Capítulo X - A questão do Próximo Oriente após a revolução dos Jovens Turcos

1. SIGNIFICADO HISTÓRICO DA REVOLUÇÃO DOS JOVENS TURCOS.

 

Quando, no Verão de 1908, se deu a revolução na Turquia e o pleno poder passou das mãos do ancião Abdul Hamid às do comité dos Jovens Turcos, o acontecimento foi interpretado na Europa, antes do mais, como uma reacção do sentimento de conservação nacional face aos perigos directos e manifestos que ameaçavam a existência da Turquia em consequência do acordo anglo-russo. É certo que a Inglaterra ainda não tinha começado a delinear o desmembramento da Turquia e que, neste sentido, os planos e fantasias de alguns publicistas, ao estilo de Noel-Buxton, de modo nenhum coincidiam com os planos, à época, do governo inglês. Mas também se tornara claro que, dali em diante, a Inglaterra já não quereria, nem poderia, opor-se às ambições de anexação territorial da Rússia, contrariamente ao que havia feito antes, tanto em 1854-1855 como em 1878. A razão que explica isto é que o importante para a Inglaterra era orientar a Rússia contra a Alemanha e os novos interesses alemães ligados à linha-férrea de Bagdad. A sorte que coubera à Pérsia, recentemente repartida em “esferas de influência”, erguia-se agora diante dos olhos desses turcos que haviam desencadeado o movimento revolucionário contra Abdul Hamid.

Muitos círculos europeus sobreavaliavam desmedidamente, sobretudo nos primeiros tempos, a estatura “moral” e a profundidade de pensamento político dos Jovens Turcos, desses conspiradores que, como se pudera ver, tinham sido capazes de derrotar tão rápida e facilmente o velho déspota. Na imprensa de Paris comparavam-nos aos dirigentes da grande Revolução Francesa, às grandes figuras do ressurgimento italiano, como Mazzini, Garibaldi, etc. Na Rússia, a imprensa liberal enchia-se de saudações e elogios, e um dos maiores e mais sérios jornais políticos (o Rech), ao descrever o espírito revolucionário reinante nas escolas onde tinham estudado os futuros expoentes da rebelião, dizia: “A juventude educada nessas escolas foi a primeira a compenetrar-se do sentimento de vergonha pelo papel que a Turquia desempenhava na Europa. Esse sentimento manifestou-se com especial intensidade depois das matanças na Arménia”. Mas tudo isto não passava dum ruidoso equívoco, da expressão da mais grosseira ignorância perante a realidade dos factos. Os Jovens Turcos não só exterminaram um pouco mais adiante, em 1915, a maior parte do povo arménio, vangloriando-se disso, como, logo em 1908, tinham chegado ao poder já decididos a aplicar o infalível método de resolver as questões nacionais pelo extermínio físico de todas as nacionalidades à excepção dos turcos e daqueles que consentissem, no imediato, em reconhecer-se turcos. Quando Enver Bey (depois, Enver Paxá), um dos chefes dos Jovens Turcos, exclamou imediatamente após a revolução que, a partir daquele momento, “não há mais búlgaros, nem gregos, nem macedónios, nem árabes”, mas “todos somos iguais, todos somos otomanos”, ele entendia a questão, em perfeita antítese com as cândidas conjecturas dos liberais europeus, exactamente nestes termos: todos os outros povos que vivem na Turquia converter-se-ão em turcos e, por isso, todos serão “iguais” ou, em caso contrário, “deixarão de ser”, isto é, seriam massacrados e, desta forma, “desapareceriam”. “A questão arménia está resolvida, já não há arménios”, estas palavras de Talaat Paxá, amigo íntimo e companheiro de luta de Enver Paxá, que juntamente com ele exterminou em 1915 dois terços do povo arménio, foram a continuação directa e o concreto desfecho do discurso de Enver em 1908.

A valer-nos da terminologia europeia que lhes pode estar mais próxima, qualificaríamos de preferência os Jovens Turcos, a avaliar pelo seu programa e tendências, como representantes da pequena burguesia urbana e, sobretudo, da pequena propriedade rural. O artesanato, o pequeno e médio comerciante, o camponês proprietário, o camponês criador de gado: foram estes os elementos sobre os quais o poder dos Jovens Turcos, especialmente nos seus começos, se procurou apoiar. Outro ponto de apoio era o sector formado pelos representantes do capital estrangeiro e pelas pessoas que se ocupavam das empresas comerciais, industriais, de obras públicas, etc., pertencentes a europeus ou de alguma maneira ligadas ao capital europeu. Em todas estas forças económicas havia a esperança de que, com o advento dos Jovens Turcos, a europeização da Turquia progrediria a ritmo acelerado e seriam criadas nos planos jurídico e prático condições atractivas para o exterior, de modo a que o capital estrangeiro se pudesse sentir mais livre e seguro. Tais eram os esteios sob os quais o novo regime queria e planeava apoiar-se. O pouco numeroso sector dos muçulmanos abastados, convencendo-se, após algumas vacilações e esperas, do definitivo fracasso do velho sultão Abdul Hamid, também se curvou perante os vencedores.

Quando os Jovens Turcos, prossecutores da revolução centralista burguesa, tiranizavam e massacravam com feroz e desapiedada violência os gregos e os arménios, entre os quais era muito numerosa a burguesia endinheirada, meramente o faziam porque os gregos e os arménios lhes eram suspeitos (tal como o eram os búlgaros e os sérvios na Macedónia) – e tais suspeitas não eram erradas – de acalentarem o desejo de destruir a Turquia, pretendendo arrancar-lhe diversas partes do território para uni-las à Grécia, Bulgária e Sérvia, ou de molde a constituir a futura “Grande Arménia”. Os Jovens Turcos viam nessa luta implacável contra os elementos “estranhos” o único meio de salvar a Turquia do desmembramento.

Mas os planos dos Jovens Turcos eram na prática irrealizáveis. Com um sistema financeiro rudimentar, eles de modo nenhum estavam em condições de conservar ou de poder reter nas suas mãos um império todavia vastíssimo; além disso, ao oprimir e exterminar as nacionalidades que detinham quase todos os capitais do país, minavam a economia financeira da Turquia e colocavam-se, desde logo, na directa e incondicional dependência do capital estrangeiro. Em particular, agravava-se o peso, que já anteriormente era enorme, das importações industriais estrangeiras, com todas as consequências que isso acarretava para a balança comercial e o endividamento do Estado.

Criava-se deste modo um círculo vicioso: as medidas que visavam impedir a desagregação da Turquia contribuíam para a definitiva e irrevocável escravização económica do país. O método simplista na eliminação dos problemas difíceis não era aplicado pelos Jovens Turcos apenas no âmbito da questão nacional: “A questão social não existe na Turquia”, declaravam (e escreviam) eles logo após se terem empoleirado no poder. Mas, de facto, havia na Turquia uma classe operária, ainda que pouco numerosa, que vivia na completa miséria e era legalmente impedida de lutar contra a exploração; e também existia uma feroz usura que arruinava a agricultura; porém, a resposta era...“não existe nenhuma questão social na Turquia”, e assim se impedia toda e qualquer hipótese de avançar com reformas sociais. Era desta maneira que os Jovens Turcos liquidavam todas as questões que lhes pareciam difíceis.

Na verdade, eles só sabiam fazer bem uma coisa: a guerra, como o demonstraram em 1914-1918, se já não mesmo em 1912. No âmbito das funções estaduais não sabiam fazer mais nada, e, neste sentido, também nada mais faziam do que propriamente seguir as tradições nacionais turcas. Através duma revolta militar, souberam em primeiro lugar derrubar, em Julho de 1908, o poder do sultão; depois, quando os partidários deste tentaram a restauração, a 13 de Abril de 1909, os Jovens Turcos prepararam um magistral contra-ataque, tendo reunido numa só semana um exército de mais de 20.000 homens, para logo, avançando a marchas forçadas, se apoderarem de Constantinopla e ali instaurarem definitivamente o seu domínio. Mas o exercício da administração central, para eles, reduzia-se praticamente a preservarem o poder, e em tudo o demais fracassavam. O novo sultão, que eles puseram no trono em substituição do deposto e desterrado Abdul Hamid, cumpria apenas uma função representativa, tal como acontecia com o “parlamento”, ao passo que o verdadeiro poder absoluto se concentrava nas mãos da sua organização partidária central: União e Progresso. Os que foram promovidos por esse comité, Enver Paxá, Talaat Paxá, Midhat Shukri e outros, distinguiam-se pela enorme energia, afoiteza e determinação com que levavam a cabo as mais frenéticas e cruéis matanças individuais e colectivas, mas no plano intelectual em nada ultrapassavam a típica astúcia oriental, de concepções políticas e ideias limitadas e francamente ingénuas. E há a ter presente que as circunstâncias contra as quais lhes coubera em sorte lutar eram, na verdade, tão tremendamente difíceis que mesmo a duras penas mal as teriam podido resolver o próprio Napoleão (com o qual Enver Paxá muito gostava de se comparar) ou Bismarck, a quem os bajuladores associavam Talaat Paxá, que de simples e modesto funcionário dos correios ascendeu à dignidade de Grão-vizir. Os Jovens Turcos deram provas da sua insipiência política, bem como da sua fleuma, que só a anterior explica, ao longo de todo o decénio que vai desde marcha triunfal de 1908 até àquele para eles aziago dia de Outubro de 1918 em que tiveram de fugir de Constantinopla, deixando atrás de si a pátria esvaída em sangue e oprimida sob o tacão inglês. Essa fatuidade, esse espírito de auto-suficiência que era próprio da organização dos Jovens Turcos e que jamais se deixava perturbar ante o que quer que fosse, constitui, em certo sentido, um fenómeno extremamente curioso.

A questão principiou pela Macedónia, que já há décadas se rebelava contra o domínio turco e que, entretanto, vinha sendo objecto de consultas e convénios entre as grandes potências, elaborando-se projectos de reformas, etc. Os Jovens Turcos resolveram o problema da forma mais simples e expedita: “Não existe a Macedónia e não há nenhum macedónio”, diziam eles, repetindo o que já haviam escrito na época em que eram uns emigrantes acossados e perseguidos. “Existem cidadãos turcos a habitar a região em que, há dois mil anos atrás, existiu a Macedónia – e é tudo”.

A única consequência possível era a revolução na Macedónia e uma guerra entre a Turquia e, simultaneamente, a Sérvia e a Bulgária (ambas reclamando determinadas partes da Macedónia). Esta guerra acabaria forçosamente por deflagrar, todavia a sua preparação diplomática revelou-se demorada. O primeiro golpe que caiu sobre os Jovens Turcos não proveio dessa direcção: a Itália, antecipando-se, iniciou o ataque.

 

2. A GUERRA DA ITÁLIA CONTRA A TURQUIA.

 

Desde que a 20 de Setembro de 1870 as tropas de Vítor Manuel II, rei de Itália, entraram em Roma, até então a capital dos Estados Pontifícios, e o reino por fim se unificou, a Itália, em especial nos primeiros tempos, desenvolvia lentamente e com dificuldade a sua indústria. Não dispunha de recursos próprios em carvão e ferro, não possuía hábitos e tradições industriais nem tampouco podia contar com um vasto mercado interno, aliás, nem sequer estava em condições de assegurar à sua indústria ao menos o monopólio desse mercado interno. A Itália não podia nem queria arriscar-se a entrar em luta contra a França, Áustria, Inglaterra e Alemanha no terreno das tarifas alfandegárias. Aquando dalgumas fugazes tentativas neste campo, a Itália sempre acabara por ceder. Mas, apesar de tudo isto, e se bem que de um modo relativamente lento, a indústria italiana ia-se desenvolvendo: os baixos salários embarateciam os custos nalguns ramos de produção e asseguravam as vendas. No entanto a indústria não crescia a um ritmo que fosse capaz de proporcionar trabalho e meios de existência às dezenas e mesmo centenas de milhares de pessoas que, ano após ano, eram atiradas para fora da economia rural pelo inexorável curso da evolução económica.

As diversas condições do desenvolvimento na Itália, actuando ao largo de mil e quinhentos anos, tinham gerado dois fenómenos económicos diametralmente opostos que, todavia, propiciavam de igual modo a crise do desemprego na economia rural: no sul e, em larga medida, na região central da Itália encontram-se comummente vastíssimos latifúndios, grandes extensões em que predomina a criação de gado ou, então, o trabalho dos rendeiros ou dos jornaleiros rurais; já no norte, na Lombardia, na região veneziana, no Piemonte, na Toscana, Parma, Modena e em parte da Romanha, bem pelo contrário, verificava-se um incrível fraccionamento das possessões agrícolas, fazendo com que os “proprietários” desses exíguos minifúndios – a despeito de todo o seu afã e afinco, e apesar de toda a família trabalhar – vivessem numa grande pobreza e, por vezes, passando fome. Se a isto se juntar que viviam na Itália, antes da guerra (tomámos os últimos dados), cerca de 35 milhões de habitantes (43) sobre uma área total de 286.743 quilómetros quadrados (cerca de metade da França, que tinha uma população quase igual), e que, desta área, uma parte enorme está coberta por pântanos que só há relativamente pouco tempo começaram a ser drenados e por montanhas, torna-se-nos claro que a Itália tinha que perder, por ano, centenas de milhares de cidadãos, obrigados a emigrar em busca de meios de subsistência para os Estados Unidos da América e outros países. O fenómeno da emigração do proletariado rural, que se ligava estreitamente à questão da insuficiência das áreas de lavra, era o problema social que ocupava o cerne das preocupações do governo e da opinião pública já desde os primeiros anos da unificação do reino.

 

(43) Em 1911 eram 34.671.577, enquanto em 1871 eram tão só 26.801.154.

 

Uma das correntes da emigração italiana dirigia-se para a África setentrional, a Túnis e à Tripolitânia. Mas Túnis foi ocupada em 1881 pelos franceses, o que provocou uma viva ira contra a França e constituiu o empurrão que obrigou a Itália, em 1882, a juntar-se à Alemanha e à Áustria, formando com elas a chamada Tripla Aliança. Quanto à Tripolitânia, esta achava-se sob o domínio dos turcos, contra os quais a Itália não ousava entrar nesse momento em guerra. Por outro lado, também os projectos de arrancar à Áustria as duas províncias cuja população era predominantemente italiana (as regiões de Trieste e do Trentino) seriam inconcebíveis sem o recurso a uma muito perigosa guerra. E, desde que a Itália se convertera em “aliada” da Áustria, ou seja, desde 1882, todas as ideias a esse respeito tinham que ser deixadas momentaneamente de lado.

À procura de regiões para colonizar, assim como de novos mercados para colocar os produtos da sua indústria, que, apesar de tudo, ia crescendo, o governo, sustentado e apoiado em tal sentido pela grande burguesia e, em parte, pela média, empreendeu, ou melhor, tentou levar a cabo uma aventura colonial junto às costas do Mar Vermelho, começando por ocupar uma parte do litoral nas proximidades do grande burgo de Massaua. Nos primeiros tempos, e não obstante uns quantos conflitos com a Abissínia de resultados pouco felizes para a Itália, as perspectivas pareciam ser boas, tendo-se fundado a colónia italiana da Eritreia. Tanto o gabinete de matiz conservador de Crispi (1887-1891) como os ministérios mais liberais que se lhe seguiram (de Rudinì, 1891-1892, e Giolitti, Maio de 1892 a Novembro de 1893) e, de novo, um governo conservador presidido por Crispi, perseveraram na empresa até que tropeçaram, por fim, na feroz resistência oferecida pelos abissínios, cujas terras haviam começado a anexar da forma mais descarada, sem sequer se darem ao trabalho de apresentar para tal qualquer pretexto. O imperador etíope Menelik II aliou-se ao pequeno rei local, o ras Mangasha, e após umas quantas batalhas de menor importância, em 1895-1896, favoráveis aos italianos, o general Baratieri defrontou a 1 de Março de 1896, junto à cidade de Adua, as forças concentradas de Menelik, sofrendo uma esmagadora derrota. Só uma fuga desordenada pôde salvar os restos do exército em pânico de Baratieri. Os italianos não apenas foram obrigados a abandonar todos os territórios que haviam ocupado, com excepção da pequena zona inicial, como tiveram que pagar uma indemnização a Menelik. Em Itália, onde já antes dessa rotunda derrota reinava a agitação tanto entre os operários industriais do norte como nas massas meio esfomeadas de rendeiros precários e de jornaleiros rurais do sul e do centro, os ânimos da opinião pública entraram em efervescência e Crispi teve de se demitir. A partir de então, os ministérios que se sucederam não pensaram mais em novas empresa coloniais. Havia que defrontar graves agitações operárias, combatendo-as fosse pelo estado de sítio e os tribunais militares (como em 1898), fosse (a partir do assassinato do rei Humberto às mãos dum anarquista, no ano de 1900, e da ascensão ao trono de Vítor Manuel III) através de concessões como o reconhecimento do direito de greve, a legalização do movimento sindical e algumas reformas sociais. Como personalidade de primeiro plano no governo destacou-se, a partir de 1901 e até à guerra mundial (primeiro como ministro do Interior e em seguida, por diversas vezes, como presidente do conselho de ministros), Giolitti, um oportunista liberal extremamente astuto e capaz que sabia manobrar habilmente entre os grandes latifundiários, uma parte da grande burguesia conservadora, a pequena e média burguesia (em grande medida liberal) e o partido socialista, e que procurava atenuar as manifestações mais acesas da luta de classes quer na cidade quer no campo.

Foi ele quem se decidiu, após a revolta dos Jovens Turcos, a arrebatar a Tripolitânia e a Cirenaica à Turquia. Tinha-se convencido de que podia contar com o apoio da classe operária, dos rendeiros e dos jornaleiros rurais e, nem preciso dizê-lo é, da burguesia: eram territórios que já vinham sendo sujeitos, desde há algum tempo, a uma intensa colonização italiana. E os seus cálculos revelaram-se certos. Em vão o partido socialista protestou veementemente contra este plano e relembrou anteriores fracassos, como o de Adua. As massas operárias não lhe deram qualquer apoio; pior ainda, numa série de comícios, numerosos operários (que eram considerados e a si próprios se consideravam como socialistas) pronunciaram-se a favor da projectada conquista. A cobertura diplomática já há muito fora (secretamente) preparada. A França, decidida a apoderar-se do Marrocos, tinha prometido não levantar obstáculos ao reforço da influência italiana na Tripolitânia. Por sua parte, também a Inglaterra dera a entender que anuía: um dos objectivos do rei Eduardo VII era exactamente separar a Itália da Tríplice Aliança e atraí-la à Entente, e, depois que ele faleceu (em Maio de 1910), esta política da Inglaterra em relação à Itália manteve-se inalterada.

Em Setembro de 1911 a Itália procedeu a grandes preparativos bélicos para o envio dum corpo expedicionário à Tripolitânia. A 28 de Setembro o Grão-vizir recebeu do encarregado de negócios italiano um ultimato a exigir, no prazo de 24 horas, que a Turquia permitisse a ocupação de Trípoli pelas tropas italianas. O governo dos Jovens Turcos encontrava-se numa situação desesperada: a Inglaterra e a França, ainda que não colaborassem com a Itália de forma directa, tinham-se de antemão comprometido a não opor obstáculos; a Alemanha e a Áustria mantinham-se em silêncio, cientes de que se apresentassem qualquer protesto contra os italianos isso significaria o fim da Tríplice Aliança, dado que a Itália de imediato a abandonaria, acabando, como era óbvio, por aliar-se duma ou doutra forma à Entente. Em consequência, não havia ninguém que pudesse valer à Turquia. E no que respeita à possibilidade de opor resistência ao desembarque dos exércitos italianos na Tripolitânia e na Cirenaica (para onde os turcos nem sequer podiam enviar tropas e armamentos, por não possuírem uma frota de guerra capaz de proteger os seus comboios marítimos), isso era algo completamente inviável. O governo italiano estava, pois, a jogar a sua partida sem correr qualquer risco. A 29 de Setembro a Itália declarou a guerra à Turquia. É claro que não se tratou duma verdadeira guerra, mas sim de alguns confrontos com formações guerrilheiras compostas por turcos e árabes, não se podendo mesmo falar no início, como facilmente se depreende, de resistência organizada. A 5 de Novembro de 1911 o governo italiano proclamou oficialmente a anexação da Tripolitânia e da Cirenaica, notificando do facto as demais potências. Como era de prever, não houve nenhum protesto. A Entente queria ganhar a simpatia duma possível nova aliada. A Alemanha e a Áustria temiam alienar-se aquela que era ainda a sua aliada.

Mas o governo dos Jovens Turcos tardava em negociar a paz, supondo que não adviria qualquer perigo de maior do prosseguimento do estado de guerra com a Itália, e de que isso ao menos lhe permitiria manter algum do seu prestígio aos olhos da população.

Como resposta, a 24 de Fevereiro de 1912 os italianos bombardearam a cidade de Beirute (na Síria Otomana) e a 18 de Abril uma esquadra italiana bombardeou fortificações nos Dardanelos. Ademais, havia ainda uma outra circunstância a fazer ver aos Jovens Turcos, com crescente clareza de semana para semana, que lhes seria imperioso resignarem-se quanto antes a dar a partida por perdida e a assinar a paz: as notícias chegadas de Petersburgo davam a entender, de maneira cada vez mais evidente e inequívoca, que a Rússia apoiava a Itália e tencionava fazer uma demonstração naval no Bósforo ou, ainda, que iria propor a realização duma conferência geral das potências para se resolver a questão dos Estreitos. Entretanto os italianos desembarcavam a 4 de Maio em Rodes, que ocuparam. Um pouco antes fora tomada a ilha de Estampalia (entre Cós, a leste, e Amorgos, a oeste). Rapidamente foram ocupadas as doze ilhas turcas do chamado Dodecaneso, no Egeu. Todas essas acções militares (bem como um novo ataque da marinha italiana nos Dardanelos) não surtiram, no entanto, qualquer efeito decisivo, e só quando se tornou absolutamente claro que a Turquia enfrentava uma nova e muito mais perigosa ameaça de guerra, agora da parte das potências balcânicas, é que os Jovens Turcos se decidiram, por fim, a assinar a paz com a Itália. A 15 de Outubro de 1912 foram firmadas em Ouchy (Suíça) as condições preliminares de paz: a Tripolitânia e a Cirenaica ficavam sob o poder de Itália e as ilhas do Dodecaneso seriam devolvidas à Turquia (devolução essa que nunca veio a acontecer).

Na Alemanha, onde se seguia com crescente inquietação o desenrolar dos acontecimentos, que se encaminhavam para a partilha da Turquia, considerava-se que os Jovens Turcos haviam cometido um erro fatal ao atrasar um ano inteiro a assinatura da paz com a Itália, dado que precisamente nesse lapso de tempo as potências balcânicas tinham podido organizar a sua aliança e, além disso, porque o ataque da aliança balcânica contra a Turquia fora em boa medida acelerado por essa mesma circunstância: pela situação em que se encontrava a Turquia devido à guerra com a Itália. Havia uma certa dose de verdade nesta apreciação. Mas, por outro lado, era muito duvidoso que algo pudesse salvar a Turquia de um ataque das potências balcânicas. Os erros do governo dos Jovens Turcos mais não fizeram do que meramente apressar e facilitar o processo de desmembramento do Império Otomano.

 

3. A GUERRA DOS ESTADOS BALCÂNICOS CONTRA A TURQUIA.

 

A formação duma aliança dos Estados balcânicos era inevitável a partir do momento em que a Itália com tanta facilidade se havia apoderado da Tripolitânia. O projecto dessa aliança começara a tomar forma logo que se constatou, nos Balcãs, que os Jovens Turcos não podiam nem tampouco sequer queriam introduzir, de futuro, qualquer mudança na situação das minorias nacionais, e que, prescindindo da fraseologia e do aparente “europeísmo” barato, o seu método de governo mais não era do que pura arbitrariedade ditatorial, enquanto que o seu programa de soluções para a questão das nacionalidades se resumia, na perspectiva imediata, à opressão e, na sua meta ideal, ao extermínio físico de todos aqueles que não quisessem reconhecer-se como turcos. Assim, mal se tinha desencadeado a conquista italiana da Tripolitânia, a Bulgária, a Sérvia e a Grécia entabularam rapidamente negociações sobre a Macedónia.

Tanto os sérvios como os búlgaros e os gregos acalentavam pretensões a respeito da Macedónia: em consequência disso, estas nações não haviam conseguido chegar, durante muitos anos, a um acordo sobre a sua partilha. Era relativamente mais fácil chegar a um entendimento quanto às aspirações dos gregos, pois estes não reclamavam muito território. Porém os sérvios e os búlgaros, etnicamente entremesclados em vastas regiões da Macedónia, durante muito tempo não puderam entender-se. Além disso, a questão parecia ser de postergar enquanto a Itália não desse o sinal para o começo da partilha da Turquia.

Ambos os países, tanto a Sérvia como a Bulgária, viviam sobretudo da agricultura e da criação de gado, e para eles, dum ponto de vista económico, a questão da Macedónia representava, em primeiro lugar, a aquisição de novas terras de lavradio e de novos campos de pasto. Havia, contudo, outros acicates económicos a agudizar a luta pela Macedónia e as outras terras em mãos turcas: para a Sérvia, a anexação de Salónica significava uma saída para o mar, que tão necessária era para os exportadores sérvios de gado e matérias-primas, porém Salónica também era reclamada pelos gregos; ademais, para a Bulgária e a Sérvia, era importante apoderarem-se da Macedónia por ser esta um território que ligava o oriente turco à Europa Central. Mas, de todo modo, estas dificuldades no acerto da futura partilha passaram para segundo plano quando, em 1912, com a directa participação da diplomacia russa (do enviado russo na Sérvia, Hartwig (44)) se iniciaram ou, para ser mais exacto, se retomaram as negociações secretas para a criação duma aliança das potências balcânicas contra a Turquia, tendo por fito principal arrancar-lhe a Macedónia.

 

(44) Será supérfluo precisar que Hartwig era tão-só um instrumento e que o verdadeiro artífice desta fatal aliança balcânica foi S. D. Sazonov.

 

Por trás da Sérvia estava a Rússia e por detrás da Rússia achava-se toda a Entente, ainda que nem a França nem a Inglaterra se dispusessem então, nesse ano de 1912, a combater pela questão dos Balcãs.

A Sérvia, sendo limítrofe com a Áustria-Hungria, encontrava-se desde há longos decénios sob a influência económica e política desta. E quando, em 1903, uma conjura de militares matou o rei da dinastia dos Obrenovitch, Alexandre, e a sua esposa, Draga, tendo subido ao trono, livre graças ao duplo assassinato, Pedro Karageorgevitch, o pretendente da antiga dinastia, a orientação politica externa da Sérvia não sofreu qualquer mudança brusca. Somente após a Entente ter sido criada e dos russos se terem aproximado da dita é que os sérvios se convenceram de que a Rússia seria capaz de servir de contrapeso à Áustria nos Balcãs.

É de sublinhar que, antes ainda da adesão oficial da Rússia à Entente, esta última, através da França, já havia consolidado a sua posição económica na Sérvia. Em 1906 a bolsa de Paris assegurou um empréstimo sérvio, seguindo-se-lhe um outro em 1909. A partir de 1908, capitais franceses foram investidos em vasta escala em várias empresas mineiras, na sericultura, na organização da exportação de gado. Fundou-se em Belgrado o Banco Franco-Sérvio (com capitais exclusivamente franceses; capitais sérvios não os havia), e o capital francês ia controlando mais e mais, de ano para ano, os centros nevrálgicos da vida económica sérvia. A Sérvia iniciou uma guerra aduaneira contra a Áustria-Hungria, do que resultou a exclusão quase por completo de toda uma série de produtos austro-húngaros do mercado sérvio. Também diminuíram as vendas de gado à Áustria; os turcos acharam que lhes era vantajoso deixar os sérvios utilizar o porto de Salónica para a exportação por mar com destino à Inglaterra, França e Itália. E a anexação pela Áustria da Bósnia e Herzegovina lançara de vez a Sérvia nos braços da Entente, convertendo-a numa inimiga mortal daquela; tal como já mais atrás se disse, os sérvios viam estas duas províncias como uma sua indiscutível herança histórica.

No que respeita à influência russa na Sérvia, ela continuou a crescer em 1910-1912. Adquirir, por um lado, uma parte da Macedónia e, por outro, conseguir apoderar-se nalgum momento oportuno da Bósnia e Herzegovina eram anseios que a Sérvia só podia julgar exequíveis mediante o apoio da Entente e, antes do mais, com a ajuda da Rússia. A Entente, por sua vez, via na Sérvia uma barreira destinada a impedir tanto a absorção económica do Império Turco pelo capital alemão como o reforço da influência política da Áustria e da Alemanha nos Balcãs. E era precisamente por isso que a Bulgária se inclinava a considerar a Entente como uma força hostil. Entre a Bulgária e a Sérvia, a partilha da Macedónia nunca poderia ser mutuamente satisfatória. Por conseguinte, e quanto mais não fosse por esta razão, a Bulgária tinha que procurar outros protectores e encontrou-os no Impérios Austro-Húngaro e Alemão.

Desde há muito que a Bulgária se encontrava ligada à Áustria e à Alemanha por estreitíssimos vínculos financeiros; também era com esses países que os búlgaros tinham desenvolvido mais as suas relações económicas (no sentido lato da palavra). Com o reforço da presença alemã no Oriente, a Bulgária só tinha directa e imediatamente a ganhar, dado que era um dos países atravessados pela grande via-férrea Berlim-Bagdad. E sobretudo, bem ao contrário dos sérvios, os búlgaros não tinham nenhuma pretensão territorial nem quaisquer contas a ajustar com a Áustria-Hungria, e uma atitude hostil para com esta seria, da sua parte, algo de absurdo e insensato, em que nada teriam a ganhar e tudo a perder. Temiam imenso a Rússia, e não apenas porque ela protegesse os sérvios: o que mais os alarmava eram as tradicionais ambições russas quanto a Constantinopla. Ter fronteiras com a Rússia representaria para a Bulgária a perda da independência. É certo que no país existiam outras correntes de pensamento político com mais confiança e simpatia pela Rússia, mas, desde os meados da nona década (anos 80) do século XIX, a maioria mostrava-se extremamente alerta e desconfiada a respeito das intenções político-militares russas. Contudo, na Rússia, mesmo assim, e até o último momento, não se perderam as esperanças de conseguir ganhar as simpatias da Bulgária.

Em 1912 assistiu-se na política russa a um certo titubeio. Alguns – muito poucos – eram a favor da manutenção da paz nos Balcãs, outros sustentavam que era preciso “autorizar” o ataque dos Estados balcânicos contra a Turquia e, por fim, havia até os que se dispunham a dar um apoio activo a esse ataque.

O Montenegro, a 8 de Outubro, e a Sérvia, Bulgária e Grécia, a 17 de Outubro (de 1912), declararam a guerra à Turquia. Ao mesmo tempo, os dois campos hostis em que se dividiam as grandes potências europeias não escondiam que, no que lhes concernia, esta guerra era algo que em nada faria mudar os seus projectos relativos aos Balcãs. Na Rússia, os círculos nacionalistas e próximos da corte de novo voltaram a agitar as velhas consignas eslavófilas, falando da cruz que se ergueria no templo de Santa Sofia em Constantinopla, e só temiam que, a essa cruz, fossem os búlgaros a colocá-la, entrando primeiro na capital turca. Já na Áustria, o diário vienense Neue Freie Presse, órgão oficioso do ministério das Relações Externas austro-húngaro, escrevia pela mesma altura, ou seja, em Outubro de 1912: “ a Áustria-Hungria deve conquistar os Balcãs do ponto de vista económico”. É escusado dizer que nessa frase, quiçá apenas “para abreviar”, se tinham esquecido das palavras “e Alemanha”.

Dado o evidente carácter irreconciliável de tais perspectivas, não é de espantar que, mesmo não sendo profetas, numerosos publicistas e estadistas já prognosticassem então, no Outono de 1912, que a matança que se estava a iniciar apenas representava uma espécie de preâmbulo para uma catástrofe muito mais terrível, e isto independentemente de quem fossem os vencedores do conflito.

Logo nas primeiras semanas se viu claramente que era impossível à Turquia defender a Macedónia. O avanço vitorioso dos exércitos sérvios e búlgaros, apoiados pela ameaça (e invasão) grega a partir do sul, permitiu aos búlgaros chegar até Chataldja (não longe de Istambul), onde os turcos lhes opuseram uma resistência maior do que a esperada. Mas essa resistência apenas podia salvar Constantinopla, pois a Macedónia já estava irremediavelmente perdida. Quanto aos dirigentes dos Jovens Turcos (nomeadamente, os membros do comité União e Progresso Hussein Djahid Bey, que era o director do jornal Tanin, Ismail Hakki, Talaat Bey, mais tarde chamado Talaat Paxá), parte deles permaneceu escondida em Constantinopla e uma outra parte fugiu da cidade. Em Novembro a guerra já estava praticamente decidida. Os gregos ocuparam Salónica, os sérvios tomaram Monastir e os búlgaros continuavam empenhados em tenazes combates na zona de Chataldja e sitiaram Andrinopla.

As grandes potências europeias (dos dois campos: tanto a Tríplice Aliança como a Entente) tinham oferecido a sua mediação a ambas as partes beligerantes, isto é, à Liga Balcânica e aos turcos. As grandes potências, por diversas razões, consideravam que não lhes era conveniente tomar parte activa neste assunto e que ainda não havia chegado a hora da “prova de forças” principal. É preciso também dizer que os rápidos êxitos dos Estados balcânicos a todos havia surpreendido, apanhando-os completamente desprevenidos. Actualmente, já desde há muito está esclarecido que a Áustria e a Alemanha, por um lado, e a Rússia, por outro, contavam com uma longa guerra e o esgotamento de ambas as partes. Assim, os rápidos e decisivos êxitos dos aliados balcânicos alarmaram tanto a Áustria, que via a Sérvia reforçar-se, como a Rússia, receosa de que a Bulgária se pudesse converter na potência hegemónica dos Balcãs. No final, os turcos, extenuados, acabariam por aceder a quase todas as condições impostas pelos vencedores.

É verdade que Enver Bey, um homem de forte vontade, resoluto, corajoso e pleno de iniciativa (e também um ambicioso completamente privado de escrúpulos), conseguiu retardar um pouco o curso das negociações ao derrubar, de forma violenta, o governo de Kiamil Paxá. Ajudaram-no nessa empresa aqueles acima mencionados membros do comité União e Progresso, que muito depressa, pelos vistos, haviam conseguido recobrar os seus ânimos: depois que a 3 de Dezembro (de 1912) fora firmado o armistício, tinham abandonado os seus refúgios e voltado a desempenhar um certo papel político. O golpe de Estado (23/24 de Janeiro de 1913) distinguiu-se, entre outras coisas, pelo facto do ministro da Guerra, Nazim Paxá, e de alguns dos seus auxiliares terem sido assassinados por Enver e outros conspiradores. Porém esta foi a última e desesperada tentativa de adiar o inevitável. O armistício expirou, os combates reiniciaram-se junto a Chataldja, Andrinopla caiu nos finais de Março e, por fim, a 30 de Maio de 1913, a paz foi firmada em Londres pelos representantes das partes beligerantes.

Da Macedónia agora conquistada, a Bulgária tomara a parte oriental (bem como quase toda a Trácia), com o respectivo litoral do Mar Egeu, e uma parte da Macedónia central; a Grécia ocupou Salónica e a Macedónia meridional central e ocidental; a Sérvia apoderou-se da Macedónia ocidental, com Monastir, no sul, e duma parte da Macedónia central.

O Montenegro conquistara um território relativamente pequeno que incluía a cidade de Scutari, caída após um assédio (e mediante diversos expedientes políticos e financeiros) nas mãos do rei montenegrino Nicolás, mas esta cidade logo lhe foi arrancada, por imperiosa exigência da Áustria, e entregue à “independente” Albânia que as grandes potências se apressavam a constituir.

À guisa de compensação pelo notável crescimento territorial da Bulgária, a sua vizinha Roménia exigiu (e obteve) a cidade de Silistra e uma pequena área do território búlgaro na zona fronteiriça. A Bulgária teve de conformar-se, pois, caso o não fizesse, a Roménia ameaçava atacá-la, podendo assim fazê-la perder todos os ganhos da campanha que empreendera contra os turcos.

O protesto da Áustria pela anexação de Scutari ao Montenegro fora tão firme e enérgico que não deixava qualquer margem para dúvidas de que o gabinete vienense se dispunha a tudo para impedir tal conquista. De maneira igualmente enérgica, a Áustria desenvolveu durante toda a Primavera de 1913 uma campanha diplomática contra a entrega à Sérvia duma saída para o mar (no Adriático), e também aqui alcançou os seus propósitos. Através de acordos diplomáticos entre as grandes potências, de forma a fechar solidamente a saída para o mar à Sérvia, foi criada a Albânia “independente” com a franja de terra adjacente ao Adriático que fora tomada aos turcos, um Estado que, de futuro, também havia de servir como barreira à influência sérvia nos Balcãs. Mais tarde, simulando uma escolha de acordo com a vontade do povo, fez-se subir ao trono da Albânia um príncipe alemão caído em decadência, Heirich zu Wied, o qual, como é óbvio, mais não era que um simples instrumento da Áustria e Alemanha, que se achava por trás da primeira.

Assim se concluiu esta guerra nos Balcãs, fadada a receber na história a designação de “primeira guerra balcânica”, porquanto, ainda antes que secasse a tinta nas penas com que se firmara a paz, rebentou uma segunda guerra balcânica: os aliados não se entendiam para a repartição pacífica do despojo.

 

4. CONSEQUÊNCIAS DOS ACONTECIMENTOS NOS BALCÃS: 1) PARA A ALEMANHA E ÁUSTRIA; 2) PARA A BULGÁRIA; 3) PARA AS POTÊNCIAS DA ENTENTE. A GUERRA DA SÉRVIA, GRÉCIA, ROMÉNIA E MONTENEGRO CONTRA A BULGÁRIA.

 

Para a Áustria e a Alemanha, os interesses económicos e políticos estratégicos em jogo na crise dos Balcãs eram por demais importantes para que elas não tentassem restabelecer as posições que a guerra entre os Estados balcânicos e a Turquia haviam debilitado. Perante tanto uma como a outra levantavam-se duas questões centrais:

1) Evitar um excessivo fortalecimento da Sérvia, desde logo, fechando-lhe qualquer saída para o mar, e impedir também o reforço do Montenegro, que estava estreitamente ligado à Sérvia. Esse objectivo foi parcialmente atingido pela Áustria e a Alemanha através da formação do Estado albanês e pela recusa da cessão aos montenegrinos da cidade de Scutari.

2) O segundo problema, logicamente vinculado com o primeiro, passava pelo reforço – tanto quanto fosse possível à custa da Sérvia – da Bulgária, o principal posto avançado da penetração económica e política austro-alemã no Império Turco e um dos mais importantes elos da linha Berlim-Bagdad. A criação duma forte Bulgária não só debilitava o principal inimigo da Áustria, ou seja, a Sérvia, como também permitia cobrir Constantinopla contra qualquer ataque russo por terra, visto que tornava impossível uma repetição da campanha russa de 1877-1878. Por último, nesta época, a Bulgária já estava estreitamente vinculada à Alemanha e à Áustria no campo exclusivamente económico. Por tudo isto, quando em Maio e Junho, imediatamente após se ter feito a paz com os turcos, começaram a surgir gravíssimas discórdias entre a Sérvia e a Bulgária no que concerne à partilha da Macedónia, acabada de reconquistar à Turquia, a Áustria e a Alemanha começaram a acompanhar com o mais vivo interesse o desenrolar do conflito, prestando, como é óbvio, todo o apoio à Bulgária.

Quanto à Entente, para falar com rigor, não havia uniformidade de pontos de vista. Entre a França e a Rússia, já na Primavera de 1913, não existia total acordo em relação à Turquia, ainda que essas discordâncias encontrassem então a sua expressão exterior mais na imprensa do que nos actos do governo. A França temia a destruição da Turquia: de todos os capitais estrangeiros aí investidos, a maior parte pertencia aos franceses. Por razões quer de natureza geográfica quer de ordem política, tampouco ganhariam o que quer que fosse com o desmembramento da Turquia. Assim, os nefastos erros do governo dos Jovens Turcos, que tinham levado à guerra, haviam provocado um grande descontentamento em França, e agora que se assistia à luta pela repartição da presa de guerra os franceses não queriam de nenhuma forma imiscuir-se militarmente a favor desta ou daquela potência balcânica. No entanto, na Primavera de 1913, quando se decidia a sorte de Scutari, empreenderam uma enérgica campanha diplomática contra as pretensões montenegrinas. Quanto à Inglaterra, mostrava-se interessada nos assuntos balcânicos, sobretudo no que se prendia com o enfraquecimento ou reforço da influência alemã, mas tampouco se dispunha a intervir pelas armas, assumindo também ela uma atitude de espera. Na Rússia, Kokovtsov revelava-se decididamente contrário a uma intervenção armada. O embaixador em Paris, Izvolski (o mais perigoso e agressivo elemento da diplomacia russa daquela época), sabendo que a França e a Inglaterra a ninguém prestariam ajuda, resolveu remeter-se ao silêncio. O ministro das Relações Exteriores, Sazonov, especialmente agora que se vira livre das pressões de Izvolski, era favorável à manutenção da paz na Europa.

Assim, quando a Áustria, na Primavera de 1913, contando com o apoio da França, expressou o seu categórico veto na questão de Scutari, as outras duas potências da Entente assentiram sem levantar quaisquer objecções e, inclusive, demonstrando alguma solicitude. Pelas mesmas razões não se deu, nem era possível dar, qualquer passo no sentido de impedir a Bulgária de atacar a Sérvia, ainda que a Entente fosse mais do que contrária a um ulterior acrescentamento do poderio búlgaro, já sem isso muito reforçado após a vitória sobre a Turquia.

No entanto as coisas tomaram um rumo com que ninguém, nem a Bulgária, nem a Áustria e Alemanha, nem a Entente, verdadeiramente contava. Entrou em jogo um novo factor que decidiu a questão: a 30 de Junho de 1913 a Bulgária atacou subitamente a Sérvia, tendo a Roménia, poucos dias depois, declarado por sua vez a guerra à Bulgária, a qual (e esta foi a verdadeira surpresa), vendo-se apanhada entre dois fogos (I), sofreu uma rápida e completa derrota.

 

De facto não foram dois, mas sim quatro “fogos”. A Bulgária viu-se a braços com quatro frentes: para além da sérvia e da grega, onde os exércitos búlgaros combatiam, os turcos e os romenos abriram duas novas frentes. Tarlé refere-o um pouco mais adiante.

 

A Roménia assumia nesta época uma posição dúplice. Durante largos anos, ainda que não oficialmente, manteve com a Áustria-Hungria e a Alemanha laços bastante estreitos. Eram relações não apenas económicas (semelhantes às que a Bulgária estabelecera com os dois impérios), mas também políticas: o apoio austríaco e alemão era-lhe necessário para obter alguma protecção contra a Rússia, sua vizinha fronteiriça. Mas, por outro lado, a Roménia só se podia expandir às custas da Áustria-Hungria (onde, na Transilvânia, vivia uma numerosa população romena) ou, então, da Bulgária, com que confinava pelo sul. Quanto à Bessarábia, anexada pela Rússia, poucos nela pensavam na Roménia de então, mas também no que concernia à Transilvânia as hipóteses eram escassas, restando apenas, portanto, a Bulgária. O notável crescimento desta, no desfecho da guerra de 1912-1913 contra os turcos, inquietava, irritava e desconcertava a Roménia; a cidade de Silistra e a pequena franja de terra na fronteira que os búlgaros tinham cedido aos romenos, em jeito de compensação, eram consideradas manifestamente insuficientes. E foi precisamente por esta razão que, quando a Bulgária agrediu a Sérvia para aumentar com um bom quarto mais as suas recentes conquistas, o governo romeno decretou sem hesitar a mobilização geral e declarou a guerra à Bulgária, sem prestar qualquer atenção às repetidas exortações que a Áustria e a Alemanha lhe faziam.

Acresce que também os gregos se tinham aliado aos sérvios, e o mesmo fez a recém derrotada Turquia, baixando também a terreiro contra a Bulgária. Mal oito dias tinham passado sobre o brusco ataque contra a Sérvia, o gabinete de Danev, que governava a Bulgária, e o próprio Tzar Fernando, que tinha parte muito activa na política externa, acabando por compreender o seu erro, solicitaram à Rússia que interviesse como mediadora para que se estabelecessem os termos da paz. Porém já então era óbvio que essa iniciativa estava destinada ao fracasso. Em meados de Julho os turcos cruzaram a nova linha de fronteira Enez-Midia e invadiram o território búlgaro; os sérvios tinham rechaçado os atacantes búlgaros e passado à contra-ofensiva; o exército romeno cruzara o Danúbio e marchava sobre Sófia; também os gregos haviam entrado nos novos territórios búlgaros e ocupado Kavala. De seguida os turcos retomaram Andrinopla. Fernando I, Tzar da Bulgária, apressou-se a pedir a paz à Roménia. Todavia esta somente acedeu a convocar uma conferência geral de paz, em que participaram a Bulgária e todos os vencedores. A conferência iniciou-se em Bucareste (a 30 de Julho) precisamente um mês após o súbito ataque búlgaro contra a Sérvia, e a 10 de Agosto de 1913 as potências beligerantes assinaram a paz. Andrinopla e a maior parte da Trácia foram restituídas à Turquia. Kavala passou às mãos dos gregos. Os sérvios receberam todos os territórios macedónios que tinham em litígio com a Bulgária e ainda uma parte daqueles que esta tomara, tendo também repartido com o Montenegro o Sanjak de Novi Pazar, que fechava aos impérios centrais o caminho por terra (cruzando a Albânia) até Salónica e o mar Egeu. A Roménia ganhou um novo e relativamente vasto território às custas da Bulgária, indo a nova fronteira desde Oltenitz até ao Mar Negro. O mais doloroso para os búlgaros foi a perda das cidades e regiões que ainda há pouco tinham conquistado, Kotchani, Vinitza e Radovitch (cedidas à Sérvia), Andrinopla, Kirk-Kilise e Demotika (entregues à Turquia), e Kavala (cedida à Grécia). Além de novas e vastas aquisições territoriais, os sérvios dispunham agora de excelentes bases estratégicas para desencadear uma nova guerra ofensiva contra a Bulgária. Os vencidos tiveram também de se sujeitar a pesados encargos financeiros a favor dos vencedores, mas essas obrigações seriam anuladas na prática pela eclosão da guerra mundial.

Assim terminaram as duas guerras balcânicas, separadas apenas por um ano do início do grande massacre universal, se calcularmos a partir de 10 de Agosto de 1913, data em que se celebrou a paz de Bucareste.

Procuraremos a seguir delinear os contornos históricos destes derradeiros anos de paz na Europa, pelo menos nos seus traços mais importantes e característicos, e começaremos pela análise das modificações que as guerras balcânicas provocaram na situação dos dois campos hostis em que se dividia então a Europa, campos esses que se mantinham em mútua vigia.

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