Capítulo IX - A Alemanha e a Entente, da anexação da Bósnia e Herzegovina ao incidente de Agadir

1. O MOVIMENTO CONTRA GUILHERME II NA ALEMANHA (Novembro de 1908).

 

Em Novembro de 1908 produziu-se um acontecimento a que o publicista Maximilian Harden, um pouco por gracejo e um pouco a sério, chamou “a revolução de Novembro”, sem suspeitar que exactamente dez anos mais tarde iria estalar a verdadeira revolução de Novembro, que numa só jornada iria derrubar Guilherme do poder e destruir o regime monárquico na Alemanha. Mas, se bem que a explosão de indignação de Novembro de 1908, que tinha por alvo directo Guilherme II, não tivesse sido propriamente uma revolução, ela configurava algo de completamente fora do comum, quer pela sua intensidade e carácter repentino, quer ainda pela desproporção existente entre o pretexto exterior e as suas consequências imediatas e a longo prazo. Logo se compreendeu que não se tratava tão-só da falta de tacto e de sentido de oportunidade (ainda que as suas declarações fossem das mais absurdas e daninhas) exibidas por Guilherme II, mas de que se queria ajustar contas com ele sobre toda uma série de questões que desde há muito se vinham acumulando. É certo que em Novembro desse ano, e para maior desgraça da Alemanha, ainda não se havia chegado ao momento de um radical ajuste de contas, mas a Guilherme fez-se-lhe então recordar muitas coisas: a demissão de Bismarck, os seus discursos provocadores contra a social-democracia, os fracassos sofridos ao tentar destruir a Entente e a ineficácia, em geral, da sua política exterior, bem como as constantes intervenções pessoais na acção diplomática e a sua verbosidade, intolerável num homem de Estado. Nem uma só classe, nem um único partido se empenharam a defendê-lo, e, no coro geral de juízos de reprovação, de piadas mordazes e de vozes indignadas, o curioso era que os ditos mais fortes, com maior ressonância, partiam dos órgãos dos grandes industriais, dos representantes do grande capital comercial e bancário, quer dizer, dos que mais próximos estavam, ou melhor, dos que com maior vigor defendiam a política exterior “activa” do soberano.

Acontece que o “Daily Telegraph” tinha publicado, a 28 de Outubro de 1908, a versão da entrevista que Guilherme concedera a um correspondente desse diário inglês. Como é que ela pôde passar pela censura da chancelaria e do ministério das Relações Externas, aos quais foi apresentada em devido tempo, cai no reino dos mistérios. Mas, tal como se depreende das embrulhadas explicações dadas posteriormente, é óbvio que os funcionários da censura nem sequer a leram. Na entrevista, Guilherme queixava-se da hostilidade da Inglaterra para com a Alemanha, tachando os ingleses de “furiosas lebres de Março”; vangloriava-se de ser um amigo da Inglaterra; relatava como, durante o período da guerra contra os boers, havia declinado a proposta secreta da França e da Rússia para um ataque conjunto contra a Inglaterra; contava que enviara a Lord Roberts um plano por si elaborado para acelerar o triunfo sobre os boers; fazia alusões no sentido de que armada alemã seria destinada a actuar no Pacífico (quer dizer, contra os japoneses), etc. Já para não falar da inexplicável indignação de muitos relativamente às declarações sobre a época da guerra contra os boers (não era a primeira vez que Guilherme fazia várias delas), à luz das quais o conhecido telegrama de felicitações enviado a Kruger em 1896 se revelava uma autêntica e mais do que premeditada provocação, havia de facto a temer uma deterioração das relações com o Japão e, por último, a revelação dos passados contactos secretos com a Rússia e França teria naturalmente de dificultar, dali em diante, quaisquer negociações confidenciais entre a Alemanha e qualquer outra potência. Numa palavra: tudo o que Guilherme havia dito naquela entrevista se mostrava extremamente prejudicial para os interesses e prestígio da Alemanha.

No decurso dos primeiros dias esperava-se um desmentido em que se afirmasse serem aquelas declarações uma invenção do correspondente. Mas quando se ganhou a convicção de que a entrevista era autêntica, rebentou, como já se disse, uma tempestade tanto na imprensa como no parlamento. “A cólera que agora existe é profunda e duradoura – declarou no Reichstag um dos deputados do partido conservador –, e seria incorrecto vinculá-la com as últimas notícias. Trata-se aqui de um descontentamento que se tem vindo a acumular ao longo dos anos, inclusive naqueles círculos que jamais caíram em qualquer falta na sua fidelidade para com o imperador e para com o império”. Exactamente o mesmo diziam os sociais-democratas e todos os demais partidos compreendidos entre os dois mencionados. A unanimidade era total e, na verdade, assombrosa. De facto, e não obstante o disparate que constituiu essa entrevista com o correspondente inglês, seria realmente desproporcionada e sem razão, meramente pela entrevista, a tormenta que se abatia sobre Guilherme. Ninguém, mas mesmo absolutamente ninguém, se pôs do seu lado. A única coisa que variava era o tom da crítica: entre os social-democratas predominavam a mordacidade, a ironia e o sarcasmo; entre os radicais burgueses e os liberais o mais comum era ainda a burla, porém algo suavizada, e faziam-se ouvir comentários sobre a inadmissibilidade, dali para o futuro, de um “regime personalista” e do privilégio da irresponsabilidade para os actos do imperador; entre os conservadores prevalecia a ira e um sentimento de amarga desilusão que por muito tempo havia permanecido contido e oculto, e apontavam-se os golpes que estavam a ser assestados no princípio monárquico pelo próprio portador da coroa.

A condenação foi universal, tanto na Alemanha como além fronteiras. De resto, eu apenas encontrei uma só excepção: a do embaixador russo em Berlim, conde Osten-Sacken. Eis aqui o que pude ler no seu informe confidencial ao ministro das Relações Externas, Sazonov, informe esse que foi escrito não em 1908, mas em 1910, a propósito duma interpelação dos social-democratas: “A consciência do imperdoável erro cometido há dois anos atrás pelos partidos moderados – quando sob a influência da opinião pública cegamente arrastada até mesmo aquele que era o chanceler não foi capaz de encontrar, perante o parlamento, palavras em defesa do seu monarca – preparou o que actualmente é um terreno muito diferente para discutir a interpelação do partido social-democrata” (39). Afora esta manifestação de simpatia, expressa pelo embaixador russo já muito tardiamente e de forma estritamente confidencial, o imperador alemão não conseguiu despertar qualquer espécie de simpatias. Osten-Sacken, deste modo, mostrava ser mais devotado à monarquia alemã do que os próprios monárquicos alemães todos juntos e com o chanceler Bülow à cabeça.

 

(39) ARQUIVO DE POLÍTICA EXTERIOR DA RÚSSIA. Berlim, 16 (29) de Novembro de 1910.

 

Guilherme acobardou-se. E – segundo relata nas suas memórias (I) o mordomo de Sua Majestade, Zedlitz-Trützschler – a tal ponto se assustou que deu ordens a um camareiro para que este telefonasse ao chanceler Bülow a informá-lo da sua decisão de abdicar. As coisas não chegaram a tal extremo (Zedlitz-Trützschler e os ajudantes-de-campo não deixaram que o camareiro cumprisse a ordem), mas Guilherme teve de se sujeitar, docilmente, a uma tremenda humilhação: A 17 de Novembro, o chanceler Bülow pôde reafirmar o que já tinha dito de forma assaz eloquente e categórica na sessão do anterior dia 10 no Reichstag: que “a profunda agitação e vivo pesar causadas por essa entrevista jornalística” (concedida ao correspondente do diário inglês) “haviam de levar o imperador a manter no futuro, inclusive nas suas conversações privadas, essa reserva que é igualmente indispensável para a prossecução de uma política coerente e para o prestígio da coroa”. Não se bastando com isto, Guilherme apressou-se a informar publicamente, no próprio dia 17 de Novembro, que considerava como “seu importantíssimo dever imperial assegurar a estabilidade da política do império observando as regras da responsabilidade constitucional” e que, “em virtude disso, aprovava as explicações dadas pelo chanceler imperial no Reichstag e continuava a acordar-lhe a sua plena confiança”.

 

(I) Págs. 224-225, no texto da hiperligação.

 

Após estas humilhantes desculpas e promessas a tormenta na imprensa e no parlamento aplacou-se, mas as impressões e a memória que deixou jamais se iriam apagar. Após Novembro de 1908 o imperador passou a pronunciar discursos com muitíssimo menor frequência; falava menos, evitava os temas sensacionais e as palavras demasiado altissonantes e nunca mais se referiu à origem divina do seu poder; já não proferia sequer uma palavra sobre a preeminência da sua vontade nem fazia a mínima alusão a toda uma série de assuntos de que tanto sempre lhe agradara falar.

Todo este episódio mostra, uma vez mais, a que ponto é absurdo dizer que o Reichstag era “impotente” para levar a cabo a transformação parlamentar do regime estatal ou outras reformas que viessem limitar o poder imperial. O Reichstag teria podido conseguir tudo isso, se assim o houvesse desejado. Porém a verdade é que não o desejava, ou melhor dizendo, que à excepção dos social-democratas e quiçá duns poucos elementos dos partidos burgueses de esquerda, ninguém no Reichstag desejava uma real limitação do poder monárquico, porquanto tal poder era útil na luta contra a social-democracia. Sempre que o Reichstag queria de facto algo, conseguia-o. Em Novembro de 1908 Guilherme II demonstrou, pela sua conduta, que não era capaz de oferecer nem o mais pequeno assomo de resistência quando tinha ante si uma real indignação, uma vontade efectiva, e que não havia limites para a sua capacidade de submeter-se a toda e qualquer humilhação sempre que com isso se pudesse furtar à tormenta que o ameaçava. Com grande assombro se leu na Europa que o imperador, através duma declaração especial, tinha aprovado na íntegra e de forma solene tudo o que fora dito pelo chanceler no Reichstag. E há a destacar que, nesse discurso de Bülow [do dia 10 de Novembro] se ouviram, entre outras, as seguintes palavras: “Eu garanto que isto (ou seja, a verbosidade do imperador; nota de E. Tarlé) não se há-de repetir, e que para esse efeito serão tomadas as medidas necessárias, sem praticar injustiças, mas também sem tomar em conta a personalidade de quem quer que seja”. E a tal humilhação se tinha conformado um monarca que há vinte anos vinha proclamando só ter de responder perante Deus, que a sua vontade estava acima de tudo e que ele era “o único dono e senhor do país”.

Mas há em toda esta questão um aspecto particularmente importante para entender o que veio a acontecer depois. Apesar de todos os defeitos do seu intelecto, não se podia negar ao imperador alemão uma virtude, uma capacidade que nele estava estreitamente ligada ao instinto de auto-conservação: apercebia-se com uma extraordinária rapidez daquilo que lhe era concretamente exigido, num dado momento, pelas forças sociais a que tinha de se conformar. E no episódio que estamos a analisar isto é deveras claro. Conhecendo aqueles que mais furiosamente o criticavam, pôde dar-se conta do que havia provocado semelhante ira; tanto mais que toda a imprensa com orientação e propósitos imperialistas, ou seja, a maioria da imprensa burguesa, não fazia qualquer segredo sobre o assunto. O que se lhe exigia era, pois, maior energia na política exterior; reclamava-se-lhe que “não prejudicasse o porvir do povo alemão” e, para tal, esperavam-se passos capazes de assegurar o futuro do capitalismo alemão, colónias no ultramar, uma política que conduzisse ao domínio económico sobre a Turquia; era-lhe requerido que prosseguisse a luta contra a Entente, a qual, de facto, se erguia frente à Alemanha como uma ameaça; reclamavam-se-lhe novas tentativas, tantas quanto as que fossem necessárias, para destruir essa Entente que “tapava o sol” ao povo alemão. Eis o que escreviam aqueles que tão desapiedadamente acabavam de o encostar contra o muro, que o haviam humilhado e que podiam voltar a fazer o mesmo tantas vezes quantas quisessem.

Do mesmo modo, também alguns social-democratas defendiam nos seus escritos que o desenvolvimento do capitalismo alemão se revelava útil para a classe operária alemã e que era necessário oporem-se às conquistas da França e Inglaterra. Guilherme sabia que também existiam outros social-democratas, que escreviam e falavam acerca do velho programa revolucionário, mas a estes podia-se não se lhes dar momentaneamente importância, visto que se encontravam em minoria e a sua voz era pouco escutada.

A ilação prática a retirar de tudo isto [“há que pressionar o imperador, humilhando-o”] era simples e foi recebida com vivo agrado pela imprensa pangermanista, que assumiu no lapso de 1909-1911 e nos anos subsequentes um papel de oposição palaciana contra o governo e o imperador, causticando-os pela sua cobardia face à Entente, pelo seu “pacifismo” e pela sua condescendência. Depois de Novembro de 1908, essa atitude começou a tomar cada vez com mais frequência a forma de ataques pessoais a Guilherme. De quando em quando, em ataques à personalidade do imperador e não ao princípio monárquico, faziam-se alusões muito claras: quem não estava em condições de conduzir o seu povo na luta “por um lugar ao sol” devia ceder o trono a um sucessor mais digno (isto é, ao príncipe herdeiro).

Era esta a atmosfera política na Alemanha quando, inesperadamente, da Inglaterra chegou a proposta para se reduzir, por acordo bilateral, a construção de navios de guerra nos dois países. É difícil de imaginar um período menos propício para se fazer semelhantes propostas à Alemanha do que o lapso de 1908-1910. O fracasso de tais tentativas estava decidido de antemão. Examinemos agora o que as provocou e as razões que lhes ditaram o inevitável fracasso.

 

2. PROPOSTA DE LIMITAR A CAPACIDADE NAVAL. FRACASSO DAS NEGOCIAÇÕES. AS CONSEQUÊNCIAS DESSE FRACASSO.

 

Tal como já vimos oportunamente, a Inglaterra estava a passar, precisamente naqueles anos, por um período de nova legislação social complexa e custosa; elaboravam-se então vastas medidas relativas ao seguro contra a doença, para as situações de desamparo na velhice, contra os acidentes de trabalho, contra o desemprego; elaborava-se e submetia-se à consideração do parlamento legislação que previa o resgate duma parte das terras nas mãos dos grandes latifundiários; prosseguia e aprofundava-se a reforma agrária em solo irlandês. Mesmo os encargos mais imediatos com tais reformas, os mais urgentes, eram enormes. Vamos trazer à colação um só exemplo. Entre essas leis sociais, uma das mais importantes era a pensão de velhice. De acordo com a mesma, na sua primeira redacção, todos os súbditos ingleses que fossem trabalhadores e atingissem a idade dos setenta anos, não possuindo os necessários meios de subsistência, tinham direito a receber do Estado uma pensão de cinco xelins por semana. Uma outra lei – a do seguro social contra a doença e o desemprego – viria depois a ser aprovada com forte oposição, posto que ademais de grandes encargos para o fisco, exigia ainda contribuições dos empresários e da classe operária, a esta última, na forma de descontos sobre os salários.

Estas leis só se haviam tornado possíveis porque Lloyd George introduzira no seu “orçamento revolucionário” novas rubricas de receitas de molde a financiá-las. Mas tampouco esse orçamento era suficiente para responder a todas as necessidades, porquanto Lloyd George, para assegurar sobre uma base sólida a execução da lei das pensões por velhice, tivera que consignar cerca de nove milhões de libras esterlinas para esse efeito. A lei do seguro contra a incapacidade por doença requeria, de início, quatro milhões, o subsídio de desemprego exigia três milhões e os custos para a construção de asilos (asilos nocturnos e outros), dois milhões. E, nas políticas de redistribuição social enumeradas, havia também que ter em conta os gastos que se seguiriam no imediato, que eram ainda mais consideráveis (I).

 

(I) Vamos recorrer a Eric J. Hobsbawm e ao seu livro “Industry and Empire”, de 1968, para fornecer mais alguns números.

Gastos com a previdência social britânica, no ano de 1910: 8.5 milhões de libras com pensões a pessoas idosas (ou seja, os cerca de nove milhões referidos por Tarlé).

Ano de 1913: 17 milhões de libras em pensões por velhice, bolsas de trabalho e seguro de desemprego.

Ano de 1925: pensões, 94.8 milhões; habitação social, 18.1 milhões; desemprego, 16.9 milhões; seguro de saúde, 21.1 milhões.

Um dado complementar, retirado da wikipedia, em 1914 estavam cobertas pelos subsídios de doença e desemprego apenas 2,3 milhões de pessoas.

 

Os novos e enormes gastos eram uma pesada carga sobre o orçamento de Estado. Em meio a tais circunstâncias ocorreu um sucesso que ameaçava juntar a essa carga um peso adicional extremamente gravoso. Logo a partir do ano de 1900, depois de ter sido aprovado pelo Reichstag o segundo programa de construção naval, o almirantado britânico exigiu um aumento de créditos e também ampliou a construção de novas unidades navais. Nessa altura a armada britânica continuava a ser, dum modo incomparável, muito mais poderosa que a alemã. A partir de 1902, face ao enorme aumento da actividade dos estaleiros germânicos, o almirantado britânico começou a concentrar navios de guerra nas suas águas territoriais, retirando-os das esquadras que se encontravam nas zonas mais distantes. Mas, em primeiro lugar, dado que as suas vastas possessões se encontravam disseminadas por todo o globo terrestre, a Grã-Bretanha não podia proceder a uma concentração em larga escala; e, em segundo lugar, a Alemanha continuava a acelerar mais e mais o ritmo da sua construção naval. Em 1900 a Alemanha possuía catorze couraçados de primeira ordem, pelos padrões da época, enquanto a Inglaterra dispunha de quarenta e sete; Em 1907 a Alemanha contava com vinte e dois desses navios e a Inglaterra com cinquenta e três. Contudo a Alemanha previa, a curto prazo, novos e enormes programas de armamento naval. Já em Maio de 1908 a Alemanha possuía vinte e quatro couraçados e a Inglaterra cinquenta e um, menos dois do que em 1907, dado que alguns navios mais antigos haviam sido retirados de serviço.

Inicialmente a Inglaterra dispunha-se a compensar esta diminuição na proporção do seu poderio e a prosseguir com a “corrida aos armamentos”, mas surgiu uma nova circunstância que veio favorecer por inteiro a Alemanha: em Outubro de 1906, na Inglaterra, fora lançado ao mar o primeiro dreadnought. Este acontecimento teve uma enorme importância. A partir desse momento, a força duma armada passou a ser sobretudo medida pelo número destes gigantes do mar, os dreadnoughts; todos os precedentes navios das esquadras de couraçados foram relegados para segundo plano. Era como se os rivais em competição estivessem agora no mesmo ponto de partida e já não pesasse mais na balança a anterior superioridade da frota inglesa sobre a alemã. Não era de todo assim, mas o importante é que nos círculos navais da Alemanha, provocando um enorme júbilo, o aparecimento dos dreadnoughts fora encarado precisamente deste modo. Em ambos os lados se previam enormes gastos na competição que a construção dos novos navios iria provocar.

E foi então que o gabinete britânico decidiu propor à Alemanha, de modo a evitar esses gigantescos custos, uma limitação recíproca do rearmamento naval. Como é óbvio, só a Inglaterra sairia a ganhar com isso, dado que com um acordo deste género o poder absoluto nos oceanos continuaria a ser seu. A Alemanha, pelo contrário, teria de renunciar por completo à ideia de aumentar a sua importância e influência nos mares.

É de referir que esta pretensão inglesa foi estimulada pela aparatosa visita oficial de Guilherme II à Inglaterra, ocorrida já depois do acordo anglo-russo.

O orçamento inglês tivera de engrossar as rubricas de despesa com a armada, enquanto que também na Alemanha se faziam sacrifícios semelhantes. No período de 1900-1905, o orçamento naval alemão perfazia (por ano), aproximadamente, 185 milhões de marcos; em 1906 o governo solicitou um gasto de 310 milhões. Estava na ordem do dia, em primeiro lugar, um programa de intensificação da construção dos novos navios, os dreadnoughts, e, em segundo lugar, o alargamento e dragagem do canal de Kiel e de outras infra-estruturas, de modo a permitir a passagem de navios de grande calado. Este gigantesco programa de construção naval, a partir de 1908, ainda se tornaria mais vasto.

O gabinete inglês tinha empreendido, logo em 1906-1907, uma primeira tentativa para limitar, por mútuo entendimento, a corrida aos armamentos navais entre os dois países. Como já se disse, essa limitação permitiria à Inglaterra manter uma posição de superioridade: a competição cessava e a Alemanha não mais poderia alterar a seu favor a correlação de forças então existente, que era de inteira vantagem para a Inglaterra. Porém von Tirpitz, von Bülow e o próprio Guilherme cometeram o erro fatal de pensar que lhes bastaria pôr a nu a hipocrisia da proposta inglesa, mais não havendo nela a considerar. Contudo isso era absolutamente insuficiente. É certo que, com uma limitação respeitante apenas a ulteriores armamentos, a Inglaterra continuaria a ocupar o primeiro posto e a Alemanha o segundo, já sem qualquer esperança de poder alterar esta situação. Mas havia porventura a menor probabilidade de que a Inglaterra permitisse alguma vez à Alemanha ocupar o primeiro lugar? E acaso poderia a Alemanha algum dia esperar, quando tinha que manter um exército colossal, estar em condições de investir na armada tanto quanto os ingleses investiam na sua, quando para a Inglaterra a armada era quase tudo e o exército pouco ou quase nada? Assim, na verdade, a proposta inglesa, diplomaticamente correcta do ponto de vista da formulação exterior, continha no seu âmago uma ameaça. E a questão residia em se era conveniente tomar em consideração tal ameaça ou dela fazer caso omisso. Foi esta última a solução escolhida. O ministro britânico da guerra, Haldane, fez uma viagem a Berlim em Setembro de 1906 que não trouxe quaisquer resultados na questão da limitação dos armamentos: o governo alemão recusava-se a negociar. Posteriormente, o chefe do gabinete britânico (no jornal Nation, a 2 de Março de 1907) manifestou-se abertamente a favor da limitação do rearmamento naval, mas o príncipe von Bülow replicou-lhe, no Reichstag, que acordos a este respeito não teriam qualquer alcance prático.

Em Novembro de 1907 deu-se a referida visita de Guilherme II à Inglaterra. Após a firma do acordo anglo-russo, duas tendências características do imperador Guilherme logo se patentearam: em primeiro lugar, as declarações a exteriorizar amabilidade para com o inimigo caso este se tivesse subitamente fortalecido; e, em segundo lugar, o impaciente desejo de dividir o quanto antes possível, através duma “astuta” concessão, os adversários que haviam entrado em acordo. E a “astúcia” muito frequentemente surpreendia não só pela sua transparência, pela sua evidência, mas também pela sua ingenuidade, inclusive até pelo seu carácter manifestamente infantil. Era absolutamente claro que Eduardo VII havia ganho uma enorme aposta no seu muito ponderadamente planeado e prolongado jogo, e que a Rússia ao juntar-se à política inglesa colocava de facto a Alemanha, se não no imediato, pelo menos num futuro não muito distante, numa situação particularmente séria, dado que ela era agora uma potência ameaçada por três flancos – tudo isto se tornara cristalinamente evidente depois do acordo anglo-russo de Agosto de 1907. Mas eis que Guilherme II desembarca em Portsmouth a 11 de Novembro de 1907 – ou seja, passados cerca de dois meses e meio da assinatura daquele tratado –, pronuncia discursos duma extraordinária afabilidade (ao lord governador de Windsor: “parece-me ter chegado a casa”; ao bispo Boyd Carpenter: “Estou tão, mas tão contente por me achar de novo aqui!”), começa de súbito a falar com Richard Haldane (Secretário de Estado da Guerra) sobre a linha-férrea de Bagdad, e, quando este lhe declara que os ingleses deviam possuir o troço meridional da referida linha para assegurar o controle dos “portões da Índia”, Guilherme diz-lhe, de forma inesperada: “Eu dar-vos-ei esse portão”. Mas assim que, após ter sido informado da conversa por Haldane, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Grey, lhe deu a conhecer a inconveniência de avançar para qualquer acordo sobre aquela via-férrea sem a presença da Rússia e da França, Guilherme replicou que a participação destes dois países nas negociações podia acarrear dificuldades. A intenção de provocar desta forma o rompimento entre a Inglaterra e as suas duas aliadas era tão evidente que, claro está, nada resultou deste intento, tendo as negociações bem depressa sido deixadas de lado. Todavia este fiasco não impediu outros contactos e conversações diplomáticas entre os dois países, com os ingleses a renovar por várias vezes as suas propostas de limitação do rearmamento naval.

Em 1908 von Tirpitz fez votar no Reichstag uma nova lei: solicitava já não 310, mas 445 milhões de marcos (anuais) para o ministério da Marinha. Em resposta, o almirantado britânico pediu e obteve novos e conspícuos créditos orçamentais. O governo inglês resolveu usar uma linguagem assaz persuasiva: decidiu, desde logo, construir quatro dreadnoughts no ano fiscal de 1909/10, e, “caso o governo o considerasse necessário”, começar ainda em 1910 a construção de mais quatro. Com isto o gabinete inglês colocava a Alemanha numa situação de necessidade: ou aceitava, por fim, uma limitação dos armamentos navais ou teria pela frente, como única alternativa, uma competição extremamente ruinosa. Simultaneamente foi decidido, sem olhar aos enormes custos, criar uma base naval em Rosyth, base essa que estava dirigida aberta, directa e exclusivamente contra as costas da Alemanha. E foi também precisamente então que se estabeleceu o entendimento com a França relativamente ao Mediterrâneo, segundo o qual a armada francesa iria ali assumir de futuro a protecção e defesa dos interesses britânicos, permitindo que a massa principal da frota de couraçados ingleses estacionada em Malta fosse transferida para o Mar do Norte e o Atlântico.

Em 1911 ocorreram certos acontecimentos a que pouco mais adiante nos vamos referir (o envio do navio Panther a Agadir, o agressivo discurso de Lloyd George contra a ingerência da Alemanha nos assuntos marroquinos e o subsequente recuo alemão), e, nos inícios de 1912, a Inglaterra resolveu tentar reatar as conversações sobre limitação dos armamentos navais, tendo Lord Haldane feito nova viagem a Berlim (em Fevereiro). O governo alemão tinha-se apressado a solicitar do Reichstag (dois dias antes da anunciada chegada de Haldane!) a atribuição das verbas necessárias para a construção de três navios de primeira linha e uns quantos submarinos. Não obstante Lord Haldane dispôs-se a falar ainda que fosse tão-só do futuro, já que se atrasara em relação ao presente (quer dizer, no que respeitava ao programa do ano de 1912). Todavia disseram-lhe que a Alemanha apenas estava disposta a entabular essas conversações se a Inglaterra anuísse a um acordo de conteúdo mais vasto, obrigando-se a conservar a neutralidade em caso de guerra da Alemanha contra a Rússia e a França. Esta era já a segunda tentativa do mesmo género de afastar a Inglaterra das suas duas aliadas (a primeira havia tido lugar em 1909/1910). A Inglaterra, em contraproposta, dispunha-se a manter a neutralidade no caso da Alemanha ser agredida, porém o governo alemão exigia a seguinte formulação, bem mais vaga: “se a Alemanha fosse arrastada para uma guerra”. Os ingleses recusaram-se a aceitar estes termos. E então os alemães fizeram-lhes ver que, sendo assim, também as conversações sobre a limitação dos armamentos navais se tornavam supérfluas.

Haldane regressou a Londres sem que da sua viagem se tivesse podido colher qualquer resultado. No entanto o gabinete britânico nada perdia em prosseguir com as suas tentativas. Por um lado, e fosse como fosse, ainda havia uma hipótese de obrigar a Alemanha a aceitar a cessação da corrida aos armamentos navais; e, por outro, as negativas alemãs, sempre que se manifestavam, tinham o condão de gerar a cólera nas amplas camadas da população inglesa, tanto na burguesia como, em parte, na classe operária, porque punham claramente a nu os propósitos agressivos do governo alemão, o que por sua vez facilitava ao gabinete britânico, em cada uma dessas oportunidades, obter mais e mais novos créditos. Para além disso, e nesse mesmo ano (1912), o primeiro lord do almirantado, Winston Churchill, anunciou que queria chegar a um acordo com a Alemanha para que se estabelecesse aquilo a que chamou um “feriado naval”: a Alemanha e a Inglaterra obrigar-se-iam a interromper por um determinado período de tempo, por exemplo, um ano, a construção de novos navios de guerra. Mas também a isto a Alemanha se recusou. Winston Churchill reiteraria a sua proposta em 1913, para de novo se deparar com uma negativa. E assim se chegou ao termo destas negociações.

Resta dizer que, dum modo geral, as mesmas decorreram num tom sumamente discreto e correcto, se bem que de vez em quando se tivessem verificado alguns sintomas de mau augúrio. Em Agosto de 1908, por exemplo, houve uma discussão bastante séria entre Guilherme II e Sir Charles Hardinge. “Vocês têm que se deter (na construção de novos barcos; nota de E. Tarlé), ou de os construir de modo mais lento”, declarou categoricamente Hardinge. A réplica de Guilherme não foi menos incisiva: “Então combateremos, porque se trata duma questão de honra e dignidade nacional”. A Guilherme agradaram-lhe sobremaneira essas suas próprias palavras. “Aos ingleses há que tratá-los sempre assim”, predicava ele, muito satisfeito de si mesmo, a Bülow, quando lhe referiu a dita conversa (40). Mas, quanto ao ambiente em geral em que decorreram as conversações, a mencionada troca de palavras constituiu uma excepção. Por outro lado, a partir de Julho de 1911, já ninguém acreditava, em boa fé, no êxito de tais negociações, que prosseguiram quase tão-só por inércia.

Em meados de 1911 deu-se um acontecimento que iluminou, como se fosse um relâmpago, o precipício de que a Europa se tinha abeirado: tratou-se da quarta e última tentativa de destruir a Entente.

 

(40) Otto Hammann, “Bilder aus der letzen Kaiserzeit”, Berlim, 1922. Em apêndice, a carta de Guilherme a Bülow de 12 de Agosto de 1908.

 

3. A POLÍTICA DE OCUPAÇÃO DOS FRANCESES NO MARROCOS. AGADIR. A ÚLTIMA TENTATIVA DE DESTRUIR A ENTENTE.

 

Essa tentativa começara a desenhar-se já em 1909, quando se tornou claro que os franceses não só nunca mais se retirariam das regiões do Marrocos que, duma maneira ou doutra, tinham conseguido ocupar, como iam também prosseguir inexoravelmente a sua penetração, e arreigar-se mais e mais no país, até o ocupar por completo. Tanto com Clemenceau, que esteve no poder até 20 de Julho de 1909, como durante o governo de Briand que se lhe seguiu, até 27 de Fevereiro de 1911, como ainda no breve ministério de Monis, que apenas se manteve por cerca de quatro meses, e com o ministério de Caillaux, formado no mês de Junho desse mesmo ano de 1911, o avanço francês no Marrocos prosseguia, é verdade que a intervalos, mas sem que fosse feita qualquer alusão ou houvesse sequer o mínimo indício de que alguma vez essa progressão se deteria antes que os franceses se apoderassem solidamente da totalidade do território. Os próprios franceses assim o entendiam ao denominarem tal acção de “penetração pacífica” (penetration pacifique). Do ponto de vista formal, invocavam, como razão para esta investida, a necessidade de defender a vida dos cidadãos franceses ali residentes, que estariam em perigo devido a umas quantas e um tanto vagas desordens (sobre as quais, por outro lado, as informações que chegavam provinham exclusivamente de fontes francesas). O sultão marroquino Mulay Hafid tinha-se submetido de facto aos franceses já em Agosto de 1908, com o Marrocos a entregar à França, a troco de 100 milhões de francos em empréstimos, todas as alfândegas, alguns impostos internos (sobre o tabaco e o Kif) e quase todas as cidades costeiras.

O incessante avanço dos franceses em território marroquino não se fazia só a partir do litoral atlântico, mas também desde a fronteira terrestre (com a Argélia) a norte. O general Lyautey, que depois foi designado governador do Marrocos, cargo que ocupou por muito tempo e viria a abandonar em Agosto de 1925, havia adoptado uma maneira de proceder que, se olharmos ao que ele dizia, era em suma curiosa: invadia, por vezes inesperadamente, sem que tivesse ocorrido a mínima provocação, uma região marroquina fronteiriça com a Argélia e submetia uma tribo após outra, sentenciando, à laia de justificação para o seu modo de agir, que “Há que defender-se pelo movimento” (On se garde par le mouvement); e quando lhe chegavam notícias dos ataques desferidos por Jaurès no Parlamento contra as acções francesas no Marrocos – onde o líder socialista denunciava os gravíssimos perigos da nova aventura colonialista que os magnatas das finanças tinham concebido apenas para seu próprio proveito e que o governo e as autoridades militares obedientemente levavam a cabo –, Lyautey tentava justificar as suas incessantes expedições contra as tribos marroquinas com uma outra máxima que, pelos vistos (a julgar pela frequência com que a usava), considerava muito bem conseguida: “Há que mostrar a força para não ter de se fazer uso dela” (Il faut montrer la force pour n’avoir pas à s’en servir).

Em tais condições, nada havia que pudesse salvar o Marrocos de ser conquistado. A dependência em que tinha caído o sultão Mulay Hafid oferecia aos franceses enormes vantagens: dali em diante o movimento de penetração deixava de ser uma conquista do Marrocos, passando a representar tão-só um auxílio ao soberano legítimo, Mulay Hafid, contra as tribos rebeldes, uma ajuda que a República Francesa prestava a pedido do próprio sultão. Acresce que, segundo a teoria do general Lyautey, ainda que as tribos não se houvessem entretanto revoltado contra Mulay Hafid, podê-lo-iam fazer nalguma ocasião, e, por conseguinte, tal como já se referiu, era preferível mostrar a força antes que “se fosse obrigado a fazer uso dela”.

Assim se apresentavam as coisas já em 1910. Na Primavera de 1911, dos grandes centros urbanos marroquinos, apenas ainda não tinham sido ocupados pelos franceses a capital do país, Fez, e as cidades de Meknés e Rabat. Porém um belo dia soube-se, calhando a coisa muito a propósito, que nas cercanias dessas cidades alguém se sublevara ou pensava sublevar-se contra o sultão Mulay Hafid. A 27 de Abril de 1911, Mulay Hafid pediu ao governo francês que sufocasse a revolta. Esse pedido, como em todas as situações semelhantes sempre acontecera sem excepção no passado, encontrou o mais vivo eco, de molde que, pouco depois, a 23 de Maio, o exército gaulês fazia a sua entrada em Fez, ocupava Meknés a 8 de Junho e, poucas semanas depois, Rabat. Da independência do Marrocos apenas ficara a recordação. E no entanto foi então que se desfechou o golpe que de há muito vinha amadurecendo.

Na Alemanha prestava-se muita atenção, desde há largos anos, a tudo o que acontecia no Marrocos, e a cólera, tanto nos círculos industriais directamente interessados na exploração daquele país como em toda a imprensa vinculada aos empreendimentos colonialistas, ia em constante crescendo. Os alemães, desta feita, tinham-se finalmente dado conta do irreparável erro cometido em 1905, após a demissão de Delcassé, quando o presidente Rouvier ofereceu ao Kaiser uma parte do Marrocos a título de “indemnização” e Guilherme recusou, preferindo a conferência de Algeciras. Só agora o governo alemão advertia que, tendo-se convertido nos efectivos donos do país, os franceses conseguiam tornear todas as dificuldades diplomáticas, que tendo consigo Mulay Hafid e ao agirem como se fosse no interesse deste, em nome da protecção dos seus direitos, os franceses eram do ponto de vista formal inatacáveis; assim, sempre que era enviada uma expedição, esta recebia as mais estritas ordens de “salvaguardar a independência e o prestígio do sultão” (foram estas as instruções também dadas ao general Moinier, o comandante responsável pela ocupação de Fez, Meknés e Rabat). Acontecera, pois, que apesar dos obstáculos os franceses tinham levado a sua avante, e o haviam feito sem nada sacrificar à Alemanha, nem mesmo uma parte do Marrocos, como se tinham disposto em 1905.

Não apenas os irmãos Mannesmann, os maiores concessionários alemães em Marrocos, mas também toda uma série de outras firmas e consórcios industriais se queixavam sem cessar da abulia e inacção do governo imperial, que permitia aos franceses mofar-se deles e de todo o povo alemão, etc. Denunciavam a vacilante atitude dos governantes do império, incapazes de proclamar, de modo imediato e firme, que a Alemanha não toleraria que o último pedaço do globo terrestre ainda não formalmente ocupado por qualquer potência europeia ficasse por completo nas mãos dos franceses.

O chanceler do Império já não era Bülow, que resignara a 14 de Julho de 1909, mas Bethmann-Hollweg, um burocrata executivo carente de qualquer talento diplomático e, inclusive, da rápida e vivaz inteligência do seu antecessor, enfim, um dentre tantos homens medíocres de que se rodeava Guilherme. No entanto, junto de Bethmann-Hollweg, como secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, estava Kiderlen-Waechter, um homem inteligente, inquieto e activo, que em nada apreciava o seu chanceler e chefe imediato, nem, provavelmente (a julgar pela sua correspondência epistolar publicada em 1924), tampouco o próprio Guilherme. Kiderlen-Waechter, ao inteirar-se em 1911 da planeada marcha sobre Fez, deu a conhecer ao governo francês a sua incredulidade quanto às pretextadas desordens que havia a jugular em nome do soberano legal, Mulay Hafid, e de que, quanto à questão em geral, considerava ser chegado o momento de se falar às claras: se os franceses queriam apoderar-se do Marrocos, pois que o fizessem, mas que deixassem à Alemanha, na costa atlântica marroquina, ao menos um só porto, por exemplo, a cidade de Agadir com o seu hinterland, isto é, a sua zona circundante. O governo francês considerou não lhe ser possível aceitar essa transacção e dispôs-se a negociar outras compensações em troca, procurando, ao mesmo tempo, arrastar o assunto para ganhar tempo. Kiderlen-Waechter resolveu fazer então uso da sua influência junto do chanceler e do imperador, convencendo-os de que era necessário mostrar por meio duma acção enérgica a firme vontade alemã de, desta vez, obter compensações a qualquer preço.

A 1 de Julho de 1911 a canhoneira alemã Panther surgiu inesperadamente na angra de Agadir, na costa ocidental de Marrocos, ali tendo deitado âncora. Qual era o sentido desta acção que surpreendeu a Europa tal como um trovão num dia soalheiro? Kiderlen-Waechter declarou em seguida, de forma categórica, que de modo nenhum era sua intenção apoderar-se de Agadir, e de que simplesmente queria pôr em evidência a imperiosa necessidade de se chegar a um acordo com os franceses sobre as compensações. Porém o grau de exaltação da imprensa pangermanista foi de tal ordem, e a leitura que do acontecimento se fazia era tão inequívoca, que na Europa desde logo se afirmou a convicção de que aquela parte da costa ocidental do Marrocos seria de imediato ocupada pelos alemães.

A impressão que isto causou em França foi fortíssima. Nos círculos socialistas comentava-se que este era o inevitável resultado de se ter brincado com o fogo, e que os colonialistas rapaces acabavam de arrastar a França para a beira duma guerra com a Alemanha. Na imprensa subordinada ao grande capital aconselhava-se a “conservar a calma” e a aguardar pelo desenrolar dos acontecimentos, mas mantinha-se um silêncio sepulcral acerca duma eventual cedência de Agadir à Alemanha; e os poucos que tocavam nesse ponto melindroso declaravam que a França não se podia sujeitar a dar tal compensação, porque ter os alemães na vizinhança imediata no Marrocos seria extremamente inquietante e perigoso. Entretanto a Panther continuava ancorada em Agadir. Não se vislumbrava qualquer solução para a crise e a espera tornava-se de dia para dia mais tensa. Até que, de súbito, surgiu da Inglaterra uma aberta ameaça.

Todo o sucesso, já desde o seu próprio início, nem bem tinham chegado as notícias da chegada da canhoneira ao largo de Agadir, fora interpretado em Inglaterra como um novo golpe assestado na Entente. Guilherme II resolvera provar aos franceses, em 1905, que a Inglaterra não os defenderia num momento de perigo, conseguindo então a demissão de Delcassé; em 1908-1909 tinha-se empenhado em demonstrar à Rússia que tampouco ela seria defendida pelos ingleses, e havia-a obrigado a reconhecer a anexação da Bósnia e Herzegovina; com o incidente dos desertores, em Outubro e Novembro de 1908, de novo pretendera fazer ver à França que a Inglaterra não a ajudaria. Mas não se decidira a uma guerra e tivera de cessar com as suas ameaças, sem conseguir em nenhum dos três casos o mais apetecido, aquilo que era o seu desejo mais profundo e preeminente: a desagregação da Entente. O mesmo Guilherme II empreendia agora uma quarta tentativa, arrojando audaciosamente a luva não só à França mas também à Inglaterra. Só que nesta ocasião a Inglaterra resolveu recolher a luva, sem mesmo sequer esperar pela reacção francesa. E pouco faltou para que o comportamento dos ingleses em 1911 tivesse conduzido ao mesmo que o modo de agir da Áustria em 1914.

Acontecia que o fracasso das negociações sobre a limitação dos armamentos navais, nos últimos anos, tinha ofendido, irritado e mantido inquieto o governo inglês. Ao quarto dia da Panther ter ancorado na angra de Agadir, o gabinete inglês foi convocado para uma reunião (4 de Julho) sobre o assunto, tendo-se imediatamente comunicado após essa sessão ao embaixador alemão em Londres que o governo inglês estava interessado na questão marroquina e, enquanto não fosse notificado das concretas intenções alemãs, se manteria atento. Winston Churchill, então membro do gabinete de Asquith, afirma nas suas memórias que o governo inglês continuava, após 4 de Julho, na mais absoluta incerteza. O que queria a Alemanha? Tão-só compensações ou uma guerra contra a França (41)? A Inglaterra teria dado o seu aval a essa ou a outras compensações (ainda que o mesmo Winston Churchill tivesse assinalado, pouco tempo antes, que a cedência do porto de Agadir à Alemanha podia pôr em perigo rotas marítimas importantes para a Inglaterra).

 

(41) Winston Churchill, “The World Crisis”, Londres, 1923, pág. 44 e seguintes.

 

Porém transcorria uma semana após outra sem que o governo alemão revelasse as suas intenções, e na Inglaterra ia-se ganhando a firme convicção de que se estava perante uma “prova de forças”, uma intencional e intimidatória provocação. No próprio seio do governo inglês assistia-se à luta entre duas correntes: uns eram partidários duma postura pacífica em relação à questão, outros manifestavam-se a favor duma acção decisiva.

O chanceler do Tesouro, Lloyd George, titubeava. Hesitava, precisamente ele que era visto, tanto na Inglaterra como no continente europeu, como um defensor da paz a todo o custo; precisamente ele que se encontrava no centro dessa “legislação social” que revolucionara o orçamento; precisamente quando a sua oposição era aquela que mais podiam temer o primeiro-ministro Asquith e o ministro das Relações Externas, Grey, caso houvesse que proceder de modo bastante brusco contra a Alemanha. E vai daí que, passadas que eram três semanas da chegada da canhoneira germânica ao porto de Agadir sem que se tivesse recebido da parte da Alemanha qualquer explicação a tal respeito, Lloyd George resolveu comunicar aos seus colegas de gabinete que o assunto, tal como se configurava, conduzia abertamente a uma guerra, que a Alemanha ignorava intencionalmente a Inglaterra, que a Alemanha estava a pôr a França à prova e que era preciso declarar publicamente que, “se a Alemanha deseja uma guerra, encontrará no campo adverso a Inglaterra”. Asquith e Grey aprovaram tudo isto na íntegra. Na mesma data, a 21 de Julho de 1911, num banquete oferecido pelo Lord Mayor da City de Londres em Mansion House, Lloyd George pronunciou as seguintes palavras: “Pessoalmente...Eu faria grandes sacrifícios para conservar a paz...Mas se nos fosse imposta uma situação em que a paz apenas pudesse ser preservada pela renúncia à elevada e generosa posição que a Grã-Bretanha conquistou com séculos de heroísmo e grandes feitos, permitindo que a Grã-Bretanha se visse tratada, quando os seus interesses vitais fossem postos em causa, como se ela não contasse no conselho das nações, então eu digo em alto e bom som que uma paz adquirida a esse preço seria uma humilhação intolerável de suportar para um grande país como o nosso”.

Este discurso assemelhava-se ao súbito cair de um raio num céu sereno. A impressão que ele produziu na Alemanha foi de tal ordem que à frente das portas dos bancos e das caixas de aforro se formaram longas e inusitadas filas de depositantes para levantar pressurosamente os seus aforros. A agitação e o pânico tomaram a Bolsa. De início, Guilherme II e o chanceler Bethmann-Hollweg (que era precisamente o culpado de não se terem dado explicações sobre a missão da Panther durante três semanas consecutivas) decidiram testar até que ponto o governo britânico apoiaria Lloyd George. O embaixador alemão, Metternich, apresentou-se passados três dias, muito agitado, perante Grey, o ministro das Relações Externas, e fez um protesto tão áspero que Grey logo mandou chamar o primeiro lord do almirantado para preveni-lo de que “a armada pode ser alvo duma agressão a qualquer momento”. O conde Metternich deplorava o discurso de Lloyd George, porém Grey respondeu-lhe que “não considerava ser compatível com a dignidade do governo britânico” ter de prestar explicações, em geral, sobre esse discurso, ademais que o próprio governo alemão se tinha permitido falar com ele, Grey, em semelhante tom. E assim terminou a audiência. A armada britânica recebeu nesse mesmo dia ordens para entrar em alerta.

A Alemanha tinha agora pela frente apenas uma alternativa, ou bem que guerreava (e o fazia imediatamente), ou bem que cedia. O discurso de Lloyd George era, ao mesmo tempo, tanto uma ameaça directa como um repto, e a entrevista de Metternich com Grey ainda mais reforçou o carácter premeditado e ofensivo dessa ameaça. À provocação alemã feita à França respondera a Inglaterra com um repto não menos enérgico e resoluto.

Passados alguns dias surgiram os primeiros sinais de recuo da Alemanha. A catástrofe, por esta vez, fora evitada: o governo imperial não se tinha decidido a entrar em guerra e iniciou negociações com o gabinete francês. Estas, em Berlim, foram conduzidas por Kiderlen-Waechter, pelo lado alemão, e, por parte da França, pelo embaixador Jules Cambon. A 4 de Novembro era assinado o acordo. Agadir foi abandonada. A Alemanha deixava as mãos livres à França no Marrocos e recebia, como compensação, na África central, uma franja do Congo francês limítrofe com a colónia alemã dos Camarões.

O partido colonialista francês mostrava-se satisfeito com o resultado, mas já na Alemanha as opiniões se encontravam claramente divididas. Uma parte de imprensa (a burguesa de esquerda e a social-democrata) manifestou a sua satisfação pelo feliz termo da terrível crise que se tinha inesperadamente desencadeado no Verão desse ano de 1911, e era inclinada a afirmar que a compensação conseguida não era tão má quanto sustentavam os pangermanistas e em geral os partidários duma política belicosa (e, à cabeça deles, a respectiva imprensa, que expressava os pontos de vista da grande indústria). Os pangermanistas e os partidos que com eles simpatizavam em maior ou menor grau mostravam-se indignados com o acordo de 4 de Novembro de 1911. Afirmavam que a parte do Congo obtida dos franceses nada mais era do que pântanos, que estava endemicamente infestada pela doença do sono, que era um deserto paupérrimo, etc. Segundo eles, desde há muito que a Alemanha não passava por uma humilhação semelhante ao miserável fim desta “empresa de Agadir”, que, no entanto, tão brilhantemente fora iniciada. Afirmavam que não havia que ter medo face às ameaças de Lloyd George, etc. O alto dignitário Lindequist, chefe do departamento colonial do Império Alemão, apresentou a sua renúncia em sinal de protesto contra o vergonhoso termo (a seu critério) das negociações com a França. A cessão do Marrocos aos franceses, desta vez definitiva e sem a menor esperança de ali obter sequer um palmo de terra, irritava e indignava, mais do que ninguém, os círculos do grande capital e uma boa parte da média e pequena burguesia. Também nalguma imprensa social-democrata assomava, de vez em quando, uma que outra alusão irónica a propósito  do “caso de Agadir” (42).

 

(42) Nas quadras populares recordava-se, com mofa, que esta era já a terceira vez que a Alemanha consentia em entregar aos franceses todo um povo – primeiro os tonquineses, depois os malgaxes e, por fim, os marroquinos. Was schon zweimal da gewesen / ist zum dritten Mal vorhanden; / Tonkinesen, Madagassen / Marokkaner-einverstanden! (O que já duas vezes sucedera / sucede pela terceira vez; / tonquineses, malgaxes / tal como os marroquinos!)

 

O governo defendia-se e procurava demonstrar que tinha feito tudo o que estivera ao seu alcance para pôr a bom recato os interesses da Alemanha. Mas havia um outro aspecto neste assunto sobre o qual não se podia ter nem mesmo a mais pequena dúvida: a estratégia de desarticular a Entente desta vez sofrera uma completa e manifesta derrota, como jamais até então havia acontecido. A aproximação entre a Inglaterra e a França, após a aventura de Agadir, passou a desenvolver-se ainda mais rapidamente do que antes. A imprensa da Entente adoptou, depois de Agadir, um tom de mofa, irónico e provocador, que irritava até mais não poder a Alemanha. O incidente de Agadir desferiu na paz europeia, em geral, um novo e muito sério golpe.

O mesmo embaixador alemão em Londres, conde Metternich, a quem coubera escutar, como foi dito, uma resposta tão áspera da boca de Edward Grey, passado algum tempo, quando o momento agudo da crise de Agadir já havia ficado para trás, disse a Winston Churchill, numa conversa privada: «Pretende-se cercar por todos os lado a Alemanha e apanhá-la numa rede, mas ela é um animal demasiado forte para que se possa retê-la numa rede». Só aí, em colóquio privado, o representante oficial do governo alemão foi capaz de expressar com franqueza, imediatamente após a questão de Agadir, que se tratava de facto, e acima de tudo, de romper a rede por meio dalgum movimento mais brusco. Winston Churchill replicou-lhe: «Como é que se pode apanhar a Alemanha numa rede, se ela tem uma aliança com duas potências de primeira ordem, a Áustria-Hungria e a Itália?» É claro que, já então, estas palavras soavam com ironia.

Apenas uns poucos meses tinham transcorrido depois dessas palavras serem pronunciadas, quando a Itália começou a assumir uma posição manifestamente hostil em relação tanto aos interesses da Alemanha como aos da Áustria. Mas o ataque da Itália à Turquia – como ademais toda a história da Europa posterior ao incidente de Agadir – permaneceria incompreensível se não aclarássemos a verdadeira natureza e as particulares características da questão do Próximo Oriente (I) nos derradeiros anos que antecederam a guerra mundial.

 

(I) Tarlé, usando o significado originário da expressão “Próximo Oriente”, inclui nela os Balcãs.

 

Veremos que, se na questão marroquina, a Entente e a Alemanha, como que rivalizando à porfia, agudizaram e tornaram mais próxima a ameaça da guerra, nos assuntos do Próximo Oriente esse seu comportamento assumiu quiçá ainda maior gravidade. Mas aqui já estamos a ver em primeiro plano não tanto a França, a Inglaterra e a Alemanha, mas sim a Itália, a Áustria, a Rússia e a Sérvia.

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