda de Cápua e de Siracusa nesse ano de 211 causou enorme impressão em toda a Itália. Os aliados de Aníbal começaram a vacilar.

 

O cônsul de 209, Fábio Máximo, vindo da Sicília, faz cercar Tarento por duas legiões, com a frota a fechar o acesso ao porto.

Aníbal combatia então contra os Bruttii e não pôde ocorrer de imediato à cidade. Quando ali chegou já a cidade se rendera.

Fábio entregou a cidade ao saque. 30.000 habitantes são escravizados e a cidade é privada da sua autonomia.

 

No entanto os romanos sofrerão ainda algumas perdas de  vulto. Cláudio Marcelo morre em 208 num recontro na Apúlia (Aníbal ordenou que o seu cadáver fosse sepultado com todas as honras militares). Antes, em 210, fora morto o procônsul Gneu Fúlvio.

Nesta época começam a manifestar-se sinais de revolta nos até aí mais fiéis baluartes de Roma, devido ao extremo esgotamento e à terrível sangria que a guerra provocara. No Outono de 210, aquando de um novo recrutamento, doze das trinta colónias latinas recusam-se a fornecer novos contingentes.

Os preços do pão em Roma, ainda nesse ano de 210, sofreram enormes aumentos e o senado teve de enviar uma embaixada ao Egipto, solicitando a Ptolemeu IV o envio de víveres.

 

CIPIÃO NAS ESPANHAS.

 

No Outono de 211, ainda decorria o assédio de Cápua, o senado envia à Ibéria o pretor Cláudio Nero com duas legiões.

 

Públio Cornélio Cipião, então com vinte e cinco anos de idade, de carácter muito religioso, acreditava nas predições dos sonhos e passava muitas horas em orações e sacrifícios nos templos. Convencido de ser um predestinado, tinha uma profunda confiança em si próprio e no seu destino. No entanto era dotado de uma grande instrução e mostrava-se hábil e prudente, sendo capaz, num plano de operações, de prever e estudar cuidadosamente cada movimento.

 

Quando a táctica excessivamente prudente de Nero, educado na escola do Cunctator, se mostrou inábil, o senado nomeou Cipião comandante supremo na Ibéria com o título de procônsul, apesar de apenas haver servido na magistratura como edil curul em 213. Nos finais de 210 Cipião chega à Ibéria com duas legiões.

Três exércitos cartagineses operavam então na península, comandados pelos irmãos de Aníbal, Asdrúbal e Magão, e um outro Asdrúbal, filho de Giscão. Esses exércitos actuavam separadamente.

Aproveitando essa circunstância Cipião decide conquistar Nova Cartago com um golpe de audácia, cuidadosamente preparado. A cidade erguia-se sobre um alto promontório que uma estreita faixa de terra ligava ao continente.

No momento da partida da expedição Cipião diz aos soldados que Neptuno lhe aparecera em sonhos e lhe ensinara como tomar a cidade.

No início de 209 Cipião ataca inesperadamente a cidade com o exército e a as naves (estas eram comandadas pelo seu amigo Caius Laelius). A frota bloqueou a entrada do porto e o exército montou o seu acampamento sobre o istmo.

O ataque começou com o assalto às muralhas do istmo. Depois, quando os púnicos ali se concentravam, 500 homens munidos de escadas atacam pelo lado do mar, onde uma pequena laguna facilitava o acesso às muralhas. Atravessaram a laguna sem que os púnicos se dessem conta, favorecidos pelo vento que agitava as águas, e conseguiram penetrar na cidade.

Nas mãos de Cipião caem enormes provisões de víveres e muito material bélico, bem como algumas centenas de reféns que os púnicos haviam feito entre as tribos espanholas. Cipião promete-lhes a liberdade, assim como às respectivas tribos na condição de aderirem ao partido de Roma. Algumas das tribos mais poderosas passam-se para os romanos.

Na Primavera de 208 Cipião dirige-se à bacia do Bétis, onde se encontrava o exército de Asdrúbal. Dispondo de superioridade numérica Cipião ataca-o perto de Bécula, apesar dos cartagineses ocuparem uma posição de fácil defesa. Atrai a atenção de Asdrúbal sobre a frente, logo o atacando pelos flancos. Vendo o seu exército em má situação o púnico retira para norte. Cipião não se atreveu a segui-lo, temendo que Asdrúbal fizesse  junção com os outros exércitos cartagineses.

 

A EXPEDIÇÃO DE ASDRÚBAL A ITÁLIA. A BATALHA DO METAURO.

A marchas forçadas Asdrúbal atravessa a Iberia. Pelo caminho recebe reforços dos outros dois exércitos púnicos. Cruza os Pirinéus perto do Golfo de Viscaya, assim evitando as guarnições romanas da Catalunha. Em Roma a notícia suscitou um grande alarme.

Para 207 são eleitos cônsules dois experientes comandantes, Cláudio Nero e Marco Lívio Salinator (que havia participado na segunda guerra ilírica). O número total de legiões é agora de vinte e três, com quinze delas a actuarem em Itália (oito no norte, sete no sul).

Asdrúbal saíra da Ibéria com cerca de 20.000 homens. Após invernar na Gália meridional, passa os Alpes no começo da Primavera de 207. Os gauleses do vale do Pó fornecem-lhe reforços e o seu exército cresce para cerca de 30.000 homens, forças que eram superiores às romanas estacionadas na região. Mas Asdrúbal não tinha intenção de lhes dar batalha. O seu plano era abrir caminho para o sul e fazer a junção com as forças do irmão.

Nessa Primavera de 207 Aníbal abandonara os seus quartéis de Inverno do Brútio e dirigira-se para a Apúlia. Ali permanecerá à espera de notícias de Asdrúbal.

Este encaminhava-se, desde o vale do Pó, para o ager Gallicus, onde se encontravam as legiões de Marco Lívio. O exército de Cláudio Nero enfrentava o de Aníbal na Apúlia.

Antes de iniciar a marcha Asdrúbal enviara ao irmão seis correios, pedindo que lhe viesse ao encontro na Úmbria. Mas todos os emissários são capturados pelos soldados de Nero, que assim se põe ao corrente dos planos de Asdrúbal. Em grande segredo, de noite, Nero abandona o seu acampamento com o escol das tropas, encarregando um dos seus legados, com o resto do exército, de barrar o caminho a Aníbal. Marcha rapidamente para norte e junta-se a Lívio. Os romanos concentraram deste modo 40.000 homens no ager Gallicus.

Asdrúbal, sabendo ter pela frente forças superiores em número, procura refugiar-se na Úmbria, mas em vão o tentará. Os romanos alcançam-no sobre o rio Metauro e obrigam-no a aceitar batalha. O exército púnico é destruído e Asdrúbal morre no combate.

Os romanos cortaram-lhe a cabeça e, já de regresso à Apúlia, atiraram-na às guardas avançadas cartaginesas.

Esta batalha decidiu da sorte da campanha em Itália. Aníbal retira para o Brútio, onde as suas possibilidades de manobra serão cada vez mais limitadas pelo crescente cerco das legiões romanas.

 

O TERMO DA GUERRA NAS ESPANHAS. OS PREPARATIVOS DA EXPEDIÇÃO A ÁFRICA.

 

Perto de Silpia, sobre o curso inferior do Bétis, Cipião derrota em 207 os exércitos reunidos de Magão e de Asdrúbal, filho de Giscão.

Magão retira-se para Cádis com os restos das tropas, ali se mantendo algum tempo. Enquanto isso, Cipião submetia a Hispania meridional e debelava as rebeliões de algumas tribos locais e de guarnições romanas, sublevadas pela falta de pagamento do soldo.

Vendo que o sítio a Cádis era inevitável, Magão embarca as tropas e tenta apoderar-se de Nova Cartago num ataque de surpresa, que fracassa. Magão regressa a Cádis, mas a cidade já iniciara negociações com vista à rendição e recusa-lhe abrigo. O púnico teve de fazer rumo às Baleares, enquanto a cidade abria as portas aos romanos.

Assim, no Outono de 206, os cartagineses renunciavam por completo à Ibéria.

 

Cipião regressa então a Itália e apresenta a sua candidatura a cônsul para 205. É eleito por unanimidade. O seu colega foi Públio Licínio Crasso, cuja dignidade de Pontífice Máximo o impedia de abandonar a Itália.

Uma vez cônsul, Cipião propõe de imediato o desembarque em África, para dar o golpe definitivo no inimigo e acabar com a guerra. O senado, com Fábio Máximo à cabeça, recusa este plano.

No entanto ser-lhe-á atribuída a Sicília como província do proconsulado (que assumiria no termo do seu ano consular), com autorização para atacar em África se o julgasse oportuno. São-lhe atribuídas duas legiões de tropas seleccionadas entre as guarnições da Sicília e é-lhe concedido o direito de recrutar voluntários. As cidades da Etrúria e da Úmbria pagaram a construção de 30 naves e o equipamento de 7.000 voluntários.

 

Por esta época Magão faz um último intento desesperado de vir em auxílio do irmão. Com 30 naves e um exército de desembarque de 14.000 homens, desde as Baleares, apodera-se por surpresa de Genua (Génova), na Ligúria, e estabelece ligação com os gauleses. Mas desta vez os púnicos não obterão qualquer ajuda.

Uma tentativa de ir mais além da Ligúria termina em fracasso, com o próprio Magão a ser gravemente ferido (ano de 203).

 

CIPIÃO EM ÁFRICA. A BATALHA DE ZAMA.

 

Na Primavera de 204 Cipião zarpa de Lilibeu com 50 grandes naves de guerra e um exército de 25.000 homens, desembarcando sem oposição nas vizinhanças de Utica. Estabelece ali o seu acampamento.

Siface era agora um aliado dos púnicos. Em compensação, Cipião consegue o apoio de Masinissa, dos númidas orientais. Nos primeiros tempos Masinissa apenas pôde fornecer ao aliado um pequeno esquadrão de ginetes, pois que o seu reclamado reino estava sob o poder de Siface.

Cipião tenta tomar Útica, mas os exércitos reunidos de Siface e Asdrúbal, filho de Giscão, obrigam-no a levantar o cerco. Estabelece então quartéis de Inverno numa península nas cercanias da cidade.

Os cartagineses e os númidas levantaram os seus campos fortificados a cerca de 10 km do acampamento romano.

As operações militares interrompem-se. Os púnicos propõem que se iniciem as negociações de paz, com Siface a actuar como intermediário. Cipião finge estar de acordo e, durante os tratos, informa-se em detalhe, pelos seus enviados, sobre as posições e as características dos acampamentos dos adversários.

Na Primavera de 203 prepara-se para atacar por surpresa. Procurando alijar as suas responsabilidades pela planeada violação com perfídia das tréguas, manda dizer a Siface que, se bem que ele (Cipião) desejasse a conclusão da paz e estivesse disposto a aceitar as condições propostas, o seu conselho de guerra, no entanto, não era da mesma opinião.

Nessa mesma noite metade do exército, ao mando de Caio Lélio e de Masinissa, ataca o acampamento númida e incendeia-lhe as choças de palha e cana. No pânico, muitos númidas morrem entre as chamas e muitos outros às mãos dos romanos. Cipião, com a outra metade do exército, investe sobre o acampamento cartaginês. Os púnicos retiram-se, perdendo muitos homens.

Este acto ignominioso alterou radicalmente a situação a favor dos romanos, que de novo põem sítio a Útica.

 

Siface e Asdrúbal reúnem os restos dos seus exércitos, reforçam-nos com mercenários celtiberos e passam à ofensiva. A batalha dá-se nos chamados “Campos Magnos”, a alguns dias de marcha ao sudoeste de Útica. Púnicos e númidas são derrotados. Asdrúbal retira-se para Cartago e Siface para a Numídia.

Cipião tratou de submeter as cidades líbias, enquanto Lélio e Masinissa se lançavam na perseguição de Siface. Este, de novo derrotado, é aprisionado, e Masinissa torna-se rei.

 

Após todos estes fracassos o governo cartaginês pede a paz. No Outono de 203 é concluído um armistício e iniciam-se as negociações. Ao mesmo tempo, é enviada a Aníbal a ordem de abandonar a Itália. Ordens similares são enviadas a Magão (que terá morrido durante a viagem de regresso).

As negociações culminaram na assinatura de um acordo de paz provisório. Cartago continuaria a ser um Estado independente, mas perdia todas as suas possessões fora de África; pagava um avultado tributo de guerra e devia entregar quase todas as suas naves de guerra. Reconhecia Masinissa como soberano na Numídia.

O texto do tratado foi levado a Roma por uma delegação cartaginesa, tendo sido aprovado pelo senado e confirmado pela assembleia popular.

 

Entretanto, com a chegada de Aníbal e das tropas de Magão, o partido militar ganha de novo ascendência e o senado púnico, mudando de opinião, decide-se pela continuação da guerra. Alguns navios romanos de transporte de provisões, que uma tempestade obrigara a buscar refúgio perto de Túnis, são atacados por uma multidão de populares.

Cipião envia a Cartago uma embaixada em protesto, que não obtém qualquer resposta. No seu regresso os embaixadores são atacados por naves cartaginesas.

Os romanos entram em território cartaginês e Aníbal, desde Adrumeto, na costa oriental, marcha-lhes ao encontro. Os dois exércitos enfrentaram-se nas proximidades da cidade de Zama (ano de 202).

Cipião e Aníbal ainda se encontraram antes da batalha, numa última tentativa de chegarem a acordo sobre as condições de paz.

 

Cada um dos adversários dispunha de cerca de 40.000 homens, tendo os romanos superioridade em cavalaria, dado que Masinissa intervinha com 4.000 ginetes (e 6.000 infantes). Aníbal só dispunha de 2.000 ginetes númidas.

O núcleo da infantaria púnica formavam-no os veteranos de Aníbal, que haviam feito toda a campanha de Itália. Por ordem de valor seguiam-se os mercenários de Magão. Os líbios e a milícia cidadã eram os contingentes mais débeis.

Na frente Aníbal dispôs 80 elefantes. Na primeira linha, os mercenários. Na segunda, os líbios e a milícia. Aos veteranos manteve-os como reserva.

A formação de Cipião foi a habitual, em três linhas, porém os manípulos não se dispunham em tabuleiro, mas um atrás do outro, de modo a deixarem passagem aos elefantes. Nos intervalos dos manípulos colocou a infantaria ligeira. Os flancos eram cobertos por fortes esquadrões de cavalaria ao mando de Masinissa e de Lélio.

 

Políbio (XV, 9): «Os cartagineses estavam a lutar pela própria existência e pelo domínio da Líbia, os romanos pelo domínio do mundo».

 

Nos primeiros momentos da batalha, alguns dos elefantes, espantados pelo barulho das trombetas, lançam-se sobre a sua própria cavalaria. Outros são feridos pela infantaria ligeira ao passarem pelos corredores entre os manípulos, não havendo causado dano de maior à infantaria pesada. Aproveitando a confusão criada pelos elefantes, Lélio e Masinissa atacam e põem em fuga a cavalaria inimiga.

Ao mesmo tempo entrava em acção a infantaria pesada romana, com os mercenários púnicos a aguentarem-lhe o choque. Mas a segunda linha púnica retrocede sem ter sequer chegado a combater e obriga a primeira a recuar. Entram então na liça os veteranos, que resistem à pressão dos manípulos.

A sorte da batalha permaneceu indecisa até que os ginetes dos romanos, regressando da perseguição à cavalaria púnica, atacaram os veteranos pela retaguarda.

Os púnicos sofrem 10.000 mortos e outros tantos prisioneiros. As perdas romanas foram consideravelmente inferiores. Aníbal consegue refugiar-se em Adrumetum com um pequeno grupo de cavaleiros.

 

O TERMO DA GUERRA.

 

As condições exigidas pelos vencedores são agora muito mais duras. Cartago ficava privada do direito de declarar a guerra sem o consentimento do povo romano. A Masinissa, como único soberano númida, eram entregues todas as antigas possessões dos seus antepassados «naqueles limites que ele próprio havia de indicar». Os cartagineses foram também obrigados a compensar todos os danos provocados desde a ruptura do armistício em 303; a entregar todos os prisioneiros e os desertores; quase todas as suas naves e os elefantes, conservando apenas dez trirremes. Cartago tinha de manter as tropas expedicionárias romanas por três meses e de pagar em cinquenta anos uma contribuição de guerra de 10.000 talentos (quotas anuais de 200 talentos). Os romanos exigiram ainda 100 reféns, a serem indicados pelo próprio Cipião.

Aprovado pelo senado cartaginês, o tratado é logo depois ratificado em Roma, em 201.

Cipião é celebrado com uma grande festa de triunfo. É então que começam a chamar-lhe “o Africano”.

 

Com a derrota de Cartago, agora reduzida a um Estado de segundo plano, Roma tornara-se a mais poderosa das potências do Mediterrâneo.

Em Itália a guerra devastara completamente as regiões meridionais. Na Itália central a destruição fora consideravelmente menor, contudo, também a sua pequena economia agrícola sairá muito debilitada dos quinze anos de conflito.

Roma reforçara o seu poder sobre a federação itálica. Algumas cidades são privadas da sua autonomia e vêm as suas terras confiscadas. Muitas tribos da Itália do sul são reduzidas à sujeição, sem quaisquer direitos. Em lugar do antigo serviço nas tropas aliadas, agora têm de cumprir tarefas servis, sob a férula dos chefes militares e magistrados que governavam as províncias.

A reconquista da Cisalpina ter-se-á iniciado já nos finais da segunda guerra púnica. Porém, aquando da segunda guerra macedónica, os gauleses ainda passarão à ofensiva, conseguindo mesmo arrasar Placentia em 198.

Nesse ano de 198 os boios e os ínsubres são definitivamente submetidos. Muitos são massacrados, outros fogem. Nos seus territórios surgem colónias romanas: Bononia, Parma, etc.

Quase na mesma época são submetidos os lígures.

 

Em Roma a guerra levara ao enfraquecimento do partido democrático, reforçando a nobreza e o seu senado. A assembleia popular limitava-se a confirmar as decisões do senado, a maioria das quais, na forma de senatus consultum, não carecia sequer dessa confirmação.

A guerra foi dirigida pelo senado, valendo-se na sua condução dos altos magistrados cum imperio. A autoridade destes últimos foi crescendo no decurso dos longos anos de guerra. A regra do exercício anual do consulado começa a sofrer distorções, com a mesma pessoa a ocupar o consulado durante dois anos consecutivos ou a ser de novo eleita após um curto intervalo de tempo. Fábio Máximo foi cônsul nos anos de 215, 214 e 209; Cláudio Marcelo em 215, 214, 210 e 208. Vai-se consolidando o costume da prorrogação dos poderes dos comandantes, nomeando-os procônsules ou propretores (Cipião nas Espanhas; Marcelo na Sicília). Aumentou assim o número de comandantes, uma necessidade real imposta pelas múltiplas frentes de guerra. Porém, como consequência, cresceu o poder pessoal dos altos comandantes militares em detrimento do princípio colegial. Surge pois, em germe, o princípio da ditadura militar permanente: Cipião o Africano, durante dez anos, será de facto o comandante supremo. Em contraste diminuiu em muito a autoridade dos magistrados sine imperio.

 

No campo militar, Cipião introduz o uso da espada espanhola de fio e ponta, que se generalizou a todo o exército romano.

A táctica militar romana desenvolve-se, em grande parte com o que aprenderam de Aníbal: o ataque lateral, as acções em massa da cavalaria. Verificaram-se também progressos na arte do comando das grandes formações militares, na coordenação das acções em distintas frentes (trabalho de estado-maior, diríamos hoje), bem como nos serviços do abastecimento.

 

(Notas sucintas colhidas em Diakov:)

 

Já vimos que em 268 Roma adoptara o estalão prata. O denarius de prata passou a ser a unidade monetária, com um valor correspondente ao da dracma grega. Era fabricado nos subterrâneos de Juno Moneta (= “a Avisadora”; epíteto de Juno por ter prevenido os romanos da iminência de um tremor de terra).

 

Fundada no século IX, Kart-hadtha (= “a Cidade nova”) erguia-se numa península que um istmo ligava ao continente.

O seu porto possuía uma doca exterior, para os navios mercantes, e uma interior, em círculo, capaz de acolher 220 naves de guerra com os respectivos arsenais.

Políbio e Estrabão estimaram a população da cidade em 700.000 almas. Segundo Políbio, era a cidade mais rica do mundo.

 

Quando tomou Sagunto, Aníbal vendeu todos os habitantes sobreviventes como escravos.

 

No censo de 220 os cives romani eram cerca de 270.000. Depois da guerra, no censo de 207, apenas 137.108.

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