Capítulo II - DAS TROCAS

Sobre as notas:

As notas numeradas a azul, como (1), são notas do próprio Marx.

As notas a verde, como (I), são notas da responsabilidade do tradutor.

As palavras a vermelho não correspondem a uma tradução literal e, portanto, não pertencem ao próprio texto, tendo sido introduzidas no propósito de lhe facilitar a leitura.

Os comentários a vermelho que estão entre parênteses também estão “a mais”, e visam, igualmente, facilitar a leitura.

Aparecem ainda a vermelho, assinaladas com (I), as notas introduzidas por Engels.

 

CAPÍTULO II

 

DAS TROCAS

 

As mercadorias não podem ir por si próprias ao mercado nem trocar-se elas próprias entre si. É-nos, pois, preciso virar os nossos olhares para os seus guardiães e condutores, ou seja, os seus possuidores. As mercadorias são coisas e, por consequência, não opõem nenhuma resistência ao homem. Aliás, se lhes faltar a boa-vontade ele pode empregar a força, por outras palavras, apossar-se delas (37). Para pôr essas coisas em relação umas com as outras a título de mercadorias, os seus guardiães têm eles próprios de entrar em relação entre si a título de pessoas cuja vontade reside nestas mesmas coisas, de tal modo que a vontade de um é também a vontade do outro e cada um se apropria da mercadoria alheia ao alienar a sua por meio de um acto voluntário comum. Esta relação jurídica, cuja forma é o contrato, seja legalmente desenvolvido ou não, mais não é do que a relação de vontades na qual se reflecte a relação económica. O seu conteúdo é dado pela própria relação económica (38). As pessoas não se relacionam aqui umas com as outras senão enquanto põem certas coisas em ligação entre si como mercadorias. Elas não existem umas para as outras mais do que a título de representantes da mercadoria que possuem. Iremos ver mais à frente, no decurso do desenvolvimento, que as diversas máscaras com que elas (as pessoas) se aperaltam de acordo com as circunstâncias mais não são do que as personificações das relações económicas que mantêm umas face às outras.

 

(37) No século XII, tão nomeado pela sua piedade, encontram-se com frequência por entre as mercadorias coisas muito delicadas. Um poeta francês dessa época assinala, por exemplo, entre as mercadorias que se viam na feira do Landit, ao lado dos tecidos, sapatos, couros e instrumentos agrícolas, «femmes folles de leur corps» (“mulheres da vida”, prostitutas).

 

(38) Muita gente vai buscar o seu ideal de justiça às relações jurídicas que têm a sua origem na sociedade assente sobre a produção mercantil, o que, seja dito de passagem, lhes fornece a consoladora prova de que este tipo de produção também perdurará tanto tempo quanto essa mesma justiça. Depois, desse ideal, extraído da actual sociedade, eles fazem o seu ponto de apoio para reformar esta sociedade e o seu direito. Que pensaríamos nós de um químico que, em vez de estudar as leis das combinações materiais e de resolver com base nelas determinados problemas, quisesse transformar estas combinações segundo as «idées éternelles de l’affinité et de la naturalité» (ideias eternas da afinidade e da naturalidade)? Sabe-se alguma coisa mais sobre a «usura», por exemplo, quando se diz que ela está em contradição com a «justice éternelle» (justiça eterna) e a «équité éternelle» (equidade eterna), que já não soubessem os Padres da Igreja quando diziam o mesmo ao proclamarem a sua contradição com a «grâce éternelle», a «foi éternelle» e a «volonté éternelle» de Deus (a graça, a fé e a vontade eternas)?

 

O que sobretudo distingue o trocador e a sua mercadoria é que, para esta, toda e qualquer outra mercadoria mais não é do que uma forma de revelação do seu próprio valor. Naturalmente debochada e cínica, ela está sempre pronta a trocar a sua alma e também o seu corpo com não importa que outra mercadoria, mesmo que esta última seja tão desprovida de atractivos como Maritornes. A este sentido que lhe falta para apreciar o lado concreto das suas irmãs, compensa-o e desenvolve-o o trocador com os seus próprios sentidos, em número de cinco e mesmo mais. Para ele, a mercadoria não tem qualquer valor útil imediato; pois, doutro modo, ele não a levaria ao mercado. O único valor útil que ele lhe encontra é o dela ser porta-valor, útil para outros e, por consequência, um instrumento de troca (39). Ele quer portanto aliená-la por outras mercadorias cujo valor de uso o possa satisfazer. Todas as mercadorias são não-valores de uso para aqueles que as possuem e valores de uso para quem não as possui. É por consequência absolutamente necessário que elas passem dumas mãos para as outras. Mas esta mudança de mãos constitui a sua troca, e a sua troca relaciona-as umas com as outras como valores e realiza-as como valores. É preciso, pois, que as mercadorias se manifestem como valores antes que se possam realizar como valores de uso.

 

(39) «Pois que o uso de cada coisa é de duas espécies: um é próprio à coisa como tal, o outro não; uma sandália (subentende-se, como é óbvio, que se está a falar de um par de sandálias), por exemplo, serve de calçado e de meio de troca. Sob estes dois pontos de vista, a sandália é um valor de uso, dado que aquele que a permuta pelo que lhe falta, por comida, suponhamos, se serve também da sandália como sandália, mas não no seu género de uso natural, visto que ela não foi feita precisamente para a troca.» (Aristóteles: De Rep. , l. I, c. IX.)

 

Por outro lado, é preciso que o seu valor de uso seja reconhecido antes que elas se possam realizar como valores; visto que o trabalho humano despendido na sua produção não conta senão na medida em que ele foi despendido sob uma forma que é útil a outros. Ora, só a sua troca pode demonstrar se este trabalho é útil a outros, ou seja, se o seu produto é capaz de satisfazer necessidades alheias.

Cada possuidor de dada mercadoria não a quer alienar senão contra uma outra cujo valor útil lhe satisfaça uma sua necessidade («Quando um nativo necessita um desses artigos, ele quer esse artigo e mais nada», diz Malinowski). Neste sentido a troca não é para ele mais que um assunto individual. Além disso, ele quer realizar a sua mercadoria como valor em qualquer outra mercadoria que lhe agrade, seja ela qual for, sem ter de se inquietar se a sua própria mercadoria tem para o possuidor da outra um valor útil ou não. Neste sentido, a troca é para ele um acto social geral. Mas o mesmo acto não pode ser ao mesmo tempo simplesmente individual, num sentido, e também simplesmente social e geral, no outro, para todos os trocadores de mercadorias.

Consideremos a coisa mais de perto: para cada possuidor de mercadorias, toda a mercadoria alheia é um equivalente particular da sua; a sua mercadoria é, por consequência, o equivalente geral de todas as outras (todas as outras deram os seus respectivos valores na sua). Mas como todos os trocadores se encontram na mesma situação (para cada um deles, todas as mercadorias alheias são equivalentes particulares da sua), nenhuma mercadoria é equivalente geral e o valor relativo das mercadorias não possui nenhuma forma geral sob a qual elas possam ser comparadas como quantidades de valor. Numa palavra, elas não jogam umas frente às outras o papel de mercadorias mas sim o de simples produtos ou valores de uso (ou dizendo doutro modo, se for numa época em que já se produza para a troca, a forma valor de cada mercadoria ainda não se desprendeu da forma natural das mercadorias por que se permuta).

No seu embaraço (é óbvio que na forma II, a forma valor total, à medida que o número de mercadorias vai aumentando em variedade e quantidade, devido ao progresso da forças produtivas e, por consequência, da divisão social do trabalho, vai também crescendo o número de trocadores a quem é mais difícil adquirir os objectos úteis que pretendem; um possuidor só se pode apropriar dos objectos úteis-mercadorias que deseja se os proprietários destes, por sua vez, necessitarem da mercadoria dele como objecto útil; assim, pode surgir um “comprador” da sua mercadoria, para o qual ela é um objecto útil, mas que no entanto só tem para oferecer em troca, ao “vendedor”, objectos de que este não necessita nesse momento, que não são para ele então úteis, valores de uso), os nossos trocadores pensam como Fausto: no princípio era a acção. Eles também já agiram antes de haver pensado, e o seu instinto natural mais não faz do que confirmar as leis que provêm da natureza social das mercadorias. Eles não podem comparar os seus artigos como valores (abstraindo, portanto, do seu valor de uso) e, por consequência, como mercadorias, senão comparando-os com uma outra qualquer mercadoria que surge diante deles como equivalente geral. Foi isto que a precedente análise (a análise da forma-valor da mercadoria) já demonstrou. Mas este equivalente geral só pode ser o resultado duma acção social. Uma mercadoria especial é assim posta de parte por um acto comum das outras mercadorias e serve para expor os seus valores recíprocos. A forma natural desta mercadoria converte-se assim na forma equivalente socialmente válida. O papel de equivalente geral é doravante a função social específica da mercadoria excluída, e ela torna-se dinheiro.

Illi unum consilium habent et virtutem et potestatem suam bestiae tradunt...Et ne quis possit emere aut vendere, nisi qui habet characterem aut nomen bestiae, aut numerum nominis ejus (Apocalipse) (I).

 

(I) «Eles têm um mesmo intento, o de entregar o seu poder e autoridade à besta (XVII, 13)....E que ninguém possa comprar ou vender, senão aquele que tiver o sinal ou o nome da besta, ou o número do seu nome (XIII, 17).»

 

O dinheiro é um cristal que se forma espontaneamente nas trocas através das quais os diversos produtos do trabalho são de facto igualados entre si e, por isso mesmo, efectivamente transformados em mercadorias. O desenvolvimento histórico da troca imprime cada vez mais aos produtos do trabalho o carácter de mercadorias e desenvolve ao mesmo tempo a oposição que a sua natureza encerra, a oposição de valor de uso e de valor. As próprias necessidades do comércio obrigam a dar um corpo a esta antítese, tendem a fazer surgir uma forma valor palpável e não descansam nem dão tréguas até que esta forma seja enfim alcançada pelo desdobramento da mercadoria em mercadoria e dinheiro. À medida, portanto, que se consuma a transformação geral dos produtos do trabalho em mercadorias, vai-se consumando também a transformação da mercadoria em dinheiro (40).

 

(40) Pode-se ajuizar a partir daqui o socialismo burguês que quer eternizar a produção mercantil e, ao mesmo tempo, abolir «a oposição de mercadoria e dinheiro», quer dizer, o próprio dinheiro, quando ele não existe senão nessa oposição. Ver sobre este tema, em Zur Kritik..., p. 61 e segs.

 

Na troca imediata dos produtos, a expressão do valor reveste por um lado a forma relativa simples e, por outro, ainda não a reveste. Esta forma era: x de mercadoria A = y de mercadoria B. A forma da troca imediata é: x objectos de utilidade A = y objectos de utilidade B (41). Os objectos A e B, antes da troca, não são aqui mercadorias, mas apenas pela própria troca se tornam tal. A partir do momento em que um objecto útil, pela sua abundância, excede as necessidades do seu produtor, deixa de ser para ele um valor de uso e, dando-se as circunstâncias, será utilizado como valor de troca. As coisas são em si e por si mesmas exteriores ao homem e, por consequência, alienáveis. Para que a alienação seja recíproca basta muito simplesmente que os homens se liguem uns aos outros, por um reconhecimento tácito, como proprietários privados dessas coisas alienáveis e, por isso mesmo, como pessoas independentes. No entanto, uma tal relação de independência recíproca ainda não existe para os membros duma comunidade primitiva, qualquer que seja a sua forma, família patriarcal, comunidade indiana, Estado Inca como no Peru, etc. A troca de mercadorias começa ali onde as comunidades terminam, nos seus pontos de contacto com comunidades estrangeiras ou com membros destas últimas comunidades. Logo que as coisas se tornam definitivamente mercadorias na vida da comunidade com o estrangeiro, elas vêm-no a ser igualmente, por repercussão, na vida interna comum. A proporção na qual eles se trocam é primeiro puramente acidental. Elas tornam-se permutáveis pelo acto voluntário dos seus possuidores em que estes se decidem a aliená-las reciprocamente. Pouco a pouco, a necessidade de objectos úteis provenientes do estrangeiro vai-se fazendo sentir mais e consolida-se. A constante repetição da troca transforma-a num processo social regular, e, com o correr do tempo, uma parte, pelo menos, dos objectos úteis é produzida intencionalmente com vista à troca (era este o estádio de desenvolvimento da mercadoria nas Trobriand). A partir deste instante, opera-se duma maneira nítida a separação entre a utilidade das coisas para satisfazer as necessidades imediatas e a sua utilidade para a troca que há a efectuar entre elas, quer dizer, entre o seu valor de uso e o seu valor de troca. Por outro lado, a proporção em que elas se trocam começa a regular-se pela sua própria produção (I). E o hábito fixa-as como quantidades de valor.

 

(41) Enquanto dois objectos de uso diferentes ainda não forem trocados, mas apenas uma massa caótica de coisas for oferecida como equivalente por uma terceira ( massa de coisas), tal como se pode ver entre os selvagens, a própria troca imediata de produtos mais não está do que no berço.

 

Lembremo-nos a mero título de exemplo da faina dos pescadores para os seus “compadres inhameiros”.

 

Na troca imediata dos produtos, cada mercadoria é meio de troca imediato para quem a possui, mas para aquele que a não possui ela só se torna equivalente no caso de ser para ele um valor de uso. O artigo de troca não adquire, portanto, ainda nenhuma forma valor independente do seu próprio valor de uso ou da necessidade individual daqueles que trocam. A necessidade desta forma desenvolve-se à medida que aumenta o número e a variedade das mercadorias que entram pouco a pouco no processo de troca, e o problema eclode em simultâneo com os meios de o resolver. Vários possuidores de mercadorias jamais trocam e comparam os seus próprios artigos com outros artigos diferentes sem que diversas mercadorias sejam trocadas e comparadas como valores, pelos seus diversos donos, com uma mesma e só terceira espécie de mercadoria. Essa terceira mercadoria, ao tornar-se equivalente para diversas outras, adquire de imediato, se bem que dentro de estreitos limites, a forma de equivalente geral ou social. Esta forma geral nasce e desaparece com o contacto social passageiro que lhe deu vida, e rápida e alternadamente se agarra ora a esta mercadoria ora aquela. Logo que a troca atingiu um certo desenvolvimento, ela agarra-se exclusivamente a uma espécie particular de mercadoria, ou cristaliza-se sob a forma dinheiro. O acaso dita primeiramente sob que género de mercadorias ela fica fixada; pode-se dizer, no entanto, que isto depende, em geral, de duas circunstâncias decisivas. A forma dinheiro adere ou aos artigos de importação mais importantes, que, de facto, são os que revelam em primeiro lugar o valor de troca dos produtos indígenas, ou então aos objectos, ou melhor, ao objecto útil que forma o elemento principal da riqueza indígena alienável, como o gado, por exemplo. Os povos nómadas são os primeiros a desenvolver a forma dinheiro porque todos os seus haveres se encontram sob uma forma móvel e, por conseguinte, imediatamente alienável. Ademais, o seu modo de vida põe-nos constantemente em contacto com sociedades estrangeiras, solicitando-os, precisamente por isso, para a troca de produtos. Os homens fizeram com frequência do próprio homem, na figura do escravo, o material primitivo do seu dinheiro; mas jamais foi assim com a terra. Uma tal ideia não podia surgir senão numa sociedade burguesa já desenvolvida. Ela data do último terço do século XVII; e a sua concretização só foi tentada em grande escala, para toda uma nação, um século mais tarde, na revolução de 1789 em França.

À medida que a  troca quebra os seus vínculos puramente locais, e que, em consequência disso, o valor das mercadorias representa cada vez mais o trabalho humano em geral, a forma dinheiro transita para as mercadorias cuja natureza as torna aptas a preencher a função social de equivalente geral, ou seja, os metais preciosos.

Que agora, «se bem que a prata e o ouro não sejam por natureza dinheiro, o dinheiro seja no entanto por natureza prata e ouro (42)», mostram-no a conformidade e a analogia existentes entre as propriedades naturais destes metais e as funções do dinheiro (43). Mas até aqui nós apenas conhecemos uma função do dinheiro, a de servir como forma de manifestação do valor das mercadorias, ou como matéria na qual as quantidades de valor das mercadorias se exprimem socialmente. Ora não há senão uma matéria capaz de ser uma forma própria para manifestar o valor ou de servir de imagem concreta do trabalho humano abstracto e, por conseguinte, igual: aquela de que todos os exemplares possuem a mesma qualidade uniforme. Por outro lado, como os valores não diferem senão pela sua quantidade de valor, a mercadoria dinheiro tem que ser susceptível de diferenças puramente quantitativas; ele tem que ser divisível à vontade e de poder ser recomposta na soma de todas as suas partes. E toda a gente sabe que o ouro e a prata possuem naturalmente todas estas propriedades.

 

(42) Karl Marx: Zur Kritik..., p. 135. - «Os metais preciosos...são naturalmente moeda» (Galiani: Della Moneta, na colectânea de Custodi, Parte moderna, t. III, p. 137).

 

(43) Ver para mais amplos detalhes a este propósito, na minha obra já citada, Cap. «Os metais preciosos».

 

O valor de uso da mercadoria dinheiro torna-se duplo. Além do seu valor de uso particular como mercadoria – assim o ouro, por exemplo, serve de matéria-prima para artigos de luxo, para obturar dentes furados, etc. –, ela adquire um valor de uso formal que tem origem na sua função social específica.

Como todas as mercadorias mais não são do que equivalentes particulares do dinheiro, e dado que este último é o seu equivalente universal, ele joga frente a elas o papel de mercadoria universal, e elas mais não representam frente a ele do que mercadorias particulares (em suma, elas são, para ele, um “assunto” simplesmente individual e, ao mesmo tempo, simplesmente social e geral) (44).

 

(44) «O dinheiro é a mercadoria universal» (Verri: Meditazioni sulla Economia Politica, p.16).

 

Vimos que a forma dinheiro não é senão o reflexo das relações de valor de todo o tipo de mercadorias numa só espécie de mercadoria. Que o próprio dinheiro seja mercadoria não pode, pois, ser uma descoberta senão para aquele que toma por ponto de partida a sua (do dinheiro) forma completamente acabada para, de seguida, chegar à sua análise (45). O movimento das trocas dá à mercadoria que ele transforma em dinheiro não o seu valor, mas a sua forma valor específica. Confundindo duas coisas tão contrastantes, houve quem fosse levado a considerar a prata e o ouro como valores puramente imaginários (46).

 

(45) «A própria prata e o ouro, aos quais nós podemos dar o nome geral de bullion (ouro e prata em barras) são...mercadorias... cujo valor...sobe e desce. A barra tem um valor maior lá onde, com um peso menor, se compra uma maior quantidade de produtos ou mercadorias do país» (A Discourse of the General Notions of Money, Trade and Exchange, as They Stand in Relations to Each Other. By a Merchant [S. Clement], Londres, 1695, p. 7). «A prata e o ouro, cunhados ou não, embora sirvam de medida a todas as outras coisas, são tanto mercadorias como o vinho, o azeite, o tabaco, o pano e as fazendas» (A Discourse Concerning Trade, and That in Particular of the East-Indies, etc. [J. Child], Londres, 1689, p.2). «As fortunas e as riquezas do reino não podem consistir exclusivamente em dinheiro, e o ouro e a prata não devem ser excluídos do número das mercadorias» (The East Índia Trade, a Most Profitable Trade... [Thomas Papillon], Londres, 1677, p. 4).

 

(46) «O ouro e a prata têm o seu valor como metais antes de se tornarem moeda» (Galiani: l. c., p. 72). Já Locke diz: «O comum consentimento dos homens atribuiu um valor imaginário ao ouro e à prata, por causa das suas qualidades que os tornavam adequados a servir de dinheiro» [Some Considerations..., 1691]. Law, pelo contrário: «Eu não sou capaz de conceber como é que diferentes nações poderiam dar um valor imaginário a qualquer coisa...ou como é que este valor imaginário poderia ter sido mantido?» Mas tão-pouco ele próprio entendia grande coisa deste assunto, visto que noutro trecho ele se exprime assim: «A prata trocava-se na base do que era avaliada para os usos», quer dizer, segundo o seu valor real; «ela recebeu um valor adicional...do seu uso como dinheiro» (Jean Law: Considerações sobre o numerário e o comércio. Edição de Daire: Economistas financeiros do século XVIII, p. 469-470).

 

O facto de que o dinheiro, em certas das suas funções, pode ser substituído por simples signos dele mesmo fez nascer essoutro erro de que ele mais não é do que um simples signo.

Por outro lado, é certo, este erro fazia suspeitar de que sob a aparência dum objecto exterior o dinheiro mascara na realidade uma relação social. Neste sentido, toda a mercadoria seria um signo, porque ela não é valor senão como invólucro material do trabalho despendido na sua produção (47). Mas se não virmos mais do que simples signos nos caracteres sociais que revestem as coisas, ou nos caracteres coisais que revestem as determinações sociais do trabalho sobre a base de um modo particular de produção, estamos a atribuir-lhes o sentido de ficções convencionais, aprovadas pelo suposto consentimento universal dos homens.

Este era o modo de explicação em voga no século XVIII; como não podiam ainda decifrar nem a origem nem o desenvolvimento dessas enigmáticas formas das relações sociais, desembaraçavam-se da questão declarando que elas eram de invenção humana e não haviam caído do céu.

 

(47) «O dinheiro é o seu [dos géneros] signo» (F. de Forbonnais: Eléments du commerce, nova edição Leyde, 1766, t. II, p. 143). «Como signo é atraído pelos géneros» (l. c., p. 155). «O dinheiro é um signo duma coisa e representa-a» (Montesquieu: Espírito das Leis; OEuvres, Londres, 1767, t. II, p. 3). O dinheiro «não é um simples signo, visto que ele próprio é riqueza; ele não representa os valores, equivale-lhes» (Le Trosne: l. c., p. 910). Do texto da 1ª edição alemã: «Se considerarmos o conceito de valor, a própria coisa não é tomada senão como um signo, e ela não representa o que é em si mesma, mas o que ela vale» (Hegel: Filosofia do Direito, p. 100).

Muito tempo antes dos economistas, os juristas puseram em voga esta ideia de que o dinheiro mais não é que um mero signo e de que os metais preciosos apenas têm um valor imaginário. Lacaios e sicofantas do poder real, eles sustentaram durante toda a idade média o direito dos reis à falsificação das moedas com base nas tradições do Império romano e no conceito do papel do dinheiro tal como ele se encontra nas Pandectas. «Que ninguém possa nem deva pôr em dúvida», diz o seu hábil discípulo Filipe de Valois num decreto de 1346 (16 de Janeiro), «que somente a Nós e à Nossa Majestade real pertence...o mester, a feitura, a provisão e toda a Ordenança de moeda e de fazer cunhar tais moedas e dar tal curso, por tal preço, como Nos apraz e bom Nos parece» (Ordonnances des rois de France de la troisième race..., Paris, 1729, t. II, p. 254). Era um dogma do direito romano que o imperador decretasse o valor do dinheiro. Era expressamente proibido tratá-lo como uma mercadoria. Pecunias vero nulli emere fas erit, nam in usu publico constitutas oportet non esse mercem (Que deveras a ninguém seja permitido comprar dinheiro, porque, constituído para uso público, ele não deve de ser mercadoria). Encontram-se excelentes comentários quanto a isto em G. F. Pagnini: Saggio sopra il giusto pregio delle cose, 1751, Custodi, Parte moderna, t. II. É na segunda parte do seu escrito, em especial, que Pagnini explana a sua polémica contra os juristas.

 

Já se sublinhou que a forma equivalente duma mercadoria não permite saber nada quanto ao montante da sua quantidade de valor. Sabendo-se que o ouro é dinheiro, ou seja, que é trocável contra todas as outras mercadorias, não se sabe com isso quanto valem, por exemplo, 10 libras de ouro. Como toda a mercadoria, o ouro dinheiro não pode exprimir a sua própria quantidade de valor a não ser relativamente, em outras mercadorias. O seu valor próprio é determinado pelo tempo de trabalho necessário à sua produção e exprime-se no quantum de outra mercadoria qualquer que tenha exigido um trabalho de igual duração (48). Esta fixação da sua quantidade de valor relativo tem lugar na própria fonte da sua produção, logo na sua primeira troca. Quando entra na circulação como moeda, o seu valor já está dado. Nos derradeiros anos do século XVII já estava bem comprovado que o dinheiro é mercadoria; mas a sua análise, entretanto, não dava senão os seus primeiros passos. A dificuldade não consiste em compreender que o dinheiro é mercadoria, mas em saber como e porquê uma mercadoria devém dinheiro (49).

 

(48) «Se um homem pode entregar em Londres uma onça de prata extraída da terra, no Peru, no mesmo tempo que lhe seria necessário para produzir um buschel (36, 349 litros) de grão, então um é o preço natural do outro. Agora, se um homem, pela exploração de minas mais recentes e mais ricas, pode obter tão facilmente duas onças de prata quanto anteriormente uma só, o grão será tão barato a 10 xelins o buschel quanto antes o era a 5 xelins, caeteris paribus» (William Petty: A Treatise of Taxes and Contributions, Londres, 1667, p. 31).

 

(49) Mestre Roscher, o professor, ensina-nos primeiro: «Que as falsas definições do dinheiro podem dividir-se em dois grupos principais: aquelas segundo as quais ele é mais, e aquelas segundo as quais ele é menos que uma mercadoria.» Depois fornece-nos um catálogo dos mais variados escritos sobre a natureza do dinheiro, o que não lança o mínimo vislumbre sobre a história real da teoria. Por fim, vem a moral: «Não se pode negar – diz ele – que a maioria dos economistas mais recentes deu pouca atenção às particularidades que distinguem o dinheiro das mercadorias [mas ele é então, afinal, mais ou menos que uma mercadoria?] Neste sentido, a reacção semimercantilista de Ganilh, etc., não é de todo infundada» (Wilhelm Roscher: Die Grundlagen der Nationalökonomie, 3ª ed., 1858, p. 207-210). Mais – menos – pouco – neste sentido – não de todo; que clareza e que precisão nas ideias e na linguagem! E é a uma semelhante salsada de eclectismo professoral que mestre Roscher baptiza modestamente com o nome de «método anatómico-fisiológico» da economia política! Deve-se-lhe no entanto uma descoberta, a saber: que o dinheiro é «uma mercadoria agradável».

 

Nós já vimos que na expressão de valor mais simples, x de mercadoria A = y de mercadoria B, o objecto no qual a quantidade de valor dum outro objecto está representada parece possuir a sua forma de equivalente independentemente dessa relação, como uma propriedade social que lhe vem da natureza. Nós seguimos esta falsa aparência até ao momento da sua consolidação. E essa consolidação está concluída logo que a forma equivalente geral se fixou exclusivamente a uma mercadoria particular ou se cristalizou sob a forma dinheiro. Uma mercadoria não parece devir dinheiro porque as outras mercadorias exprimem e reflectem nela reciprocamente os seus valores; completamente ao invés, estas últimas parecem exprimir nela os seus valores porque ela é dinheiro. O movimento que serviu de intermediário some-se no seu próprio resultado e não deixa qualquer rasto. As mercadorias acham, parecendo para isso em nada ter contribuído, o seu próprio valor representado e fixado no corpo duma mercadoria que existe ao lado e fora delas. Estas meras coisas, prata e ouro, tal como e assim que saem das entranhas da terra, logo figuram como encarnação imediata de todo o trabalho humano. Daí a magia do dinheiro. O comportamento meramente atomístico dos homens no seu processo de produção social e, por isso, a figura coisal das suas próprias relações de produção, independentes do seu controlo e do seu fazer consciente individual, aparecem antes do mais no facto de que os seus produtos de trabalho assumem universalmente a forma mercadoria. Assim o enigma do feitiço do dinheiro é apenas o enigma do feitiço das mercadorias, que agora se torna visível e ofusca os olhos (o texto a itálico é da 4ª edição alemã, com base na tradução de Barata-Moura, Editorial «Avante!», Lisboa, 1990).

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