O Espaço da História
10-Mar-2010
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Escrito por Fernão Lopes   
25-Abr-2009

 

PRÓLOGO.

 

Grande licença deu a afeição a muitos que tiveram o carrego de ordenar histórias, mormente dos senhores em cuja mercê e terra viviam e onde foram nados seus antigos avós, sendo-lhe muito favoráveis no recontar de seus feitos; e tal favoreza como esta nasce de mundanal afeição, que mais não é do que a conformidade entre certa coisa e o entendimento do homem. E assim é que a terra em que os homens por longo costume e tempo foram criados gera uma tal conformidade entre o seu entendimento e ela que, havendo de julgar alguma sua coisa, tanto em louvor dela como em seu contrário, nunca por eles é direitamente recontada; porque, louvando-a, dizem sempre mais do que aquilo que é; e se doutro modo, nunca escrevem suas perdas tão molestamente quanto aconteceram.

Outra coisa gera ainda esta conformidade e natural inclinação, segundo sentença de alguns, dizendo que o pregoeiro da vida, que é a fome, recebendo refeição para o corpo, o sangue e os espíritos gerados de tais viandas têm uma tal semelhança entre si que causa esta conformidade. Alguns outros defenderam que isto descia na semente, no tempo da geração; a qual dispõe por tal guisa aquele que dela é gerado que lhe fica esta conformidade, tão bem acerca da terra como de seus dívidos (parentes).

E assim parece que o sentiu Túlio, quando veio a dizer: Nós não somos nados a nós mesmos, porque uma parte de nós tem a terra, e outra os parentes. E por isso o juízo do homem acerca de tal terra ou pessoas, recontando seus feitos, sempre çopega (coxeia).

Esta mundanal afeição fez a alguns historiadores que os feitos de Castela juntamente com os de Portugal escreveram, posto que homens de boa autoridade fossem, desviar da direita estrada e correr por sendeiros escusos, para as mínguas das terras donde eram naturais, em certos passos, claramente não serem vistas; e em especial no grande desvairo que o mui virtuoso Rei da boa memória, dom João, cujo regimento e reinado se segue, houve com o nobre e poderoso Rei dom João de Castela, pondo parte dos seus bons feitos fora do louvor que mereciam e acrescentando nalguns outros, da guisa que não aconteceram, atrevendo-se a publicar isto em vida daqueles que foram seus companheiros, bem sabedores de todo o contrário. Nós certamente levando outro modo, posta de parte toda afeição que por azo das já ditas razões haver podíamos, nosso desejo foi nesta obra escrever verdade, sem outra mistura, abandonando nos bons acontecimentos todo o fingido louvor e nuamente mostrando ao povo quaisquer coisas contrárias, da guisa que avieram.

E se o Senhor Deus a nós outorgasse o que a alguns, ao escreverem, não negou, convém a saber: em suas obras clara certidão de verdade, sem dúvida não somente mentir do que sabemos, mas até errando, o falso não quereríamos dizer; como assim seja que outra coisa não é errar salvo cuidar que é verdade aquilo que é falso. E nós, aborrecendo por ignorância de velhas escrituras e desvairados autores, bem podíamos, ao ditar, errar; porque escrevendo homem do que não é certo ou contará mais do que foi ou falará mais do que deve; mas mentira neste volume é coisa muito afastada da nossa vontade. Oh! Com quanto cuidado e diligência vimos a grandes volumes de livros, de desvairadas linguagens e terras; e isso mesmo a públicas escrituras de muitos arquivos e outros lugares, nas quais, depois de longas vigílias e grandes trabalhos, mais certidão haver não podemos do que a contida nesta obra.

E sendo achado em alguns livros o contrário do que ela fala, cuidai que não sabedoramente, mas errando muito, disseram tais coisas. Se porventura outros nesta crónica buscam formosura e novidade de palavras, e não a certidão das histórias, desprazer-lhes-á de nosso razoado, muito ligeiro a eles de ouvir e não sem grande trabalho a nós de ordenar.

Mas nós, não curando de seu juízo, deixando os compostos e enfeitados razoamentos que muito deleitam aqueles que os ouvem, antes preferimos a simples verdade que a aformosentada falsidade. Nem entendais que certificamos coisa salvo de muitos aprovada e por escrituras vestidas de fé; doutra guisa, antes nos calaríamos do que escrever coisas falsas.

Que lugar nos ficaria para a formosura e o enfeite das palavras, se todo nosso cuidado nisto despeso não abasta para ordenar a nua verdade. Por isso, apegando-nos a ela firme, os claros feitos, dignos de grande lembrança, do mui famoso Rei dom João sendo Mestre – de que guisa matou o Conde João Fernandes e como o povo de Lisboa o tomou primeiro por seu regedor e defensor, e depois outros alguns lugares do reino, e como daí em diante reinou e em que tempo –, breve e sãmente contados, pomos em praça na seguinte ordem.

 

 

 

Actualizado em ( 28-Out-2009 )
 
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