Capítulo VIII - Tentativas de desarticular a Entente

1. ANEXAÇÃO DA BÓSNIA E HERZEGOVINA.

 

A publicação dos convénios anglo-russos de 31 de Agosto de 1907 em parte alguma suscitou tanta agitação como na Alemanha. “O Império está em perigo! Eduardo VII deu termo à tarefa de cercar a Alemanha: há que quebrar esta grilheta ou havemos de perecer!” Exclamações deste tipo faziam-se ouvir nos círculos dirigentes imperialistas e na imprensa, não apenas na pangermanista mas também na mais moderada. Eram chamados de “pangermanistas” (Alldeutschen) os partidários duma política germânica mais agressiva, que pretendia integrar no conjunto do Império, “a bem ou a mal”, aqueles territórios entre cuja população havia, numa ou noutra medida, um estrato étnico germânico. Teriam que ser incorporadas, em primeiro lugar, a Curlândia (Letónia), à qual os mais pródigos chamavam “o país germano oriental”, as regiões flamengas da Bélgica e a parte alemã da Áustria. Já em matéria de política colonial, os pangermanistas tendiam à formação de um grande império em África. Mas agora (após os convénios anglo-russos), para que quaisquer destes anelos se pudessem realizar, quer na Europa quer fora dela, teriam que vencer numa única guerra tanto os seus vizinhos como a Grã-Bretanha (35). Tampouco os círculos políticos mais moderados escondiam o seu desassossego, tendo o chanceler do império, príncipe Bülow, chegado mesmo a referir-se à “defesa da Alemanha”, e fê-lo precisamente devido ao estreitamento das relações anglo-russas.

 

(35) R. Martin, “Kaiser Wilhelm II und König Eduard VII ”, Berlim, 1907, pág. 95.

 

E tudo isto acontecia não porque houvesse realmente a temer, em 1907 ou nos três a quatro anos seguintes, um ataque por parte da Entente. Na Alemanha sabiam, melhor do que ninguém, que a Rússia não se achava em condições de suportar uma guerra, e que a França, sem ela, não se arriscaria a dar tal passo, apesar da sua amizade com a Inglaterra. Porém era claro, em primeiro lugar, que a Entente de modo nenhum fora planeada para desencadear uma acção bélica imediata, e que os seus membros pretendiam, antes disso, que a Rússia se restabelecesse; em segundo lugar, que já estava na altura de se precaverem contra uma reacção da Rússia nos Balcãs e em todas as outras frentes da política externa, porquanto, uma vez que se via a navegar nas águas da política britânica, a diplomacia russa haveria inevitavelmente de seguir uma orientação antigermânica; por fim, e em terceiro lugar, que os efeitos directos da partilha económica da Pérsia não poderiam deixar, no mínimo, de mortificar os interesses da Alemanha, já que a Rússia, no norte da Pérsia, e a Inglaterra, no sul, teriam ali no futuro um peso tão grande, podendo pressionar tão desapiedada e incessantemente o governo persa, que, na prática, por mais que a Alemanha visse formalmente reconhecidos os seus direitos de livre comércio, etc, a situação dos comerciantes e industriais alemães na Pérsia haveria de tornar-se, mais tarde ou mais cedo, bem pouco invejável. Além disso, tanto a Rússia como a Inglaterra tinham agora a possibilidade de causar sérios danos à ferrovia alemã de Bagdade, visto que esta, do ponto de vista estratégico, passava a estar exposta aos golpes e ataques de russos e ingleses. Tornava-se assim claro que a Entente, criada aparentemente com fins “defensivos”, principiava de facto com acções de conquista: as partilhas do Marrocos e da Pérsia.

Para lá de todas estas considerações, há ainda uma outra a ter presente: tal como já foi referido, no lapso de 1901-1914 assistiu-se a um inaudito e impetuoso desenvolvimento da indústria alemã e a um extraordinário crescimento do seu comércio exterior, a um ritmo que seria inimaginável, por exemplo, nos começos do reinado de Guilherme II. Em conformidade com isto, iam crescendo, já não de dia para dia, mas de hora em hora, as pretensões e a influência política dos partidos conservadores e semiconservadores ao estilo do nacional-liberal, com todos eles a exigirem uma mais acelerada transformação da Alemanha, de grande potência (Grossmacht), em potência de ordem mundial (Weltmacht); exigiam o célere reforço da sua presença em África, na Ásia e, em geral, nos mercados mundiais. Os pangermanistas, com os seus sonhos de conquista, mais não faziam, na verdade, do que expressar em voz alta tudo aquilo que desejavam, em maior ou menor grau, muitos conservadores e nacional-liberais, e até um que outro dos partidos situados mais à esquerda. Exactamente pela mesma época, também aqueles sectores da classe trabalhadora a que posteriormente os publicistas da ala esquerda deram o apodo de “aristocracia operária” haviam começado a mostrar um interesse crescente pelos resultados e questões da política externa governamental. Tanto Calwer como outros revisionistas de menor notoriedade tinham passado a defender, de forma insistente, que era necessário efectuar conquistas coloniais em prol dos interesses da classe operária. Ora neste campo, independentemente de todas as demais considerações, a formação da Entente vinha criar uma barreira a essas tendências e anseios dominantes entre as amplas camadas da população, pois, aparentemente, obrigava a Alemanha a passar duma posição ofensiva para uma necessariamente defensiva.

Foi justamente por esta época que começaram a multiplicar-se na imprensa alemã, tanto na conservadora como na liberal, as censuras e recriminações quanto à incapacidade e irreflexão dos dirigentes da política externa germânica; que começaram a repetir-se, com intensidade crescente, as murmurações de que os diplomatas, exclusivamente recrutados entre a alta nobreza, para nada serviam; de que, apesar de gastar com o exército e a armada enormes quantias de dinheiro e de possuir umas forças armadas de primeira categoria, o governo alemão nada fizera para obstar ao desenvolvimento e aos brilhantes êxitos da política de Eduardo VII, que tão perniciosa se mostrava para a Alemanha e o seu porvir. Por certo que também havia alguns optimistas, como o expedito e vivo Rudolf Martin, jornalista muito lido à época, o qual garantia aos seus leitores (36) que a política do rei de Inglaterra apresentava “grande similitude com a de Napoleão I e com a de Napoleão III”, e que acabaria por ter o mesmo fim ruinoso; porém essas tentativas de aplacar os receios do público não vingaram. As camadas mais influentes da população exigiam do governo imperial, através da grande imprensa política, uma resposta à “política de cerco”.

 

(36) A este propósito há a referir que tanto a imprensa francesa como a russa e a inglesa tinham por costume indignar-se com o belicismo dos pangermanistas, mas faziam-no como se não houvesse nos diversos países da Entente agitadores tão chauvinistas como aqueles que na Alemanha, exacerbando deliberadamente todo e qualquer conflito, consciente ou inconscientemente empurravam a Europa para a guerra. Para os círculos bem informados, fosse na Alemanha, na Áustria ou nos países da Entente, não era nenhum mistério que uma boa parte dessa imprensa inflamada pelo patriotismo era, em todo o lado, subvencionada pelos industriais que trabalhavam para a Defesa, que o mesmo é dizer, para o exército e a marinha de guerra.

 

Neste quadro, desenvolveram-se em 1908-1909 dois acontecimentos que podem ser vistos como outras tantas tentativas de desarticular a Entente, de início recorrendo tão-só aos meios diplomáticos. A primeira tentativa, como já vimos, fora feita por Guilherme II em 1905, aquando da disputa pelo Marrocos. Vimos também que ele tinha conseguido, até certo ponto, evitar que este país caísse sob o completo domínio dos franceses, mas sem todavia lograr que a França se afastasse da Inglaterra. Agora, em 1908, resolvera-se a assestar novo golpe, desta vez com o objectivo de separar a Rússia da Entente, a que o governo czarista acabava de aderir.

Esta nova tentativa ocorreu em Outubro de 1908. Há a referir que antes, a 10 de Junho desse mesmo ano, o rei de Inglaterra se deslocara a Reval para se entrevistar com Nicolau II e que nos discursos então proferidos se sublinhou existir um total entendimento entre ambas as potências. Esta visita irritou enormemente o governo alemão, e Guilherme não perdeu tempo para declarar que, se “eles” querem “cercar-nos”, a Alemanha não tem medo e vai defender-se. Disse isto numa reunião exclusivamente de militares, em Döberitz; o discurso, pelas vias oficiais, não foi tornado público, mas depressa chegou ao conhecimento de toda a gente. Entretanto, na Europa, comentava-se de maneira insistente que nas consultas secretas realizadas em Reval entre o ministro russo Izvolski e o rei Eduardo VII fora decidido intervir nos assuntos da Turquia, praticamente na mesma altura em que nesse país estalava a revolução dos Jovens Turcos, um acontecimento que mobilizou a atenção geral. Foi sobre esse terreno – o dos assuntos balcânicos – que a Entente teve de se submeter a uma nova prova, sendo-lhe testada a capacidade de resistência e a solidez.

A revolução dos Jovens Turcos, iniciada a 3 de Julho de 1908, impôs-se triunfalmente em apenas três semanas. O velho sultão Abdul Hamid foi afastado do poder, restando-lhe tão-só o título, que também acabaria por perder no ano seguinte. A administração de todos os assuntos de Estado passou às mãos dos Jovens Turcos, através do “Comité de União e Progresso”, e começou-se a elaborar uma nova Constituição e a preparar as eleições para o Parlamento. Mas tudo isto mais não era do que uma tentativa tardia de reorganizar a Turquia com base na sua “europeização”. Os Jovens Turcos, centralistas pequeno-burgueses que se assenhorearam do poder em 1908, acabaram por governar, de facto, de forma ditatorial até à derrota da Turquia e à sua capitulação nos finais de Outubro de 1918. O seu objectivo principal – a conservação do que ainda restava intacto da Turquia e a sua transformação num Estado completamente centralizado – não só não foi alcançado durante os seus dez anos de ditadura como logo nos primeiros tempos se mostrou irrealizável. A Revolução chegara com um atraso de pelo menos cem anos. Desencadeada nas vésperas do cataclismo universal, ela somente veio acelerar a subsequente liquidação desse país outrora poderoso.

A questão que nos ocupa começou com a anexação da Bósnia e Herzegovina pela Áustria. Estas duas províncias do antigo Império Turco tinham sido ocupadas pela Áustria já em 1878, aquando da guerra russo-turca. Desde então, os ditos territórios encontravam-se sob “ocupação provisória” da Áustria, e era evidente que o governo austro-húngaro nunca os cederia por outro modo que não fosse à força. A Bósnia e a Herzegovina, onde a parte predominante da população era de origem sérvia, desde há muito eram objecto das ambições abertamente expressas da Sérvia. Este país agricultor e criador de gado, que carecia duma saída para o mar, acalentava a esperança de que algum dia, no futuro, quando as circunstâncias se mostrassem favoráveis, a Bósnia e a Herzegovina acabariam por se lhe reunir, e então os sérvios ganhariam não só a ansiada saída para o mar como veriam ainda acrescentada, em considerável medida, a sua área territorial. Quanto à saída para o mar, no dizer dos sérvios, ela era-lhes sobretudo necessária para escapar duma situação em que os seus vizinhos – os austríacos – se arrogavam um monopólio de facto no que toca à compra de todos os produtos que o mercado sérvio podia fornecer. Na Sérvia, imediatamente após a assinatura do acordo anglo-russo de 1907, começaram a exteriorizar-se as ideias de que a Rússia iria finalmente “voltar” ao “Próximo Oriente” e de que a Sérvia passaria a ter, portanto, em quem se apoiar na luta contra os austríacos e os suabos (ou seja, os alemães). E era bem sabido que Izvolski pensava então transladar o centro de gravidade da política exterior russa para os Balcãs.

Assim se apresentavam as circunstâncias quando o ministro austríaco das Relações Externas, barão Lexa von Aehrenthal, resolveu anunciar a anexação da Bósnia e Herzegovina pela Áustria-Hungria, isto é, a conversão em apropriação definitiva da “ocupação provisória”.

Aehrenthal já pensara em dar esse passo antes ainda da revolução dos Jovens Turcos, tendo inclusive procedido a consultas junto de Izvolski e do ministro italiano das Relações Externas, Tittoni, sobre as condições em que a Rússia e a Itália dariam o seu assentimento à anexação. Mas nada resultou dessas consultas e o governo austro-húngaro decidiu actuar independentemente dos outros poderes, avançando à viva força e sem atender a nada. A 29 de Setembro de 1908 o imperador Francisco José informou Nicolau II, por carta pessoal, do passo que estava prestes a dar-se, e alguns dias mais tarde, a 7 de Outubro, a anexação era formal e oficialmente proclamada. Os protestos e o desagrado russos foram expressos nuns quantos documentos oficiais, em especial numa extensa carta que Nicolau (ou, mais exactamente, Izvolski) escreveu a Francisco José em 17 de Dezembro de 1908, na qual, entre outras coisas, o imperador russo dizia:

“De acordo com as notícias que me chegam, o teu governo vem tomando medidas militares a uma tal escala que delas se pode deduzir que estás a preparar-te para um conflito, possível num futuro próximo, com os teus vizinhos balcânicos meridionais. Se tal choque se verificar, provocará, em resposta, grande indignação não só na península balcânica como também na Rússia; e tu compreenderás a situação sobremaneira difícil em que me hei-de encontrar. Que Deus nos guarde de semelhante perspectiva, que poria termo a qualquer possibilidade de manter as boas relações entre a Rússia e a Áustria-Hungria e poderia conduzir a Europa a uma guerra geral”.

Todavia Francisco José sabia perfeitamente que a Rússia não se encontrava em condições de combater, pelo que não se assustou nem um pouco, e, na sua resposta de 28 de Janeiro de 1909, escreveu ao imperador russo:

“A minha conduta com respeito aos países sérvios foi-me ditada pelo meu dever e a minha prudência, tendo sido provocada pela apaixonada hostilidade, pletórica de ódio, de que todas as classes naqueles países se acham possuídas, inclusive os responsáveis com assento no governo... Estou firmemente decidido a opor-me, com toda a energia, às eventuais acções a que os pode impelir a sua crescente audácia, perseguindo quiméricas ilusões que lhes foram sugeridas, lamentavelmente, por mais que uma parte. Não houve ainda nenhum exemplo duma grande potência que, preocupada com a sua honra e os seus interesses, haja demonstrado tão larga paciência como aquela que nós vimos manifestando face às provocações descaradas duns vizinhos minúsculos”.

Ou seja, por outras palavras: também ele ameaçava recorrer à guerra.

Não era possível arrastar o assunto indefinidamente. Paralelamente às fricções surgidas nas relações entre a Rússia e a Áustria, estavam a desenvolver-se outras, bem mais graves e perigosas, entre a Rússia e a Alemanha. Poucos dias depois de ter sido proclamada a anexação da Bósnia e Herzegovina, o embaixador alemão na Rússia, Pourtales, com a mesma franqueza intempestiva e pressurosa que era característica da maneira de agir de Guilherme quando tinha a força do seu lado, transmitiu a Izvolski o seguinte: “Apesar de todos os merecimentos que a Alemanha tem prestados ante ela, a Rússia está a aproximar-se mais e mais do grupo de potências que são hostis aos alemães. Pontos culminantes desta política foram a conferência de Algeciras e a entrevista de Reval com o rei Eduardo. Um tal reagrupamento de potências obriga a Alemanha, mais do que em qualquer outro momento, a aproximar-se de forma estreita da Áustria e a ter como base da sua política a mais completa solidariedade, em todos os assuntos, para com a monarquia dos Habsburgo. A anexação da Bósnia e Herzegovina devia de ser a contrapartida do acordo anglo-russo: eis qual era o sentido das suas palavras. A 23 de Março de 1909, com Guilherme a exigir imperativamente à Rússia o imediato reconhecimento da anexação, o governo russo foi obrigado a submeter-se (37).

 

(37) Os novos e importantes documentos aqui citados foram publicados pela primeira vez no Krasny Arkhiv (Arquivo Vermelho), t. X, 1925, págs. 41-53, por A. M. Zaiontchkovsky, o qual, contudo, expressa um juízo erróneo acerca do tratado russo-inglês: a “perfídia de Albion” encontrava-se não tanto nas cláusulas do acordo de 1907, mas sim nos cálculos de mais largo alcance (e que depois se verificaram) acerca da participação militar da Rússia no futuro conflito anglo-germano.

 

Assim se concluiu esta crise. Qual foi o seu significado histórico? A anexação da Bósnia e Herzegovina teria sido para a Alemanha tão-só um meio de assestar um golpe na Entente, de provar à Rússia, através duma amarga lição, que os seus parceiros não a apoiariam e que não devia alinhar ao seu lado, mas sim com as potências centrais? Certamente que não. Existia tal intento, é verdade, mas também havia outras razões mais.

Já vimos que o projecto de implantar-se economicamente nos territórios do Império Turco se convertera, pode dizer-se que a partir de 1898, numa das ideias dominantes da política alemã. O traçado da linha-férrea de Bagdad, reiniciado em 1909, avançava com todo o êxito e exigia, imperiosamente, que fossem dados os passos correspondentes nos Balcãs. Com efeito: todo o percurso desde Berlim até Bagdad teria de se encontrar integralmente nas mãos da Alemanha, Áustria e Turquia, ou então nas de potências amigas. A Bulgária podia ser vista como tal, mas, dum modo geral, o seu alinhamento no lapso de 1907-1909 não era tão evidente quanto o viria a ser a partir de 1913. A Sérvia era inimiga declarada da Áustria e, por conseguinte, uma amiga da Rússia. A anexação da Bósnia e Herzegovina condenava a Sérvia a permanecer também no futuro na dependência económica da Áustria, assim como à impotência política. O troço da grande linha Berlim-Bagdad que atravessava a península balcânica tinha de ser resguardado tanto na retaguarda como nos seus flancos, e era para se atingir este objectivo que se solicitava e acicatava a Áustria a desenvolver uma política balcânica activa, vendo a Alemanha a sua aliada como um prolongamento natural de si própria.

Batida pelos prussianos em 1866, reformada em 1867 na base do princípio do “dualismo”, ou seja, com total autonomia interna das suas duas componentes principais (a Áustria e a Hungria), esta “biunívoca” monarquia austro-húngara manifestou por largo período de tempo uma inesperada capacidade de vida. As esperanças de Bakunin quanto à completa destruição do Império Austríaco, esperanças que ele ainda cultivava no fim do seu longo encarceramento e do seu exílio, não se cumpriram até ao termo dos seus dias.

Ainda em 1869 e 1870 (antes do início da guerra franco-alemã), Francisco José deixava-se às vezes guiar pela ilusória ideia duma aliança entre a França e a Áustria com vista a uma nova guerra contra a Prússia. Mas no ano de 1871 deu por arrumado o assunto. Desde então a Áustria apenas pensava numa aliança com a Alemanha, vendo nisso a única tábua de salvação face, por um lado, às sublevações eslavas no interior do império e, por outro, às mais que prováveis agressões, também eslavas, a partir do exterior. O Império apoiava-se nos estreitos vínculos económicos que existiam entre as suas diversas partes componentes, mas também aqui surgia a ameaça de dissolução, porquanto as regiões economicamente mais desenvolvidas, como a Boémia, se encontravam em situação bem melhor do que muitas outras, podendo considerar-se, elas próprias, economicamente independentes. Por tudo isto, tendo-se aliado à Alemanha logo em 1879, a Áustria aferrava-se com todas as suas forças a esta aliança. No que toca em particular à Hungria, que era governada pela aristocracia fundiária, oprimia duramente, em benefício dos interesses dessa mesma aristocracia, as nacionalidades eslavas que lhe estavam sujeitas. Em não menor grau que na Áustria propriamente dita, também na metade húngara do Império se difundira o medo ao “perigo russo”, e, por isso, a política da diplomacia austro-húngara, que gravitava em torno da Alemanha, recebia sempre o aplauso húngaro (ambas as partes do Império tinham um só ministro, comum, das Relações Externas). Por último é de notar que era precisamente através da Hungria, dada a sua posição geográfica, que a Alemanha contava exercer pressão nos Balcãs.

Houve, é certo, um momento de pausa nas constantes relações de hostilidade austro-russas. As desordens na Macedónia, onde existia um tenaz movimento revolucionário anti-turco, prolongaram-se por muitos anos. A situação era sumamente complicada, não apenas por os macedónios quererem emancipar-se do domínio turco, mas também porque parte deles gravitava em torno da Bulgária enquanto uma outra parte o fazia em relação à Sérvia [outros queriam aderir à Grécia, e havia ainda uma quarta corrente, “macedoniana”, que defendia uma federação balcânica]. E foi precisamente então que, por breves instantes, luziu a oportunidade duma reconciliação franco-russa. Corria o ano de 1903 e o momento revelava-se particularmente propício: a diplomacia russa encontrava-se em apertos devido ao agravamento das relações com o Japão e, na Áustria, começavam a sentir-se incómodos sob a tutela, excessivamente penosa, de Guilherme II, pelo que eram propensos a amenizar em algo o estado das relações com a Rússia.

O conde Goluchowski, ministro das Relações Externas da Áustria-Hungria ao longo de onze anos (1895-1906), desejava a paz com a Rússia e uma certa liberdade da sua pátria face às pretensões alemãs. Todavia tal política não teve êxito. Conseguira, é certo, celebrar um acordo com a Rússia em Outubro de 1903, em Mürzsteg, visando manter o status quo nos Balcãs (questão da Macedónia), porém os acontecimentos ulteriores viriam a destruir essa frágil construção diplomática da “amizade” austro-russa. O “programa de Mürzsteg” previa toda uma série de reformas e medidas que a Turquia teria de realizar na Macedónia sob o controlo das potências estrangeiras. Mas o acordo celebrado não conduziu a nada, a questão macedónia manteve-se sem solução e, a partir de 1907, as relações entre as grandes potências, divididas entre a Tripla Aliança e a Entente, tomaram uma tal forma que nem sequer se podia já falar duma pressão conjunta sobre o governo turco. Daí em diante, para a Áustria e a Alemanha, a Turquia havia de ser o principal e mais fiel amigo na península balcânica.

Após a anexação da Bósnia e Herzegovina tampouco era possível falar, é claro, duma política externa austro-húngara independente da alemã. Contudo também na Alemanha tinham perfeita noção de que a aliança com a Áustria lhes era absolutamente necessária, e Guilherme, que nesse tempo falava muito da sua condição de “padrinho magnificamente armado” da Áustria, de abrigar para com Francisco José da “fidelidade dos Nibelungos”, etc, tão-só pretendia com tais declarações consolidar de modo definitivo a situação de facto já existente. Em 1924, ao rememorar no exílio os anos anteriores à guerra, Guilherme disse a Alfred Niemann que a Áustria era o único aliado, na ausência do qual a Alemanha se encontraria sob a ameaça dum total isolamento. Não obstante, reconhecia que a Áustria, dilacerada pelas contradições e antagonismos nacionais, não pudera de maneira nenhuma mostrar-se “um aliado de eficácia total”.

Mas há algo mais a dizer. Logo após a anexação da Bósnia e Herzegovina, a Áustria habituou-se a tomar a iniciativa sem sequer comunicar os seus propósitos ao governo alemão (assunto sob o qual Guilherme guarda silêncio apesar do facto estar completamente esclarecido), e deste modo passou a proceder em tudo o que envolvesse o alargamento do seu domínio na península balcânica. Tanto Francisco José como o herdeiro do trono, o arquiduque Francisco Fernando, e o conde Berchtold, ministro das Relações Externas nos últimos anos antes da guerra, conheciam perfeitamente até que ponto a Alemanha precisava da Áustria, e disso extraíam as suas conclusões, agindo em consequência. Exagerando o poder do seu “padrinho magnificamente armado”, mostravam uma impetuosidade de que nem sequer se ousava falar antes da anexação da Bósnia e Herzegovina. E o mais perigoso era que Guilherme não apenas não travava essa iniciativa austríaca como até a aplaudia; parecia-lhe ser isso o que precisamente lhe convinha: a responsabilidade não recaía sobre a sua pessoa mas sim sobre a Áustria, sendo ele colocado perante um facto consumado relativamente ao qual já nada era possível fazer, e a “fidelidade dos Nibelungos” fazia então a sua entrada em cena e reclamava os seus direitos. A consequência de tudo isto foi a ulterior penetração e reforço da Áustria e da Alemanha na península balcânica.

Guilherme justifica-se presentemente (nos anos vinte) com o argumento de que a Áustria, na falta do apoio alemão, teria caído debaixo da influência do rei Eduardo VII, o qual já estava a efectuar diligências secretas para atraí-la à Entente (38). Fosse como fosse, a situação que este apoio veio a criar acarretava enormes perigos. Mas, de todo modo, no interim, o júbilo dos círculos imperialistas na Alemanha e Áustria foi total: a anexação da Bósnia e Herzegovina parecia-lhes ser o feliz prólogo para a conquista, numa primeira fase, económica, de toda a península balcânica e, mais adiante, de toda a Turquia asiática.

 

(38) Alfred Niemann, “Wanderugen mit Kaiser Wilhelm II”, Leipzig, 1924, pág. 55. “Unsere Loyalität hat ihren Lohn erhalten als König Eduard VII vergeblich versuchte Kaiser Franz-Joseph zu bestimmen sich der Politischen Einkreisung Deutschlands anzuschliessen” (a nossa lealdade foi recompensada quando o rei Eduardo VII em vão tentou convencer o imperador Francisco José a juntar-se à política de cerco da Alemanha).

 

E quanto ao outro objectivo a que nos referimos, terá ele sido conseguido? Foi enfraquecida a coesão entre as partes que compunham a Entente? A resposta, sem a menor sombra de dúvida, é que não. É verdade que nem a França nem a Inglaterra queriam entrar numa guerra por causa da Bósnia e Herzegovina, e que, ademais, nem sequer ao nível diplomático apoiaram a Rússia, todavia, depois da derrota e humilhação sofridas em 1908 e, em especial, em Março de 1909, quando foi obrigada a submeter-se ao ultimato contido na exigência de Guilherme de que se reconhecesse a anexação, a diplomacia russa passou-se, de modo definitivo e irrevogável, para o campo da Entente.

O modo de agir de Guilherme II punha a Rússia face a uma alternativa: ou se submetia de forma incondicional à vontade da Alemanha, e fazia-o sem a menor esperança de obter qualquer recompensa, visto que a consolidação e afirmação da influência da Alemanha e da Áustria na península balcânica e na Ásia Menor constituíam precisamente um dos objectivos centrais de toda a política germânica, provocando para mais essa submissão, infalivelmente, a hostilidade da França e da Inglaterra, a ruptura da aliança franco-russa, a recusa da Bolsa de Paris à outorga de mais empréstimos russos e, por conseguinte, o total isolamento da Rússia; ou, pelo contrário, ligava definitivamente a sua política à da França e da Inglaterra, transformando-se num dos elos da cadeia hostil que cercava a Alemanha. A diplomacia czarista decidiu-se pelo segundo caminho. Também esta opção encerrava riscos tremendos; porém, dadas as circunstâncias e as tendências internacionais à época, ela era quase inevitável. E, encimando tudo isto, a ideia de assenhorear Constantinopla era colocada, ano após ano, em primeiro plano na política externa russa.

O barão Greindle, embaixador belga em Berlim, exprimiu a opinião dos diplomatas da Tripla Entente sobre essa derrota diplomática da Rússia ao escrever: “a máquina construída pelo rei Eduardo VII para travar a Alemanha sofreu um descalabro à primeira tentativa de pô-la em marcha”. A anexação da Bósnia e Herzegovina reveste-se de importância, numa perspectiva histórica geral, pelo facto de ser, no plano cronológico, a segunda tentativa de dividir a Entente (e não a primeira). E o barão Greindle estava a sepultar prematuramente a Entente. Se esta não lograra impedir a anexação da Bósnia e Herzegovina, tampouco a Alemanha a tinha conseguido destruir. Bem pelo contrário: as relações entre a Rússia, a França e a Inglaterra tornaram-se ainda mais estreitas. E o pior de tudo era que a hostilidade para com a Alemanha nestes três países se manifestava agora forma mais aberta e com maior frequência.

Deste modo, portanto, o governo alemão podia constatar que nenhuma das suas tentativas para destruir a Entente – quer a de Marrocos em 1905, quer a da Bósnia e Herzegovina em 1908-1909 – atingira o pretendido objectivo, e isto apesar dos triunfos diplomáticos conseguidos em cada uma dessas ocasiões, um êxito parcial na conferência de Algeciras (1906), e um outro, total, com a sujeição da Rússia ao ultimato formulado por Guilherme II a 23 de Março de 1909. Verificara-se exactamente o oposto: após 1905-1906, a França aproximou-se ainda mais da Inglaterra e, depois de 1908-1909, a Rússia uniu-se de forma mais estreita a essas duas potências. Havia que empreender um novo intento, persistir nesse rumo, dado que a Entente representava uma constante ameaça. O caminho que a diplomacia alemã tinha escolhido não admitia estorvos nem impedimentos de nenhuma ordem. Às duas primeiras tentativas tinham que se seguir outras e outras mais.

A seguinte, e terceira, deu-se nesse mesmo ano de 1908, pouco depois da declaração da anexação da Bósnia e Herzegovina. O incidente que lhe serviu de pretexto imediato ocorrera um pouco antes, em finais de Setembro de 1908, mas o desenvolvimento dos acontecimentos recai sobre o mês de Outubro e os inícios de Novembro. Trata-se do chamado “incidente dos desertores”, intimamente ligado à política colonial francesa.

 

2. O “INCIDENTE DOS DESERTORES” EM CASABLANCA.

 

É de referir que a França, nesses anos, com o primeiro ministério de Clemenceau (1906-1909), estava a atravessar uma época conflituosa em matéria de reacção social. Jaurès tinha chamado ao gabinete de Clemenceau “ministério do conservadorismo social”. Mais adiante, na exposição, ainda havemos de voltar a este período; limitemo-nos por agora tão só a assinalar um aspecto desta questão, que se prende directamente com o que estamos a tratar.

Se havia algo em que os activos sindicalistas revolucionários coincidiam completamente com a fracção parlamentar do partido socialista que Jaurès dirigia, era, em primeiro lugar, na sua postura de firme recusa da política colonial do governo e, mais em especial, no que dizia respeito à conquista do Marrocos, que se vinha efectivando desde 1906, mal disfarçada sob a capa duma legítima aplicação das disposições da conferência de Algeciras. Não é de estranhar que ao longo de toda a existência da Terceira República, numa época em que a política colonial da França se distinguia por uma inusitada actividade e em que a conquista de vastos territórios se desenrolava num processo contínuo, apenas em relação ao Marrocos tivesse surgido pela primeira vez, da parte dos socialistas, uma contestação aberta e veemente. A conquista de Túnis em 1881, a da Indochina em 1884-1885, a gradual conquista do Congo e das possessões na África Central (a partir de 1880), a ocupação de Madagáscar (1895) e outras expedições e conquistas, haviam, na verdade, obrigado a certos sacrifícios (por vezes nada pequenos), contudo, salvo o choque com os ingleses em Fashoda, em Novembro de 1898, eram tudo empreendimentos coloniais que jamais haviam ameaçado arrastar o país para uma guerra contra qualquer das grandes potências europeias (e mesmo o conflito de Fashoda se havia solucionado com relativa rapidez).

É certo que as diferentes correntes socialistas – por então ainda não se tinham fundido num partido socialista unificado (le parti socialiste unifié) – tinham denunciado em várias ocasiões que se estava a derramar o sangue do povo e a esbanjar dinheiro sem necessidade nem proveito, que eram empreendidas expedições custosas, que se exterminavam os indígenas, ocupavam pela força territórios e exploravam populações inteiras apenas para enriquecer um punhado de predadores, de “tubarões” (les requins du capitalisme), em benefício dos interesses da Bolsa, dos exportadores, para uma mais lucrativa colocação dos capitais, etc. Houve momentos em que não só os socialistas, mas também os radicais burgueses, se insurgiram contra as longínquas campanhas coloniais. Assim, em meados da nona década, o próprio Clemenceau batera-se furiosamente contra Jules Ferry, protestando contra a expedição à Indochina que este organizara; mas também então um dos principais argumentos utilizados era o que sublinhava o perigo de se desviar a atenção do país da fronteira alemã, da “brecha nos Vosges”, donde podia sempre sobrevir uma nova invasão. Mas, seja como for, enquanto a política colonial francesa não encerrou a ameaça directa de provocar uma guerra europeia, os protestos contra as empresas coloniais não foram, em França, nem fortes, nem constantes, nem de grande importância.

Porém, na primeira década do século XX, com a questão do Marrocos, a situação ganhou um cariz completamente novo. No campo das rivalidades coloniais, a França acabava de entrar em choque, não com a Inglaterra, mas sim, e pela primeira vez, com a Alemanha, a potência face à qual tantas contas pendentes tinha na própria Europa. Os círculos industriais e comerciais alemães, os expoentes da Bolsa e a diplomacia alemã, que se encontrava ao serviço de todos eles, não queriam, de forma nenhuma, ceder num ponto que fosse da questão marroquina. De acordo com o plano de Holstein, que o chanceler Bülow compartilhava, o Marrocos transformar-se-ia, permanentemente, numa chaga aberta e dolorosa, de molde a que a Alemanha, tocando na ferida, pudesse sempre a qualquer momento exercer pressão sobre a França.

A Alemanha também tinha interesses económicos no Marrocos. Tanto os irmãos Mannesmann como os demais industriais e comerciantes germânicos incitavam, pelas mais diversas formas, o seu governo a que agisse de modo mais enérgico contra a política de rapina que o governo francês ali vinha gradual e continuamente desenvolvendo. Em 1905, tal como vimos, chegara-se mesmo às ameaças de guerra; em 1906 teve lugar a conferência de Algeciras; em 1907-1908 de novo surgiram queixas, na Alemanha, de que os franceses davam muito pouca atenção às limitações que lhes tinham sido impostas em Algeciras, enraizando os seus interesses, apesar daquele entraves, mais e mais profundamente no Marrocos.

E foi então que Jaurès, a este propósito, desencadeou uma sistemática e enérgica campanha contra o governo. O seu principal argumento era que arriscarem-se por causa do Marrocos a uma nova guerra contra a Alemanha, em que se teriam de fazer inumeráveis sacrifícios, seria um crime absolutamente sem qualquer razão ou sentido. Os sindicalistas, por sua parte, desenvolviam a propaganda antimilitarista, afirmando que a única coisa que podia travar os colonialistas rapaces e o governo de Clemenceau, que lhes ia na esteira, era o medo duma greve geral no momento da mobilização e duma sublevação revolucionária no exército. Na Alemanha, onde se seguia este movimento anti-colonial com uma enorme atenção, resolveram que era chegada a hora de “pôr o dedo na ferida marroquina”, para assim de novo testar a solidez à Entente.

Como pretexto serviu o acontecimento que se segue. Na África Setentrional Francesa está aquartelado, desde 1832, um destacamento permanente que é composto, em tempo de paz, por cerca de seis mil homens; é conhecido pelo nome de Legião Estrangeira e formado por oficiais do exército regular e por soldados voluntários que são recrutados apenas na base da sua aptidão para o serviço militar. Não é exigido, aquando do alistamento, nenhum documento de identidade nem qualquer tipo de recomendações, não se pedem informações e apenas se pergunta ao candidato qual o nome com que se inscreve. A vida na Legião é bastante dura, os perigos são constantes e a disciplina é extraordinariamente severa, mesmo cruel, sendo frequente a aplicação da pena capital. Os que se alistam neste corpo militar fazem-no na esperança de obter, após alguns anos de serviço, documentos sem mácula que lhes permitam começar uma nova vida; outro atractivo é o soldo, que apesar de algo escasso é pago regularmente. Acontece que na Legião, dentre a massa de párias e estrangeiros que lhe formam as fileiras, desde há muito se conta uma grande percentagem de alemães; e que na Alemanha, fazia já algum tempo, se assistia a uma intensa campanha de propaganda contra essa mesma legião.

Em Setembro de 1908 desertaram do dito destacamento alguns soldados rasos (a deserção, devido às condições de disciplina quase inumanas, é ali coisa muito comum). Os desertores refugiaram-se em casa do cônsul alemão na cidade marroquina de Casablanca. Passado algum tempo, este cônsul resolveu fazê-los embarcar clandestinamente num navio germânico, mas as autoridades francesas, tomando-os à força das mãos dos funcionários do consulado alemão que os acompanhavam, detiveram-nos no porto e encarceraram-nos. Gerou-se um sério conflito. De início Guilherme exigiu desculpas incondicionais pela ofensa praticada contra o consulado, a libertação dos desertores detidos de nacionalidade alemã (entre os desertores havia nacionais de outros países), etc. Clemenceau, que então encabeçava o gabinete, emitiu uma ordem ao ministro dos Negócios Estrangeiros, Pichon, para que este não apenas recusasse qualquer tipo de desculpas, mas, ademais, exigisse também o castigo do cônsul alemão por ter escondido em sua casa os desertores. Após umas negociações muito tensas, desenvolvidas num tom muito pouco amistoso, para já não dizer hostil, as duas partes chegaram a um acordo, decidindo submeter o caso a um inquérito judicial da competência do tribunal internacional da Haia. Porém Guilherme II, de forma completamente inesperada, ordenou ao seu embaixador em Paris que solicitasse um encontro com Clemenceau para lhe exigir, antes ainda da decisão do tribunal da Haia, que os presos fossem postos em liberdade e que se procedesse a um inquérito sobre os acontecimentos no porto de Casablanca, a fim de se instaurar um processo aos funcionários franceses que tinham detido os desertores. Clemenceau recusou-se rotunda e categoricamente a fazê-lo. O embaixador alemão de novo se apresentou a Clemenceau, comunicando que Berlim lhe havia ordenado exigir uma satisfação imediata, e, caso não a recebesse, para abandonar Paris nessa mesma tarde. Clemenceau tornou a recusar de maneira igualmente categórica e rotunda. O embaixador não deixou Paris e, pouco tempo depois, foi notificado ao governo francês que Guilherme se conformava afinal, definitivamente, em submeter o assunto à apreciação do tribunal da Haia (esta investigação acabaria mais tarde por ser, em geral, favorável aos franceses). Reinou durante algumas semanas, tanto em França como na Alemanha, uma grande inquietação, que todavia se havia de dissipar a breve trecho, logo em Novembro de 1908, quando desapareceu a ameaça de guerra.

Nos começos de Fevereiro de 1909 a França e a Alemanha firmaram um acordo ou, mais exactamente, uma declaração sobre o Marrocos: a Alemanha de novo reconhecia à França interesses políticos especiais no Marrocos, e a França declarava que não levantaria quaisquer obstáculos aos interesses económicos da Alemanha naquele país. As nuvens negras de novo se dissiparam, temporariamente. O incidente dos desertores não só não havia abalado as bases da Entente, como, bem pelo contrário, contribuiu para consolidá-las: precisamente depois de Clemenceau se ter negado a apresentar desculpas ao governo alemão, foi visitado pelos representantes russo e inglês, os quais lhe expressaram, em nome dos respectivos governos, as suas simpatias e a sua completa aprovação pelo modo como agira.

Foi nessa altura que na imprensa alemã, pela primeira vez, se começou a sustentar que não se devia exagerar a força do movimento antimilitarista francês. A obstinação da França tinha impressionado. De novo se comentou a inépcia e os erros da diplomacia germânica. A inquietude crescia.

E precisamente então estalou um memorável escândalo político que, de repente, obrigou a Alemanha a proclamar aquilo em que até esse momento ninguém podia nem queria pensar.

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