Capítulo XXV - A queda da República

CÉSAR E POMPEU.

 

Reza a tradição que César, ao ser informado por António e Cássio do que se passara em Roma, resolve cruzar o Rubicão, a fronteira entre a sua província (Cisalpina) e a Itália, com a XIII legião e tropas auxiliares. Mas é bem possível que já houvesse passado o rio antes da data de 7 de Janeiro, e que os dois tribunos da plebe o hajam encontrado em Ariminum.

Marcha rapidamente sobre Roma, ganhando a adesão, uma após outra, das cidades da Úmbria e da Etrúria.

A 14 de Janeiro sabe-se na capital que César vem a caminho. Ainda que já tivessem começado os preparativos para a guerra, Pompeio não dispunha de tropas que pudessem enfrentar as de César. Por isso, a 18 de Janeiro, Pompeio e os dois cônsules, Lúcio Cornélio Lêntulo e Caio Cláudio Marcelo, seguidos pela maioria dos senadores, põem-se em fuga. A sua precipitação foi tal que deixaram para trás o Tesouro do Estado, limitando-se a selá-lo.

Pompeio, com a retirada para a Hispania cortada pelo adversário, que vinha do norte, decide seguir para a península balcânica. César persegue-o e alcança-o em Brundisium. Sitia a cidade, mas não pôde impedir Pompeio de zarpar com as suas tropas para a Grécia.

 

A frota estava nas mãos dos pompeianos, que dispunham ainda de sete legiões nas Espanhas, sob o mando de Lúcio Afrânio, Marco Petreio e Marco Terêncio Varrão. Seguir Pompeio à península balcânica significava deixar a Itália à mercê de um ataque dessas legiões. Era necessário, antes do mais, tomar as Espanhas.

 

César regressa a Roma, onde se logo se apodera do tesouro do erário. Permanecerá na cidade por alguns dias. Trata generosamente os vencidos, libertando os prisioneiros sem lhes impor qualquer condição. Os seus soldados comportam-se com absoluta disciplina. Nenhuma das vaticinadas atrocidades propaladas pelos pompeianos se verifica. A vida social rapidamente retoma a normalidade, com uma parte dos senadores a regressar a Roma. As administrações do Estado reentram em funcionamento. O pretor Marco Emílio Lépido (filho do cônsul de 78) é encarregado da administração provisória da capital.

 

Na rota para as Espanhas, César detém-se em Massilia, que se havia declarado neutral no conflito. Deixando três legiões a assediar a cidade, prossegue viagem.

Na Hispania os seus legados já haviam entrado em acção. Na cidade de Ilerda (actual Lérida), a norte do Ebro, capitula uma parte considerável das forças de Pompeio. Também logo se rendem as forças da Hispania Ulterior. A campanha de César na Ibéria foi levada a cabo em apenas 40 dias (Julho e Agosto de 49). As tropas de Pompeu foram em parte destruídas, em parte entraram ao serviço de César, permanecendo na península.

Marselha rendeu-se no seu regresso a Itália; César puniu-a com a perda da independência e de uma grande parte do seu território (pouco tempo depois, a cidade recuperou...a sua independência).

 

A situação nas restantes províncias apresentava-se diversa. A Sicília e a Sardenha haviam aderido a Caio Júlio. Em Africa, o rei númida Juba apoiava os pompeianos que dominavam a província. Quando Curião ali desembarca com duas legiões, é derrotado e morto. A Africa permanecerá por algum tempo um baluarte dos pompeianos.

 

César regressa a Roma em Novembro de 49. Havia sido proclamado ditador, mas vai promover as eleições consulares para 48, renunciando aos poderes extraordinários. São eleitos cônsules, o próprio César e um aristocrata “condescendente”, Públio Servílio. Esta eleição visava legitimar-lhe o poder, com base nos acordos de Luca.

Durante a sua breve estadia em Roma toma várias medidas a favor da população mais pobre e promulga uma amnistia geral para os exilados.

 

Entretanto, na Macedónia, Pompeio reunia 9 legiões romanas e numerosos contingentes de auxiliares dos aliados orientais. Muitos emigrados buscam refúgio no país. Em Thessalonica (actual Salónica) forma-se um senado pompeiano de 200 membros. A frota dos “republicanos” domina o Adriático e toda a costa ocidental da península balcânica.

 

Nos começos de Janeiro de 48, com 6 legiões incompletas e algumas centenas de ginetes, César zarpa de Brundisium e ruma a Apolónia. A frota de Pompeio não lhe deu combate.

Ao saber do desembarque das forças do adversário, Pompeius deixa a Macedónia e vem estabelecer em Dirráquio (Dyrrachium; actual Durazzo, na Albânia; na costa, a norte de Apolónia) a sua base principal.

Os adversários, apesar da proximidade dos seus campos, passam o Inverno em inactividade. César, porque não dispunha de forças em número suficiente. Pompeio, porque não se quis arriscar a um assalto.

Na Primavera de 48, com a chegada dos reforços enviados de Itália por Marco António, César decide-se a oferecer batalha, mas os pompeianos não a aceitam. Caio Júlio tenta então bloquear-lhes o acampamento e fracassa. As tropas de Pompeio, rompendo-lhe as linhas, infligem-lhe uma derrota. Porém não tentam explorar esse êxito, e permitem a César a retirada para Apolónia.

 

César decide então marchar para a Tessália, tratando de fazer junção com os reforços vindos de Itália por terra e com as tropas que ali enviara a recolher víveres. Fá-lo com a sua costumeira rapidez. Os pompeianos seguem-no com lentidão, não impedindo a reunião das forças adversárias. Pensavam que a derrota de Dirráquio havia retirado a César qualquer hipótese de acção ofensiva.

 

Em Pharsalia (arredores da cidade de Farsalo), na Tessália meridional, dá-se a 9 de Agosto de 48 a batalha. Segundo César, o seu adversário dispunha do dobro das forças. Essa proporção será provavelmente exagerada, mas é certo que Pompeio dispunha de superioridade numérica, em particular no que respeitava a forças de cavalaria.

No flanco direito, atrás das linhas dos seus cavaleiros, César colocou uma divisão de infantaria de escol. Assim, quando os ginetes adversários, depois de lhe terem destroçado a cavalaria, tentaram penetrar pelo flanco direito, encontraram a infantaria a cerrar-lhes caminho e, surpreendidos, retiraram.

As forças de César passam então ao ataque sobre toda a frente. Pompeio, desmoralizado, abandona as suas tropas e foge por mar. Quase metade dos seus homens tomba no campo de batalha. No dia seguinte os restantes rendem-se.

 

Pompeio dirige-se primeiro a Lesbos. Dali, com a sua esposa e o seu jovem filho Sexto, após um período de indecisão, ruma ao Egipto.

Este país era então palco de lutas internas pela sucessão dinástica. Em 51 falecera Ptolemeu XI Auleta, que muito devia a Pompeio. Haviam-lhe sucedido no trono os seus filhos, a jovem Cleopatra, de dezassete anos, e o seu irmão e marido, Ptolemeu XII Dionísio, de nove ou dez anos de idade. Os cortesãos que sustentavam Ptolemeu eram os vencedores do momento. Cleópatra havia-se exilado na Síria, onde procurava juntar forças para voltar à refrega.

O exército egípcio e a corte de Ptolemeu encontravam-se nos arredores de Pelúsio (Pelusium), na costa oriental do país. Para ali se dirigiu Pompeu, que pede autorização para desembarcar. Os tutores de Ptolomeu concedem-lha. Porém, mal o romano põe o pé em terra, diante dos olhos da mulher e do filho, assassinam-no (o que terá acontecido, segundo o calendário romano, a 28 de Setembro de 48; Pompeu teria então cerca de 58 anos).

 

A GUERRA ALEXANDRINA.

 

César havia seguido Pompeu até ao Egipto. Quando ali chega apresentam-lhe numa bandeja a cabeça do adversário (César mandou executar os assassinos de Pompeu, fez-lhe enterrar os despojos com honras militares e ergueu-lhe um mausoléu).

Desembarcado em Alexandria com um pequeno contingente, pretextando querer recuperar as dívidas a Roma de Ptolomeu XI Auleta, exige do governo egípcio copiosas somas, que lhe são entregues. Intervém seguidamente na questão dinástica, na qualidade de juiz arbitral, “reconciliando” os desavindos irmãos e permitindo, assim, o retorno de Cleópatra ao trono egípcio.

A revolta estala em Outubro de 48. César, com o seu pequeno contingente e Cleópatra, é cercado no palácio real pelo exército de Ptolemeu e o povo de Alexandria. Os reforços que pediu às províncias orientais irão tardar. Durante seis meses César permanecerá sob cerco. Havendo mandado incendiar as naves e as instalações do porto, para que não caíssem em poder do inimigo, provoca involuntariamente o incêndio da famosa biblioteca de Alexandria.

Por fim, na Primavera de 47, chegam os reforços. César consegue abrir uma brecha nas linhas de sítio e junta-se-lhes.

Á beira do delta do Nilo, os romanos derrotam o exército egípcio, aniquilando-o quase por completo. Ptolemeu XII afoga-se quando tentava a fuga. A 27 de Março de 47 César reentra em Alexandria. Entrega então o governo do Egipto a Cleópatra e ao seu irmão mais novo, Ptolemeu XIII.

 

A LUTA CONTRA OS POMPEIANOS.

 

César já se encontrava no Egipto há cerca de sete meses (nesse ano de 47, nascerá Cesarião, filho de César e Cleópatra; em 30 Cesarião será morto por ordem de Octaviano). Entretanto os “republicanos” reforçavam as suas forças. Ao mesmo tempo, a situação em Roma, na Itália e nas províncias orientais degrada-se progressivamente.

 

O inimigo no Oriente era Pharnaces, o filho de Mitridates, que havia iniciado a ofensiva já antes da batalha de Farsália, tomando Sinope, a antiga capital do Ponto (talvez com a aquiescência de Pompeu). Durante a guerra alexandrina ocupara a Arménia ocidental e atacara a Capadócia. Depois de haver derrotado Gneu Domício Calvino, o lugar-tenente de César na Asia, Fárnaces apoderara-se também da Bitínia (eis a razão por que os reforços pedidos por César em Alexandria demoraram tanto tempo a chegar).

 

César deixa o Egipto e, após uma breve estadia na Síria, marcha contra Fárnaces. Travam batalha a 2 de Agosto de 47, nos arredores de Zela, no nordeste da Ásia Menor. Derrotado, Pharnaces abandona o Ponto. A campanha de César havia durado apenas cinco dias (é então que escreve a um amigo em Roma: «veni, vidi, vinci»; na versão mais corrente, não se tratou de uma carta particular, mas do próprio relatório, em três palavras, de César  ao governo romano).

 

Se bem que haja premiado generosamente os seus aliados, César não introduziu mudanças substanciais no estado de coisas deixado por Pompeu no Oriente.

Apressa-se a regressar a Roma, onde chega em Setembro de 47.

 

A Itália sofria então gravíssima depressão económica, provocada pela guerra civil, e a consequente instabilidade geral.

Já nos finais de 49 César havia tomado algumas medidas para aliviar a situação dos devedores. Em 48, o pretor Marco Célio Rufo, um seu partidário, propõe uma moratória de seis anos no pagamento das dívidas e, na sua qualidade de pretor, começa a intervir a favor dos devedores nas causas judiciais que os credores lhes movem. Os usurários, descontentes, provocam desordens. Públio Servílio, colega de César no consulado, faz o senado promulgar um decreto contra Rufo, proibindo-lhe o exercício da magistratura.

Rufo junta-se então a Milão, que por sua conta e risco havia regressado do exílio (fora excluído da amnistia de 49). Os dois procuram provocar uma revolta na Itália do sul, mas, fracassada a tentativa, ambos nela perecem.

 

Em 47 não houve magistrados ordinários, porque, após Farsália, César havia sido de novo proclamado ditador e, na sua ausência, não se podia proceder às eleições. A Itália era governada à época por Marco António, na qualidade de magister equitum. Públio Cornélio Dolabela, tribuno do povo de 47, retoma a proposta de moratória de Rufo, suscitando novas desordens (desta vez, dos devedores). Marco António reprime-as pela força das armas, mas sem conseguir fazer cessar a agitação.

 

Após a derrota na Tessália, todos os chefes pompeianos haviam fugido para Africa: Quinto Cecílio Metelo Cipião, o sogro de Pompeu; Petreio e Afrânio, seus ex lugar-tenentes nas Espanhas; Tito Labieno, que se juntara a Pompeu logo no início da guerra civil; Gneu e Sexto Pompeu, os seus filhos; Catão o Jovem, o “ideólogo” do movimento e muitos outros. Em Útica havia-se reconstituído o senado pompeiano, que se reclamava como governo romano legítimo. Ali se reuniram ainda os restos do derrotado exército de Pompeu e das antigas guarnições da península balcânica.

 

Já após a chegada de César, amotinam-se na Campânia as legiões ali concentradas para a expedição a África. Eram compostas na sua grande maioria por antigos soldados de César. A cómoda vida de guarnição havia-os desmoralizado e o seu comandante-em-chefe há muito que estava ausente. Quando recebem ordem de embarque para a Sicília os soldados revoltam-se, matam alguns oficiais que tentam opor-se-lhes e tomam o caminho de Roma.

Porém, antes que pudessem chegar à capital, César veio-lhes ao encontro e os ânimos de imediato se acalmaram. O motim extinguiu-se sem que houvesse necessidade de recorrer à força.

 

Também em Roma se restabeleceu a ordem, com César a conceder a dilação dos prazos para o pagamento das dívidas e dos arrendamentos das casas. Tratando de se assegurar do apoio da plebe, desaprovou António pelas medidas repressivas que havia tomado. São eleitos os funcionários ordinários para o que ainda restava desse ano de 47.

 

Nos finais de 47 César desembarca em África com duas legiões. Esperando reforços, sofre os ataques da cavalaria de Juba e de Metelo. Defende-se fazendo construir poderosas fortificações. Por fim chegam-lhe mais contingentes e, a 6 de Fevereiro de 46, nos arredores de Thapsos (ou Thapsus), na costa sudeste da província africana, fere-se a batalha.

A infantaria de César ataca os adversários e entra no seu acampamento. Os pompeianos depõem as armas, clamando por piedade, mas os soldados a ninguém pouparam, não havendo feito qualquer prisioneiro.

Simultaneamente, um outro exército de César derrotava Juba e ocupava a Numídia.

 

A maior parte dos chefes “republicanos” havia perecido: Cecílio Metelo, Juba, Petreio, Afrânio. Catão o Jovem suicida-se em Útica após a batalha. Só Labieno e os dois filhos de Pompeu lograram alcançar a Hispania.

 

A Numídia é transformada em província e recebe o nome de “Nova África”. Ainda no ano de 46, César regressa a Roma a 26 de Julho de 46. Celebra então um quádruplo triunfo, pelas suas vitórias na Gália, Egipto, Ponto e Numídia. É então que Vercingetorige, há já seis anos no cárcere, morre no suplício, depois de ser exibido no desfile do triunfo.

 

Nas guarnições espanholas havia muitos partidários de Pompeu. Reinava também a agitação entre os lusitanos e outras tribos celtiberas.

Os dois irmãos Pompeu apoderam-se das Baleares e logo desembarcam no continente, juntando-se-lhes aí os restos do seu exército de Africa. O governador da Ulterior é expulso, com os lusitanos e outros povos a engrossarem as fileiras dos pompeianos.

Os lugar-tenentes de César nas Espanhas não estavam em condições de resistir à concentração de forças adversárias. Assim, nos finais de 46, o próprio César parte para a Ibéria, acompanhado pelas suas melhores tropas.

A 17 de Março de 45, junto à cidade de Munda (na Bética), oito legiões de César derrotam treze legiões inimigas. Ali morreram quase todos os derradeiros chefes dos pompeianos, só escapando Sexto Pompeu, que consegue obter refúgio na Iberia setentrional.

Em Setembro de 45, regressando a Roma, César celebra o seu quinto triunfo.

 

Segundo Apiano (II; 102), César «mandou fazer um censo de todos os cidadãos de Roma...e a população estava reduzida a metade do que fora antes da guerra, de tal maneira a República sofrera com as dissensões intestinas...»

 

DITADURA E REFORMAS DE CÉSAR.

 

César era apoiado pelo exército. Pelas dezenas de milhares de veteranos que haviam recebido terras nas províncias (onde foram 80.000 os beneficiados) e na Itália. Pela ordem equestre, que enriqueceu. E gozava das simpatias da plebe citadina.

Por outro lado, toda a oposição organizada fora liquidada.

 

No plano jurídico, César seguiu as pisadas de Sylla, tanto na “base jurídica” da ditadura, que assentava na ideia da “soberania do povo” (= “o povo quer o ditador”), como na sua configuração concreta.

 

A primeira vez que é proclamado ditador, em Novembro de 49, assume o cargo com carácter temporário, segundo os usos da antiga República. Na ausência de ambos os cônsules de 49, é ele quem dirige as eleições consulares para 48.

Porém, após a batalha de Farsália, surge já investido de poderes ditatoriais por tempo indeterminado. Não se conhecem as circunstâncias em que isso se deu. Apenas se sabe que nomeou Marco António seu magister equitum e que este governou a Itália na sua ausência (provavelmente terá sido nomeado em consequência da “crise Rufo – Milão”, e com a anuência do “prestável” colega cônsul Públio Servílio).

Nesse ano de 48 (na sua ausência) são-lhe atribuídos os poderes de “tribuno vitalício” (a tribunicia potestas vitalícia era “coisa” inexistente), tornando a sua pessoa inviolável e conferindo-lhe a máxima autoridade no campo civil (continuaram a eleger-se, no número habitual, os tribunos da plebe agora “ordinários”, ou seja, “não vitalícios”). Simultaneamente o “senado” (melhor dizendo, o que restava desse órgão) confere-lhe o consulado por 5 anos (portanto, César foi ditador e cônsul ao mesmo tempo; na verdade, tratou-se apenas de uma pequena inovação, no espírito do “videant consules...” ou de Pompeio “cônsul sem colega”).

 

Em 46, após a batalha de Tapso, a ditadura é declarada magistratura “ordinária” anual, mas César é nela investido para os 10 anos seguintes. Em 45, “simplificando” ainda mais as “coisas”, é-lhe atribuída por toda a vida (dictator perpetuus).

César dispunha ainda dos poderes de censor e do direito de recomendar ao povo os candidatos às eleições. Completando o “ramalhete”, era também pontifex maximus (= “sumo pontífice”), portanto, o chefe da organização religiosa romana.

Foi-lhe atribuído o título honorífico de «pai da pátria» e a sua efígie foi gravada nas moedas.

 

Assim, o poder substancialmente monárquico de César resultou, juridicamente, da concentração na sua pessoa de todas as altas magistraturas da República.

O título de imperador passou a integrar-lhe o nome: imperator Caius Julius Caesar. Não era um mero sobrenome. César, os seus contemporâneos, os seus sucessores, começam a atribuir a este termo o sentido de “pessoa investida dos poderes supremos”, dos poderes militares em particular. Como imperator, César era, já não um general vitorioso, mas o depositário do imperium.

O título (ou nome) passou aos seus sucessores com esse significado, servindo de base à formação do conceito de Império como monarquia militar.

 

Também no campo das reformas constitucionais segue na peugada de Sulla. Eleva o número de senadores para 900, agregando-lhe oficiais do seu exército, libertos e outras pessoas de origem “duvidosa”. Procura assim, e por todos os outros meios ao seu alcance, debilitar a autoridade da aristocracia senatorial, tentando transformar o senado num seu conselho de Estado, de mero papel consultivo.

O número de questores sobe de vinte para quarenta. Os edis, que eram quatro, passam a seis. Os pretores, de oito para dezasseis. Não se tratou de uma medida especialmente destinada a ampliar a base de “recrutamento” para o senado, mas de um reforço do aparelho administrativo da velha República, tal como já Sila (= Sylla = Sulla) o fizera, procurando responder às necessidades de Roma potência “mundial”.

César tentava criar desse modo, ainda que dentro dos limites da República (eleição dos funcionários), um aparelho burocrático. No que respeita aos questores, edis e pretores, César, de facto, nomeava metade desses magistrados, dado que recebera o poder de “recomendar” (aos comícios) candidatos para tais cargos.

A assembleia popular manteve as suas funções, mas, regra geral, foi obediente à vontade de César. Algumas tentativas de protesto contra actos do ditador, protagonizadas por tribunos da plebe, foram “debeladas” de imediato, com a própria assembleia a suspender os “reclamantes” do exercício dos seus cargos.

 

São fundadas muitas colónias nas províncias. Suetónio refere (“César”; 42) que 80.000 cidadãos romanos se terão disseminado por essas colónias no exterior de Itália. Em Cartago, Corinto, na Gália, Hispania meridional, Macedónia, ao longo da costa ocidental do Ponto, etc.

A colonização nas províncias, mais que suprir a falta de terras livres na Itália, visou a romanização desses países.

O mesmo propósito foi prosseguido através de uma mais ampla concessão dos direitos de cidadania, que se estendeu, como direito pleno, à Gália Transpadana e a algumas cidades das Espanhas. Muitas cidades da Gália Narbonesa, das Espanhas, Sicília e África recebem, por sua vez, o direito de cidades latinas.

 

A legislação de repressão da concussão, que fora aprovada já em 59, só começou a ser aplicada com eficácia sob a ditadura de César.

No campo dos impostos, em muitas províncias, a sua arrecadação é devolvida às comunidades, mas sob a vigilância dos agentes de César. O sistema da concessão da cobrança por contrato manteve-se para os impostos aduaneiros, para os arrendamentos das terras estaduais e alguns outros ingressos fiscais. Muitas comunidades são eximidas em parte ou por completo do pagamento de impostos.

Os governadores provinciais perdem a sua autoridade militar, mantendo apenas a administração civil e a justiça, sob a tutela de César. As tropas destacadas nas províncias ficam ao mando de lugar-tenentes do ditador, designados com o título de propretores.

 

A organização municipal, iniciada por Sila, foi prosseguida por César. Chegaram até nós fragmentos da sua lei sobre esta matéria, a lex Julia municipalis. Há nela alguns artigos referentes à própria Roma, que assim começa a ser considerada apenas como uma das muitas cidades de Itália, e já não como a cidade-Estado.

 

Entre muitas outras medidas de César são de assinalar a introdução na circulação de uma nova moeda de ouro (o aureus) e a reforma do calendário.

 

Na época de César, a diferença entre o ano civil e o ano astronómico chegou a ser de cerca de noventa dias. Com a audácia e o desprezo pela tradição que lhe eram característicos, César empreende a reforma em 46, com base no calendário solar egípcio (a reforma foi dirigida por um astrónomo alexandrino). O ano passa a compor-se de 365 dias e ¼. Os meses, à excepção de Fevereiro, que manteve os 28 dias do velho ciclo lunar, tiveram desde então, alternadamente, 30 e 31 dias. O calendário juliano manteve-se em uso na Europa ocidental até finais do século XVI. Na Rússia, até à Revolução de Outubro (1917).

 

César promoveu em Roma uma intensa actividade de edificação pública. O forum Julium, um teatro, os templos de Venus genetrix e de Marte, etc. Deu atenção ao embelezamento da cidade e à actividade cultural (construção da biblioteca pública).

Sempre apaixonado pela engenharia, havia projectado a abertura de um canal no istmo de Corinto, a ampliação de Óstia, a drenagem dos pântanos pontinos e do Lago Fúcino.

 

A MORTE DE CÉSAR.

 

César, que iniciara a carreira política como democrático, manteve durante muito tempo os seus vínculos com os populares. Porém, à medida que a sua autoridade se consolidava, César foi-se afastando cada vez mais desse “partido”.

Uma vez ditador, César reduziu de 300.000 para 150.000 o número de beneficiários das distribuições gratuitas de pão. Fez encerrar os colégios populares, que Clódio havia restabelecido, considerando-os um foco de tendências revolucionárias. Retira os tribunos do erário das listas de juízes e distribui, em igual medida, os cargos judiciais apenas por senadores e cavaleiros.

Se os democráticos tinham motivos para estar descontentes com a ditadura de César, o desagrado dos equites não era menor. Haviam perdido grande parte dos contratos de concessões fiscais e a crise económica, que imputavam a César, continuava a grassar.

Reduzia-se, pois, a base social de apoio à ditadura.

Começam de novo a ganhar força as tendências republicanas. Se bem que derrotada, a oposição oligárquica republicana continuara a existir numa forma larvar, sob a capa de uma lealdade ao ditador e de uma quietude aparentes. As tendências monárquicas de César, que agora já não cuidava de esconder, terão impulsionado o renascer dessa oposição.

Acusavam-no de pretender instituir em Roma uma monarquia de tipo helenístico. E uma série de circunstâncias vieram reforçar essas imputações: a difusão da legenda de Ascanius-Iulus, filho de Eneias e fundador da estirpe Júlia; o facto de César, em relação com esse mito, se empenhar na promoção do culto de Vénus, sua “antepassada” (Afrodite-Vénus fora a mãe de Eneias, segundo a lenda); as várias tentativas dos seus partidários (entre eles, Marco António) de o coroarem com um diadema, que no entanto César repeliu.

Os democráticos, por sua vez, censuravam-lhe a política de aproximação à antiga aristocracia. César nomeou para as magistraturas muitos membros da antiga nobreza. Tratou também de restaurar, com elementos plebeus, as fileiras do patriciado, dizimadas durante as guerras civis.

Ao redor da sua pessoa foi-se formando um círculo de íntimos, uma verdadeira corte. Para os demais, César era inacessível. A sua forma de ser transformou-se, torna-se impaciente irritável. Os próprios senadores se queixavam da desconsideração com que eram tratados.

 

César havia iniciado os preparativos de uma expedição contra os partos, concentrando na península balcânica 16 legiões e 10.000 ginetes, quando se forma a conjura para o matar. Nela participaram sessenta pessoas. Antigos pompeianos a quem César havia perdoado e que haviam assumido altos cargos no governo, mas também partidários de César, descontentes com o seu comportamento e as suas tendências monárquicas. Entre os últimos, velhos companheiros de armas seus, como Décimo Júnio Bruto e Caio Trebónio. Entre os pompeianos estavam os pretores (de 44) Caio Cássio Longino e Marco Júnio Bruto, o ideólogo do movimento.

 

Marco Bruto, após a batalha de Farsália, passara ao partido do ditador, de quem se fizera íntimo. O seu interesse pela filosofia não o impediu de ser um dos mais implacáveis usurários da época.

Cássio e Bruto foram os principais organizadores da conjura.

 

Havia que executar o assassinato antes da partida de César para a expedição contra os partos. Os conspiradores fixaram-no, pois, para os idos de Março (dia 15) desse ano de 44, na sessão do senado a efectuar nesse dia.

Terão corrido na cidade vagos rumores sobre uma conjura em marcha e César tê-los-á conhecido. No entanto, nesse dia de 15 de Março, compareceu na sessão do senado, que teve lugar na chamada cúria de Pompeio. Ali foi apunhalado pelos conspiradores. No seu cadáver encontraram-se 23 feridas.

 

LUTA PELO PODER. O SEGUNDO TRIUNVIRATO.

 

Os senadores, espantados com o crime, abandonam o edifício, dispersando-se. Na cidade reina a agitação. Os conspiradores retiram-se para o Capitólio, onde passam a noite.

No dia seguinte Marco Bruto discursa perante o povo reunido, procurando justificar a morte do “tirano”. Quando acabou de falar, em resposta à sua arenga, o povo terá mantido um silêncio sepulcral.

 

Dois dias depois do assassínio, a 17 de Março, o senado volta a reunir-se. Alguns propõem que se declare César “tirano”, mas mesmo entre os conjurados há quem discorde. Considerando-lhe a ditadura como uma “tirania”, teriam de anular todas as medidas por ele tomadas. As distribuições de terras, as recompensas atribuídas, as nomeações de funcionários, etc. Por fim chegam a um compromisso, proposto por Cícero. Decretam a amnistia para os seus assassinos. Confirmam todas as resoluções de César Encarregam o cônsul Marco António de examinar os documentos que havia deixado.

 

A 19 de Março é aberto o testamento de César. Deixava a maior parte da sua fortuna ao sobrinho Caio Octávio, que adoptava. O resto era dividido pelos outros dois sobrinhos de César. Se estes não aceitassem a herança, nomeava Décimo Júnio Bruto e Marco António como seus sucessores.

Aos cidadãos mais pobres deixava, a cada um, 300 sestércios. Os magníficos jardins da sua propriedade na outra margem do Tibre eram doados à cidade, para uso público.

 

O testamento provocou enorme comoção na cidade, fazendo estalar a revolta já latente na massa popular. A 20 de Março, na cerimónia solene de cremação do cadáver de César no forum, concentra-se uma enorme multidão. As casas dos conjurados são atacadas e estes decidem-se a abandonar a cidade. O movimento popular desenvolve-se, dirigindo-se agora contra as camadas mais abastadas.

 

Em Roma o poder encontrava-se nas mãos de partidários do defunto ditador: Marco António e Dolabela como cônsules; Marco Emílio Lépido, o chefe da cavalaria.

Marco António era o chefe, de facto, da facção “cesarista”. Manteve contudo o compromisso tomado na sessão do senado de 17 de Março e, correspondendo aos desejos da velha nobreza senatorial, a instituição da ditadura é declarada para sempre abolida.

Com uma lei agrária, que seguia no fundamental a que César havia promovido, tratou de dar satisfação às aspirações dos veteranos.

 

Entretanto, após o assassinato, Sexto Pompeu, com tropas reunidas na própria Iberia, havia derrotado Asínio Polião, lugar-tenente de César, e dominava na Hispania de além Ebro.

Por intermédio de Lépido, nomeado para o governo da Hispania citerior, António tentou o compromisso com Sexto, prometendo-lhe a reabilitação civil e a devolução das propriedades paternas (Pompeius possuíra domínios imensos na Itália).

 

Nos finais do seu período consular, em Junho de 44, desejando que lhe fosse atribuída (como procônsul) a Gália, Marco António faz aprovar nos comícios uma lei sobre a outorga do governo nas províncias. Ambas as Gálias ser-lhe-iam entregues, Dolabela governaria a Síria e Décimo Bruto (a quem a Gália fora concedida ainda em vida de César) a Macedónia.

Bruto recusou-se a reconhecer a lei e no senado, capitaneada por Cícero, forma-se uma forte oposição a António.

 

Um pouco antes, em finais de Abril, aparecera um novo pretendente ao poder. Caio Octávio, sobrinho segundo de César e herdeiro de ¾ da sua fortuna.

 

Octávio nascera a 22 de Setembro de 63. À morte de César encontrava-se em Apolónia, ocupando-se dos preparativos da expedição contra os partos. Toma o nome de Caio Júlio César Octaviano ao aceitar suceder na herança de seu tio (tinha então 18 anos de idade). Cícero saudá-lo-á como “defensor da República”, mas Marco António, à chegada de Octaviano, recebe-o com frieza e sobranceria, pois que via nele um potencial rival.

 

Nos inícios de Setembro, Cícero pronuncia o primeiro discurso contra António (a primeira “filípica”, em que reclama que este seja declarado fora da lei.

Marco Bruto e Cássio, que se encontravam nos arredores de Roma, partem em Setembro (ou Outubro de 44) para o Oriente, no fito de ali reunir forças contra António.

Autorizado a isso pelo senado, Octaviano começa a recrutar tropas (os veteranos de César) e duas legiões de António passam para o seu lado.

 

Nos inícios de 43, Marco António parte para a Gália Cisalpina, tomando posse do governo da província. Décimo Bruto recusa-se a abandonar a Gália e encerra-se em Modena. António sitia-o em Abril de 43 (iniciando-se assim a chamada guerra de Mutina).

O senado envia em auxílio de Bruto os cônsules de 43, Aulo Hírcio e Caio Víbio Pansa (ambos antigos partidários de César). Octaviano, nomeado propretor e inscrito na lista dos senadores de categoria curul, devia apoiá-los.

Em frente a Modena, Marco António é derrotado, mas ambos os cônsules perecem na batalha. Declarado pelo senado inimigo da pátria, António desloca-se mais para norte (na Cisalpina) com os restos das suas tropas. O senado encarrega, não Octaviano, mas Décimo Bruto de o perseguir.

 

Anulando a decisão dos comícios, o senado procede a uma nova distribuição das províncias. A Macedónia para Marco Bruto, a Síria a Cássio. Atribui ainda o comando da frota a Sexto Pompeu.

 

Excluído do poder pelo senado, Octaviano entra em negociações, através de emissários, com António e Lépido (que governava a Hispania citerior e a Narbonense).

O senado havia ordenado a Lépido que marchasse contra António. Porém, em lugar de travarem batalha, as forças de ambos reúnem-se na Narbonense. Em consequência, Lépido é também declarado inimigo da pátria.

Octaviano, que fazia um jogo dúplice, reclama do senado recompensas para os seus soldados e o consulado para a sua pessoa. Sentindo-se forte, o senado recusou (Bruto e Cássio haviam reunido grandes forças no Oriente).

 

Dá-se então a ruptura aberta entre Octaviano e o senado. Aquele entra em Roma com as suas tropas e é proclamado cônsul no mês sextilis de 43 (depois, em memória desse sucesso, esse mês passou a ser chamado Augustus).

Pela lei de Quinto Pédio (lex Pedia), colega de consulado de Octaviano, é aberto o processo contra os assassinos de César, que são condenados e declarados inimigos da pátria. São abolidas as medidas contra António e Lépido e estes regressam a Itália (abandonado pelos seus soldados, Décimo Júnio Bruto é morto quando tentava fugir).

Nos finais de 43 os três chefes cesarianos reúnem-se, na presença das suas tropas, em Bonónia (Bononia).

 

Decidem então formar um triunvirato. Aplicam das proscrições aos inimigos. Estabelecem que Lépido seria eleito cônsul para 42, enquanto que Octaviano e António marchariam contra Cássio e Marco Bruto. Dividiram ainda entre si as províncias (que controlavam). Para António, as Gálias Cisalpina e “selvagem”. Lépido mantinha as duas Espanhas e a Narbonense. Octaviano governaria a Sardenha, a Sicília e ambas as Áfricas. A Itália seria governada pelos três.

 

Em finais de Novembro os três entram triunfalmente em Roma. E logo o tribuno da plebe Públio Tício faz aprovar uma lei nos comícios (lex Titia) que os investia de poderes ilimitados pelo prazo de 5 anos (até 31 de Dezembro de 38), para se ocuparem da reorganização do Estado (triumviri republicae constituendae).

 

De imediato iniciam a repressão, muito mais ampla e cruel que a ocorrida nos tempos de Sila. As listas dos proscritos incluíam, não só os adversários políticos, mas também cidadãos de cujas fortunas se queriam apossar.

Cícero foi dos primeiros a tombar (7 de Dezembro de 43). Já em fuga, é alcançado por um esquadrão em Cápua. O centurião que o comandava cortou-lhe a cabeça e a mão, enviando-as depois a António.

Apiano (IV; 20): «Este alegrou-se imenso pela morte do seu maior e mais encarniçado inimigo, premiou o centurião e, além da recompensa estabelecida, presenteou-o com 2.500 talentos áticos. A cabeça e a mão de Cícero foram expostas durante muito tempo no forum, suspensas da tribuna da qual costumava fazer os seus discursos ao povo. E era mais numerosa a multidão que se reunia para ver os seus restos macabros do que a que habitualmente acudia a escutar-lhe os discursos. Disse-se que António teve a cabeça de Cícero sobre uma mísula, por detrás da mesa em que comia, até que se sentiu saciado por tão repugnante espectáculo».

 

Além do confisco dos bens dos proscritos, impuseram a todos os cidadãos um tributo no valor da décima parte dos seus bens. Decidem também privar das suas terras dezoito das mais ricas cidades, que irão atribuir aos seus veteranos.

 

O defunto César foi honrado com o nome de divus Julius (o “divino Júlio”) e o mês quintilis (“o quinto a partir de Março”), o do seu nascimento, foi chamado Julius.

 

Enquanto isso Sexto Pompeu (também na lista dos proscritos), que se havia apoderado da Sardenha e da Sicília, recrutando massas de escravos, tratava de formar um exército e uma frota.

A começar pela Ilíria, todas as províncias orientais se encontravam sob o poder de Marco Bruto e Cássio, que haviam reunido numerosas tropas e vultuosos meios financeiros. Os dois comportavam-se no Oriente como senhores absolutos, tendo chegado mesmo a cunhar moeda com as suas efígies. Bruto actuou de início na Ilíria e na Macedónia. Crasso, na Síria. Em 42 reúnem as suas forças na Ásia Menor, preparando-se para o choque com António e Octaviano.

 

No Outono de 42 os dois exércitos inimigos encontram-se na Macedónia, junto à cidade de Filipos (Philippi; nordeste da actual Grécia). Os republicanos dispunham de 19 legiões romanas e de numerosos contingentes de tropas aliadas e, com a frota nas suas mãos, dominavam sobre o mar. António e Octaviano disporiam de 20 legiões.

Bruto e Cássio haviam planeado dominar os adversários pela fome, isolando-os por terra e mar. Porém António, manobrando habilmente, consegue separá-los da frota e obriga-os a travar batalha.

Cássio, vencido por António, crendo que tudo estava perdido, suicida-se. Contudo Bruto havia derrotado Octaviano, apoderando-se do acampamento deste.

Alguns dias depois, por insistência dos seus, Bruto oferece de novo batalha, mas é derrotado e também ele põe termo à vida. Enquanto a maior parte do seu exército se passava para o campo dos triúnviros, uma parte da frota meteu rumo à Sicília, para se reunir a Sexto Pompeu.

 

Após a batalha de Filipos, António dirige-se à Ásia Menor. Cleópatra vem-lhe ao encontro na cidade de Tarso (Tarsus), na Cilícia. António acompanhará a rainha egípcia a Alexandria, onde passa o Inverno de 42/41, deixando o governo das províncias orientais aos seus lugar-tenentes.

 

Quinto Labieno, embaixador dos republicanos junto dos partos, aproveitando a ausência de António, apodera-se da Síria, da Cilícia e de quase toda a Ásia Menor com a ajuda de contingentes partos e de parte das tropas romanas que guarneciam essas províncias.

 

Octaviano regressara entretanto a Itália, onde 170.000 veteranos reclamavam o pagamento dos seus serviços. Tratando, antes do mais, de contentar os soldados, inicia a confiscação em massa das terras que o triunvirato decidira entregar às suas tropas. Mas não vai poder recompensá-los a todos. E das dezoito cidades designadas, só dezasseis serão expropriadas, dado que dois daqueles distritos (no sul) se encontravam em poder de Pompeu.

A população itálica, além de sofrer todo o tipo de violências e de esbulhos às mãos das tropas do triunvirato, tinha ainda de suportar o bloqueio às costas da península pela frota de Sexto Pompeu, que interrompeu a importação de víveres.

 

Neste ambiente de penúria e de violenta desordem, o irmão e a mulher de António, Lúcio António e Fúlvia, apelam à revolta contra o triunvirato e à restauração da República (objectivamente, ambos estavam a actuar como agentes de António, que pretendiam ver regressar a Itália).

Lúcio António conseguiu assenhorear-se de Roma por algum tempo, mas depressa é obrigado a retirar-se para norte, sendo sitiado por Octaviano em Perúsia (“guerra de Perusia”).

Após um longo sítio, Lúcio rendeu-se em Fevereiro de 40. Octaviano, que não podia inimizar-se então com António, poupa-lhe a vida. Fúlvia parte para a Grécia ao encontro do marido, ali morrendo pouco depois. Alguns membros da nobreza fogem para junto de Sexto Pompeu.

 

No Verão desse ano de 40, António desembarca em Brundísio. Necessita de recrutar tropas para a guerra contra os partos e pretende intervir no governo de Itália. A tensão entre os triúnviros extrema-se e chegam-se mesmo a iniciar operações militares. Evitam contudo a ruptura, graças à mediação dos amigos comuns e ao clamor das próprias legiões, que não queriam combater entre si. Chegam a um novo acordo (“acordo de Brundisium”): António governará o Oriente (Ilíria incluída), Octaviano o Ocidente e Lépido a África. A Itália continuará a ser governada de acordo com a sua vontade comum. Octaviano e António entreajudar-se-ão contra os partos e contra Pompeu. Para reforçar o pacto, António contrai matrimónio com Octávia, irmã de Octaviano.

 

Sexto Pompeu representava um sério problema (bloqueio do comércio marítimo). Sob o seu governo, formara-se na Sardenha e Sicília um peculiar Estado, onde os restos da nobreza romana conviviam com escravos fugitivos e piratas. A Itália sofria a penúria de abastecimentos e os esclavagistas romanos assistiam a fugas em massa de escravos para as fileiras de Pompeu.

Dada a dificuldade de o vencerem pelas armas, Octaviano e António vão-se entrevistar, no ano de 39, no cabo Miseno (Misenum), a bordo de uma nave, com Sexto, concertando com ele o seguinte acordo: cessação da guerra entre eles e restabelecimento da liberdade de comércio; Pompeio comprometia-se a não receber mais ninguém nas suas fileiras, fossem homens livres ou escravos; os escravos que incorporavam o seu exército ganhavam o estatuto de libertos; os seus restantes soldados receberiam terras, na mesma medida que delas haviam beneficiado os veteranos do triunvirato; Pompeio mantinha por cinco anos o governo da Sardenha, Córsega e Sicília e o comando da sua frota; no termo desse prazo, ser-lhe-iam restituídos os bens paternos; proclamar-se-ia uma amnistia geral, de que seriam somente excluídos os assassinos de César.

 

Após este acordo, recebido com grande satisfação e alívio em Roma, António parte para a península balcânica. Estabelece em Atenas a sede do seu governo. Os seus legados encarregar-se-ão de expulsar Labieno e os seus aliados partos das regiões que haviam tomado.

No Ocidente, em 38, de novo se reacende a refrega entre Octaviano e Sexto Pompeu, com o primeiro a tentar apresentá-la como uma guerra contra piratas e escravos fugitivos. O reinício do conflito foi adverso a Octaviano. Fracassa na tentativa de se apoderar da Sicília e, na Primavera de 37, António regressa à Itália para lhe manifestar a sua desaprovação pela guerra contra Sexto. No entanto os dois depressa chegam a um novo entendimento (“acordo de Tarento”), prorrogando os seus poderes por mais cinco anos, até 31 de Dezembro de 33, e comprometendo-se a prestarem-se ajuda recíproca. Assim, António regressou ao Oriente e Octaviano pôde prosseguir a guerra contra Pompeu.

Em Setembro de 36, Marco Vipsânio Agripa, um dos melhores generais de Octaviano, derrota Sexto em duas batalhas navais travadas nas proximidades da actual Milazzo, na costa setentrional da Sicília. Perdida a maior parte da sua frota, Sexto Pompeu busca refúgio na Ásia Menor, mas é aí detido e executado a ordem de António (ano de 35).

Trinta mil escravos do exército de Sexto são restituídos aos seus amos. Outros seis mil, sem proprietário determinado, foram executados. As costas da Itália viram-se livres das incursões dos piratas e o comércio marítimo foi restabelecido, levando à baixa do preço do pão.

 

Octaviano aproveitará a vitória sobre Pompeu para submeter de seguida Lépido. Este ajudara Octaviano, operando com forças terrestres na Sicília. Após as vitórias de Agripa em Milas, Lépido reclamou para si o governo da ilha, com Octaviano a opor-se categoricamente. A guerra entre os dois esteve eminente, mas foi evitada pelos soldados de Lépido, que se passaram em massa para Octaviano. Em consequência deste desaire, Lépido foi privado do seu título de triúnviro e das suas províncias, sendo obrigado a contentar-se com o cargo de pontífice máximo, que conservou até à sua morte (natural) em 12 antes da era.

Octaviano era agora senhor absoluto no Ocidente. Em Roma são-lhe prestadas grandes honras e é-lhe conferido, tal como o fora a César, o tribunado vitalício.

Começa então a afrouxar o regime de confiscações, que vinha flagelando os proprietários itálicos desde 43.

 

ANTÓNIO E OCTAVIANO.

 

No Oriente, António retomara a sua relação com Cleópatra. Celebra oficialmente em Antioquia o seu casamento com a rainha egípcia. Todavia, não se havia divorciado de Octávia. Quando esta chega a Atenas, a caminho de se lhe reunir, António ordena-lhe por carta que não prossiga a viagem, deste modo a rejeitando de facto.

Em 36 António inicia a guerra contra os partos. Esta expedição visava aparecer, aos olhos do mundo romano, como a realização dos planos de Júlio César, e devia servir a António, cobrindo-o de glória.

Os romanos marcharam através da Arménia, tentando um ataque por surpresa aos partos. Porém, ao sitiarem uma cidade, deparam com forte resistência e são obrigados a encetar o caminho de volta, sofrendo graves perdas na difícil retirada.

Nos anos seguintes António vai combater contra a Arménia, aprisionando-lhe o seu rei, a quem acusava de haver causado o fracasso da expedição contra os partos. António celebrou esta vitória com um triunfo em Alexandria.

Preparava nova expedição contra os partos, quando se produz a ruptura com Octaviano.

 

A opinião pública romana seguira com crescente desaprovação os actos de António: havia-se separado da cônjuge romana para se casar com uma rainha “bárbara”; havia celebrado o seu triunfo, não em Roma, mas em Alexandria; distribuíra possessões romanas como se de sua propriedade pessoal se tratasse, beneficiando com elas sobretudo a Cleópatra e seus filhos; proclamara a egípcia “rainha dos reis”.

Octaviano aproveitava todas as oportunidades para espicaçar os ânimos contra António, com este a devolver-lhe os ataques, através dos seus agentes.

A 1 de Janeiro de 32, dia em que cessavam os poderes dos triúnviros, em plena sessão do senado, os cônsules Domício Aenobarbo e Caio Sósio, partidários de António, dirigem acusações directas a Octaviano. Como única resposta, este faz cercar o senado por sequazes armados. Os dois cônsules, seguidos por mais de 300 senadores, abandonam Roma para se juntarem a António.

 

É então que Octaviano “obtém” das vestais o testamento de António e o lê em público. No documento, António expressava o desejo de ser sepultado em Alexandria, e confirmava todas as concessões que havia feito a Cleópatra.

A parte do senado que ficara e a assembleia popular privam António de todos os poderes e declaram a guerra a Cleópatra, por haver-se apoderado de possessões do povo romano.

 

No Oriente, António faz as tropas romanas ali estacionadas e os aliados orientais jurarem-lhe fidelidade. Octaviano pede o mesmo às que se encontravam em Itália e nas províncias ocidentais.

 

As tropas do primeiro eram compostas por cerca de 100.000 infantes e 15.000 ginetes. A sua frota contava com 500 naves. Estas forças dispunham-se ao longo da costa ocidental grega. Num primeiro momento, António terá pensado em desembarcar na Itália, mas teve de renunciar a tal ideia. As costas itálicas estavam bem defendidas. As suas tropas eram constituídas por contingentes heterogéneos e estavam, em parte, mal equipadas E como se poderia apresentar, com Cleópatra a seu lado, em Itália?

Octaviano tinha sob as suas ordens forças inferiores em número, cerca de 80.000 homens e 400 naves. Porém eram tropas bem organizadas, homogéneas, e suportadas pelo aparelho militar e estadual da velha República. Além disso, tinham em Agripa um excelente general. Passando à ofensiva, desembarca as suas tropas no Epiro meridional.

Os dois exércitos encontrar-se-ão frente a frente sobre as costas do Golfo de Ambracia (hoje, Amvrakikós Kólpos), enquanto Agripa se apoderava de Corinto e das praças-fortes vizinhas.

 

António vai dar provas de total indecisão, dividido entre os emigrados romanos, que o “empurravam” para a luta pelo Ocidente, e Cleópatra e o partido desta, que viam no romano um instrumento para o domínio no Oriente. Entretanto a situação do seu exército vai-se agravando, começando a fazer-se sentir a falta de abastecimentos e com muitos dos aliados a passarem-se para Octaviano.

Por fim, decide-se a dar combate no mar, embarcando uma parte da sua infantaria. A 2 de Setembro do ano de 31, frente ao promontório de Áccio, à saída do Golfo de Ambrácia, a frota de António tenta abrir brecha e sair para o mar. No mais aceso da batalha, a esquadra egípcia, levando Cleópatra, abandona a luta e ruma em direcção a África. António abandona os seus e segue-a. O resto da armada continuou a luta, acabando por ser derrotada.

As forças terrestres de António, que haviam começado a retirar para a Macedónia, rendem-se a Octaviano.

O vencedor, depois de licenciar grande parte das suas tropas, dirigiu-se a Atenas, dali seguindo para a ilha de Samos, onde invernou. Octaviano teve, nesse Inverno, de regressar a Itália e passar ali algum tempo, dada a agitação que se manifestava entre os veteranos. Resolveu a questão com novas distribuições de terras, desta vez tomadas às possessões da própria Roma (cidade-Estado).

 

António desembarcara na Cirenaica, dirigindo-se depois a Alexandria. Esse Inverno de 31/30 passou-o em festins, havendo organizado entre a juventude emigrada uma sociedade de “desejosos de morrer em conjunto” (um clube de suicidas).

 

No Verão de 30 Octaviano lança o ataque sobre o Egipto em duas frentes, desde a Síria e a Cirenaica. Em frente a Alexandria, António planeia opor-lhe batalha, mas os restos do seu exército rendem-se ao futuro Augusto.

Abandonado por todos, António suicida-se, lançando-se sobre a sua própria espada. Cleópatra, capturada por Octaviano, também se mata (segundo a tradição, pela mordedura de uma serpente). Por ordem de Octaviano são mortos Ptolemeu Cesarião (filho de Cleópatra e de César) e Antilo, o filho maior de António. Os outros filhos de António e Cleópatra foram confiados aos cuidados de Octávia.

 

No dia 1 de Agosto de 30 Octaviano havia entrado triunfalmente em Alexandria. O último dos Estados orientais da bacia do Mediterrâneo é oficialmente anexado à potência romana, não como uma província do povo romano, mas como uma possessão pessoal de Octaviano. Um cavaleiro sem fortuna, Caio Cornélio Galo, foi encarregue do governo do Egipto, na qualidade de prefeito. O velho sistema financeiro do Estado egípcio foi conservado, mas com um considerável agravamento do montante dos impostos. O tesouro dos Ptolemeus, caído nas mãos de Octaviano, chegou e sobrou para cobrir todos os gastos da guerra.

 

Octaviano passou no Oriente o Inverno de 30/29, não tendo introduzido mudanças de maior na ordem ali instituída por António. Com os partos tratou de estabelecer relações pacíficas. No Outono de 29 volta a Roma, para celebrar um triunfo de três dias.

 

A longa crise da sociedade romana e itálica, depois de muitas matanças, desde Sila, entre os próprios cidadãos romanos e itálicos, havia gerado um único e absoluto governante do seu império.

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