I - O rei de Castela não aceita a regência e senhorio da sogra

 

1. COMO A RAINHA DONA LIONOR FICOU POR REGEDOR DO REINO, E DAS RAZÕES QUE LHE DISSERAM OS DE LISBOA.

 
Morto elRei dom Fernando, ficou a Rainha por Regedor e Governador do reino, como nos tratos era contido, usando de toda a jurisdição e senhorio em quitar menagens e apresentar igrejas, confirmando os seus bons usos e costumes às vilas e cidades que lho enviavam requerer, como tem usança de fazer um rei quando novamente começa de reinar [1], obedecendo-lhe os fidalgos e o comum povo, como a sua Rainha e senhora, em todas as coisas. O seu ditado nas cartas, em vida delRei dom Fernando, era este, Dona Lionor, pela graça de Santa Maria, Rainha de Portugal e do Algarve, e então, por acordo dos senhores e letrados do seu conselho, se começou de chamar, Dona Lionor, pela graça de Deus, Rainha, Governador e Regedor dos reinos de Portugal e do Algarve, e em algumas [2], se acontecia nomear sua filha, chamava-a Rainha de Portugal. E os tabeliães nas escrituras punham, Eu, fuão [3], tabelião de tal lugar, por autoridade da Rainha dona Lionor, Governador e Regedor dos reinos de Portugal e do Algarve, isto aqui escrevi, e meu sinal fiz que tal é.
 
Tanto que elRei dom Fernando se finou, partiu ela dos paços onde pousava e veio-se a outros mais dentro da cidade, cerca duma igreja que chamam São Martinho, e ali estava numa câmara, coberta de dó, em que nenhum entrava sem lhe primeiro ser perguntado, e se novamente chegavam alguns, posto adeparte [4] todo o fingimento, fazia o seu pranto com eles, mostrando-lhes a orfandade do marido que perdera com soluços e grandes lágrimas, nas quais – depois de farta de chorar, dando a entender o seu coração ser sempre em dor – não perdiam as gentes, porém, a relembrança daquela má fama que em vida delRei cobrara.
 
Os bons da cidade chegaram então a ela e disseram que lhe pediam, por mercê, que os quisesse ouvir nalgumas coisas que para seu serviço e bom regimento e defensão do reino lhe queriam dizer. A ela prouve de ouvir seu razoado, e foi-lhe proposto em esta guisa:
 
Senhora, nós, vendo como vós tendes o carrego de corrigir e emendar os danos e males que os destes reinos hão recebidos até o tempo de ora, de que Deus por sua piedade se queira doer, esperando em ele que vos dará tanta graça que poreis em isso remédio, como por nós é desejado, propusemos de o notificar [5] à vossa mercê.
 
Assim é, Senhora, que vós vistes bem como desde o tempo em que elRei nosso senhor, cuja alma Deus haja, teve o regimento destes reinos até ora, se seguiram neles muitos danos e mortes e falecimentos de homens, e que por muitas desordenadas despesas, feitas como não se deviam, são postas as gentes em grandes pobrezas, e tudo por míngua de bom conselho, fazendo seus feitos sem o acordo dos de seu reino e por conselho dos estrangeiros, que mais o aconselhavam em todas as coisas para seu ganho e proveito do que pelo acrescentamento de sua honra e estado, por cujo azo foram gastos quantos tesouros e jóias ficaram dos outros reis para defendimento e guarda destes reinos, e ainda não lhe abundou tudo isto, mas foram feitas e semeadas nestes reinos moedas não usáveis, por tantas maneiras, pelo que as gentes perderam a mor parte da riqueza que tinham, como tudo isto, e outras coisas que seria longo de dizer, é bem lembrado à vossa memória. Porende [6], Senhora, se quereis ser guardada de semelhantes males, parece-nos que é bem que faleis de vossos feitos com os bons e naturais do reino antes que se ponham as coisas em obra, os quais hão-de suportar a mor parte do encarrego quando tal coisa avier. E pois vos Deus fez Regedor deles [7] e vos deu senhorio sobre nós, não hajais por mal de vos dizermos toda a coisa que pudermos entender para vosso serviço e bem da terra em que vivemos.
 
A Rainha, que sentido tinha de haver a benquerença e graça do povo, respondeu que o havia por bem feito, e que dissessem em boa hora tudo o que lhes bem parecesse sobre isto.
 
Senhora, disseram eles, porque o tesouro e fortaleza por que estes reinos foram sempre defesos e amparados do que lhes avir podia, foi o bom regimento e conselho segundo Deus e a consciência, e por míngua disto nos tempos que ora passaram se seguiu muito o contrário, é bem que hajais em vosso conselho alguns prelados que sejam naturais destes reinos, e não galegos nem castelhanos, e dois homens bons cidadãos e entendidos da comarca dEntre Tejo e Odiana, da Estremadura, da comarca da Beira, de Trás-os-Montes, dEntre Doiro e Minho e do Algarve, dois de cada comarca, e estes, com os do vosso conselho, hajam carrego do regimento do reino em todas as coisas que cumprir. E podeis tomar assentamento em Santarém ou em Coimbra, ou partir o ano por ambos os lugares com as pessoas que dissemos, e serdes um dia ou dois na domá [8] com eles em relação, para vos dizerem o que fizeram e acordaram nos outros dias e com eles livrardes todos os feitos e demandas do reino, e fazendo-o desta guisa nenhuma coisa podereis ordenar de que depois sejais prasmada [9].
 
Outrossim, Senhora, saberá a vossa mercê que os direitos canónicos e cíveis e isso mesmo as leis do reino defendem [10] muito que judeus e mouros não hajam ofícios sobre os cristãos, e não sem razão, porque foram e são criados, especialmente os judeus, em ódio e descrença de Jhesu Christo, cuja lei e crença mantemos, e assim o fizeram os reis que antigamente foram em estes reinos, e por nossos pecados prouve a elRei, cuja alma Deus haja, de lhes dar ofícios públicos em que estava a mor fieldade [11] e substância da sua fazenda, fiando-se deles mais que dos cristãos, e por isso vos pedimos, por mercê, que guardeis os direitos e leis que isto defendem [12], tirando-lhes tais ofícios, e não sejam em vossos reinos rendeiros nem colhedores de nenhuns direitos, nem andem em vossa casa por oficiais.
 
Além disto, Senhora, porquanto nos disseram que a vossa tenção é de corrigir os males e danos que os povos do reino até aqui receberam, e ora havemos de fazer convosco vida nova, seja vossa mercê não ser [13] com este escândalo que dizer queremos.
 
Assim é, Senhora, que um dos grandes males que estes reinos recebem, usado por tanto tempo que os fazedores dele não o hão já por mal, nem fazem disso consciência, assim é a pousadaria [14] que os fidalgos e as outras gentes fazem nas pousadas alheias, usando-se dos bens e roupas que têm por tanto tempo que muitas vezes se gastam de todo ponto [15], recebendo aqueles com que assim pousam outros danos de maior graveza, contra direito e não para dizer. E posto que por vezes fosse dito a elRei, a que Deus perdoe, pôs sobre isso as suas temperanças que pouco ou nada prestaram. Por isso vos pedimos, por mercê, que mandeis que se façam estalagens, tantas que abundem, em que pousem tais pessoas sem tomar nenhuma coisa contra vontade de seus donos. E se aí não houver quem as queira fazer, os vossos almoxarifes que as façam e mantenham de guisa que vós ganheis e não percais nada, e se isto fazer não quiserdes, mandai que as façam e mantenham os concelhos e os lugares que o puderem sofrer. E se aos senhores, porventura, for graveza pousarem nelas, porque o não hão em uso, pousem nos mosteiros e nos paços dos outros senhores, quando estiverem vazios, e as suas gentes nas estalagens. E se tão grande mal como este entenderdes que por esta guisa se não pode vedar, buscai outra, qual vossa mercê for, de que tanta maldade não dure mais tempo.
 
2. DA RESPOSTA QUE A RAINHA DEU ÀS RAZÕES QUE PELOS DE LISBOA FORAM DITAS.
 
Deixadas outras coisas, e suas respostas, que por aquela hora foram ali faladas, somente queremos dizer o que a Rainha a estas que ouvistes respondeu, e mais não.
 
À primeira respondeu a Rainha e disse, Eu bem vejo que a vossa tenção é boa, e que por serviço de Deus e meu, e prol destes reinos, vos demoveis a dizer isto. E pois me Deus deu o regimento deles, a minha tenção é de tomar para isso dois prelados, quais entender que são de melhor vida e condição, que sejam naturais do reino, e não estrangeiros, e mais escolher de todas as comarcas do reino os melhores homens que aí houver, e de melhor condição, para o que dizeis, e isto com o acordo dos concelhos, quantos virem que é aguisado.
 
Em quanto pertence à minha estada, a mim não cumpre andar pela terra a monte e a caças, como têm em costume de fazer os reis, mas tenho vontade de tomar assossego nos lugares que dissestes e nesta cidade, e despender o meu tempo com os meus oficiais e reger e assossegar o reino em verdadeira e direita justiça, e tomarei trabalho para estar em relação os dias que vir que cumpre, e farei com que todas as coisas que se houverem de livrar sejam vistas e acordadas por todos ou a maior parte deles.
 
Em razão do que dissestes dos oficiais judeus, digo-vos que a minha tenção foi sempre de os judeus não haverem ofícios nestes reinos, e trabalhei muito em tempo delRei meu senhor para os não haver aí, e porque em sua vida não pude fazê-lo, logo como elRei morreu, tirei o tesoureiro e o almoxarife da alfândega desta cidade, e todos os sacadores e oficiais judeus, como bem vistes, e não lhes entendo de tornar os seus ofícios nem lhes dar outros, nem as minhas rendas, como quer que me por elas dêem mais que os cristãos, pois antes quero haver perda em elas do que as dar a eles e ir contra o direito e os bons costumes.
 
Ao que me dizeis em razão das pousadarias, que bem é de se fazerem estalagens em que todos possam pousar, digo que me praz muito, e entendo que é bem e serviço de Deus, contanto que os concelhos façam estalagens em que os bons com as suas gentes possam pousar, mas nos lugares onde se fazer não podem não se poderia isto guardar.
 
Falaram então muito em isto e em outras coisas que dizer não curamos, e depois partiram-se, pagados de sua resposta, e ela contente do que lhe disseram.
 
3. COMO FOI ALÇADO PENDÃO EM LISBOA POR A RAINHA DE CASTELA, E DO QUE SOBRE ISSO AVEIO.
 
ElRei de Castela, como soube que elRei dom Fernando era finado, escreveu logo, ele e a Rainha sua mulher, à Rainha dona Lionor, sua mãe, que fizesse tomar voz por ela, como nos tratos era contido, a qual [16] logo ela mandou filhar a todos os condes, mestres e ricos homens que presentes eram quando este recado chegou [17], e eles fizeram-no assim. E não somente escreveram elRei e a Rainha de Castela à Rainha dona Lionor que fizesse tomar voz, mas ainda mandaram o seu recado, pelo arcediago de Seia e por outros [18], a muitos alcaides dos lugares de Portugal para que tomassem voz por ela, pois era sua senhora, e tais aí houve que o fizeram logo, outros escreveram primeiro à Rainha, antes que lhe enviassem a resposta. A Rainha, vistas as suas cartas, mandava que tomassem voz por sua filha e que trouxessem um pendão, cada uns em seu lugar, com os direitos sinais de Portugal, que eram os direitos da Rainha dona Beatriz, cavalgando todos pela vila com aquele pendão, dizendo, Arraial, arraial, por a Rainha dona Beatriz de Portugal, nossa senhora, segundo se costuma de fazer, quando rei morre, por seu filho herdeiro que deixa. E mandava a Rainha aos ditos alcaides que escrevessem a elRei de Castela que lhes prazia de tomar voz por a Rainha dona Beatriz, sua senhora, segundo eram teúdos de o fazer, guardando-se todavia o tempo da sua governança, segundo nos tratos era contido [19], e que no sobrescrito da carta da Rainha escrevessem, À Rainha dona Beatriz de Portugal e de Castela, nossa senhora.
 
Ora aveio que um dos principais lugares em que a Rainha mandou alçar pendão e tomar voz por sua filha foi a cidade de Lisboa, e foi ordenado pela Rainha e fidalgos que aí estavam que a um dia certo cavalgassem todos e o trouxessem pela vila [20]. Os da cidade, quando isto ouviram, não lhes foi mais saberem que haviam de apregoar arraial por a Rainha de Castela, como sua senhora, que ouvirem que os haviam todos de lançar em cativo [21] de mouros, e foi grande murmúrio e turvação entre eles, dizendo uns contra os outros, Agora se vende Portugal doado, que tantas cabeças e sangue custou a ganhar quando foi filhado aos mouros, e era em todos grande a turvação e não sabiam que fazer.
 
Em isto um dia [22] cavalgaram muitos de besta e deram o pendão a dom Henrique Manuel de Vilhena, Conde de Seia, que tinha o castelo de Sintra – este Conde dom Henrique era filho de dom João Manuel, e tio delRei dom Fernando, pois era irmão de dona Constança, sua mãe, e tio da Rainha dona Beatriz, mulher delRei de Castela – e começaram de ir com ele mui a passo e chegaram até à porta da , e detiveram-se naquela praça porque se recearam dos da cidade, que ouviram dizer que se alvoroçavam por esta razão, e enquanto mandaram saber à Rua Nova que era o que as gentes diziam, disse dom Henrique Manuel, Falai, senhores, falai! Então começaram todos a dizer, Arraial, arraial, por a Rainha dona Beatriz de Portugal, nossa senhora! Porém tais cavaleiros e escudeiros iam aí, que diziam isto, a que não o prazia. O Conde dom Álvoro Peres de Castro, quando isto ouviu, deu um tossido e disse, Arraial, arraial, cujo for o reino levá-lo-á! E isto dizia ele pelo Infantes dom João e dom Dinis, seus sobrinhos, que andavam em Castela, que ele entendia que poderiam reinar. E esta intenção tinham muitos, dizendo uns aos outros que o Infante dom João queriam haver por seu rei e senhor, para que o reino de Portugal sempre fosse reino sobre si, apartado, o qual era por força de se ajuntar com o reino de Castela, e ser tudo um, se a Rainha dona Beatriz o herdasse e isso mesmo seu marido. Os que foram saber que era o que diziam os da cidade – por o levar daquele pendão – disseram que viam tanto alvoroço nas gentes que lhes aconselhavam que não fossem mais por diante, pois lhes parecia, se lá fossem, que nunca de lá viriam eles nem o pendão. Então se tornaram todos para donde partiram, e não se fez assim mais sobre isto.
 
4. COMO EM SANTARÉM LEVARAM O PENDÃO POR A RAINHA DONA BEATRIZ, E DO QUE AÍ ACONTECEU ESSE DIA.
 
Desta guisa que se alvoroçaram as gentes de Lisboa, quando alçaram pendão na cidade pela Rainha de Castela, se levantou outra união em Santarém, e foi por esta maneira.
 
Um escudeiro que chamavam Vasco Rodrigues Leitão era então alcaide de Santarém por Gonçalo Vasques dAzevedo, e um dia pela manhã mandou dizer a esses melhores do lugar que cavalgassem todos, depois de comer, e se juntassem no adro duma igreja chamada Santa Maria de Marvila, para trazerem pendão pela vila e chamarem arraial por a Rainha dona Beatriz, herdeira do reino por morte de seu pai. Como ele isto mandou dizer e foi sabido pela vila, logo todos se alvoroçaram, dizendo que a vila se queria alçar por elRei de Castela, e que muito em má hora fosse tal coisa feita, que nunca eles a haviam de consentir, e juntavam-se em assuada, uns com os outros falando sobre isto, aguardando quando haviam de vir com o pendão.
 
Chegou-se a hora de véspera e juntaram-se no adro daquela igreja até sessenta a cavalo, e nenhuns de pé, salvo para olhar. Vasco Rodrigues estava num formoso e grande cavalo, e depois que viu que já ali eram assaz de que podia ir bem acompanhado, meteram-lhe a bandeira na mão à porta da igreja, e ele, como a teve, deu um brado, dizendo, Arraial, arraial, por a Rainha dona Beatriz de Portugal, nossa senhora! E eles, que houveram [23] todos de responder em altas vozes, dizendo cada um por aquela guisa, segundo é de costume, calaram-se todos, que não falou nenhum. E começou ele de mover diante passamente [24], e todos em pós ele [25], e indo assim quanto seria um lanço [26] de pedra donde partira, disse contra aqueles que iam consigo, E vós outros não falais nenhuma coisa? Dizei, dizei, arraial por a Rainha dona Beatriz! E tornou ele outra vez em alta voz, dizendo, Arraial, arraial, assim como antes dissera. E eles, a que pouco prazia de tal apregoamento, nenhuma coisa responderam mais que da primeira.
 
Mas tanto que ele acabou de dizer aquilo, falou uma velha em alta voz e disse, Em má hora seria esta! Mas arraial por o Infante dom João, que é de direito herdeiro deste reino! Mas não já por a Rainha de Castela, e como? Em má hora sujeitos havemos nós de ser a castelhanos? Nunca Deus queira!
 
E dizendo ela isto, assim o começaram a dizer quantos homens e mulheres havia pela rua, e iam-se em pós ele dizendo isto e outras más razões. E como chegou à Rua dos Mercadores, que é logo cerca, onde se faz uma pequena praça, disse ele outra vez, Arraial, arraial, como da primeira, e ali se começaram as gentes mais de alvoroçar. E quando passou a Rua dos Mercadores e chegou à praça da vila, onde já muitos o estavam aguardando, e levantou outra vez voz, bradando, Arraial, arraial, ali foi grande alvoroço nas gentes, dizendo que muito em má hora fosse tal pregão lançado, que nunca Deus quisesse que outrem reinasse em Portugal senão o Infante dom João, e não já a Rainha de Castela. E eram os brados tantos e o arruído tão grande, assim de homens como de mulheres, que se não ouviam uns com os outros.
 
Muitas das gentes da vila, que estavam em magotes, começaram de se chegar a ele, dizendo que muito em má hora fosse tal pregão lançado, pois agora haviam de ser sujeitos dos castelhanos? E como era ele ousado de o dizer, ou quem lhe mandava fazer tal coisa? Então um peliteiro [27], que havia por nome DominguEanes, homem refece e de pequena conta, disse contra os outros, Que estamos fazendo, ou que pregão é este? E em dizendo isto lançou uma espada de fora, e como aquele fez assim fizeram todos os outros, dizendo que matassem o alcaide.
 
Aos que com ele vinham, não lhes pesou nada, e começaram de o deixar e ir-se cada um para onde melhor podia. Ele, com o temor, deu das esporas ao cavalo e saiu-se dentre eles, fugindo, e levando o pendão alto, este topou num sobrado à entrada da rua, e não o podendo mais alçar, levou-o arrastando até ao castelo – onde entrou com ele pela porta da traição – que é a um grande espaço dali, e todo aquele povo ia a pós ele com as espadas de fora, bradando que o matassem, e os que estavam nas casas saíam a ver o arruído e iam-se com eles na volta, e assim chegaram até às portas do castelo, que foram logo à pressa fechadas. E tornando-se todos, vinham dizendo, Viva o Infante dom João! Viva! Ó quem no-lo ora aqui desse! E veríamos quem seria ousado de apregoar arraial por a Rainha de Castela, para nos tornarmos agora castelhanos!
 
E foi aquele dia grande alvoroço na vila, o qual se partiu [28] pela noite, que não falaram em outra coisa.
 
5. DO QUE ACONTECEU EM ELVAS QUANDO ÁLVORO PEREIRA ALÇOU PENDÃO POR A RAINHA.
 
Não somente em estes lugares, mas ainda em outros do reino, foi grande alvoroço pelo trazer do pendão e apregoamento da voz da Rainha, segundo ouvistes, assim como foi em Elvas, que tanto que elRei dom Fernando morreu, Álvoro Pereira, alcaide do castelo, alçou logo bandeira e trouxe-a a cavalo pela vila até à porta de São Domingos, apregoando, Arraial por a Rainha dona Beatriz! Gil Fernandes, de que já falámos, não era na vila quando isto foi, e como veio e soube disso parte, juntou assim [29] os mais do lugar e alçaram outra bandeira em contrário daquela, e trouxeram-na por todas as praças da vila, bradando todos, Arraial, arraial por Portugal!
 
Álvoro Pereira houve disto menencoria, e convidou Gil Fernandes a que jantasse [30] com ele. O comer acabado, disse Álvoro Pereira, Gil Fernandes, vós sereis preso, e pois que vos eu tenho preso, eu tenho todo Elvas.
 
Prendestes-me como não devíeis, disse ele, mas pois que assim é, deixai vir a arraia-miúda das vinhas, que eles me tirarão daqui.
 
E assim foi de facto, que logo como souberam na vila que ele era preso, meteram mão a repicar os sinos e juntou-se a gente da vila com a que andava fora, e foram todos combater o castelo, em guisa que até as mulheres e moços, todos ajudavam com o que podiam. Vendo isto, Álvoro Pereira falou aos de fora, dizendo que o soltaria por arreféns [31], e logo Vasco Lobeira, cavaleiro, e Martim Vasques, escudeiro, ficaram por ele e foi solto.
 
Ao outro dia Gil Fernandes e Martim Rodrigues souberam que o alcaide mandara por gentes a Castela para defender melhor o castelo, e dizem alguns que eram cento e cinquenta lanças. Gil Fernandes e Martim Rodrigues, com outros, começaram logo de os [32] combater, e depressa foi queimada a porta dele e o muro roto por alguns lugares. Álvoro Pereira deu então o castelo com a condição que Gil Fernandes o tirasse de Elvas seguro, a ele, sua mulher, filhos e gentes. E quando aquela noite lhe veio o acorro para nenhuma coisa prestou, e tornaram-se.
 
No outro dia pela manhã foi-se Gil Fernandes com Álvoro Pereira para pô-lo a salvo, e indo já a uma légua da vila disse Álvoro Pereira que se tornasse [33], que já tempo era. E Gil Fernandes disse-lhe que se receava de topar com alguns castelhanos que lhe fizessem nojo [34], e ele respondeu que dos portugueses o segurasse ele, que dos castelhanos não havia medo. E Gil Fernandes disse, Pois vós castelhanos sois? Eu vos seguro dos portugueses, e ide-vos com Deus. Então se despediu dele e o outro se foi a caminho do Crato.
 
E desta guisa aconteceram outros alvoroços em lugares, sobre o tomar da voz e alçamento de pendão, de que mais não queremos dizer.
 
6. DO RECADO QUE ELREI DE CASTELA MANDOU AOS FIDALGOS DE PORTUGAL QUANDO FIZERAM O SAIMENTO DELREI DOM FERNANDO.
 
Porque o finamento delRei fora feito muito simplesmente e as suas exéquias não como deveriam, ordenou a Rainha de mandar chamar todos os senhores e fidalgos do reino para que viessem ao saimento do mês, de maneira a se fazer o mais honradamente que se pudesse. E foi assim que o fizeram o melhor que pôde ser, como cumpria a honra delRei, porém alguns se escusaram, que não vieram a ele, assim como o Conde dom Gonçalo, Gonçalo Vasques dAzevedo e outros.
 
ElRei de Castela, sabendo como todos haviam de ser juntos em Lisboa para isto, fez escrever cartas para a Rainha dona Lionor, sua sogra, para todos os condes, mestres e cavaleiros de Portugal e para algumas vilas e cidades do reino, e mandou por seu embaixador, com elas, um cavaleiro da Ordem de Santiago, natural de Salamanca, que chamavam Afonso Lopez de Texeda.
 
Este chegou a Lisboa e deu suas cartas à Rainha e àqueles a que vinham, nas quais era contido que bem sabiam como a Rainha dona Beatriz, sua mulher, filha delRei dom Fernando, era herdeira do reino de Portugal, pois seu pai era finado sem deixar outro legítimo filho que de direito houvesse de herdar, e que isso mesmo ficava ele por rei e senhor do reino, pois que seu marido era, e que por isso lhes rogava que quisessem guardar em este caso aquilo que eram teúdos de fazer, assim como bons e leais vassalos, tomando a Rainha dona Beatriz por sua rainha e senhora, e a ele isso mesmo por seu rei e senhor, e que fazendo-o assim, fariam o que deviam, cumprindo a lealdade a que eram teúdos, por a qual razão ele e a Rainha, sua mulher, seriam obrigados de lhes fazer sempre muitas mercês por isso.
 
Além disto, falava ele [35] com eles todas as boas razões que entendia para que a isto os pudesse demover [36]. A sua resposta, de todos, era que eles tinham em vontade de haver por sua rainha e senhora a Rainha dona Beatriz, filha delRei dom Fernando, sua mulher, e que estavam e eram prestes para ter e guardar os tratos que sobre esta razão foram ordenados entre elRei de Castela e elRei dom Fernando. E ele com esta resposta tornou a elRei [37].
 
 

 
 
[1] Quando inicia o seu reinado.
 
[2] Em algumas cartas.
 
[3] Fulano.
 
[4] Posto de lado, excluído.
 
[5] De notificar este desejado remédio.
 
[6] Portanto.
 
[7] Regedor dos reinos.
 
[8] Semana.
 
[9] Censurada, criticada.
 
[10] Preceituam.
 
[11] Segurança, garantia.
 
[12] Proíbem.
 
[13] Não consentir, não pactuar.
 
[14] Direito de aposentadoria.
 
[15] Completamente.
 
[16] A qual voz.
 
[17] ao que tudo indica, quem trouxe o recado foi Afonso Lopez de Tejeda.
 
[18] Segundo Ayala, os recados do rei castelhano começaram ainda em vida do Rei Fernando.
 
[19] Porquanto o rei castelhano não reconheceu a regência e o senhorio de Leonor Teles em Portugal, daí esta condição ou ressalva que ela mandava escrever aos alcaides. Leia-se o que escreveu Ayala, in Crónica del Rei Dom João o Primeiro de Castela e de Leão, Ano V, capítulos VI a XII.
 
[20] Pela povoação.
 
[21] Cativeiro.
 
[22] Ayala afirma que foi no dia das segundas exéquias ao Rei Fernando, logo após a missa, mas erra quando diz terem decorrido já setenta (ou sessenta) dias sobre a sua morte.
 
[23] Deveriam.
 
[24] Devagar.
 
[25] Após, atrás dele.
 
[26] Arremesso.
 
[27] Peleiro.
 
[28] Continuou.
 
[29] Logo.
 
[30] Almoçasse.
 
[31] Reféns.
 
[32] Aos da guarnição do castelo.
 
[33] Que voltasse para Elvas.
 
[34] Mal.
 
[35] Afonso Lopez de Tejeda.
 
[36] Ou seja, nos termos da carta do rei castelhano, onde invoca o direito comum, e não os tratados, «pois em todas as maneiras tinha que não valiam» (Ayala, Crónica deste Rei, Ano V, cap. XI), ele pedia que o reconhecessem como soberano pleno, e não apenas, como prescreviam os tratados, soberano nominal.
 
[37] Ayala diz o mesmo, o que contradita, porque aí esqueceu-se de referir o tratado, o que escreve sete páginas antes, no capítulo VII, ano V, da Crónica de João I de Castela: «...e ainda teve cartas de grandes homens do reino de Portugal...pedindo-lhe por mercê que quisesse ir lá. E o primeiro homem do reino de Portugal que lhe escreveu como o Rei Dom Fernando era finado, e que se desse pressa em seu caminho para ir tomar o reino de Portugal, que pertencia de direito à Rainha Dona Beatriz, sua mulher, foi Dom João, Mestre de Avis.» Como Ayala não nos esclarece dessa pretensa e súbita mudança de ânimo nalguns grandes de Portugal, temos de inferir que o convite teria sido para «ir tomar» o título de rei de Portugal «e ter e guardar os tratos».
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