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Capítulo II - O Ambiente Geográfico e a sociedade

Já no século III ae a expansão romana transbordará dos limites da península, mas a Itália irá continuar a ser, por vários séculos, a base da economia e o centro da vida política e administrativa da civilização romana.

 

A península apenina, central entre a balcânica e a ibérica, interna-se profundamente no Mediterrâneo. É uma estreita faixa de terra que se estende por cerca de 1.000 km, com uma largura de 150 km na sua parte central. A grande ilha da Sicília, a continuação imediata da península, está a cerca de 150 km das costas africanas. A norte, os Alpes encerram a Itália num amplo semi-círculo. No entanto os Alpes não são uma barreira infranqueável, em particular no seu sector oriental, os Alpes Julianos.

 

A parte a norte era chamada, na época antiga, Gália Cisalpina (a sul dos Alpes), dividindo-se em Gália Transpadana (a norte do rio Pó; Padus, também denominado Eridanus) e Gália Cispadana (a sul do Pó). Na geografia dos antigos, a Gália Cisalpina não pertencia à Itália.

 

Ao sul da Gália Cisalpina, no ocidente, era a Etrúria (correspondendo aproximadamente à actual Toscana). A oriente da Etrúria estavam a montanhosa Úmbria e o Piceno. Ao sul da Etrúria, a planície entremeada de zonas de colinas do Lácio. Ao sul do Lácio e ao longo do mar, a rica e civilizada Campânia. A oriente do Lácio e da Campânia, o Sâmnio, coberto de florestas. A parte meridional da península dividia-se, de leste para sudoeste, nas regiões da Apúlia, da Lucânia e do Brútio (Bruttium).

A sudoeste do Brútio, a pouco mais de 3 km de distância por mar à entrada do Estreito de Messina, a ilha da Sicília.

 

O sistema fluvial é vasto. A Cisalpina era percorrida pelo grande rio e os seus numerosos afluentes. O rio Arno sulcava a Etrúria. O rio Tibre fazia a fronteira entre a Etrúria, a Úmbria e o Lácio. No sul do Lácio corre o rio Liri. Na Campânia, o Vulturno. Na Apúlia, o Ofanto. Nos tempos antigos, os seus cursos eram bem mais caudalosos que hoje.

Os rios eram navegáveis, mas os cursos inferiores do Vulturnus, Tibris e Arnus, na costa ocidental, e o do Pó, na oriental, estavam embaraçados por aluviões arenosos. O assoreamento e as peculiaridades da zona costeira formaram ainda, no ocidente, os pântanos pontinos, no Lácio, e os pântanos litorais da Toscana, zonas infestadas pela malária.

 

Grande parte da Itália goza de um clima relativamente ameno. Do centro para o sul, no litoral e no mês de Janeiro, a temperatura média mensal oscila entre os 8ºC em Roma e os 11ºC na Sicília, e as amplitudes térmicas anuais não são altas. Todavia, outrora, em consequência das grandes massas de floresta que então cobriam o país, o clima apresentava-se nessas regiões mais húmido e fresco que o actual, de acentuadas características subtropicais.

Entre os romanos, essa relativa amenidade do clima manifestou-se, por exemplo, no trajo, pelo uso da túnica e da toga. Nas habitações, no atrium com abertura no tecto, para a recolha das águas pluviais, e nos jardins interiores das casas dos ricos.

 

UM PARALELO COM A ANTIGA GRÉCIA.

Na Itália, a leste fica o Mar Adriático. O Jónico a sul. A oeste, o Tirreno e o Mar Lígure. Todos estes mares, junto às costas peninsulares, são pobres em ilhas. Ao longo da costa oriental elas praticamente não existem. Ao sul há quase só a Sicília. No ocidente, disseminadas pela costa toscana e campana, encontramos a ilha de Elba e algumas pequenas ilhas como Ischia, Capri, Ponza, etc; depois, já muito distantes da orla da península, as grandes ilhas da Sardenha e da Córsega.

As costas são escassamente recortadas, inadequadas à navegação. A costa adriática é parca em enseadas e as suas praias são de águas pouco profundas. A costa meridional e a tirrénica apresentam condições um pouco melhores. Na zona central da orla tirrena destaca-se, pelos seus bons portos naturais, a Campânia.

Assim, contrariamente à antiga Grécia balcânica, de costas muito recortadas e com um numeroso cordão de ilhas a ligá-la, a oriente, à Ásia Menor, a Itália não possuía qualquer dessas duas condições geográficas propícias ao desenvolvimento da navegação e do comércio.

Acresce que a costa ocidental da península balcânica, em face à Itália, era igualmente atrasada no campo económico e no campo cultural.

Os primeiros vizinhos de civilização mais desenvolvida das tribos itálicas irão ser, precisamente, as colónias gregas da Itália meridional e da Sicília.

 

Na península, a única cadeia montanhosa é a dos Apeninos. Estendendo-se para sul, a cadeia divide a Itália em duas partes. Se a norte os Apeninos oferecem alguma dificuldade à sua travessia, esta torna-se mais fácil, em geral, à medida que avançamos para sul. Bem diversamente do que acontece na Grécia, em Itália, à excepção de pequenas zonas nos Apeninos setentrionais e centrais (e da região alpina), não há territórios isolados pela montanha.

 

Excluindo ao território italiano a Sardenha, a Ligúria, o Vale de Aosta, o Trentino-Alto Adige e o Friul-Veneza Júlia, restam-nos cerca de 267.000 km2. E somando, na Grécia, as superfícies do Peloponeso, Grécia Ocidental, Central, Ática e Tessália, o resultado é de, aproximadamente, 60.000 Km2. Como estes eram, grosso modo, os espaços ocupados respectivamente pelas antigas tribos italianas e gregas, verificamos que as primeiras dispunham de cerca de quatro vezes e meia mais território do que as segundas.

 

Se bem que a agricultura sedentária haja chegado primeiro à Grécia, a fértil planície do Pó deu guarida a outra das mais antigas civilizações da Europa a utilizar este tipo de práticas agrícolas, a dos terramare.

Mas não era apenas o norte que oferecia condições naturais favoráveis. Também os solos da península dos Apeninos e da Sicília eram propícios ao desenvolvimento da agricultura, bem como à criação de gado.

Já os escritores da Antiguidade se surpreendiam com a extraordinária fertilidade dos solos, de origem vulcânica, do Lácio, da Campânia e daquela ilha. As terras campanas chegavam a permitir três colheitas anuais (Dionísio, I, 37). Ao invés, na Grécia, o solo é rochoso e pobre, escasso para a lavoura.

As condições climáticas, em grande parte da Itália, possibilitavam que os animais fossem alimentados nas pastagens durante todo o ano. Entre as diversas regiões propícias à criação de gado distinguia-se, então, a Itália meridional, famosa no mundo antigo pelos seus magníficos pastos. Ao Bruttium deram até o nome de Viteliu, a “região dos novilhos, dos touros” (de onde vem, provavelmente, a palavra “Itália”). Muito menos favorecidos pela natureza, os gregos antigos, exceptuando a Tessália, apenas podiam permitir-se a criação de gado miúdo (ovino, caprino e porcos).

 

O subsolo italiano albergava minérios metalíferos. Cobre, chumbo, estanho e zinco na Toscana, ferro na ilha de Elba, metais que tiveram uma grande importância no desenvolvimento da civilização etrusca.

 

Assim, a Itália não se viu forçada, como o foi a Grécia, à fundação de colónias além-mar que acolhessem o constante excesso de população a que a terra mãe não podia dar sustento, nem se viu obrigada a recorrer ao mundo exterior, como o tiveram de fazer os gregos, para se abastecer de grãos, madeira e outros materiais para a construção de navios, couros, metais e outras matérias-primas. E enquanto a Grécia, pobre em terras de cultivo, aproveitando as suas facilidades naturais para a navegação e o comércio, desenvolvia a sua economia e civilização, a Itália, num ambiente geográfico precisamente inverso, pôde continuar a ser, por muito tempo, uma economia natural, “fechada” e, por isso, atrasada.

 

Porém, com o desenvolvimento económico dos gregos cresceu também a escravatura, ampliaram-se os conflitos entre as classes dos ricos e as dos pobres livres, assim como os que opunham as polis sujeitadas às dominantes, resultando tudo isso num progressivo apodrecimento da coesão social e política das ligas e cidades-estado gregas.

Diversamente, a mais atrasada Itália, mantendo no essencial a propriedade livre da terra nas mãos dos clãs e das famílias, continuou a ser um país de camponeses guerreiros.

 

Quando Roma, após unificar a Itália, entrar na “alta política internacional” do mundo mediterrânico, será justamente o campesinato guerreiro italiano, ao formar-lhe as legiões e até a nascente marinha, que se vai revelar a arma decisiva e alcançar-lhe a conquista desse mundo.

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