Capítulo IV - A Fundação de Roma

A FUNDAÇÃO DE ROMA.

 

A pequena tribo dos latinos ocupava o chamado Latium vetus (Lácio antigo), a parte noroeste do Lácio clássico. O Latium vetus estendia-se por uma zona de planície ondulada com cerca de 2.000 km2. No seu sector sul encontram-se as colinas albanas. Os cursos de água mais importantes eram o Tibre, navegável, que unia o Lácio às regiões interiores, e o Aniene, um seu afluente da margem esquerda. A região tinha por limites: a ocidente, o Mar Tirreno, onde se processava um intenso comércio entre gregos, cartagineses e etruscos; a norte, o Tibre, fazendo a fronteira com os territórios das ricas cidades etruscas; a nordeste, os montes sabinos; a leste, à medida que se avança para o sul, as regiões montanhosas dos équos, dos hérnicos (Hernici) e dos volscos; a sul, mas já para lá do território dos volscos, a fértil e mais civilizada Campânia.

 

Não antes dos finais do II milénio, os protolatinos estabelecem-se inicialmente nas colinas albanas, onde o clima era mais seco e sadio. Estas colinas foram o centro da sua expansão (no século VII ae, serão a sede da união das primitivas polis latinas, a federação albana).

 

No curso inferior do Tibre há um outro grupo de colinas, cujo povoamento é posterior ao da região albana e onde depois surgiu Roma. A sua posição era muito favorável. Situavam-se sobre a margem esquerda do rio, numa zona pantanosa. Algumas das colinas são muito escarpadas. Distariam, então, de 22 a 25 km do mar. Nas suas cercanias passava a chamada Salaria via, vinda da desembocadura do Tibre, onde se fazia a extracção do sal, seguindo depois para o interior.

 

O Palatino foi a primeira colina a povoar-se. A tradição antiga é unânime em afirmá-lo e considerações de ordem topográfica levam-nos a crê-la. As suas ladeiras, escarpadas de três lados, só apresentam um acesso, de fácil defesa, pela direcção nordeste, sendo ainda rodeadas por zonas pantanosas. Ocupando a colina uma área de cerca de 10 hectares, o seu cimo permitia o assentamento de um pequeno povoado e dominava sobre o vau do Tibre, muito próximo, e sobre a Via Salária.

Recentemente, novos vestígios foram encontrados duma antiga ocupação humana, que poderão datar de finais do II – inícios do I milénio.

 

O POVOAMENTO DAS OUTRAS COLINAS.

Não longe do Palatino, no local onde depois se ergueu o forum, foram descobertas sepulturas semelhantes, mas mais tardias, às encontradas nas colinas albanas.

Nas chamadas colinas exteriores, o Esquilino, o Quirinal e o Célio, essas sepulturas quase não existem.

Além disso, sobre o Esquilino, que está nas cercanias imediatas do Palatino, aparecem, a partir dos finais do século IX, sepulturas de inumação. Estas sepulturas estendem-se depois para o Quirinal e para o local do “futuro” forum, tornando-se ali frequentes nos séculos VIII a VI. No forum, foram encontradas junto às velhas sepulturas com incineração do cadáver.

 

OS PROTOLATINOS E OS PROTOSABINOS.

Nos séculos X e IX, existiu sobre o Palatino uma aldeia de “homens de Vilanova” (provenientes, segundo toda a probabilidade, dos montes albanos), que cremavam os seus mortos, sepultando-lhes as cinzas no local do futuro forum. Nessa época as colinas exteriores não eram ainda habitadas.

É por finais do século IX que começam a aparecer os primeiros habitantes nas colinas exteriores. Têm usos fúnebres diferentes. Pertenciam a um novo grupo étnico de itálicos, o dos antepassados dos sabelo-samnitas.

 

A tradição fala da fusão da comunidade sabina de Tito Tácio com a latina de Rómulo. A presença de elementos sabinos na antiga Roma está absolutamente confirmada. As duas comunidades ter-se-ão fundido por meados do século VII.

 

AS QUATRO ETAPAS DE CRESCIMENTO DE ROMA DURANTE O “PERÍODO DOS REIS”.

O mais antigo núcleo foi o da chamada Roma quadrata, a designação dada por alguns escritores romanos à antiquíssima aldeia do Palatino, dos começos do I milénio.

 

O segundo estádio terá dado origem à memória da “cidade das sete colinas”, que se conservou na festa homónima (septimontium). Terá existido, provavelmente, no século VIII. Não se lhe conhecem os limites precisos, mas supõe-se que as sete colinas seriam as duas elevações do Palatino (mais propriamente, o Palatino e o Gérmalo), a colina de Vélia, que ligava o Palatino ao Esquilino, as três elevações ocidentais do Esquilino (Císpio, Fagutal, Ópio) e o Célio.

Discute-se se terá sido uma comunidade única, circundada por um sistema de fortificações, ou se seria apenas uma união de sete aldeias autónomas. O facto é que deste período não há vestígios de obras defensivas.

De todo modo, a tradição da “cidade das sete colinas” testemunha um avanço da povoação palatina em direcção ao Esquilino, expansão que “preparou” a união das aldeias latinas e sabinas.

 

No estádio seguinte, o dos “quatro distritos”, talvez por meados do século VII, Roma divide-se na região Palatina, na Suburana (Célio), na Esquilina e na Colina (o Quirinal e o Viminal).

Roma havia-se ampliado em direcção ao Quirinal e compreendia então cinco colinas principais: Palatino, Esquilino, Célio, Quirinal e Viminal.

As outras duas colinas, o Capitólio e o Aventino, não seriam ainda habitadas no século VII ou, pelo menos, não estavam ainda incluídas dentro da cerca sagrada da cidade (pomerium).

 

O último estádio foi o da “cidade de Sérvio Túlio”, no século VI. A tradição afirma que no seu reinado a cidade foi cercada de muros. E de facto, entre os restos das obras defensivas do século IV, encontraram-se ruínas de construções mais antigas, talvez daquele século.

Também só nesta época, provavelmente, a colina do Capitólio terá sido incluída no recinto da cidade.

 

O Aventino, com a sua população, só viria a fazer parte da urbe por volta dos meados do século V.

 

(Como já deve ter-se reparado, a História não é “lá muito certa”. É claro que sobre a expansão da cidade há outras teses. Por exemplo, o Atlas Stock “não está cá com peneiras” e faz logo Roma “meia-acabadinha”: «Por volta de 750, fundação de Roma por uma coligação de Latinos (Roma quadrata) e de Sabinos (Esquilino, Viminal e Quirinal), mas com influência etrusca (o nome vem de uma gens etrusca – Ruma)»).

 

A LENDA DA FUNDAÇÃO DE ROMA.

A lenda, que inspirou o poeta Virgílio, foi ganhando forma por sucessivas elaborações de autores gregos e romanos. Conta ela que o troiano Eneias, filho de Afrodite e Anquises, tendo sobrevivido à destruição de Tróia, foge com o seu filho Ascânio (ou Iúlo, filho de Creúsa). Depois de muito errar, chega por fim às costas do Lácio, onde é recebido amigavelmente por Latino, rei das tribos aborígenes, que lhe dá por esposa sua filha, a latina Lavínia.

Após a morte de Eneias, Ascânio cria uma nova cidade, Albalonga, de que foi rei (numa das variantes da lenda, esse Ascânio, fundador de Alba, já é concebido como “meio-latino”, sendo filho de Eneias e de Lavínia).

Algumas gerações depois, Numitor era o rei em Albalonga. Amúlio, irmão de Numitor, destrona-o, tornando-se por sua vez rei, e obriga a filha de Numitor, Rhea Silvia, a fazer-se vestal. Esta, apesar do seu voto de castidade, teve do deus Marte dois gémeos. Então Numitor condena Rhea à morte e ordena que os gémeos sejam lançados ao Tibre. Os servos disso encarregues deixaram o cesto junto à margem, onde as águas eram pouco profundas. Quando o nível das águas baixou, o cesto deu em terra e o choro dos gémeos fez acudir uma loba, que os nutriu com o seu leite. Pouco depois são encontrados pelo pastor Fausto, que se apiedou deles e os recolheu, fazendo-os criar pela sua mulher, Larentia. Deram-lhes os nomes de Rómulo e Remo.

Já crescidos, os gémeos entretinham-se a caçar na floresta e a pilhar os ladrões, repartindo depois o saque com os pastores.

Tendo descoberto o segredo do seu nascimento, matam Amúlio e repõem no trono o avô, Numitor. Mais tarde, não querendo continuar a viver em Albalonga, decidem fundar uma nova cidade no local onde haviam sido encontrados.

Quando traçavam o sulco que havia de delimitar o território da cidade, querelam entre si e Rómulo mata o irmão, dando à cidade o seu próprio nome. Segundo Varrão, isto “aconteceu” em 753.

 

A ORIGEM E A EVOLUÇÃO DA LENDA.

Esta é a variante mais difundida da lenda, que ganhou forma definitiva no século I ae e que nos foi transmitida, primeiramente, nos escritos de Cícero, Lívio e Dionísio, e mais tarde, por Plutarco.

Porém a lenda já havia surgido muito antes, não em Itália, mas na Grécia. Os seus primeiros rastos encontram-se em Helánico de Lesbos, do século V. Para este autor, o fundador de Roma é o próprio Eneias.

Quando a lenda chegou a Itália, verificou-se um paradoxo. Haviam decorrido cerca de 670 anos desde a destruição de Tróia (em 1184, segundo a tradição grega) até à expulsão em 510 de Tarquínio o Soberbo. Esse período de tempo era demasiado longo para poder ser preenchido com a série dos sete reis tradicionais. Por isso, entre Eneias e Rómulo, é introduzida toda uma série de personagens.

 

Numa outra das mais antigas variantes gregas da lenda, figuraria um só fundador, Romos, que logo terá sido confrontado, em Itália, com o nome Rómulo (Romulus). Mais tarde, com as “idas e vindas” da lenda entre a Grécia e a Itália, os nomes de Romos e Rómulo, referidos como irmãos, já surgem a par em alguns textos. Havendo-se assim desdobrado a figura do fundador, o nome etrusco-latino, “Rómulo”, permaneceu e a designação grega, “Romos”, transmutada no seu gémeo, acabou por cristalizar-se na forma nominal “Remo” (ver: Dionísio, I, 72 e 73; Plutarco, “Rómulo”, VI, 2;). Deste modo terão “nascido” os dois irmãos gémeos.

Kovaliov, subscrevendo em geral esta tese, fazia-lhe um acréscimo: o nome Romulus não seria mais do que uma corruptela etrusco-latina do nome grego Romos. Assim, o herói epónimo fundador de Roma não passaria de uma ficção helena que os romanos posteriormente haviam adoptado. Porém, face aos elementos claramente latinos da lenda, parece bem mais razoável de acreditar que os romanos, com base na tradição lendária latina, hajam “inventado” o seu próprio herói epónimo fundador, sem necessidade de nisso fazer intervir, de um modo determinante, a influência grega.

Já no que diz respeito a muitos outros aspectos do mito das origens dos romanos, é manifesto ter ocorrido uma mescla de lendas gregas e latinas, por exemplo, da lenda de Eneias com as tradições locais sobre Alba e os sete reis romanos, e os inevitáveis “retoques”. O próprio Tito Lívio nos confessa o seu espanto perante essa mescla: «Ascânio teve por sucessor o seu filho Silvius, nascido, não sei por que acaso, na profundeza das florestas...a partir de então Silvius foi o sobrenome comum a todos os reis de Alba». Ou seja, Lívio não consegue encontrar uma explicação para o facto de, na lenda, Silvius, filho e sucessor do civilizado e “citadino” Ascânio, haver nascido em tão agreste meio. Hoje, todavia, a solução já não se revelará complicada: os de Alba eram “sílvios” porque viviam da floresta (silva em latim; aliás, recordemos que também a mãe de Rómulo tinha por nome Silvia); e esta narrativa sobre os “sílvios” de Alba representava uma lenda local (reflectindo uma realidade de antanho), sendo-lhe o mito grego de Eneias e Ascânio posteriormente miscegenado.

Segundo informa Kovaliov, no museu de Bolonha encontrar-se-ia uma lápide, talvez do século IV ae, onde se representa uma loba amamentando um só menino. O conhecido grupo da loba capitolina, no museu do Palazzo dei Conservatori em Roma, que se fazia remontar aos inícios do século V ae, representa os dois meninos, contudo as figuras das crianças foram feitas muito mais tarde, na época do Renascimento (e recentemente, é até a própria datação da loba capitolina que começa a ser posta em causa).

Tudo leva a crer que a versão dos gémeos haja surgido em época posterior ao século V ae, e que só tenha sido recolhida pelos primeiros analistas, em Roma, nos inícios do século III ae.

 

O “tema” da criança arrojada ao rio, depois encontrada, repete a “história” de Sargão de Accad, de Moisés, etc. E não é o único tema lendário “comum” que encontramos na lenda.

 

No século I da era a lenda é consagrada oficialmente, com a intenção de “demonstrar” a ascendência divina da estirpe Júlia, o que nos esclarece sobre a inclusão nela de um Ascânio que muda o seu nome para Iúlo.