Capítulo XI - A Tripla Aliança e a Entente em 1912-1913

1. A ALEMANHA E A ÁUSTRIA DESDE O INCIDENTE DE AGADIR ATÉ AO FINAL DAS GUERRAS BALCÂNICAS. A POSIÇÃO DA ITÁLIA.

 

Apesar dos êxitos parciais que, como vimos, as diplomacias austríaca e alemã – actuando concomitantemente durante a primeira guerra balcânica – tinham alcançado, já então, ou seja, na Primavera de 1913, os círculos imperialistas, tanto na Áustria como na Alemanha, manifestavam uma viva irritação e um profundo descontentamento. Com efeito, da Turquia europeia quase tão-só restava Constantinopla, e a Turquia era considerada uma base de apoio para a ulterior penetração económica da indústria germânica em todo o Próximo Oriente; mal-grado tudo o que haviam feito, a Sérvia saía da guerra muito robustecida e consolidada, e levava a cabo uma política abertamente hostil à Áustria. Por último, a segunda guerra balcânica assestara um duro golpe nos principais projectos da política austro-húngara. É certo que a Turquia tinha reconquistado Andrinopla e a maior parte da Trácia, mas a Sérvia reforçara-se bem mais do que alguma vez se esperara, e a Bulgária fora mutilada, perdendo uma parte considerável das suas recentes conquistas, e, para mais, a intervenção e as anexações territoriais dos romenos a expensas da Bulgária transformavam esta numa irredutível inimiga da Roménia, que assim era afastada da Áustria e da Alemanha e atirada para os braços da Entente. O resultado geral era um gravíssimo fracasso político e – que é o mais importante – como tal foi visto pelas classes dirigentes alemãs, bem como pelas austríacas.

Chegadas as coisas a este ponto, a imprensa germânica começou a proceder ao balanço do passado e do presente (ou mais exactamente, retomou-o, porque também já antes, e desde 1906, se dedicava com afinco a esse exercício). Como pretexto formal serviu-lhe a celebração, em 1913, do 25º aniversário do reinado de Guilherme II. Desde logo, nesse ano de 1913 – assim como nos anos anteriores – não era a política interna, mas sim a externa, o que interessava aos mais diversos sectores da burguesia alemã, e também era a política externa, e não a interna, o que mais preocupava a social-democracia.

Nos círculos dirigentes social-democratas compreendia-se perfeitamente que se caminhava na direcção dum conflito armado entre a Alemanha e a Entente. E uma coisa era clara: a massa essencial dos trabalhadores, se não todo o conjunto da classe operária, dispunha-se a combater e a social-democracia não só não a ia impedir, como, inclusivamente, iria incentivá-la a fazê-lo. Nesse momento, no que concerne à política externa, o balanço que se fazia evidenciava os erros cometidos, mas lembrava também – em geral, dum modo favorável – algumas conquistas coloniais. A oposição de esquerda no interior do partido avaliava as coisas de maneira diferente, mas tendiam a marginalizá-la, considerando-a muito mais fraca do que na realidade era.

No que toca à imprensa burguesa, o quadro apresentava-se bem nítido. Exactamente da mesma maneira que na imprensa ligada à grande indústria, aos interesses latifundiários, ao grande capital bolsista e bancário, também na imprensa das mais diversas correntes conservadoras, patrióticas e nacional-liberais, ao lado da ufana celebração da extraordinária prosperidade do país, as apreciações da política externa variavam no tom mas eram unânimes na essência, assinalando a inépcia da diplomacia, a ausência de objectivos definidos e claros, e, como resultado disso, um fracasso quase total. Escalpelizava-se de mil maneiras o desaire completo na política marroquina, começando pela viagem de Guilherme a Tânger em 1905 e acabando em Agadir e no acordo com a França de 1911 sobre o Marrocos; destacava-se que a questão marroquina apenas tinha servido para demonstrar que, dada a existência da Entente, já não era mais possível qualquer aquisição de colónias no ultramar. Igualmente se sublinhava que também noutra direcção – o Próximo Oriente e Bagdad – a política económica e geral alemã tropeçava com sérios obstáculos, produto das duas guerras balcânicas. Era referida, por fim, a posição dúbia que a Itália assumia na Tríplice Aliança, uma Itália pronta a passar a qualquer momento para o lado da Entente, que permitia na sua imprensa uma campanha furiosa contra a Áustria e, para mais, sobre uma questão tão candente como a que respeitava às regiões do Trentino e de Trieste, povoadas por italianos (a imprensa italiana chamava a estas províncias austríacas a “Italia irredenta”, quer dizer, Itália ainda não libertada). À instabilidade da Tríplice Aliança contrapunham a solidez da Entente, que nada podia abalar ou, muito menos, destruir.

De todas estas críticas extraíam-se ilações muito perigosas: “Somos fortes, porém o imperador é pusilânime e irresoluto; estamos anualmente a fazer enormes despesas com o exército e a frota, temos uma indústria florescente, uma organização estatal e económica perfeita, capaz de militarizar num abrir e fechar de olhos todo o país, mas todas estas forças e capacidades permanecem inertes enquanto cedemos perante todos, ante a França “decadente”, dilacerada pelas lutas intestinas dos partidos, ante a Rússia que de um dia para o outro pode ser envolvida pelas chamas duma revolução, ante a Inglaterra, que é incapaz de resolver a questão irlandesa”. Tais eram, basicamente, as ilações destes críticos. E se o imperador não está à altura das suas obrigações, do seu lugar, que o ceda a quem seja mais digno dele: também esta foi conclusão que chegou a ser formulada. Para já não falar das ostensivas manifestações de entusiasmo a propósito de cada declaração mais agressiva do príncipe herdeiro, ou dos artigos que se publicavam na imprensa quotidiana (extremamente esclarecedores), o certo é que os representantes da orientação imperialista pareciam realmente determinados, precisamente nesse ano de 1913 e inícios de 1914, a popularizar e dar remate final à seguinte antítese: duma parte, um imperador “pacífico”, só por palavras capaz de ser agressivo, e da outra, um jovem príncipe herdeiro, vigoroso, “fresco” de energias, intrépido. Um após outro, apareceram os dois livros de Paul Liman: Der Kaiser (“O Imperador”) em 1913, e Der Kronprinz (“O Príncipe Herdeiro”) na Primavera de 1914. Tratava-se de dois grossos volumes, o primeiro com 435 páginas e o segundo com 295, mas, apesar disso, ambos se difundiram amplamente, viram-se coroados de grande êxito, foram citados, comentados e converteram-se num acontecimento muito significativo e notável no mercado livreiro da Alemanha do anteguerra. É difícil de imaginar crítica mais demolidora a Guilherme e loas mais exaltadas ao príncipe herdeiro do que as contidas nestes dois livros. E a conclusão é a mesma em ambos: Ao combate (losschlagen!)! Nada de perder tempo em vão! Só uma guerra pode dar à Alemanha tudo aquilo que ela necessita. Tal era a seiva que brotava destes e doutros livros semelhantes. Isto não significa que, com motivo nas celebrações do jubileu anteriormente referido (o dos 25 anos de reinado do Kaiser), não tivessem também surgido vários outros livros, repletos de cortesanias e bizantinas lisonjas a Guilherme. Mas, com elas, só mesmo ele e mais ninguém se podia deixar enganar. Não bastavam os seus discursos e gestos jactanciosos e ameaçadores: exigiam-se-lhe actos conformes às palavras. A não ser assim, poder-se-ia repetir, e de forma pior, o acontecido em 1908, aquando da infeliz entrevista ao correspondente do Daily Telegraph.

E foi então que ocorreu um singular incidente que deu muito brado e revelou, de forma sinistra, o verdadeiro significado de toda esta oposição de cariz imperialista e as suas possíveis consequências. O dito incidente deu-se na “região imperial, ou seja, na Alsácia-Lorena, que constituía, do ponto de vista da política externa, uma chaga aberta.

Com a paz de Frankfurt de 1871, quando as duas províncias arrebatadas à França foram incluídas no Império Alemão, o governo do Reich, perplexo, não sabia que ordem lhes impor. Não era possível integrá-las na Prússia, devido ao desagrado da Baviera e dos outros Estados germânicos meridionais vizinhos da Alsácia-Lorena. Reparti-las entre a Prússia e a Baviera (um projecto formulado e mantido durante muito tempo sobre a mesa) também comportava, na prática, sérias dificuldades. Formar com elas um Estado dentro do Reich alemão (à semelhança da Baviera, Baden, Württemberg, Saxónia, etc.) era coisa de que os nacionalistas alemães nem sequer queriam ouvir falar, temerosos de que essa outorga de autonomia à Alsácia-Lorena viesse a alimentar um perigoso separatismo. No entanto, com um atraso de 47 anos, ou seja, em Outubro de 1918, a Alemanha teve de tomar precisamente esta decisão, quando o desastre militar germânico já se perfilava claramente no horizonte e poucas semanas faltavam para a capitulação alemã e a entrada das tropas francesas em Metz e Estrasburgo. Assim, durante praticamente toda a existência do Império Alemão, a Alsácia-Lorena permaneceu na situação de um país conquistado, governado pela vontade dum representante imperial. Alguns anos antes, em 1911, fora atribuído à Alsácia-Lorena um certo estatuto de autonomia: essa “Constituição” concedia o direito de eleger o recém-constituído Landtag (a câmara baixa), que se pronunciava sobre os assuntos da administração local. Mas, de facto, a força e o poder efectivo mantinham-se integralmente nas mãos do lugar-tenente ou governador designado pelo Kaiser, ou, para sermos mais exactos, nas mãos dos comandos militares dos corpos de exército aquartelados nesta zona de fronteira.

Na Alsácia-Lorena, para dizer a verdade, não existiam relativamente à França aquelas entusiásticas simpatias de que tantas vezes falaram os jornalistas franceses; isso era sobretudo uma ilusão ou uma “saudável mentira” patriótica gaulesa, ainda que não se possa negar a existência de alguma simpatia para com a França, que era alimentada, aliás, pela absurda política imperial alemã ali praticada. Uma política que recorria, alternadamente, ora ao mais brutal vexame, ora à lisonja. De facto, não havia na Alsácia-Lorena uma só classe da população que desejasse a anexação à França. A classe operária não manifestava a menor tendência separatista. A grande burguesia comercial e o sector financeiro estavam intimamente ligados com o mercado e as bolsas alemãs. Apenas uma parte da burguesia industrial se lamentava pela perda do rico mercado francês e das enormes possibilidades do seu vasto império colonial. Não podemos esquecer que na Alemanha, poderosamente industrializada, a Alsácia-Lorena era tão-só uma das regiões industriais, ao passo que, se pertencesse à França, teria provavelmente ocupado, em muitos aspectos, o primeiro lugar entre os seus poucos departamentos industriais. Por último, no seio dos intelectuais, entre os sectores inferiores e médios dos funcionários públicos, da média e pequena burguesia comercial, dos agricultores, conservavam-se saudosas recordações e sentimentos de amizade para com a França...mas isto era tudo. Na Alsácia-Lorena costumava-se dizer, meio a brincar, meio a sério, que o governo imperial, através das peias e vexames a que submetia a população, era o primeiro a nela alimentar os sentimentos francófilos.

Esta política da Alemanha, com todos os seus ziguezagues, era antes do mais ditada pelo facto de que, na França, nenhum dos gabinetes que governaram o país desde 1871 até à guerra de 1914 jamais havia aceite reconhecer, de modo definitivo e irrevogável, a alienação da Alsácia-Lorena; o governo alemão (tal como o povo) sabia muito bem que a Alsácia-Lorena era uma das querelas principais que podiam atear, dum instante para o outro, a conflagração mundial. Era por isso, e de acordo com o maior ou menor grau de animosidade manifestado pelos franceses num determinado período, que Guilherme II ora consentia, de quando em quando, em atenuar o regime imposto à região, ora proferia discursos plenos de ameaças. Em 1911 fora outorgada a “Constituição”, visando-se por esta forma atrair os alsacianos e os lorenos para o império e, simultaneamente, impedir no plano moral que os franceses pudessem continuar a falar da libertação dos irmãos oprimidos, etc. Mas tampouco foi possível dessa vez manter o tom apaziguador durante muito tempo. Já em meados de Maio de 1912, Guilherme, em palavras que dirigiu ao responsável pela cidade de Estrasburgo, disse que não estava satisfeito com a população da Alsácia-Lorena e que iria abolir a respectiva Constituição, anexando a região à Prússia. E embora a dita declaração não tivesse sido feita num discurso público, adquiriu, no entanto, vasta repercussão. Um ano e meio depois deu-se um incidente de consequências mais sérias. O caso ganhou maiores proporções em Dezembro de 1913. E começou a partir dum acontecimento insignificante: o segundo tenente von Forstner tivera uma disputa com alguns burgueses da cidade de Zabern, aos quais havia insultado muito grosseiramente. O coronel von Reuter tomou a defesa de Forstner, detendo arbitrariamente alguns cidadãos. Contra Forstner e Reuter foram instaurados processos que, ao fim e ao cabo, não conduziram a nada: pois que ambos permaneceram impunes. O governo foi interpelado no Reichstag, mas tanto o ministro da Guerra como o chanceler, Bethmann-Hollweg, defenderam os actos praticados pelos oficiais. Em França, esse episódio foi muito útil à agitação chauvinista que ali se levava a cabo contra a Alemanha e que tinha ganho particular intensidade desde que Poincaré fora eleito presidente da república.

O incidente em apreço também teve consequências a nível político interno. O herdeiro do trono, príncipe Frederico Guilherme, considerou que era seu dever intervir no assunto de modo muito activo.

É de recordar que nesses anos, tal como aqui já foi referido, os imperialistas alemães (os mais apaixonados e exaltados) depositavam grandes esperanças no príncipe herdeiro. O primogénito de Guilherme já havia tido ocasião de pronunciar alguns discursos inflamados e agressivos, onde, entre outras coisas, exaltava de modo apoteoticamente entusiástico a guerra, o campo de batalha, as cargas dos hussardos, etc. A este propósito observarei que ulteriormente, durante toda a guerra mundial, jamais se aproximou, ainda que fosse à distância dum tiro de canhão, do campo de batalha, dando sempre provas duma extrema prudência em tudo o que se relacionava com a salvaguarda da sua própria pessoa, no que os seus esforços se viram coroados do maior êxito. Mas naturalmente, no anteguerra, esse seu talento não o impedia de atiçar afincadamente as paixões chauvinistas e de fazer todos os possíveis para que se produzisse a sangrenta catástrofe. Hoje, de regresso do exílio na Holanda (para onde fugiu, tal como seu pai, e com a mesma pressa, em Novembro de 1918), publica livros (45), concede entrevistas aos correspondentes de imprensa e nunca se cansa de afirmar que durante toda a sua vida foi um pacifista. Não obstante ter feito alguma “oposição” ao Kaiser, a sua extraordinária aptidão para recorrer à hipocrisia e para mentir de forma perfeitamente consciente e sem qualquer pudor, no fito de desviar de si as responsabilidades, torna-o muito parecido com o pai. Nos anos mais decisivos (1912-1914), ganhou a entusiástica adesão do partido pangermanista simplesmente porque nunca perdeu uma oportunidade para proclamar que desembainharia a espada pelos interesses da pátria, etc. Quando falava em público, unicamente repetia a estereotipada fraseologia patrioteira dos livros de texto do ensino médio, no entanto, proferidas pelo herdeiro do trono em momentos de grande tensão, essas estéreis frases altissonantes adquiriam um sentido sinistro. Depois do discurso de Lloyd George (a propósito da questão marroquina, em 1911), o príncipe herdeiro foi ao Reichstag e, quando ouviu um deputado conservador exclamar: “Agora sabemos onde está o nosso inimigo!”, logo manifestou a sua plena concordância e satisfação por tais palavras.

 

(45) O último apareceu em 1925 e tem por estranho título: “Eu busco a verdade” (Ich suche die Wahrheit). Ele “busca” os responsáveis pela guerra e acha que apenas o governo alemão não teve nesta questão a menor culpa.

 

Assim, ainda a propósito do incidente de Zabern, o príncipe herdeiro achou que era seu dever felicitar de maneira efusiva o coronel Reuter pela sua bravata (alegando uma suposta ofensa ao uniforme militar, tinha prendido ilegalmente numa cave gelada, durante uma noite inteira, alguns pacíficos cidadãos). “Sempre firmes!” (Nur immer feste drauf), rezava o telegrama por ele enviado ao coronel. A imprensa conservadora e nacional-liberal, que defendia com toda a veemência a conduta dos militares de Zabern, acolheu com entusiasmo essas palavras do príncipe. “Ainda que o pessimismo penetre agora profundamente nos corações, convertendo-se no estado de alma predominante destes anos” (nas palavras de Paul Liman (46), um arrebatado admirador do príncipe herdeiro), Frederico Guilherme conseguia levantar no entanto a moral aos imperialistas.

 

(46) P. Liman, Der Kronprinz, Minden in Westphalen, 1914, pág. 290.

 

Não havia quaisquer dúvidas sobre qual era o objectivo das ostensivas ovações que se tributavam ao príncipe herdeiro de cada vez que ele aparecia em público (por exemplo, após os desfiles das tropas em Tempelhof), acompanhadas por um silêncio igualmente eloquente logo que surgia o imperador; e também sobre o que se pretendia com os hosanas ao valente príncipe herdeiro nos artigos dos jornais e nos livros, louvores esses que eram acompanhados de insistentes advertências quanto ao suposto desalento e desilusão geral pela política irresoluta e demasiado pacifista do imperador.

A oposição de direita estava activa, encontrando-se a de esquerda – a social-democrata – neutralizada, quase a ponto de se tornar inofensiva, pelo triunfo do revisionismo, pelo gigantesco crescimento e prosperidade da indústria e por todas as consequências que esta expansão trouxera. Guilherme não podia deixar de se aperceber do perigo que o ameaçava precisamente pela direita. E, como sempre, apressou-se a ceder, tanto mais que, no essencial, esta concessão não lhe saía cara. A única diferença que havia entre o Kaiser e a “oposição” chauvinista pangermânica era que ele tardava um pouco a pôr em prática as consignas da política de conquista e de acções agressivas. Sobrevinham tempos em que os grandes capitalistas e todas as instituições que deles dependiam (e deles dependia quase tudo) ameaçavam procurar – e encontrar no príncipe herdeiro – um executante mais enérgico para os seus projectos. A ajuizar pelo testemunho do rei Alberto da Bélgica, de quem falaremos noutra oportunidade, Guilherme, pelos finais de 1913, já se acostumara definitivamente à ideia de que a guerra era inevitável; e a avaliar por alguns actos políticos do governo, fora a partir de inícios de 1913 que essa ideia começara a ganhar crescente força entre os círculos dirigentes.

Quanto à Áustria-Hungria, após as duas guerras balcânicas a situação da monarquia dos Habsburgo tornara-se extremamente complicada, se bem que, ao mesmo tempo, a diplomacia austríaca tivesse passado a agir com muito mais liberdade que antes. Vamos esclarecer esta dupla afirmação, que é aparentemente contraditória. No que toca às dificuldades, que já atrás referimos, não há muito mais a dizer:

O inimigo – a Sérvia –, fortalecera-se consideravelmente e era agora agitado, a nível interno, por uma vasta campanha anti-austríaca claramente apoiada pelo rei Pedro e o governo. Criava-se a impressão de que se pretendia desencadear uma insurreição na Bósnia e Herzegovina, ou de que se procurava atrair a Rússia para uma intervenção conjunta contra a Áustria. E não se podia contar com o contrapeso búlgaro a que dantes se habituara a diplomacia austríaca: face  à Bulgária, extremamente debilitada, erguiam-se, completamente armadas, não só a Sérvia mas também a Roménia.

No seio da própria Áustria, o separatismo checo intensificava-se constantemente. A Boémia – a única parte componente da monarquia dos Habsburgo que acrescentava todas as vantagens duma indústria altamente desenvolvida a uma economia agrícola bem organizada e muito produtiva – era economicamente perfeitamente “autónoma”, podia muito bem não dar valor às relações com as outras partes do Império e, por isso, reclamava com particular vigor e ira também a sua autonomia política. Na Hungria, os protestos dos eslavos oprimidos ganhavam mais e mais ímpeto, com a aristocracia fundiária que ali governava a enfrentar dificuldades sempre maiores para conservar o poder nas suas mãos.

Havia também outro factor que agravava seriamente a situação da Áustria (e, por consequência, a da Alemanha): A Itália, que já desde 1911 mostrava não querer tomar em linha de conta os interesses das suas duas “aliadas”, acentuou ainda mais, em 1913, esse traço da sua política. Com efeito, sabia-se, logo a partir do próprio momento da formação da Tripla Aliança, que a Itália não interviria militarmente numa guerra da Alemanha e da Áustria contra uma coligação em que participasse a Inglaterra. Por outras palavras, se a Áustria e a Alemanha apenas tivessem que combater contra a Rússia e a França (e qualquer outra potência que não fosse a Inglaterra), a Itália tomaria parte na guerra juntamente com as suas aliadas, mas se a Inglaterra se pusesse ao lado da França e da Rússia, então a Itália manter-se-ia neutral. Resultava assim que, à medida que a Entente se reforçava, em tanto maior grau enfraqueciam os laços que ligavam a Tripla Aliança. Mais ainda: o governo italiano desejava firmemente aumentar a sua influência na península balcânica e na Ásia Menor e, por essa razão, tinha agido durante as guerras balcânicas de 1912-1913 em constante oposição à Áustria. Por último, à medida que na Sérvia a propaganda anti-austríaca ia crescendo em audácia, também tanto mais se intensificava em Itália a agitação anti-austríaca entre os círculos (“irredentistas”) que queriam arrancar à Áustria as regiões do Trentino e de Trieste.

Enquanto que se multiplicavam todas estas dificuldades, nas esferas governantes austríacas ia ganhando força o ponto de vista defendido pelo herdeiro do trono, Francisco Fernando, pelo conde Tisza, primeiro-ministro húngaro, que apostavam em primeiro lugar nas pressões diplomáticas, e pelo ministro das Relações Externas, Berchtold, de posições mais acerbas. Segundo tal ponto de vista, o império dos Habsburgo só se podia salvar do desmembramento e da ruína aniquilando os ambiciosos projectos da Sérvia, e tinha que se apressar a fazê-lo enquanto ainda fosse possível, pois o tempo corria a desfavor da Áustria.

Francisco Fernando, um homem de humor sombrio, fechado sobre si próprio, de ânimo timorato, não simpatizava com Guilherme e desconfiava dele, porém sabia que o Kaiser apoiaria prontamente a Áustria caso esta iniciasse uma guerra, dado que a Alemanha não podia permitir a derrota da sua única aliada e, com isso, o fecho do seu próprio caminho, da sua saída para o Próximo Oriente, a região à qual a indústria e o comércio de exportação alemães tinham vinculado seriamente o seu futuro desde que se iniciara a construção do caminho-de-ferro de Bagdad. O que assegurava plena liberdade de movimentos a Francisco Fernando e a Berchtold era precisamente essa certeza. E aconteceu exactamente aquilo que Bismarck temera (receio este que foi expresso por ele em mais de uma oportunidade (47)): a Alemanha acabou por se achar numa situação em que, de facto, não só não ditava a política da sua aliada, uma potência incomparavelmente mais fraca e dependente do que ela, como se via forçada a segui-la. E quanto mais crescia o descontentamento nos círculos imperiais da Alemanha pela falta de audácia do imperador Guilherme, tanto mais este ficava na dependência de Francisco Fernando e dos seus conselheiros, porquanto os imperialistas germânicos jamais lhe perdoariam que ele não prestasse a devida ajuda ao “único amigo da Alemanha”.

 

(47) Por exemplo, no Hamburger Nachrichten de 24 de Outubro de 1896.

 

Tais eram as circunstâncias e as condições da conexão entre as distintas partes soltas da Tripla Aliança. Condições que suscitavam profundo alarme naqueles que não desejavam a guerra e viam claramente até que ponto os acontecimentos de 1912-1913 nos Balcãs a tinham aproximado.

Analisemos agora de que maneira repercutiram estes acontecimentos nos Balcãs sobre as relações entre os diversos países da Entente. E veremos que também a Entente, através de pequenas e grandes provocações diplomáticas, contribuiu para exacerbar a atmosfera política da Europa nos últimos anos do anteguerra.

 

2. A FRANÇA E A RÚSSIA NO INÍCIO DA ERA DE POINCARÉ. AS RELAÇÕES FRANCO-RUSSAS À LUZ DA MAIS RECENTE DOCUMENTAÇÃO. O MINISTÉRIO DE POINCARÉ. ELEIÇÃO DE POINCARÉ COMO PRESIDENTE DA REPÚBLICA FRANCESA.

 

A partir do momento em que a Turquia começou a ser atacada, ou seja, de 1911, quando os italianos empreenderam a conquista da Tripolitânia e da Cirenaica, a Inglaterra foi gradualmente deixando de ser a força motriz da Entente e a Rússia passou a ocupar esse posto. Tal facto não se devia à morte, em 1910, do rei de Inglaterra, Eduardo VII, principal inspirador e organizador da Entente, nem tampouco a que o gabinete liberal inglês, em 1911-1912, estivesse absorvido pelas questões de política interna de que já falámos (realização das reformas sociais, assuntos orçamentais, etc.), ou a que, em 1912-1913, os problemas irlandeses tivessem tomado um cariz particularmente grave. Tudo isso tinha certamente a sua importância, mas não era o essencial.

Na própria estrutura e natureza interna da Entente havia uma contradição. Eduardo VII tinha-a criado e Sir Edward Grey (após o falecimento do monarca) de início conservara-a como, por assim dizer, uma força protectiva que, de acordo com as necessidades, mantinha a Alemanha constrangida dentro de marcos bem definidos e limitados, não lhe dando possibilidade de alterar a situação que prevalecia na Europa e no resto do mundo. Tal não significa que a Entente tivesse posto para sempre de lado a hipótese de ser ela a primeira a lançar-se, surgindo-lhe uma ocasião propícia, sobre a inimiga, por forma a quebrar-lhe o poder económico e político; porém teria de se tratar justamente duma ocasião propícia, e o momento certo devia de chegar muito mais tarde. Entretanto impunha-se esperar e vigiar a Alemanha para retirar proveito dos seus erros e passos mais arriscados. Estas circunstâncias colocavam a Alemanha, como é fácil de compreender, numa situação extremamente difícil e delicada: as forças coligadas da Entente eram tão grandes, as suas capacidades materiais tão ilimitadas, devido ao seu poder e dimensão ela possuía uma tal força atractiva, que arrebataria à Alemanha, pelo simples facto de prolongar a sua existência, os seus hipotéticos aliados numa guerra futura, a Itália e a Roménia; e, acima de tudo, o tempo corria a favor da Entente, não da Alemanha. O tempo teria permitido à Inglaterra superar todas as dificuldades políticas internas, pacificar a Irlanda, criar um exército terrestre; o tempo teria consentido à Rússia ultimar a reorganização do seu exército e o rearmamento no ano de 1917 (tal como se projectava em 1911-1912); o tempo teria deixado a França cumprir integralmente a reforma da artilharia e introduzir o serviço militar obrigatório nas suas vastíssimas colónias. E então a Entente, sem dúvida alguma, poderia esmagar a Alemanha. Inclusive a Áustria, o único verdadeiro aliado da Alemanha, com o correr do tempo teria perdido a Boémia e, quiçá, outras regiões dela se separassem. Em suma, a contradição encerrada na Entente residia no facto de que ela era demasiado poderosa e de que a atitude de espera adoptada lhe era demasiado conveniente para que a sua estratégica política pudesse ser tão-só “defensiva”.

Por isso a ideia da necessidade duma “guerra preventiva” – que tinha aparecido pela primeira vez nos círculos militares alemães logo nos inícios da última década do século XIX, ao estabelecer-se a aliança franco-russa – ressurgiu na imprensa alemã, e desta feita com muito mais vigor que antes.

Mas a contradição contida na Entente começava manifestar-se também noutro terreno: o das políticas dos seus Estados membros. A Inglaterra achava que era conveniente esperar e prosseguir com os preparativos, ao passo que alguns dirigentes políticos russos e franceses – mas estes últimos em muito menor medida, e só quando a pressão russa se fazia sentir – começavam por vezes a pensar se não seria mais oportuno colher de imediato os frutos, usando-se sem mais dilações o superior poderio da Entente.

O mais activo e inquieto diplomata da Entente nesse período foi Izvolski, que de 1906 a 1910 tinha sido ministro das Relações Externas do Império Russo e, em 1911, era o embaixador russo em Paris. Tenaz, enérgico, extremamente devotado à sua ideia, conseguia dominar totalmente Sazonov, que o substituíra no ministério das Relações Externas; a sua influência era tanto mais perniciosa na medida em que os seus planos se baseavam em cálculos errados. E a sua ideia era que a Rússia podia e dia aproveitar a ocasião excepcional que a aliança com a Inglaterra lhe oferecia para, finalmente, abrir caminho até à península balcânica, quebrando a resistência austríaca e, se fosse preciso, também a da Alemanha. Os cálculos mostravam-se falsos porque para Izvolski (e toda a sua corrente), em primeiro lugar, o recuo da revolução de 1905 significava o fim dos tumultos, a III Duma era o início do normal desenvolvimento de um regime constitucional, a reforma agrária de 9 de Novembro de 1906, a solução da questão agrária, e a época do ministro Sukhomlinov, a da renovação do exército. Acabando por perder totalmente de vista, com base nestas quimeras, a crua realidade, Izvolski concluía que a Rússia seria capaz de resistir e vencer num conflito contra os dois impérios centrais. O fracasso que sofrera em 1908-1909, e que acompanhara a anexação da Bósnia e Herzegovina, tinha feito ver a Izvolski que no caminho para uma activa política russa no Próximo Oriente se erguiam enormes obstáculos, porém isto em nada modificou a linha fundamental do seu pensamento. Em 1911, em Paris, na qualidade de embaixador, de imediato procurou assumir um papel destacado no seio da Entente. Quis o acaso que os seus primeiros passos em Paris fossem dados num momento em que o mundo inteiro estava ainda sob a impressão dos acontecimentos de Agadir e do seu desfecho; a Alemanha tinha ameaçado a França, todavia fora suficiente uma reprimenda de Lloyd George para que, no mesmo instante, se assustasse e retrocedesse. Izvolski prestou demasiada fé às recriminações da imprensa imperialista germânica, que comparava esta humilhação da Alemanha com a derrota da Prússia em Jena frente a Napoleão I. “Não há palavras que definam esta Jena da política alemã! Cobre o teu rosto, Germânia, ante esta página da tua história!” (Verhülle dien Antlitz Germania, vor diesem Blatt deiner Geschichte!), escreviam os “patriotas”alemães após o acordo franco-germano, e muitos (entre eles, Izvolski) tomavam isto por boa moeda, ou seja, como uma confissão de impotência, e não como uma ira artificial e uma instigação à luta (que é o que na realidade era). E daí decorre que Izvolski se tivesse deixado definitivamente conquistar pelos atrevidos projectos duma política audaz e enérgica nos Balcãs e na Ásia Menor.

Em Petersburgo não se lhe deparava quase nenhum obstáculo. É verdade que Kokovtsev, primeiro-ministro em 1911-1913 e ministro das Finanças nos anos precedentes, se mostrava contrário a qualquer aventura política, e que também Sazonov (na medida em que raramente se opôs a Izvolski) procurou por vezes agir com uma certa prudência, mas, em geral, Izvolski não tropeçou com sérios obstáculos. Apagar a vergonha das derrotas sofridas na Manchúria, ressarcir-se no Próximo Oriente, proporcionar à indústria e comércio russos novos mercados e adquirir, simplesmente, novos territórios, tudo isto se afigurava uma perspectiva muito tentadora. E, ademais, cometia-se o mesmo erro fatal – baseado na mais profunda incompreensão da peculiaridade da luta diplomática – que já se havia cometido em Dezembro de 1903 e Janeiro de 1904: Tomarei a Coreia, “mas não haverá guerra, porque eu não a desejo” (das Memórias de Witte, pág. 125). Exactamente na mesma aberração veio a incorrer a política russa em 1912-1914: “Farei o que acho ser-me necessário nos Balcãs e na Ásia Menor, mas não haverá guerra, porque eu não a desejo”. É certo que desta vez se sentia necessidade de proceder com maior cautela, mas também aqui o tranquilizante critério de que “não haverá guerra enquanto eu não a deseje” operou em pleno. E o problema era, não obstante, que em 1903 o Japão de facto não quisera a guerra, ao passo que em 1913, na Alemanha, as classes mais poderosas não receavam a guerra, uma parte dos altos funcionários civis e alguns militares queriam-na, o príncipe herdeiro não a temia, Moltke queria-a e Guilherme II havia deixado de titubear. Todas as iniciativas da Entente, especialmente após a conquista do Marrocos, irritavam e ofendiam a Alemanha. Em meio a tais circunstâncias, a inquieta energia de Izvolski, o qual acreditava que depois de Agadir não havia mister de ter particulares considerações para com a Alemanha, assim como a imperturbável segurança de Nicolau II, que se convencera de que, houvesse o que houvesse, a questão não levaria a uma guerra, visto que ele realmente não a desejava, tinham forçosamente que acarrear toda uma série complicações extremamente perigosas.

Aparentemente, havia uma força que teria podido travar Izvolski. Ele estava em Paris e não podia agir sem o apoio da França; mesmo em relação a Petersburgo, aos seus superiores e ao imperador Nicolau II, para ser capaz de os influenciar ele tinha que se esconder atrás das posições dos franceses. No entanto os governantes franceses haviam mantido durante muito tempo uma atitude de grande reserva e cautela. O que é que mudou então em Paris nesses anos de 1912 e 1913?

Actualmente dispomos dalguns materiais que nos permitem formar uma ideia geral acerca do que se estava a passar entre bastidores na política russa e na francesa durante os derradeiros anos que antecederam a guerra. Há a mencionar, em primeiro lugar, a obra Materiais para a história das relações franco-russas nos anos de 1910-1914, uma compilação de documentos diplomáticos secretos do ministério russo das Relações Externas, publicada em Moscovo em 1922. Trata-se de um enorme volume de 720 páginas que nenhum historiador que se preze hoje pode deixar de consultar, se pretende falar da situação na Europa nas vésperas da guerra de 1914 (ainda que o livro esteja organizado um pouco negligentemente): a compilação contém na íntegra a correspondência de Izvolski com Petersburgo sobre todas as questões principais da política da Entente. Alguma coisa também nos proporcionam os quatro (primeiros) tomos das Memórias de Poincaré, que devem ser usadas com certa cautela. Há também a referir os papéis de Georges Louis (48), embaixador francês em Petersburgo (de 14 de Junho de 1909 até 20 de Fevereiro de 1913 de 1913), publicados em Paris, em 1925, pelo jornalista Ernest Judet, ao qual foram entregues para publicação pela viúva do diplomata (Judet, E., Georges Louis, Paris, 1925 (49)). Baseando-nos nestas fontes e utilizando ainda outras (que, não obstante, são todas de muito menor importância), iremos analisar, nos seus traços essenciais, o que aconteceu em Paris entre 1911 e 1914 no campo da política externa, principalmente no âmbito das questões que estavam ligadas com a aliança franco-russa.

 

(48) No que toca às Memórias de Izvolski, estas não acrescentam substancialmente nada de novo às fontes já citadas.

(49) Mais tarde apareceu o livro de G. Louis, Carnets d’un ambassadeur (les carnets de Georges Louis, directeur des affaires politiques au Ministère des affaires étrangères, ambassadeur de France en Russie), t. I-II, Paris, 1926.

 

Recordaremos, em primeiro lugar, qual era a situação política interna da França naquela época. As eleições de 1910 proporcionaram uma maioria favorável às correntes da esquerda burguesa: foram eleitos para a Câmara 252 radicais e radicais-socialistas, 30 “socialistas independentes”, muito próximos dos anteriores, e 93 republicanos de esquerda. Os partidos de direita e de centro-direita obtiveram, no seu conjunto, 148 deputados (71 conservadores, 60 progressistas e 17 nacionalistas). Por último, o Partido Socialista Unificado obteve 74 lugares. Assim, nesses anos (1910-1914), o poder foi exercido por gabinetes que, dum modo geral, pouco divergiam entre si nas questões da política interna: a principal diferença entre eles era, em suma, que uns (os mais à esquerda) falavam dum imposto radical sobre o rendimento e da necessidade de reformas financeiras, ao passo que os outros não se referiam a isso (ou o faziam em menor medida); no entanto nem uns nem outros realizaram qualquer destas reformas. Quanto ao resto, a política interna passava para segundo plano. Porém, na política exterior destes últimos ministérios anteriores à guerra havia discordâncias. Alguns governos reflectiam dum modo mais acentuado os interesses do partido colonialista, dos grandes financeiros (que desempenhavam em França o mesmo papel dominante nos assuntos da política externa que na Alemanha assumiam os grandes industriais); outros, em contrapartida, eram intérpretes em maior grau dos sentimentos da média e da pequena burguesia, seguindo uma orientação mais prudente e pacífica. Mas a primeira tendência revelava-se mais forte, mais organizada, e impunha-se, ano após ano, de maneira crescente; ela dispunha em maior quantidade dos adequados recursos e meios de influência. Além disso, era sempre possível alarmar a média e a pequena burguesia com a ameaça da destruição da Entente e do fim da aliança franco-russa. Estas classes orientavam-se duma forma bastante confusa nos meandros da política externa. A imprensa que liam e que diariamente lhes inculcava os seus pontos de vista era dirigida e editada pelo grande capital financeiro, que a usava segundo as suas próprias necessidades e os seus próprios fins. E é por isso que, ao falarmos de discordâncias na política exterior dos diversos governos que dirigiram a França em 1910-1914, aludimos mais a matizes do que a diferenças radicais.

A partir de meados de 1909 Briand tomou as rédeas do governo; após as eleições fez algumas modificações no seu gabinete (3 de Novembro de 1910) e continuou a governar até 27 de Fevereiro de 1911. Sucedeu-lhe o governo um pouco mais à esquerda de Monis, e – também este mais à esquerda que o de Briand – o de Caillaux (a partir de 27 de Junho de 1911). A 10 de Janeiro de 1910 Caillaux abandonou o poder. Já então o grande capital, que temia medidas demasiado radicais no âmbito dos impostos sobre a renda, levantara contra ele uma poderosa campanha; mas é de notar que se lhe censurava sobretudo a sua atitude demasiado amigável e conciliadora para com a Alemanha.

A 14 de Janeiro de 1912 o senador Poincaré foi chamado ao poder pelo presidente da República, Fallières. Poincaré ia nessa altura a caminho dos 52 anos e possuía uma larga experiência parlamentar, mas nunca desempenhara até ali qualquer papel de vulto. Manobrara cautelosa e astuciosamente entre os partidos na época do processo Dreyfus, e só se tinha posto do lado do capitão Dreyfus quando já era evidente que os dreyfusistas iam vencer. Da mesma maneira havia agido durante a luta pela separação da igreja do Estado em 1903-1905 e, dum modo geral, em todas as situações mais agudas. Dotado dum grande e versátil talento, de extrema tenacidade e coerência na prossecução dos seus objectivos, de prudência e previsão e, simultaneamente, duma firme resolução nos momentos críticos, de muito sangue-frio e domínio de si mesmo, dum indiscutível dom oratório e, enfim, da capacidade de agir, se necessário, pela intimidação e, quando lhe convinha, através da afabilidade e das lisonjas sobre aqueles que o circundavam, Poincaré nunca hesitava em eliminar o adversário se este teimava em resistir-lhe ou, simplesmente, lhe provocava fastio (têm interesse, neste sentido, as memórias de Charles Humbert, vindas a público em 1925 sob o título Chacun son tour, que ilustram bem o género de “mestre” sem rival da luta política que Poincaré podia ser em caso de necessidade). Era um lutador temível e só saía a terreiro no momento que lhe fosse mais propício. Pôde, a partir de então, exercer a sua influência sobre a França e a Europa durante 12 consecutivos (presidente da república entre Janeiro de 1912 e Janeiro de 1920; senador e líder do bloco nacional em 1920-21; chefe do gabinete de 1922 a 1924) e, após um intervalo em 1924-1925, retomar nas suas mãos as rédeas do poder em Julho de 1926.

Que propósitos moviam este homem? Esta questão é para nós certamente menos importante do que essoutra de saber quais eram exactamente os sectores da sociedade francesa, quais as classes que o viam como representante e intérprete das suas aspirações. Mas é de todo modo de referir que o conjunto das suas convicções nunca sofreu qualquer alteração notável. Aguardou longamente que a sua hora chegasse (sem nunca se ter empenhado para obter qualquer pasta ministerial (50)), e só entrou em cena quando a correlação de forças no país e no parlamento se pôs a favor das perspectivas que defendia. Ao referirmos os seus passos cautelosos em relação aos partidos e a sua relutância em se comprometer nas questões mais agudas que agitavam o país (como o affaire Dreyfus e a separação da igreja do Estado), estávamos a aludir não ao vulgar carreirismo político, que é tão frequente, mas a algo de mais complexo, que mesmo os próprios adversários reconheciam em Poincaré. Sempre mostrou indiferença pela política interna, por todas as questões da luta política interna; de forma intencional, recusava comprometer-se com qualquer questão que dividisse a sociedade francesa, desde que se tratasse dum assunto que não dissesse respeito à política externa. É certo que ele era “republicano”, que afirmava ser necessário defender a República contra os ataques dos monárquicos e, muito em especial, contra os ataques lançados a partir da esquerda pelos socialistas, mas, dum modo geral, os monárquicos não lhe manifestavam grande hostilidade nos confrontos parlamentares, e os socialistas não viam nele um inimigo tão encarniçado como, por exemplo, Clemenceau ou Millerand. Os socialistas só se lhe opuseram resolutamente quando se tornou claro qual era a orientação da sua política exterior, mas tanto para Jaurès como para Renaudel ou Léon Blum, que substituíram o primeiro na direcção do partido socialista, ele nunca personificou a reacção social ou a política de perseguições como o fez, por exemplo, Clemenceau em 1906-1909 ou em 1917-1920. Todos os partidos sabiam que, em caso de necessidade, Poincaré, mais do que qualquer outro, se disporia a ceder no campo da política interna, desde que com isso pudesse manter um controlo absoluto sobre a política externa. E foi por esta razão que, após a revolução russa de 1905 e o rápido crescimento do sindicalismo revolucionário em Paris e noutros grandes centros urbanos, as classes proprietárias – omnipotentes em França –, ao sentirem-se ameaçadas por uma explosão social, escolheram como seu defensor Clemenceau e não Poincaré, o qual, aliás, por nada deste mundo teria então aceitado o cargo de primeiro-ministro e o papel de “primeiro gendarme”, de “primeiro polícia” (le premier flic de France), como orgulhosamente Clemenceau se designava a si mesmo. Poincaré não queria executar pelas suas próprias mãos essa tarefa específica, não obstante simpatizar com ela no essencial, visto que ele, naturalmente, apoiava o conservadorismo social de corpo e alma. Porém desejava reservar-se para outra oportunidade (51).

 

(50) Recordo de passagem que ele era o ministro das Finanças em 1906, quando Witte estava a negociar o empréstimo de 2.250 milhões de francos que permitiu ao governo russo dissolver a primeira Duma.

(51) Nos princípios de 1926 apareceram, levantando muito alvoroço, os primeiros dois volumes das Memórias de Poincaré. I) Le lendemain d'Agadir e II) Les Balkans en feu, Paris, 1926. Estas memórias, naturalmente, estão longe de ser sinceras, todavia contêm muitos factos interessantes.

 

E essa oportunidade chegou quando em Janeiro de 1912 o chamaram ao palácio do Eliseu, donde saiu investido nas funções de primeiro-ministro. Em 1912, as classes proprietárias já não temiam uma revolução social e, no plano externo, a difícil situação na Europa mobilizava imperiosamente as atenções gerais, prevalecendo sobre tudo o resto. Uma parte das classes possuidoras – a pequena burguesia e quase toda a média, ou seja, uma boa parte da nação, dado que todos os camponeses com terras também pertenciam à pequena burguesia – não queria a guerra. Nem tampouco a desejava a classe operária (em França não havia camadas operárias a favor duma política externa “enérgica”, ao contrário do que sucedia na Alemanha entre a “aristocracia operária”). Sustentavam uma política exterior agressiva, os magnatas da bolsa e dos grandes bancos (não todos, para sermos precisos), o partido colonialista (na íntegra), os grandes exportadores, os armadores de navios e a massa de cidadãos materialmente ligada às colónias; mas o apoio mais enérgico vinha dos grandes industriais e, em primeiro lugar, como é óbvio, daqueles que estavam ligados ao militarismo pelos seus interesses materiais imediatos, os proprietários e accionistas das fábricas de armamentos e das fundições de aço, dos estaleiros, etc. Todo o grande capital, que detinha nas suas mãos a quase totalidade da imprensa de grande difusão e possuía no parlamento posições extremamente sólidas, cifrou as suas esperanças em Poincaré. Este também tirou partido da cólera do pequeno artesanato francês face à triunfante concorrência alemã; ajudou-o ainda o interesse que manifestavam todas as camadas da burguesia, inclusive uma parte do campesinato, pelos empréstimos russos, o que gerava uma tendência a apoiar o governo russo com novos empréstimos e a incentivar as perigosas aventuras na política externa da diplomacia russa, se bem que quanto a este último ponto as opiniões por vezes divergissem de maneira muito marcada.

Poincaré apresentou a sua ideia por forma a que não assustasse, dum modo brusco, a pequena e média burguesia: “Somos pacíficos, mas, que fazer se a guerra for inevitável? Em primeiro lugar, é preciso armar-se; em segundo lugar, há que procurar aliados e garantir por todos os meios a sua amizade”. Comentava-se, sem dúvida com alguma inquietação, que o novo chefe do governo não via, seguramente, qualquer possibilidade de evitar uma guerra, e repetiam-se as palavras que o grande matemático Henri Poincaré, primo direito do primeiro-ministro, teria dito mal lhe deram a notícia que Raymond Poincaré tomara as rédeas do governo: “O meu primo é a guerra” (Mon cousin c’est la guerre). Mas Poincaré, com a cautela e a astúcia que lhe eram próprias, evitava pronunciar discursos que pudessem comprometê-lo. Preferia agir e, fatalmente, as suas acções não só não criavam quaisquer obstáculos que pudessem impedir uma guerra como, inclusive, até os eliminavam, ainda que ele não deixasse de reiterar constantemente o seu apego e a sua devoção pelos valores da paz. É de recordar que a famosa alcunha de “Poincaré-la-guerre” lhe foi atribuída ainda antes da guerra mundial. Percebia-se instintivamente que o novo chefe de governo nunca haveria, de maneira nenhuma e em caso algum, de impedir a guerra. Se no palácio do Eliseu houvesse estado Fallières, a guerra não teria rebentado: foi o que posteriormente expressaram Stephen Pichon e George Louis.

Antes do mais, Poincaré desatou as mãos a Izvolski (52). Um dia depois (15 de Janeiro) de ter assumido o poder, Poincaré visitou Izvolski e “garantiu-lhe a sua firme intenção de manter com a Rússia as mais estreitas relações e de orientar a política externa francesa nesse sentido”. Imediatamente após este encontro, Izvolski começou a trabalhar para que fosse afastado o embaixador francês em Petersburgo, Georges Louis: este defendia a política de paz e opunha-se de forma bastante enérgica à intervenção activa da diplomacia russa na península balcânica; procurava atenuar as fricções com a Alemanha e a Áustria e era considerado por Izvolski como um dos amigos pouco seguros da aliança franco-russa e da Entente.

 

(52) Apesar dele não confiar en Izvolski e de, em geral, a sua política ser incomparavelmente mais cautelosa e reservada do que a conduzida por Sazonov e Izvolski.

 

Influenciando Poincaré, Izvolski conseguiu minar a posição oficial e a carreira de Georges Louis. De resto, ainda antes da sua demissão, que se verificou nos finais de Fevereiro de 1913, George Louis via-se impotente para lutar contra Izvolski, o qual, visivelmente, tinha o apoio do próprio presidente do conselho de ministros de França. Os sinais deste apoio eram cada vez mais frequentes. As manifestações públicas que celebravam a Entente seguiam-se umas atrás das outras. Em Abril de 1912, durante a cerimónia de inauguração em Cannes do monumento ao rei Eduardo VII, e na presença do grão-duque Miguel, Poincaré declarou: “a França aprecia profundamente os benefícios da paz e não pensa levar a cabo uma política de provocação, mas compreende de forma clara que, para não ser ela própria atacada ou provocada, deve necessariamente manter sempre a um alto nível o seu poder militar e naval. Devemos certamente contar, em primeiro lugar, com as nossas próprias forças, mas estas forças recebem um considerável incremento em consequência do apoio que nos concedem os nossos amigos e aliados”. Ao comunicar estas palavras a Petersburgo, Izvolski acrescentava que o próprio Poincaré lhe explicara que “estes festejos tiveram o carácter nitidamente expresso duma demonstração da solidariedade recíproca que existe entre as três potências participantes na Tripla Entente”. Em Julho de 1912 decorreram em Paris consultas entre os chefes dos Estados-maiores dos exércitos francês e russo, e também dos chefes dos respectivos comandos navais, e “o chefe do Estado-maior da marinha francesa declarou compreender perfeitamente que era preciso facilitar à Rússia, no interesse de ambos os aliados, o domínio sobre o Mar Negro, exercendo a apropriada pressão sobre as frotas dos nossos eventuais adversários, quer dizer, principalmente da Áustria e talvez da Alemanha e da Itália”. Assim, a política da França e da Rússia (que não era todavia a da Entente toda) parecia começar a orientar-se para Constantinopla e os Estreitos, se bem que então, tal como de resto no pós-guerra, a França de maneira nenhuma pretendesse o desmembramento da Turquia.

Estavam em jogo múltiplos interesses. Poincaré precisava da Rússia, e acontecimentos que na realidade não tinham um sério significado político, como a visita de Guilherme II a Porto Báltico em 4 de Julho de 1912, retribuindo a que Nicolau II havia feito a Potsdam em 1910, turvavam e irritavam os políticos franceses, induzindo-os a dar passos favoráveis ao governo russo. E a diplomacia russa aproveitava a situação para dirigir o poderio da Entente contra a crescente influência alemã na Turquia. Durante a primeira guerra balcânica, e em resposta ao tenteio russo, Poincaré tinha dito a Izvolski (17 de Novembro de 1912) que “se a Rússia fizer a guerra, também a França a fará, porquanto nós sabemos que nesta questão por detrás da Áustria estará a Alemanha”. Esta declaração foi feita posteriormente à viagem de Poincaré à Rússia (em Agosto do mesmo ano), quando o presidente do conselho de ministros francês recebeu em Petersburgo um acolhimento extremamente cordial. Face a essas demonstrações a inquietação alemã não podia senão crescer. Guilherme II (então sob a influência do responsável pelas Relações Externas, Kiderlen-Waechter, naquele momento contrário á guerra) deu alguns passos em direcção à França: um grupo de couraçados alemães foi enviado ao encontro de Poincaré quando este se dirigia para Kronstadt, saudando-o à entrada do Báltico com salvas de artilharia; imediatamente depois, Kiderlen-Waechter concedeu uma entrevista a um correspondente do diário francês Le Figaro, tendo manifestado propósitos bastantes amistosos a respeito duma eventual cooperação pacífica entre a França e a Alemanha. Mas estas sondagens alemãs não tiveram qualquer efeito. Sazonov, depois de em Petersburgo ter conhecido pessoalmente Poincaré, comunicou a Nicolau II as suas “impressões pessoais” nos seguintes termos: “...a Rússia tem nele um amigo fiel e seguro, dotado duma rara inteligência política e duma inflexível vontade. Caso sobreviesse uma fase crítica nas relações internacionais, seria extremamente desejável que à cabeça do governo da nossa aliada estivesse, se não o próprio senhor Poincaré, pelo menos uma pessoa com um carácter igualmente resoluto e sem medo de assumir as responsabilidades próprias, como o actual primeiro-ministro francês”.

Avizinhava-se o dia das eleições presidenciais. A esquerda da Câmara e do Senado apoiava a candidatura de Pams, enquanto a direita propunha a do presidente do conselho de ministros, Poincaré. A candidatura de Pams significava um afrouxamento das tensões na atmosfera política. A de Poincaré unia os que defendiam o prosseguimento duma “política enérgica”. “Amanhã vão-se realizar as eleições presidenciais – escrevia a 16 de Janeiro de 1913 Izvolski a Sazonov –; se Poincaré, Deus nos livre, sofre uma derrota, isto será para nós uma catástrofe”.

No dia seguinte, a 17 de Janeiro de 1913, Poincaré foi eleito presidente de República Francesa. Passado poucos dias, declarou a Izvolski que, “na qualidade de presidente da República, podia influenciar decisivamente a política externa da França”, logo acrescentando que “o governo francês considera de extrema importância preparar a opinião pública francesa para a participação da França numa guerra que pode eclodir a partir da situação nos Balcãs”. Izvolski encheu-se de júbilo (ver a sua carta a Sazonov de 30 de Janeiro de 1913). Estava convencido – e nisto não se enganou – de que quem continuaria a dirigir a política externa da França, uma vez empossado presidente da República, seria o próprio Poincaré, e de que, mesmo sem contar com a sua personalidade autoritária, a Constituição francesa lhe proporcionaria, como presidente – ao contrário da opinião geralmente expressa – um vasto terreno para a sua intervenção pessoal.

O primeiro acto mais significativo do novo presidente foi chamar de volta o embaixador em Petersburgo, George Louis, substituindo-o (21 de Fevereiro de 1913) pelo ex-ministro dos Negócios Estrangeiros Théophile Delcassé, o mesmo que, como já dissemos antes, teve de se demitir em Junho de 1905 sob a pressão das ameaças alemãs a pretexto dos assuntos marroquinos. Tinha colaborado activamente com Eduardo VII na formação da Entente e era considerado um inimigo encarniçado da Alemanha. Em 1905, o regozijo na Alemanha pela sua demissão foi de tal ordem que de imediato Guilherme II atribuiu ao chanceler von Bülow o título de príncipe, em sinal de reconhecimento pelo que ele pensava ser o êxito da sua política, visto se ter obtido um resultado tão brilhante. Desde então, todo o rumor acerca dum regresso de Delcassé aos assuntos da política externa provocava na Alemanha alarme e irritação, e recordava-se que ele (antes da sua demissão) tinha aconselhado o primeiro-ministro Rouvier a não ceder, nem mesmo perante o risco dum conflito armado.

E eis pois que, agora, após ter permanecido afastado durante oito anos da política externa, Delcassé era nomeado embaixador da França na capital russa e, como se isso não bastasse, toda a Europa de imediato ficou a saber que essa nomeação se devia à vontade pessoal de Poincaré, o presidente da República.

Na Alemanha, isto foi recebido como uma ofensa, uma demonstração hostil e uma ameaça. A situação levara uma tal reviravolta que o país promotor da Entente, ou seja, a Inglaterra, parecia cumprir agora um papel passivo na direcção geral da política da aliança, enquanto que a França e a Rússia passavam a assumir uma activa função orientadora. Densas nuvens negras adejavam sobre a Europa. Em Dezembro de 1912 faleceu o ministro (secretário de Estado) alemão das Relações Externas, Kiderlen-Waechter, um dos poucos diplomatas alemães de talento. Na Alemanha, os partidários das soluções expeditas e dos actos enérgicos, que defendiam ser necessário cortar todos os nós górdios pela espada, estavam a assumir uma clara preponderância. O príncipe herdeiro, na Alemanha, os ministros Berchtold e Tisza e o arquiduque Francisco Fernando, na Áustria, e Izvolski, em Paris, apareciam cada vez mais em primeiro plano. E ambas as partes, antes de passar a preparativos mais sérios, esquadrinhavam atentamente o que acontecia em Inglaterra, visto que neste país pareciam estar a processar-se certas mudanças. No decurso de 1913 e inícios de 1914, as duas partes tentavam perscrutar nos olhos da esfinge britânica aquilo que eram os seus próprios desejos, quer dizer, intenções opostas, que se excluíam entre si.

Vamos agora examinar os elementos essenciais da vida política inglesa nos últimos anos anteriores à guerra; veremos que descobrir os verdadeiros objectivos do governo inglês e prever a sua provável conduta no momento decisivo era tarefa de facto difícil.

 

3. INGLATERRA. FRACASSO DAS NEGOCIAÇÕES COM A ALEMANHA SOBRE A LIMITAÇÃO DOS ARMAMENTOS NAVAIS. A SITUÇÃO INTERNA NA INGLATERRA. O MOVIMENTO OPERÁRIO ENTRE 1910 E 1913. A IRLANDA.

 

Na fase culminante do incidente de Agadir, mas quando já fora ultrapassado o momento mais crítico e a Alemanha cedera, o gabinete inglês convocou uma reunião secreta com os representantes do exército e da armada para traçar o quadro preciso, se não do desenrolar de toda a guerra, pelo menos dos primeiros choques com os exércitos germânicos na frente ocidental. Os peritos militares formularam prognósticos pouco animadores. O general Wilson depositava poucas esperanças na Rússia e referia a debilidade das suas forças e a morosidade na mobilização. Os franceses apenas poderiam opor 85 divisões (I)) contra as 111 divisões alemãs (II), no momento em que estas invadissem a Bélgica. Os ingleses somente poderiam dispor nos primeiros tempos – segundo os seus cálculos – de 6 divisões de infantaria. Quanto às forças navais, a frota britânica era, obviamente, muito mais poderosa do que a alemã, e estaria em condições, logo desde o início das operações bélicas, de bloquear todas as costas da Alemanha.

 

(I) 9 destas divisões estavam então na fronteira italiana; e Tarlé faz equivaler a 10 divisões os 200.000 soldados das guarnições das fortalezas; de facto, o exército francês poderia contar com 66 divisões mais os 200.000 homens das guarnições (com um efectivo equivalente ao de dez divisões) para se opor à invasão alemã.  

(II) De acordo com os ingleses, 84 divisões alemãs seriam mobilizadas para a frente ocidental e as restantes 27 para a oriental. Tarlé “concentra-as” todas na frente ocidental.

 

Entretanto o almirante von Tirpitz prosseguia na sua tarefa de aumentar e reforçar a armada germânica. A Inglaterra, naquele momento, não queria combater. E tanto Lloyd George, o chanceler do Tesouro, como Winston Churchill, ministro da Marinha, concordavam que era preferível não entrar em guerra com a Alemanha e que se devia, inclusive, oferecer-lhe “algumas” possibilidades de ampliar as suas possessões coloniais, e mesmo até “ajudá-la” neste terreno, por forma a assegurar uma paz estável nos tempos mais próximos (53). Porém, antes do mais, havia que obter aquilo que até ali não fora possível: uma interrupção dos rearmamentos navais.

 

(53)We were no enemies to German colonial expansion and we would even have taken active steps to further her wishes in this respect” (Winston Churchill, the World Crisis, pág. 94).

 

O governo inglês enviou um emissário secreto, Sir Ernest Cassel, para se entrevistar com Guilherme II acerca desta questão. A proposta era a seguinte: a Alemanha tinha de reconhecer, de uma vez para sempre, a superioridade da Inglaterra nos mares, devia renunciar ao alargamento do seu programa naval e, inclusivamente, reduzi-lo; em contrapartida, a Inglaterra comprometia-se a não levantar obstáculos à expansão das colónias alemãs; simultaneamente, a Inglaterra e a Alemanha comprometer-se-iam a não tomar parte em nenhuma guerra em que um dos dois países fosse atacado por uma terceira potência ou coligação de potências. Cassel foi muito bem acolhido por Guilherme II e pelo chanceler Bethmann-Hollweg, e o governo inglês resolveu enviar a Berlim a título oficial um dos seus ministros, mais precisamente, o ministro da Guerra, Haldane, que já tinha viajado até à capital alemã em mais que uma ocasião. Parecia que desta vez o assunto estava bem encaminhado. Haldane fez a viagem até Berlim (em Fevereiro de 1912) e regressou com uma cópia do novo programa de von Tirpitz.

Com a execução desse grandioso programa, de acordo com os cálculos um tanto alarmistas (I) do Almirantado britânico, em 1914 a Alemanha possuiria “25 ou quiçá 29” navios de guerra de primeira linha contra os 22 ou 24 de que a Inglaterra poderia dispor nas frotas que protegiam as suas costas e em toda a armada do Atlântico. Não se tratava apenas duma concludente negativa oposta à oferta inglesa, era também um claro desafio.

 

(I) Havia outras estimativas, nomeadamente a que era feita por Mckenna, com números muito mais favoráveis à Inglaterra.

 

Os próprios círculos navais alemães não escondiam que se tratava dum repto: a Inglaterra não podia expandir indefinidamente a sua armada; poderia quiçá dispor no futuro de mais navios, mas não do número de homens necessário para as suas tripulações, ao passo que na Alemanha não havia penúria de gente. Os alemães também não estavam de acordo com a fórmula de neutralidade proposta, apenas aplicável em caso da Alemanha ser atacada. Guilherme II e Bethmann-Hollweg exigiam o seguinte enunciado: a Inglaterra mantinha a sua neutralidade se a Alemanha fosse forçada a entrar em guerra (if a war is forced upon Germany). O que se pretendia era extremamente claro: a Alemanha poderia em qualquer altura atacar a França, afirmando que os franceses, pela sua atitude política, a haviam forçado a uma guerra. Se a Inglaterra tivesse aceitado essa fórmula, a Entente automaticamente deixaria de existir. E em troca os ingleses não teriam recebido absolutamente nada, porquanto o novo programa naval de von Tirpitz obrigava de qualquer modo o almirantado inglês a iniciar sem demora, com uma intensidade redobrada e não olhando a custos, a construção de novos navios de guerra.

Os ingleses não queriam continuar mais as conversações. Winston Churchill declarou, em Março de 1912, que a Inglaterra construiria, dali em diante, mais 60% de novos dreadnoughts do que a Alemanha ao longo de todo o período de execução do novo programa naval germânico. E se a Alemanha começasse a construir mais navios do que os previstos no programa, a Inglaterra de imediato construiria dois dreadnoughts por cada um que saísse dos estaleiros navais alemães. Em tais condições, devia de ser evidente para Guilherme e von Tirpitz que era inútil prosseguir a competição. Contudo não foi este o efeito que a declaração de Churchill produziu em von Tirpitz, pois o seu programa naval passou a ser executado a um ritmo mais intenso.

O biénio seguinte foi extremamente difícil para a Inglaterra. Desde o Verão de 1912 até ao de 1914, o governo inglês viu-se obrigado a: 1) gastar nos novos armamentos navais as somas que se deveriam destinar à realização das reformas sociais recentemente aprovadas; 2) preocupar-se, durante as duas guerras balcânicas, com a política própria e interveniente da Rússia e da França (quer dizer, de Izvolski e de Poincaré), que naquela altura podia atear o incêndio europeu, um conflito no qual a Inglaterra, como era óbvio, e por mais que desejasse adiá-lo, visto lhe ser tão inoportuno naquele momento, nunca se poderia manter neutral; 3) tomar em conta as fricções que se repetiam com frequência crescente na Pérsia entre as autoridades russas e inglesas, e em que era preciso ceder para não pôr em perigo a Entente; 4) vigiar atentamente os passos da Alemanha, pois a sua reacção à proposta de neutralidade apresentada pela Inglaterra e a recusa de suspender as construções navais não deixavam quaisquer dúvidas de que o governo alemão pensava muito seriamente na guerra que se veria forçado a travar. Uns cinco ou seis anos mais e o conjunto das circunstâncias estaria a favor da Inglaterra: subjugar a Alemanha e pô-la fora de combate seria então um objectivo em prol do qual, do ponto de vista imperialista, valeria a pena provocar uma guerra, mas nesse momento, em 1912-1914, no critério do governo britânico, isso não era ainda oportuno. A situação interna do Império Britânico não era de molde a que se pudesse encarar precipitadamente uma guerra.

Suscitava preocupação, em primeiro lugar, o movimento operário. Após um curto período de expansão da produção industrial e das vendas, que se iniciou em 1904, estendeu por 1905 e 1906 e terminou na Primavera de 1907, sobreveio uma gradual e crescente depressão em 1907 (segundo semestre), 1908 e 1909. Em 1910 e 1911 voltou a registar-se uma certa melhoria que se prolongou também nos dois anos subsequentes. Estava criada uma situação em que, por um lado, não havia uma crise grave de desocupação e, por outro, os empresários se recusavam a aumentar os salários, alegando baixos lucros. Assim, existiam os motivos de estímulo para os movimentos grevistas e as oportunidades de êxito nessa luta. Em 1907 fizeram greve na Inglaterra 147.498 operários, com uma perda total de 1.878.679 jornadas de trabalho (os dias de trabalho perdidos são considerados, neste caso, um dos índices mais significativos e figuravam sempre em publicações como os Reports on strikes and lockouts, 1894-1912); em 1908 contavam-se já 295.507 grevistas, tendo-se perdido 10.632.638 dias de trabalho. Em 1909 os grevistas foram 300.819, ascendendo o seu número em 1910 a 515.165 (9.545.531 dias perdidos) e em 1911 a 931.050 (7.552.110 dias perdidos) (I).

 

(I) O ano de 1911 é o único em que se verifica uma diferença considerável entre os números de Tarlé e os que encontramos hoje disponíveis: 962.000 grevistas e 10.155.000 jornadas perdidas.

 

Estas greves inquietavam seriamente o governo. Elas assumiam um carácter especial: eram sistematicamente promovidas não pelas velhas e ricas Trade Unions, mas por pequenos comités que se organizavam dum momento para o outro e que, não obstante serem estruturas locais, estendiam de imediato o movimento grevista e obrigavam as Trade Unions a segui-los. No Verão de 1911 estalou uma greve de tais dimensões e em sectores tão importantes que, no mundo dos negócios, houve um momento em que pouco faltou para que se instalasse o pânico geral. Subitamente declararam-se em greve os operários dos transportes em toda uma série de localidades do litoral e numa parte do interior do país. As greves começaram com a dos marinheiros e fogueiros da frota mercante, e o seu início foi extremamente característico. O sindicato dos marinheiros e fogueiros era uma organização muito pobre, quase insignificante, e quando na Primavera de 1910 o presidente do sindicato, Havelock Wilson, pediu aos patrões um aumento salarial, estes não quiseram sequer negociar com ele: responderam-lhe com uma rotunda negativa e, ademais, expressaram a opinião de que tal exigência salarial só se podia explicar como uma iniciativa inspirada pelo desejo de fazer um pouco de publicidade a uma organização insignificante, que agrupava uma percentagem irrisória dos marinheiros e fogueiros. Porém o sindicato declarou a greve, à qual aderiram numerosíssimos marinheiros e fogueiros que não estavam organizados nas suas fileiras. A greve desenvolveu-se com uma tal rapidez e foi tão unânime e maciçamente seguida que bastaram três dias para que algumas companhias marítimas cedessem às reivindicações dos grevistas. Este êxito, inesperado e considerável (outros empresários vieram a ceder, seguindo o exemplo dos primeiros), suscitou um movimento análogo entre os operários dos estaleiros e os estivadores portuários. Entretanto, o dirigente dos estivadores, Ben Tillett, um homem extremamente enérgico e com larga experiência na luta sindical (ganhara notoriedade já em 1889, aquando da organização duma greve dos portuários), decidiu dar à luta uma maior amplitude: declarou a sua total adesão à campanha que Tom Mann, teórico do movimento sindicalista na Inglaterra, vinha promovendo desde 1910 no periódico The Industrial Syndicalist; Mann afirmava que os operários dos transportes, se actuassem de modo unânime, seriam todo-poderosos, pois a Inglaterra não poderia resistir sequer três dias à paragem simultânea do tráfico marítimo, fluvial, ferroviário, rodoviário e eléctrico. O êxito dos marinheiros e fogueiros incutiu em Ben Tillett uma grande confiança e, a partir de Julho de 1911, a greve dos transportes começou a espraiar-se. Esta greve não foi tão vasta quanto o esperava Tom Mann, mas mesmo assim as suas proporções foram grandiosas. O transporte de provisões por via marítima (em primeiro lugar, as que provinham da França e da Dinamarca) cessou por completo, os produtos que entretanto já haviam sido transportados não se descarregavam e em Londres os preços subiam com uma enorme rapidez. Aos grevistas juntaram-se os trabalhadores da electricidade, do gás, da água e do saneamento. O governo concentrou tropas à volta de Londres, porque temia acções revolucionárias da parte dos grevistas. Porém, ao mesmo tempo, o gabinete de Asquith decidiu mediar entre os operários e empresários. Os acontecimentos haviam tomado um cariz extremamente inquietante, em particular na capital. A 11 de Agosto o diário londrino mais lido (o Daily Mail) escrevia: “Os grevistas são donos da situação. A capital encontra-se na posição duma cidade sitiada no interior da qual a guerra civil – afortunadamente de natureza benigna – está em pleno curso.” A impressão que isto causou nas massas foi enorme, muito maior que a efervescência social no Inverno de 1908/09 provocada pelo aumento do desemprego, e bem mais profunda que a agitação suscitada pelas greves ferroviárias de 1910 ou pelo vasto movimento grevista desenvolvido nesse mesmo ano nas minas de carvão de Gales. Assim, os mineiros não tardaram a unir as suas reivindicações à dos grevistas (aliás, a greve dos mineiros de Gales ainda prosseguia). O futuro presidente (em 1912) da federação dos mineiros, Robert Smillie, declarou a 22 de Julho de 1911 que: 1) tinha que se obter um salário mínimo, abaixo do qual os patrões não poderiam fazer descer as remunerações, e 2) devia-se nacionalizar as minas.

Nos inícios de Outubro de 1911 essa reivindicação foi aprovada pela conferência da federação dos mineiros que se celebrou em Southampton. Os patrões não a aceitaram e os mineiros decidiram em 18 de Janeiro de 1912 realizar a greve. Entretanto a greve dos transportes já havia terminado, com grandes concessões por parte dos empresários. A classe operária vira que a greve dos operários dos transportes tinha culminado numa grande vitória, e agora, em 1912, os mineiros resistiram não 6 dias, como supunham no princípio os proprietários, mas 6 semanas, ou seja, precisamente sete vezes mais tempo. As perdas foram colossais. O estatístico John Holt Schooling calculou que esta greve de 6 semanas tenha custado aos operários 16 milhões de libras esterlinas e aos patrões, 20 milhões, números que todavia se consideram estarem muito aquém dos reais. A greve terminou com uma vitória parcial dos mineiros: a 29 de Março de 1912 foi aprovada uma lei que conferia ao governo o poder de fixar o salário mínimo para os mineiros, mas tão-só nos casos em que esse salário mínimo não chegasse a ser estabelecido pelas comissões mistas de operários e patrões.

A greve dos mineiros ainda mal havia terminado quando, nos finais da Primavera de 1912, estalou uma nova greve dos operários dos transportes, descontentes por os patrões haverem violado algumas das cláusulas dos acordos que tinham posto fim à primeira greve. Mas desta feita o governo não se mostrou tão seriamente empenhado no rápido termo do conflito quanto em 1911 (na época do incidente de Agadir), e não exerceu suficiente pressão sobre os patrões. Além disso, estes haviam arranjado atempadamente um bom número de fura-greves. Após uma greve de cerca de três meses, os operários, derrotados, voltaram ao trabalho sem nada terem conseguido. Mas precisamente devido a esta circunstância manteve-se latente a ameaça de ulteriores conflitos. E, com efeito, durante o ano de 1913 as greves sucederam-se umas às outras em todos os centros industriais de Inglaterra, com especial destaque também desta vez para o sector dos transportes. Em 1913 acentuou-se um traço que já desde 1909-1910 vinha assumindo assinalável relevo: a debilidade das velhas Trade Unions, impotentes para deter o movimento grevista ainda quando o pretendessem fazer. Afirmava-se, em contrapartida, a influência dos comités e organizações que, animados de firmes propósitos e de iniciativa própria, tomavam nas suas mãos a direcção da luta. Neste sentido foi significativa a greve parcial, mas que nem por isso deixou de ser muito ampla, de numerosas fiações de algodão no Lancashire (em 1913), prolongada por nove semanas mal-grado a vontade claramente expressa das velhas Trade Unions interessadas; a greve foi dirigida pelos representantes da minoria operária, no entanto essa minoria possuía uma orientação muito determinada.

Tudo isto produziu um vivo efeito sobre os empresários capitalistas e o governo. A rápida difusão do espírito revolucionário entre os operários não deixava qualquer margem para dúvidas. E o problema residia não tanto na propaganda ou na actividade desta ou daquela organização, mas mais na transformação das concepções e perspectivas por causa da mudança na posição relativa da indústria inglesa no mercado mundial.

Vamos assinalar aqui, nos seus traços essenciais, o percurso seguido pelas organizações socialistas na Inglaterra, nas últimas décadas. A Federação Social Democrática, fundada por Henry Hyndman em 1881 (54), foi o primeiro grupo britânico a propagar o socialismo marxista (Hyndman conhecera pessoalmente Marx e estava muito influenciado pela sua obra). De facto este grupo foi sempre um estado-maior de agitadores qualificados, relativamente pouco numerosos, e não um partido político de massas na verdadeira acepção da palavra.

 

(54) Inicialmente, em 8 de Junho de 1881, formou-se com o nome de Federação Democrática, passando a ser designada Federação Social Democrática a partir de 4 de Agosto de 1884.

 

Quase contemporaneamente, em Janeiro de 1884, surgira em Londres a Sociedade Fabiana, de tipo e orientação social-reformista. Os fabianos defendiam a “gradual” conquista de melhorias sociais, e não era por acaso que tomavam o seu nome de Fabius Cunctator, o Contemporizador, famoso chefe militar da antiga Roma que, pela sua prudência, manteve a salvo por largo tempo os exércitos romanos, evitando qualquer choque perigoso com Aníbal. Os fabianos acreditavam que também a classe operária devia evitar uma batalha decisiva, porquanto o capital dispunha de muitas forças e sairia vencedor caso se tentasse de imediato passar à luta final. Os fabianos muito contribuíram para a difusão de teorias com matizes socialistas, tanto entre a classe operária como os intelectuais. E, em 1888, Keir Hardie formou o primeiro partido operário escocês (previsto por Engels como algo de inevitável), que de acordo com o seu programa original devia de ser uma organização de classe empenhada na luta política e económica. Este partido, em primeiro lugar, apresentaria ao parlamento os seus candidatos próprios, independentemente quer dos liberais, quer dos conservadores. Em Janeiro de 1893, a conferência das organizações operárias que se celebrou em Bradford fundou o Partido Operário Independente da Grã-Bretanha. Este partido prestou especial atenção às Trade Unions, aos antigos sindicatos, procurando manter com eles as melhores relações, não os amedrontar com consignas demasiado radicais e utilizá-los na luta eleitoral contra os dois partidos burgueses (liberais e conservadores). Na conferência que se realizou em Londres, em 1900, deu-se a fusão orgânica duma parte das Trade Unions com o Partido Operário Independente, a Federação Social Democrática e a Sociedade Fabiana. Elegeu-se um comité especial da representação do trabalho (Labour Representation Committee), com a exclusiva missão de planificar e coordenar a actividade para o período das eleições parlamentares. Como elemento principal deste comité, destacou-se Ramsay MacDonald. Logo nos seus primeiros dias de existência, o comité começou a ser designado por partido do trabalho (Labour Party, Partido Trabalhista), e quanto maior era o número de sindicatos e organizações que a ele aderiam, tanto mais se afirmava esta designação para o conjunto das organizações ali representadas. Nas eleições parlamentares de Janeiro de 1906 o Partido Trabalhista obteve uma série de vitórias e enviou para o parlamento 29 deputados: a designação de Labour Party tornou-se então a oficial. Em 1911 o Partido Trabalhista tinha mais de um milhão e meio de membros e era representado no parlamento por 42 deputados, eleitos nos finais de 1910.

Assim se configuravam as circunstâncias nos derradeiros anos que antecederam a guerra. Os elementos situados mais à esquerda acabaram por abandonar o Partido Trabalhista e formar o Partido Socialista Britânico (que realizou a sua primeira conferência em Manchester a 27 de Maio de 1912). Repetimos, no entanto, que no lapso de 1910-1914 o que mais seriamente preocupava o gabinete de Asquith não eram as organizações políticas de esquerda então existentes, mas sim a espontânea e célere mobilização revolucionária de numerosos estratos da classe operária. “Os operários jovens, pelo menos aqueles que constituem o escol da nova geração, nutrem um profundo descontentamento pelas condições de vida que têm de suportar. Não querem viver no meio com que se contentavam os seus pais...no seu íntimo enraíza-se o espírito de rebelião contra a vida que se lhes oferece”: eis o que escrevia a Westminster Gazette em Outubro de 1910, depois duma onda de greves. O publicista Robert Blatchford, próximo das massas operárias, escrevia (a 25 de Agosto de 1911), também após um movimento grevista, ainda mais vasto que o precedente: “começo a sentir, de forma vaga e confusa, que já não entendo o povo inglês: não é o mesmo que eu conhecia antes. É novo e estranho. A massa está a mudar” (55). Já a partir de 1913 era por isso evidente que, para manter a classe trabalhadora sob a sua influência, o Partido Trabalhista no seu todo – uma massa heterogénea, tolhida nos seus movimentos pela sua complexa composição social – teria de se deslocar decididamente para a esquerda; e no seio da classe ou classes governantes ainda menos dúvidas havia de que era imperiosamente necessário, sem atender a custos, ampliar e reforçar a legislação social para evitar que no futuro a luta social transvazasse do parlamento e saísse definitivamente para a rua, atendendo assim aos exaltados apelos da agitação revolucionária antiparlamentar (56); e se de facto fosse preciso nacionalizar as minas de carvão, expropriar os caminhos-de-ferro, o “orçamento de Lloyd George”, por si só, não seria suficiente para tal efeito. Era preciso pôr em tensão todas as energias do Estado no campo financeiro. Mas como fazê-lo se a Alemanha não tencionava desistir da ruinosa competição dos armamentos navais e a cada três ou quatro meses a Europa era ameaçada pelas chamas duma nova guerra? E o movimento operário era tão-só um dos problemas que tornavam a situação difícil para o governo inglês.

 

(55) Jacques Bardoux, L’Angleterre radicale, pág. 475.

 

(56) O sindicalismo revolucionário, que nega a utilidade da actividade parlamentar e convoca à acção directa, tornou-se bastante activo em Inglaterra precisamente no período de 1907-1920, se bem que já antes, desde 1903, se tivesse manifestado em ocorrências isoladas. Dele tratarei detalhadamente no segundo volume desta obra (I).

 

(I) Tarlé, provavelmente porque era um óptimo historiador, conseguiu esgueirar-se das malhas tecidas com “astúcia oriental” por um déspota chamado Djugashvili, tendo sido “apenas” condenado a alguns anos de exílio e praticamente interdito de escrever sobre os temas que lhe eram contemporâneos. Curiosamente, no entanto, foi-lhe permitido ser um dos fundadores do Instituto de Relações Internacionais de Moscovo. Proibido de escrever o seu segundo volume, em que pretendia analisar os anos que se seguiram à guerra, elaborou, entre muitos outros trabalhos, uma óptima biografia de Napoleão Bonaparte que tencionamos editar, num dos próximos anos, no “O Espaço da História”.

 

Uma ferida muito antiga e dolorosa havia-se uma vez mais reaberto: a Irlanda. E essa chaga agravou-se precisamente nos anos de 1912 a 1914. Tanto os conservadores, que governaram a Inglaterra até finais de 1905, como os liberais, que os substituíram no poder, consideravam que era preciso fazer concessões e pacificar a Irlanda, ao menos na medida do necessário para não se ter de temer uma explosão revolucionária no decurso da próxima e muito provável guerra com a Alemanha. Foi por esta razão que esse mesmo Partido Conservador que durante tanto tempo e tão obstinadamente tudo fizera para que fracassassem as tentativas de Gladstone, tanto no campo político como no económico, de conceder alguns direitos e privilégios à Irlanda, se mostrou depois de acordo quando, em 1903, o seu próprio governo propôs e conseguiu que fosse aprovada no parlamento a lei (preparada por Wyndham) relativa à compra das terras dos landlords na Irlanda e à sua venda aos rendeiros, que as pagariam em prestações a longo prazo. Era preciso desembolsar a ingente soma de 112 milhões de libras esterlinas, e o governo de Balfour dispôs-se a arcar com tal encargo. Logo a partir do primeiro ano do seu governo, ou seja, desde 1906, o gabinete liberal de Campbell-Bannerman, sem olhar a gastos, prosseguiu este mesmo caminho, que era completamente novo. James Bryce elaborou e viu serem aprovadas no parlamento as seguintes medidas: construção de 25.000 prédios de habitação para arrendamento, juntamente com pequenas granjas, em condições favoráveis aos operários agrícolas irlandeses; concessão dos créditos às entidades públicas locais, para a aquisição das casas e granjas a arrendar, com base nas mesmas condições bonificadas e prestações a longo prazo da lei para a aquisição de terrenos agrícolas de 1903. Por último, em 1909, completou-se a reforma de 1903, tornando praticamente obrigatória a venda da terra pelos landlords.

Todas estas providências se destinavam a converter o proletário rural irlandês, carente de terra, num camponês proprietário e a sufocar as chamas da revolução agrária, que eram perenemente latentes na Irlanda e se ateavam de tanto em tanto. O governo inglês não temia na Irlanda uma revolução urbana, ainda que estivesse ciente de que tão-só com a reforma agrária não lhe seria possível cortar pela raiz um movimento revolucionário multissecular, e de que a pequena e média burguesia das cidades reivindicava a total autonomia política (com alguns dos seus elementos a exigir, inclusive, a autodeterminação absoluta da Irlanda e a sua completa separação do Império Britânico); mas o governo inglês também sabia a ciência certa que, se o camponês irlandês virasse as costas à revolução, o movimento revolucionário nesse país agrícola perderia a sua principal força e base sócio-económica de apoio.

Todavia também desta vez se confirmou a validade da observação feita outrora pelo historiador Tocqueville: o momento mais perigoso para um mau governo é aquele em que ele se começa a emendar; e para a Irlanda o governo inglês tinha sido por demasiado tempo, durante muitos séculos, um péssimo governo. Os poderosos efeitos económicos da reforma agrária de 1903 e das medidas que posteriormente a complementaram apenas mais tarde, durante a guerra (57) e no período do após-guerra, se começaram a manifestar claramente. No lapso de 1908-1914, o campesinato só pouco a pouco e muito lentamente foi abandonando o seu antigo modo de ver tradicional; por outro lado, a reforma apenas podia ser concretizada de forma gradual.

 

(57) Quando os camponeses não apoiaram a insurreição que se desencadeou em Dublin, em 1916.

 

Entretanto a burguesia irlandesa e o proletariado urbano, decerto ainda pouco numeroso, mas já presente, insistiam em obter ulteriores concessões e, desde logo, a outorga da mais ampla autonomia. Havia que prosseguir a obra empreendida e, em 1912, o gabinete de Asquith rapidamente elaborou e apresentou no parlamento a proposta de lei de autonomia para a Irlanda, denominada Home Rule bill (Home Rule significa autogoverno). De acordo com esta proposta, a Irlanda passaria a ser governada por um “parlamento irlandês” especial, composto de duas câmaras: a Câmara Baixa e o Senado. Da primeira fariam parte 164 deputados eleitos por cinco anos, na proporção de um deputado por cada 27.000 habitantes. O Senado compunha-se de 40 membros nomeados pelo rei de Inglaterra (ulteriormente foi previsto um sistema eleitoral especial para o Senado). O representante do poder monárquico na Irlanda era o Lord Lieutenant, sendo designado pelo rei para um período de 6 anos e assistido por uma comissão executiva especial, isto é, por um ministério responsável perante o parlamento irlandês. Mas o lord governador mantinha, no entanto, o direito de apelar para o conselho privado do rei contra qualquer decisão do parlamento irlandês. Tais eram os aspectos principais dessa reforma. Se bem que o exército, a armada, a diplomacia, a emissão de dinheiro e a política aduaneira permanecessem integralmente nas mãos do governo e do parlamento britânicos, todos os assuntos internos exclusivamente irlandeses passavam a estar sob a autoridade e a ser da competência do parlamento e do ministério irlandeses que agora seriam criados.

No parlamento – tanto na Câmara dos Comuns como na dos Lordes – esta bill (proposta de lei) esbarrou numa resistência encarniçada. Os Lordes, depois da haverem atrasado o maior tempo possível, rejeitaram-na a 30 de Janeiro de 1913. A luta continuou ao longo de todo esse ano; e quando finalmente a bill começou a percorrer os últimos trâmites legislativos, a oposição entre as forças em presença assumiu uma forma particularmente violenta.

A luta não foi iniciada pelos irlandeses, mas sim pelos ingleses. Desta vez a proposta de autogoverno fora acolhida com satisfação, se não no todo, ao menos nos seus traços essenciais, pela maioria da população irlandesa. Não obstante todos os seus defeitos, passagens deliberadamente obscuras e reticências, essa lei, apesar de tudo, assinalava o início duma nova época e dava a possibilidade de prosseguir com maior êxito a luta sobre o terreno já conquistado. É certo que a tendência radical mais extremista dos nacionalistas irlandeses, os denominados Sinn Féin, estavam descontentes e exigiam a completa separação da Irlanda, como república independente. Mas não foram eles os primeiros a seguir o caminho revolucionário, procurando opor-se por todos os meios à nova lei: quem o fez foram os chamados ulsterianos. O Ulster, a parte setentrional da Irlanda, representa cerca de um quarto do seu território e mais de um terço da sua população: em 1911 contavam-se na Irlanda 4.382.000 habitantes, dos quais 1.578.000 viviam no Ulster. Tanto no sentido económico como no étnico e religioso, o Ulster diferenciava-se por completo das outras três províncias (católicas) da Irlanda, tendo mantido com elas relações muito hostis ao longo dos últimos dois séculos e meio. Os escoceses e ingleses que viviam no Ulster tinham suplantado em número o elemento local irlandês e, por isso, este elemento escocês e inglês não somente era muito forte no círculo restrito dos landlords como também entre os rendeiros, os pequenos proprietários de terras e a própria população urbana. No Ulster as contradições de classe jamais se manifestaram de forma tão profunda e acentuada como no resto da Irlanda. Entre os latifundiários e os rendeiros havia camadas intermédias formadas pelos médios e pequenos donos de terras, pequenos criadores de gado e outros proprietários. Também no aspecto religioso o Ulster diferia das outras três províncias da Irlanda, inteiramente católicas: dos seus 1.578.000 habitantes apenas 690.000 eram católicos, sendo os demais, de confissão protestante, em parte provenientes dos colonos que se tinham estabelecido na região desde os finais do século XVI e em parte descendentes daqueles homens de armas escoceses e ingleses que no século XVII, após duas tremendas repressões na Irlanda, se instalaram em massa e receberam terras no Ulster, primeiro das mãos de Cromwell e, quarenta anos mais tarde, das de Guilherme III (de Orange).

Estes colonos viam-se na ilha irlandesa como um baluarte, uma vanguarda da raça dominante britânica e sentiam-se muito superiores aos pobres católicos irlandeses, que haviam sido vencidos e oprimidos. A grande Sociedade de Orange – assim designada em honra de Guilherme de Orange, o vencedor e dominador dos irlandeses –, uma instituição com milhares de filiados, organizava todos os anos no Ulster, pelo aniversário da batalha de Boyne (1 de Julho de 1690, no calendário juliano), festejos comemorativos, procissões e comícios. Entre todos os ingleses, os ulsterianos eram os que sempre exteriorizavam mais hostilidade e ódio em relação aos irlandeses. E foram eles que tomaram a firme resolução de impedir a qualquer custo a autonomia da Irlanda: temiam ficar permanentemente em minoria (contra as três restantes províncias) no futuro parlamento irlandês e que o elemento irlandês passasse a ser predominante em toda a ilha – portanto, também no Ulster – tanto no campo político como no económico. Já na nona década do século XIX, quando Gladstone começara a pensar pela primeira vez na atribuição dalguma autonomia política à Irlanda, os ulsterianos tinham-se rebelado, declarando que não tolerariam ser governados por quaisquer irlandeses católicos. O projecto fora então derrotado no parlamento. E agora que o gabinete liberal de Asquith, no intuito de pacificar definitivamente a Irlanda, se mostrava seriamente empenhado em resolver o assunto mediante a aprovação da bill de autogoverno, no Ulster a Sociedade de Orange pôs-se à cabeça da resistência. Constituiu-se um comité de ulsterianos e ingleses. O Partido Conservador opunha-se ao projecto de Asquith e dispôs-se a apoiar os ulsterianos por todos os meios. Se tal fosse necessário, havia-se decidido até recorrer à luta armada contra a autonomia irlandesa. F. Smith (futuro Lord Birkenhead), Lord Curzon (58), Walter Long, aderiram ostensivamente ao movimento ulsteriano, que entretanto adquiriu amplas dimensões. Faziam-se publicamente colectas para apoiar a luta, compravam-se grandes quantidades de armas que eram acumuladas no Ulster. Por seu lado, os irlandeses (não só os Sinn Féin como também os elementos mais moderados), afirmavam que defenderiam pelas armas, contra “os revoltosos ulsterianos”, a autonomia que lhes era concedida.

 

(58) Não confundir com o líder dos ulsterianos, Edward Carson.

 

Qual era a posição do gabinete de Asquith em face desses acontecimentos inesperados? Dado que os assuntos irlandeses, como iremos ver mais tarde, desempenharam um relevante papel no decurso do fatídico Verão de 1914, temos de dar devida conta dum facto que naquela altura passou completamente desapercebido a Guilherme II, que seguia com muita atenção os sucessos na Irlanda, e inclusive a Kühlmann, o seu observador para o Ulster na embaixada alemã em Londres. O que acontecia era que no estrangeiro (e, mais do que em qualquer outro lugar, na Alemanha) se exagerava descomedidamente o “carácter revolucionário” do movimento ulsteriano: o governo nem sequer pensava opor-se a sério aos ulsterianos. Bem pelo contrário: eles podiam livrá-lo de certas dificuldades. O governo podia dali lavar as mãos e, invocando o perigo duma guerra civil, não promulgar a autonomia governamental para a Irlanda; ao mesmo tempo, a Irlanda (isto é, as três províncias católicas) teria de protestar não contra o governo, mas sim contra o Ulster, que era a sua quarta província. Quanto à ameaça latente duma revolução rural – o perigo maior –, esta fora conjurada não pela bill de autogoverno, mas através da lei agrária de 1903, da lei da expropriação obrigatória de 1909 e da rápida e concreta passagem das terras dos landlords para as mãos dos camponeses. De modo que o governo em nada perdia com o prosseguimento da resistência dos ulsterianos. Estes armavam-se não contra o governo, mas contra os irlandeses; e era por isso que o governo fingia ser “impotente” para impedir a aquisição e o transporte de armas para o Ulster. Adiantando-nos aos acontecimentos, diremos ainda que, quando na Primavera de 1914 os oficiais ingleses se “recusaram” a combater os ulsterianos (contra os quais, aliás, ninguém sequer pensava em obrigá-los a bater-se) e nos jornais alemães se escrevia com entusiasmo sobre a “amotinação” das tropas inglesas, por um desses mesmos dias o coronel Hogg, um dos “amotinados”, ia tranquilamente almoçar à Casa do Almirantado com Winston Churchill, o ministro da Marinha.

 

Concluindo este tema, repetiremos uma vez mais que a “revolta” ulsteriana criou no entanto dificuldades ao governo inglês em 1912-1914. Com efeito, não só se armavam os ulsterianos, como também os irlandeses; e quanto mais a confrontação parecia estar próxima tanto mais claro se tornava que, caso se chegasse de facto a um morticínio entre os ulsterianos e irlandeses, quem passaria depois a deter a supremacia e o papel dirigente no campo irlandês seriam os Sinn Féin, republicanos e separatistas radicais. Novos e amplos movimentos grevistas na Inglaterra e o intrincado conflito irlandês constituíam um problema a resolver, se não de imediato, o quanto antes possível. Raras vezes um governo britânico, devido à agitação social e política interna, se vira em tais dificuldades nos seus assuntos externos como o gabinete de Asquith em 1912-1914, para mais tendo-se em conta de que este governo precisava duma absoluta liberdade de acção. A catástrofe aproximava-se a passos de gigante e, a avaliar pelo ritmo cada mais rápido dos acontecimentos, já se pressentia a borda do abismo. As questões internas inglesas tinham uma enorme importância concreta para o governo britânico. Mas, por mais paradoxal que isso fosse, teve um valor histórico muito mais importante a forma como esses problemas internos da Inglaterra foram interpretados, como o governo alemão exagerou as dificuldades inglesas e como elas foram vistas no exterior, no continente europeu. Entre os erros fatais, os falsos cálculos e as ilusões do último ano de paz na Europa, as quimeras acerca da situação interna inglesa jogaram o papel mais decisivo na aceleração do banho de sangue já inevitável. O imperialismo mundial, gerado pelo poderoso desenvolvimento capitalista, tinha que inevitavelmente acabar numa gigantesca “prova de forças” ou, para sermos mais exactos, afrontar a sua primeira (pelas dimensões) prova de forças. Porém, para compreender porque é que esse ensaio de forças começou um pouco mais cedo do que muitos observadores haviam pensado, e precisamente naquela conjuntura e com a configuração que acabou por ter, há que esquadrinhar a história dos últimos meses de paz. Veremos que os factos concretos, os mal-entendidos, as quimeras, tudo se parecia conjugar para acelerar a tragédia que era já inevitável.

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