Capítulo XXIX - Os imperadores da família de Augusto

(Este capítulo está incompleto. Falta-lhe um último item, o que respeita ao reinado de Nero.)

O PROBLEMA DA SUCESSÃO.

 

Os poderes de Augusto (concentração de magistraturas “republicanas” na sua pessoa), do “velho” ponto de vista jurídico formal, deviam cessar com a sua morte. No entanto, de facto, o próprio imperator já havia “sucedido” a seu tio, o “divino” Júlio.

Também a classe dominante romana rapidamente se desembaraçou da condição que Cícero havia enunciado, a da eleição do princeps.

 

A questão da sucessão, para além da sua “novidade”, era embaraçada pela inexistência de herdeiros directos (Augusto não tinha filhos e Júlia, a sua única filha, era ainda solteira). Assim, quando adoece gravemente em 23 ae, entrega o seu anel com o selo àquele que sempre o acompanhara nas lutas pelo imperium, Agripa (os dois enteados de Augusto, Druso e Tibério, eram então muito jovens).

Já restabelecido da enfermidade, o princeps logo tratou de investir Vipsânio Agripa com o poder proconsular sobre todas as províncias imperiais, o que na prática significava designá-lo seu sucessor.

Augusto depressa mudará de ideias, dando Júlia por esposa a M. Cláudio Marcelo, filho de sua irmã Octávia. Marcelo é então indicado como o que lhe irá suceder, porém, morrerá quase em seguida.

Em 21 Agripa casa com a viúva Júlia e é-lhe conferido o alto mando sobre as províncias senatoriais e os poderes de tribuno “maior”. Agripa torna-se deste modo co-governante de Augusto. Os dois filhos mais velhos de Agripa e Júlia são adoptados por Augusto, com os nomes de Caio e Lúcio César. O problema da sucessão parecia haver sido solucionado.

Contudo Agripa morre em 12 ae, sendo Caio e Lúcio César ainda muito novos. Augusto de novo alterará os seus planos para a sucessão, virando agora a atenção para os seus dois enteados. Em 11 ae obriga Tibério a divorciar-se, para o casar com a dissoluta Júlia. Ao mesmo tempo, dá por esposa a Druso a sobrinha Antónia, filha de Marco António e Octávia.

Druso morrerá em 9 ae. Em 6 ae é conferido a Tibério o poder tribunício.

Mas nova volta-face se dá. O escandaloso comportamento de Júlia tornava insuportável a vida familiar a Tibério, e Augusto começa a dar claros sinais de lhe preferir os filhos de Agripa, Caio e Lúcio César. Nesse mesmo ano de 6 ae, Tibério parte para Rodes, onde permanecerá por sete anos, rompendo todas as relações com a família imperial.

Lúcio César morre em 2 ae. Dois anos depois falece o irmão, Caio César. Augusto permitirá então o regresso de Tibério a Roma. Adopta-o (com a condição de Tibério adoptar por sua vez o sobrinho Germânico, filho do falecido Druso), mas mantém-no afastado da vida política (no ano 2 da era, Júlia é exilada).

O único filho ainda vivo de Agripa e Júlia era Marco Agripa Póstumo, de carácter tão iracundo que Augusto se viu obrigado a exilá-lo (mais tarde será morto).

Em 13 da era, sentindo a morte aproximar-se , Augusto investe Tibério com os poderes proconsulares. No seu testamento, o imperador nomeava-o seu herdeiro principal.

 

TIBÉRIO.

 

O período de governo dos quatro sucessores de Augusto pertencentes à estirpe Júlia – Cláudia (de 14 a 68, Tibério, Calígula, Cláudio e Nero) é conhecido pela designação de “época do terror”, dado que esses imperadores (Cláudio em bem menor grau) tiveram de deitar mão da violência sistemática e aberta contra os representantes da oposição aristocrática republicana.

O sistema do terror explica-se sobretudo pela fraca base social da dinastia Júlia – Claudiana. É certo que, com Augusto, o império vivera em completa paz civil durante 44 anos. No entanto a sua longa ditadura militar fora mais suportada pelo esgotamento das forças opositoras, em décadas de guerras civis, do que pela base de apoio à nova forma de Estado, reduzida ao exército profissional e a algumas populações itálicas.

Passados todos esses anos sobre as guerras civis, recomposta a sociedade das suas tremendas consequências, a oposição aristocrática republicana, ainda muito arreigada nas classes dominantes de Roma, mas que pouco se havia manifestado sob Augusto, vai levantar a cabeça nos reinados dos seus sucessores.

 

Tibério Cláudio Nero (que assumiu no seu reinado o nome de Tibério César Augusto) tinha 55 anos de idade à morte de Augusto. Era de carácter fechado, desconfiado e servia-se largamente da hipocrisia. No “reverso” da sua personalidade, há que lhe assinalar a inteligência, a experiência militar e administrativa e a capacidade organizativa.

 

Logo que Augusto morre, Tibério, invocando os seus poderes proconsulares e a tribunicia potestas, dá ordens às coortes pretorianas, faz os povos do Império jurarem-lhe fidelidade e convoca o senado. Ali representa uma comédia, renunciando ao poder para logo se ver “forçado” a aceitá-lo, com o senado, por votação, a conferir-lhe todas as prerrogativas que haviam sido de Augusto. A farsa deveu-se mais a um consciente cálculo político do que à hipocrisia que lhe era própria. Com a votação no senado, Tibério precavia-se de qualquer acusação de usurpação.

 

A debilidade do Império e do seu titular, Tibério, manifestou-se logo nos primeiros tempos do reinado, tendo-se revoltado três legiões na Panónia e outras quatro no Reno, descontentes com o atraso no pagamento dos soldos e por muitos soldados se verem obrigados a servir para além do seu tempo regulamentar.

As legiões do Reno chegaram mesmo a exigir a Germânico, o seu comandante, que assumisse o poder imperial. Mas Germânico mostrou-se leal a Tibério e, com risco da própria vida, recusou o que os seus soldados lhe reclamavam. À Panónia é enviado o filho de Tibério, Druso. Foi necessário fazer concessões às sete legiões. O soldo em atraso é pago a dobrar. Licenciam os que haviam cumprido os seus anos de serviço. Aos demais é prometido que não voltariam a ser ocupados em trabalhos pesados (de carácter não militar).

 

Visando a punição das tribos que haviam liquidado as legiões de Varo (e restabelecer a disciplina entre as recém-revoltadas legiões), empreendem-se nos anos de 14 a 16 várias expedições além Reno. Germânico, à custa de grandes perdas em homens, consegue alcançar uns quantos êxitos.

No ano de 17, Tibério faz o sobrinho regressar da Germânia. Depois de receber o triunfo, Germânico é enviado ao Oriente com poderes extraordinários.

A Germânia será então separada da Gália. Apenas incluía os territórios sobre a margem esquerda do Reno e dividia-se em duas províncias, a Germânia inferior (a norte) e a superior.

 

Germânico permanecerá no Oriente de 17 a 19. Converte então em províncias os Estados clientes da Capadócia e de Comagena e celebra um novo acordo com os partos. Em 19 morre inesperadamente na Síria, nas proximidades de Antioquia.

Em Roma espalha-se o rumor de que fora envenenado pelo legado da Síria, Gneu Pisão, e pela esposa deste, Plancina. Também sobre o imperador recaíram as suspeitas, comentando-se a sua inveja pelo falecido sobrinho, que gozava de grande popularidade.

Pisão foi levado a tribunal, por ordem de Tibério, sob acusação de haver organizado intrigas contra Germânico. No entanto continuarão a correr os boatos sobre a implicação do imperador na morte do sobrinho. Agripina, esposa de Germânico (e filha de Agripa e Júlia), mulher de carácter altivo e autoritário, tratou em particular de atiçar a suspeita.

 

As desavenças no seio da família imperial eram também acicatadas por Sejanus, o prefeito dos pretorianos, a quem chamaram “o génio mau do imperador”.

Em 23 dá-se a morte de Druso, o filho de Tibério, passando os filhos de Agripina e do defunto Germânico, Nero, Druso e Caio, a serem os mais próximos na sucessão do imperador.

Lívia Drusília, a mãe de Tibério, morrerá em 29. Enquanto fora viva, havia conseguido apaziguar as discórdias entre os membros da sua família. As tensões irão agora atingir o auge, dando-se o desenlace com o exílio de Agripina e a sua morte (em 33, já depois da execução de Sejano), a morte de Druso na prisão e o suicídio de Nero.

Caio (Calígula), o único dos três irmãos que restava vivo, sendo ainda muito jovem, será adoptado por Tibério.

 

Em 17 estalara na Numídia uma rebelião, encabeçada por um tal Tacfarinate (Tacfarinas; genitivo: Tacfarinatis), um númida que havia servido nas tropas auxiliares romanas. A revolta só foi sufocada em 24.

 

Nesse mesmo ano de 24, na Itália meridional, um antigo soldado pretoriano, um tal Tito Curtísio, lança proclamações e promove reuniões clandestinas em Brundísio e nas cidades circundantes contra o poder romano. Instiga também à revolta os pastores-escravos da região.

Com a ajuda das guarnições de três naves de guerra que casualmente ali aportaram, o questor local consegue conter a rebelião logo nos seus inícios. Contudo Tibério teve de enviar reforços para as acções de repressão, um forte contingente de tropas ao mando de um tribuno militar (os rebeldes capturados foram levados para Roma, de modo a pôr fim aos boatos alarmistas que então circulavam sobre as dimensões da revolta).

 

Ainda em 24, na Gália, os nobres Júlio Sacróviro e Floro chamam os tréveros e os éduos à revolta. Tácito (“Anais”; III, 24) descreve os rebeldes como uma turba de «desgraçados cheios de dívidas», que apenas dispunham de armas de caça e que rapidamente foram esmagados.

 

É nesta época que Tibério começa a fazer-se seguir, por toda a parte (inclusive nas suas deslocações ao senado), pela sua guarda pessoal. As coortes pretorianas são transferidas para Roma, onde lhes são construídos quartéis especiais (ano de 23). O chefe dos pretorianos, Lúcio Élio Sejano, converte-se na segunda figura do Estado, vindo logo após o imperator na escala do poder.

De acordo com a tradição historiográfica (logo a partir de Tácito), Sejano ambicionava suceder a Tibério, talvez até a derrubá-lo. Terá sistematicamente atiçado as suspeitas de Tibério contra Agripina e os seus filhos. Segundo rumores insistentes, terá feito envenenar Druso, pretendendo casar-se com a viúva deste, Lívia. Com a concentração das coortes pretorianas em Roma, Sejano visaria, num momento oportuno, assenhorear-se da cidade e apoderar-se do poder. Sejano teria ainda “estimulado” Tibério a deixar Roma em 26 (o imperador partiu para a Campânia e, logo depois, passou a residir na ilha de Capri, de escarpadas falésias e difícil acesso).

 

Em 31, Antónia, a mãe do falecido Germânico, “denuncia” a Tibério as “intenções” do seu favorito. Agindo com muita cautela, o imperador organiza uma “contra-conspiração” sui generis. Com a ajuda de um oficial pretoriano que lhe era fiel, Sertório Macrão, e concedendo-lhes generosos privilégios, leva as coortes pretorianas a romperem com o seu chefe. Já preparado o “terreno”, é lida no senado uma carta de Tibério (então em Capri) a acusar Sejano de traição.

O senado condenou-o à morte e o ex favorito é supliciado. Os parentes, incluindo os filhos menores, e muitos dos amigos e partidários de Sejano sofrem a mesma sorte. Macrão é o novo prefeito dos pretorianos.

Tibério, sentindo-se inseguro até entre os seus mais próximos, leva o regime de terror ao seu auge.

 

É de sublinhar que o terror atingiu sobretudo os meios restritos da corte e da família imperial, da nobreza romana e de algumas camadas da população de Roma. Nas províncias, o terror não foi desencadeado.

 

No plano das instituições políticas, logo nos primeiros tempos do seu reinado, as assembleias populares perdem os poderes formais que ainda possuíam. As eleições dos magistrados passam a ser da competência do senado e os comícios deixam de ser convocados para a aprovação das medidas legislativas.

Nesses anos iniciais, Tibério submetia à consideração do senado os assuntos mais importantes e tomava em conta as opiniões aí expressas. Porém, com o aumento da hostilidade em Roma para com a pessoa do princeps, este passa a governar de modo autocrático e o senado converte-se num mero instrumento do terror.

Para as acusações de traição e de “lesa-majestade” (laesae majestatis), é atribuída ao senado a competência judicial. A velha lei de 103 ae (lex Appuleia de majestate) é aplicada agora nos casos de ofensas à pessoa do imperador, servindo de base jurídica às perseguições a todos os opositores do novo regime e de Tibério (muitos não se opunham ao principado, mas apenas à figura do “pai da pátria” de então – Tibério).

O terror (como foi habitual através dos séculos) originou muitos abusos. As execuções, exílios e confiscações atingiram muita gente por mera vingança pessoal e pela ganância dos delatores, que recebiam de prémio 25% dos bens confiscados, ou por outros motivos frívolos.

 

No plano financeiro e económico Tibério revelou-se um bom administrador. Tratando de reduzir as despesas de Estado, suprime as distribuições de trigo e a organização dos jogos, o que lhe trouxe a hostilidade da plebe.

 

As províncias serão melhor administradas. Diz Suetónio (“Tibério”; 32) que tinha por princípio o adágio, «um bom pastor deve tosquiar as suas ovelhas, mas não esfolá-las». Os numerosos processos por concussão mostram-nos que os legados e procuradores provinciais estavam sujeitos a uma eficaz tutela (exercida através de emissários imperiais).

Por diversas vezes, Tibério concedeu ajuda financeira extraordinária a cidades atingidas por calamidades naturais (sobretudo terramotos).

Nas províncias da Gália, do Danúbio e da Hispania constroem-se numerosas estradas.

Não é, pois, de admirar que Tibério fosse querido entre as nobrezas provinciais, que lhe enviavam deputações com mensagens de reconhecimento e lhe erigiram estátuas com inscrições laudatórias.

 

Na Itália promoveu com êxito um enérgico combate ao banditismo, que então grassava.

Porém, se pôde superar essa consequência das guerras civis, o mesmo já não se pode dizer a respeito de uma outra das suas sequelas, a crise agrária geral (na Itália). No ano de 33, o senado e Tibério tentarão combatê-la com um “convite” às pessoas de fortuna (usurários, sobretudo) para que investissem 2/3 do seu capital em terras. Porém, em lugar do pretendido acréscimo na actividade agrícola, “colheram” uma inesperada e aguda crise financeira. A pretexto de “libertarem” os seus capitais, de modo a poderem “cumprir o convite”, os credores começaram a reclamar implacavelmente tudo o que lhes era devido. Tibério teve de intervir, constituindo um fundo especial de crédito com recursos do fiscus.

 

Tibério César Augusto passou os últimos anos do seu principado encerrado em Capri, quase sem interesse pela direcção dos assuntos de Estado, que abandonou nas mãos do prefeito pretório e do prefeito da cidade de Roma. Essa vida de clausura originou infindáveis histórias sobre as monstruosas perversões e refinadas crueldades a que então se teria dedicado. Tácito (idem; IV, 67) deu-lhes eco: «Tibério mandou ali (em Capri) construir doze palácios, com nomes e estruturas diferentes; e tanto quanto até então se entregara aos negócios públicos com uma actividade infatigável, assim se abandonava agora inteiramente, no seu retiro, a uma ociosidade dissoluta e maligna». Contudo, é bem provável que esses “relatos” sejam sobretudo fantasias da “imaginação social” que lhe era hostil.

 

O imperator morre (também sobre a sua morte se engendrou a famosa historieta do assassínio “com almofadas”) a 16 de Março de 37, aos 78 anos de idade, na sua villa sobre o cabo Miseno, sem deixar indicação alguma quanto à sucessão. Os seus bens, o testamento repartia-os em partes iguais pelo sobrinho Caio César (Calígula), que adoptara, e pelo neto (filho de Druso), Tibério Gémelo.

 

A opinião “pública” mostrou-se favorável a Caio, filho do “popular” Germânico. Mas o apoio decisivo foi-lhe dado por Macrão e as suas nove coortes de pretorianos. O exército e o povo juraram fidelidade a Caio e o senado investiu-o dos poderes que haviam sido de Tibério.

 

CALÍGULA.

Caio César Augusto Germânico, a quem os soldados chamaram “Calígula” (diminutivo de caliga, uma espécie de sandálias usadas pelos soldados rasos romanos; Caio “ganhou” essa alcunha em pequeno, quando vivia com o pai, Germânico, nos acampamentos militares), logo recompensou generosamente os pretorianos. Nos primeiros meses do seu reinado, restitui aos comícios o direito a eleger os magistrados, organiza para o povo espectáculos de circo e combates de feras e procede a distribuições de trigo. Autoriza também o regresso à pátria de todos os exilados. Aqueles que os haviam delatado são perseguidos e condenados. Adopta o seu primo, Tibério Gémelo.

 

Tudo parecia correr pelo melhor sob o imperium do jovem princeps (Caio tinha apenas 25 anos de idade), que crescera encerrado em Capri, junto de Tibério. Porém, passados que foram esses poucos meses, o seu desequilíbrio psíquico começou a revelar-se. Ordena as mortes, sem processo, de Tibério Gémelo e Macrão. Havendo dissipado o que Tibério acumulara, eleva os impostos e restabelece a prática das confiscações. Organiza e empreende no ano de 39 uma “campanha” na Germânia e na Gália setentrional sem quaisquer resultados práticos. No entanto, regressado a Roma, celebrou um grandioso triunfo em 40, despendendo nele somas enormes.

 

De forma um tanto “desvairada”, com Caio o principado continuará a fazer a sua marcha em direcção à monarquia. É introduzido pela primeira vez um cerimonial monárquico na corte: a genuflexão perante o imperator; o beijar-lhe os pés, etc. O palácio imperial é organizado hierarquicamente, com os libertos a assegurarem importantes funções. Calígula diviniza-se (aparecia em público sob o aspecto de Júpiter, de barbas doiradas e “ceptro de coriscos” na mão) e exige que lhe prestem as honras devidas a “um deus”.

 

A monarquia absoluta de tipo helenístico, em particular na sua forma mais acabada, a egípcia, constituiu o seu ideal político. Esta “egiptomania” traduziu-se ainda, por exemplo, no retomar do culto de Ísis, proibido por Tibério, e no transporte para Roma, a bordo de um gigantesco navio, construído propositadamente para o efeito, de um enorme obelisco egípcio (o que hoje encontramos diante da Basílica de S. Pedro de Roma). Calígula ter-se-á até disposto, a exemplo dos faraós, a desposar a sua irmã Drusila (quando esta morre subitamente, concedeu-lhe a apoteose, sob o nome de Panteia, a deusa universal).

A laesae majestatis passou a ser aplicada de modo “expedito”: oficiais da guarda pretoriana levavam aos suspeitos ou às pessoas caídas em desgraça a ordem do imperador de porem fim aos seus dias.

 

A volta do regime de terror provocou em 39 uma conspiração contra a vida do imperador. Encabeçou-a o comandante da Germânia superior, Gneu Cornélio Lêntulo Getúlico (a expedição de Calígula à Germânia pode ter-se relacionado com a descoberta desse conluio). Na conjura estava implicado Marco Emílio Lépido, marido de Drusila (dizia-se que esta e uma outra irmã de Calígula, Agripina, eram amantes do imperador).

A conspiração foi reprimida com uma nova vaga de terror. Agripina e Júlia (a terceira irmã do imperador) são exiladas, por suspeita de haverem estado nela implicadas.

 

Após o regresso da Gália do imperador, nova conjura tomou forma em 40, porém, desta vez, com a participação dos chefes dos pretorianos. A 24 de Janeiro de 41, Calígula, a sua esposa e a filha de um ano são assassinados.

 

CLÁUDIO.

 

Não havendo sucessor, o senado discutirá durante dois dias o que fazer. É proposto o restabelecimento da República e ouvem-se discursos contra a “tirania”. Contudo a maioria defende a manutenção do regime do principado, procurando encontrar um candidato capaz de reunir o consenso.

Entretanto, depois de assassinarem Calígula, os pretorianos haviam encontrado por acaso, escondido num recanto do palácio, Cláudio, irmão de Germânico e tio do imperador. Levam-no para o seu quartel e ali o proclamam imperador.

O senado viu-se obrigado a aceitar a vontade dos pretorianos, investindo Cláudio de todos os poderes e confirmando-o princeps.

 

Tibério Cláudio Nero Druso Germânico (nas inscrições oficiais, Tibério Cláudio César Augusto Germânico) tinha mais de cinquenta anos de idade quando subiu ao trono. Na corte de Calígula fora objecto de mofa. Era extraordinariamente distraído e falho de memória. Qualquer pequeno labor o cansava e era frequente que, no meio de uma audiência, se deixasse adormecer sobre a cadeira ou se visse forçado a retirar-se, para fazer uma pequena sesta. Augusto e Tibério consideravam-no completamente incapaz para os assuntos de Estado e haviam-no mantido afastado de qualquer actividade administrativa. Cláudio dedicara-se aos estudos históricos, o único interesse até então da sua existência simples e solitária. Escreveu uma “Autobiografia”, uma “História da Etrúria” e uma “História de Cartago”. Ocupou-se também da reforma do alfabeto latino.

Apesar de toda as suas debilidades, Cláudio era inteligente e entregou-se com ardor às suas funções de princeps. Soube escolher colaboradores capazes, que, com o correr dos anos e o agravamento do estado de saúde do imperador, serão os  que governarão de facto o Império, os libertos Calisto (que já fizera carreira com Calígula), Narciso, Palante e Políbio.

 

É no seu reinado que se consolidam as bases do aparelho burocrático do Império.

 

Augusto estabelecera a divisão dos cargos pelas três categorias, senadores, cavaleiros e libertos. Com Calígula, os libertos começam a desempenhar, como agentes pessoais do imperador, importantes funções na administração da corte. Agora Cláudio dá aos seus procuradores (agentes financeiros do imperador, muitos deles libertos) jurisdição judicial, ou seja, o poder de emitir sentenças em questões respeitantes ao tesouro imperial (fiscus).

A administração da corte, já estruturada no reinado de Calígula, evolui, dando forma aos organismos centrais do aparelho imperial, com a organização de quatro chancelarias da corte (officia).

A mais importante, denominada ab epistulis (“do secretário”), chefiada por Narciso, servia de Secretariado-geral imperial, ocupando-se da “correspondência” (já no tempo de Tibério se dividia em duas secções: ab epistulis latinis e ab epistulis graecis). Podemos dizer que desempenhava, simultaneamente, funções de “Ministério do Interior”, de “Ministério da Guerra” e dos “Negócios Estrangeiros”, recebendo os informes de legados e comandantes militares, promulgando os decretos imperiais que os nomeavam, dando instruções aos funcionários, publicando os éditos imperiais, etc.

Vinha depois a chancelaria a rationibus, dirigida por Palante, ocupando-se da administração das finanças imperiais. Controlava a arrecadação de impostos (alguns deles provenientes das províncias senatoriais), o abastecimento de trigo a Roma, as obras de construção, a emissão de moeda, o pagamento dos soldos aos funcionários imperiais, etc.

A chancelaria a libellis encarregava-se de todo o referente a queixas, pedidos, súplicas, etc. Dirigiam-na Políbio, o chefe da “repartição de estudos” (a studiis), e Calisto, responsável pelos inquéritos (a cognitionibus). A proposta dos chefes desta chancelaria, o imperador decidia sobre as petições apresentadas, através de resoluções escritas, que se converterão numa das mais importantes fontes do direito imperial.

Havia ainda a “repartição” a patrimonio, que administrava todos os bens imóveis da casa imperial.

 

Todas as chancelarias serviam, de início, à administração privada do imperador. Contudo, dada a enorme extensão dos seus bens, engrossados com as confiscações efectuadas nos dois reinados anteriores, perante a inexistência de distinção entre direito privado e público em Roma e, sobretudo, em virtude da crescente autoridade do poder imperial, as chancelarias transformam-se gradualmente nos órgãos centrais da administração do Império.

 

O aparelho administrativo herdado da República, com a substituição anual dos magistrados provenientes do meio senatorial, vai ser definitivamente desalojado pelo enorme e complexo mecanismo estadual do Império.

A consolidação do novo tipo de Estado “aliviou” as províncias, esgotadas pelas pilhagens dos seus anteriores governadores “republicanos”.

 

Na sua política provincial, Cláudio e os seus colaboradores libertos seguiram as tradições de César, concedendo amplamente direitos de cidadania (no censo de 47/48, o número de cidadãos romanos foi estimado em cerca de seis milhões, mais 1 milhão do que no censo de 13 da era). Em 48 o senado atribui aos gauleses, por proposta de Cláudio, o jus honorum, permitindo-lhes assim o acesso ao senado (a concessão, inicialmente, foi feita apenas à tribo dos éduos, velhos aliados de Roma). Tácito (“Anais”; XI, 23-25) diz que no senado houve uma larga discussão a esse propósito, com muitos senadores a oporem-se a tal medida. Cláudio pronunciou então um discurso, mostrando, com toda uma série de exemplos históricos, quão frequentemente estrangeiros haviam ocupado altos cargos em Roma (do discurso original conservaram-se fragmentos nas chamadas “Tábuas lionesas”).

 

O regime de terror foi consideravelmente atenuado e os processos por lesa-majestade, suspensos. O senado recobrou dignidade, com o imperador a fazer-se ali presente e a tomar parte nas discussões.

No entanto a oposição da nobreza continuou a manifestar-se. Logo nos começos do reinado de Cláudio, Camilo Escriboniano, legado na Dalmácia, faz-se proclamar imperador pelas suas tropas. Camilo rapidamente será abandonado pelos seus soldados. Mas, em Roma, muitos se põem de imediato do seu lado, dirigindo-os Ânio Viniciano. Esta rebelião foi sufocada pelo sangue.

Pouco depois é o amante da imperatriz Messalina, Caio Sílio, a organizar uma conjura (os dois pretendiam apoderar-se do trono). Sílio, Messalina e outros conjurados são executados.

 

A melhoria da situação financeira permitiu a realização de enormes obras. Construção de um novo porto em Óstia (ano de 42). A drenagem de parte do Lago Fúcino (ano de 52), onde trabalharam, abrindo o canal de descarga, trinta mil homens durante onze anos. A edificação de um grandioso aqueduto em Roma.

 

Também na política exterior se alcançam notáveis êxitos.

Nos finais do reinado anterior, estalara a revolta no reino “cliente” da Mauritânia, depois de Calígula haver feito supliciar o rei do país. O general Caio Suetónio Paulino esmaga a revolta e as tropas romanas passam além do Atlas, atingindo o deserto do Sahara.

A Mauritânia é dividida em duas províncias: a Mauretania Tingitana (no actual Marrocos) e a Mauretania Caesarensis (na Argélia).

 

Em 43, no sul da Ásia Menor, duas províncias são unificadas (a Lícia e a Panfília), de modo a mais facilmente se deter os ataques das tribos montanhesas. Surge assim a nova província da Lycia Pamphylia.

 

Também no ano de 43, um grande exército de 50.000 homens, ao mando de Aulo Pláucio Silvano, desembarca no sudeste da Britannia, no que é hoje o Kent, e cruza o Tamisa. Diante do próprio Cláudio, as legiões romanas derrotam em batalha as tribos dessa região, comandadas por Carátaco (Caratacus), rei dos Silures. A sua capital, Camalodunum (actual Colchester, no Essex) é ocupada.

Cláudio regressará a Roma, onde celebra o triunfo (o filho de Cláudio e Messalina, Cláudio Tibério, foi então chamado Britannicus), enquanto os seus generais (Vespasiano entre eles) prosseguiam a conquista das regiões meridional e oriental da ilha. Por volta de finais do seu reinado, também as regiões centrais da Britânia serão submetidas.

 

Na península balcânica, no reino “vassalo” da Trácia, a pretexto das lutas de sucessão dinástica e das frequentes revoltas originadas pelos recrutamentos forçados para o exército romano, são liquidados os últimos restos da independência. Em 46 é deposta a dinastia local e a Trácia meridional é convertida em província sob o governo de um procurador. A região setentrional é anexada à província da Mésia.

 

À paixão de Cláudio pela história se devem, em parte, algumas das suas decisões de política interna. A “revitalização” do senado. O restabelecimento da censura nos anos de 47 e 48 (Cláudio e Lúcio Vitélio foram os censores). O retomar de algumas antigas cerimónias. A introdução de três novas letras no alfabeto latino. A ampliação da cerca sagrada da cidade (pomerium), etc.

 

Cláudio casou-se quatro vezes. Das duas primeiras esposas, divorciou-se. A terceira, Valéria Messalina, conseguiu escandalizar com o seu comportamento libertino a alta sociedade romana, apesar da “tolerância de costumes” reinante. Messalina terá ido ao ponto de celebrar bodas oficiais com o seu amante, Caio Sílio. O imperador terá hesitado, como lhe era habitual, em castigar a mulher. Foi Narciso a tomar nas suas mãos este assunto, ordenando o assassinato da imperatriz e do seu amante.

Logo após a morte de Messalina, Cáudio casa-se com a sua sobrinha Agripina a “Moça” (que já havia sido esposa de Domício Aenobarbo e era irmã de Calígula).

Ambiciosa e determinada, a nova imperatriz conseguiu afastar Britânico da sucessão, fazendo Cláudio adoptar o seu filho (e de Aenobarbo) com o nome de Nero Cláudio César (no ano de 53). Octávia, filha de Cláudio e de Messalina, é entregue por esposa a Nero.

Em 54 Cláudio morre repentinamente, ao que se disse depois, envenenado por Agripina. A sua morte foi ocultada por algum tempo, até que Agripina e Afrânio Burro, o praefectus praetorio, se houvessem garantido do apoio dos pretorianos à proclamação de Nero.

O senado, uma vez mais, limitar-se-á a confirmar o facto consumado.

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