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Crónica de D. João I, de Fernão Lopes
Capítulo I - Das fintas que a morte fez ao Andeiro | Capítulo I - Das fintas que a morte fez ao Andeiro |
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| Escrito por Fernão Lopes | |
| 03-Jul-2009 | |
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DAS FINTAS QUE A MORTE FEZ AO ANDEIRO.
A divisão em grandes capítulos numerada em romano é apócrifa, tal como os respectivos títulos, e foi introduzida pelo «O Espaço da História».
1. COMO O CONDE HOUVERA DE SER MORTO POR DIVERSAS VEZES E NENHUMA TEVE AZO DE SE ACABAR.
Falando alguns da morte do Conde João Fernandes, onde se começam os feitos do Mestre, alegam um dito de que nos não apraz, dizendo que a fortuna muitas vezes escusa por longo tempo a morte a alguns homens para depois lhes azar mais desonrado fim, assim como fez a este Conde João Fernandes, que muitas vezes lhe desviou a morte que alguns tiveram cuidado de lhe dar, para que depois o deixasse nas mãos do Mestre, para o matar mais desonradamente. E nós neste dito não somos contentes, pois que, tanto por razão do que o matou como da morte que por ele houve, nenhum dos outros o matar pudera que lhe muito maior desonra não fora. Mas temos que o muito alto Senhor Deus, que em sua providência nenhuma coisa falece, que tinha disposto de o Mestre ser Rei, ordenou que o não matasse outro senão ele, e isto em tempo assinalado e com certos azos, posto que poderoso fosse de o doutra guisa fazer. Porque o certo é que usando o Conde já há tempos daquela grande maldade que dissemos (Crónica de D. Fernando), dormindo com a mulher do seu Senhor, de que tantas mercês e acrescentamento recebera, não soou isto assim tão ligeiramente nas orelhas dos grandes senhores e fidalgos que lhes não gerasse grande e assinalado desejo de vingar a desonra delRei dom Fernando. Mas a pôr isto em obra embargavam muito duas coisas. A primeira ser o Conde guardado de muitos e bons fidalgos, que sempre o acompanhavam de dia e de noite, a segunda, quem a tal feito se pusesse aventurava a vida e perdia-se de todo, o que os mais dos homens muito receiam de fazer. Outros lhe acrescentavam ainda que por tal coisa seria elRei muito mais infamado, e sua linhagem, que eram os Condes e outros grandes do reino. Por isso, falando nisto por vezes, todos outorgavam de serem em tal feito mas nenhum se atrevia a ser o primeiro. E o Conde bem entendia que de tais pessoas não era muito seguro, não dando porém a entender nada; mas o seu grande estado e aguardamento de muitos, que por azo dele haviam grandes desembargos delRei e da Rainha, o fazia segurar de todos. Por conseguinte foi assim que o Conde dom João Afonso, irmão da Rainha, quando veio de Castela porque fora ali preso na batalha de Saltes, achando a fama de sua irmã com este Conde que dissemos muito pior do que quando a deixara, houve disto grão queixume e determinou de o matar. E falou desta cousa com alguns dos melhores que na cidade havia, assim como com AffonsEanes Nogueira, e outros que eram todos seus vassalos. E encaminhou por ir ver elRei a Rio Maior (onde então este se encontrava quando veio de Elvas, do lugar em que estivera para haver a batalha), acompanhado o Conde de muitos que com ele foram. E quando ali foi, segundo alguns contam, uma noite se fez prestes e o aguardou muito escusamente (escondidamente) com os seus para o matar. E saindo o Conde alta noite do Paço desacompanhado, apenas com uma tocha, trigaram-se os outros mais do que deveram quando viram o ar da candeia (a luz da tocha). E ele que os sentiu, não sabendo quem eram, receou-se muito e tornou atrás; e guardado naquela hora, sucedeu assim que se não fez por então mais. Outros escrevem por outra maneira, dizendo que a Rainha, como era mulher avisada, por uma forma ou outra, antes que seu irmão chegasse, soube da tenção que levava contra o Conde. E quando pediram pousadas para ele mandou ela preparar muito bem uma câmara nos Paços onde pousava, dizendo que queria que pousasse com ela, e recebeu-o muito bem, e fez-lhe grande gasalhado. E presumiam que lhe dera a Rainha alguma grande dádiva e que o desviara de nisto pôr mão, porque o Conde então nunca mais disto se trabalhou, e que assim escapara o Conde João Fernandes daquela vez.
2. COMO ALGUNS ORDENARAM DE O CONDE SER MORTO, E POR QUAL AZO ISSO SE NÃO FEZ.
Passou aquela hora em que se não fez mais, e partiu elRei dali e veio-se para Santarém. Nisto morreu a elRei de Castela a Rainha dona Lionor, sua mulher, e foi lá enviado por embaixador o Conde João Fernandes, como antes ouvistes (Crónica de D. Fernando). E não cessando a desonesta fama da Rainha com ele, falava-se disto largamente entre alguns senhores do reino, especialmente entre aqueles que por privança e acrescentamento do seu honroso estado eram aliados com elRei, pesando-lhes muito da desonra que a seu senhor era feita por tal modo. E entre aqueles a que isto muito pesava era este Conde dom João Afonso, irmão da Rainha, como dissemos, sendo grande privado delRei e muito de seu conselho, e a que elRei mostrava grande boa vontade. Da Rainha, pelo contrário, posto que sua irmã fosse, não era ele tanto em sua privança e amor, sentindo ela que ele não tinha bom desejo ao Conde João Fernandes, pela fama que ambos haviam. Este Conde de Barcelos, seu irmão, doendo-se muito da desonra delRei, e vendo como sua irmã, enquanto o Conde João Fernandes fosse vivo, não havia de cessar com o afazimento que com ele havia, cuidou de ordenar outra vez como fosse morto, e falou nisto com o Mestre de Avis, e com PedrÁlvares, Prior do Hospital, e com Gonçalo Vasques dAzevedo. E acordaram todos que era bem de o fazer um homem de pequena conta por qualquer coisa que disto se seguisse, porque melhor era perder-se um homem ligeiro do que um de grande honra e maior estado. E falaram primeiro desta coisa com FernandÁlvares de Queirós, criado delRei e homem para muito, que acompanhavam de cote (do latim cottidie, ou seja, todos os dias) quatro de bestas, e ele se escusou com muitas razões, dizendo que por nenhuma guisa faria coisa em que fizesse desprazer à Rainha, mormente coisa tal como esta, de que era certo que ela haveria assinado nojo. Então o vieram a falar com RodriguEanes de Buarcos, escudeiro de semelhante conta que PedrÁlvares, o qual acompanhava continuadamente Gonçalo Vasques dAzevedo e era todo seu. A este prouve de tomar este encarrego, e acordaram que quando o Conde João Fernandes viesse da embaixada a Castela e entrasse em Portugal lhe saísse RodriguEanes ao caminho com cinco ou seis de cavalo e o matasse, e se pusesse a salvo, até que eles depois lhe houvessem remédio. Este acordo havido, souberam como o Conde João Fernandes partia de Castela e vinha já para Portugal, e RodriguEanes se partiu logo, e foi por Alcobaça a caminho de Leiria, por onde se dizia que o Conde João Fernandes vinha, mas ele trouxe o caminho do Espinhal (provavelmente por Penela), e assim o evitou dessa vez e escapou da morte.
3. COMO ELREI MANDAVA MATAR O CONDE JOÃO FERNANDES, E PORQUE SE O DEIXOU DE FAZER.
Não parece coisa indigna se algum que ler ou ouvir esta história fizer a pergunta – pois que há tanto havia que era a fama, e largamente publicitada, entre a Rainha e o Conde João Fernandes – se elRei tinha disto alguma suspeita? Ou se sabia de tal fama alguma coisa? A esses responde-se desta guisa. Certo é que entre as condições que do amor escrevem aqueles que dele compridamente falaram e foram criados em sua corte uma é que, por muito que encobrir queira o que ama, não se pode tanto ter que por alguns sinais e falas e outros demonstradores jeitos não dê a entender aquele ardente desejo que na sua vontade continuadamente mora. E quando os homens vêem desacostumadas afeições e prestanças onde não há tal divedo (parentesco) que a má fama embargar possa, ligeiramente têm presunção do erro em que tais pessoas podem cair. E, portanto, vendo elRei dom Fernando os muitos modos pelos quais a Rainha mostrava desordenada afeição e bem querença ao Conde João Fernandes, e o grande acrescentamento que lhe procurava por qualquer guisa que podia, bem certificou em seu pensamento ser verdade o que as gentes presumiam, se bem que da pública voz e fama que a Rainha havia com o Conde ele nenhuma parte soubesse, nem era algum ousado de tal cousa lhe dizer, ainda que de sua desonra com desejo se doesse, receando receber pena por galardão e mortal ódio por amizade, como já a alguns aconteceu por tais novas recontarem, mormente aos Reis e grandes senhores. De modo que elRei dom Fernando bem entendia o que era, mas nenhuma coisa dava a entender, receando descobrir novamente com dúvida aquilo que a pública voz e fama muito tempo havia que afirmava. E quando a Rainha levou sua filha a Elvas para lhe fazer as bodas com elRei de Castela, e elRei dom Fernando mandou que o trouxessem de Salvaterra para Almada, cuidou elRei de o matar por esta guisa. Mandou ao seu Escrivão da Puridade que fizesse uma carta para o Mestre de Avis, seu irmão, em que lhe mandava e encomendava que, vista aquela carta, tivesse jeito de matar o Conde João Fernandes, não dizendo porém a razão porquê; e por ela mandava a Gonçalo Mendes de Vasconcelos, Alcaide-mor de Coimbra, que ordenasse de guisa que o Mestre seu irmão fosse recebido na cidade, e lhe entregasse a fortaleza do castelo, e que lhe quitava a menagem dela uma e duas e três vezes. O Escrivão fez a carta entendendo bem para o que era, e dizem alguns que foi João Gonçalves, e quando foi feita tornou a elRei e disse: Senhor, vós mandastes fazer esta carta, resumindo-lha quejando ela era, por isso, Senhor, se vós esta coisa bem esguardar (considerar atentamente) quiserdes, a Vossa Mercê há-de entender que por nenhuma guisa a deveis de mandar, pelo grande dano que daí se seguir pode. Vós, Senhor, vedes bem como o Mestre vosso irmão é benquisto de todos os do reino, e se ele tivesse Coimbra falecendo vós, o que Deus não mande, juntar-se-iam a ele todas as gentes e ficaria ele por rei desta terra, e vossa filha ficaria assim deserdada, de guisa que nem ela nem filho que de seu marido houvesse, o que seria coisa inaudita, os poderia (ao reino, à terra, às gentes) jamais recobrar. E por isso me parece, se de vossa mercê for, que tal mandado deveis de escusar por ora, e se do Conde João Fernandes haveis tal queixume para que de vós isto haja merecido, bem tereis depois tempo de o mandar matar, cada vez que o quiserdes, por outra maneira e não desta guisa. A elRei, cuidando neste feito, pareceram-lhe as razões boas, e rompeu a carta e esta não foi enviada, e assim escapou o Conde João Fernandes de ser morto. E depois disto, sendo elRei dom Fernando doente e muito afligido daquela dor de que morreu, ao serão da noite em que se finou estava ali o Conde João Fernandes entre aqueles que eram presentes. E quando viu que não havia para ele (o rei) outro remédio senão a morte, receando-se muito de o que tinha feito lhe ser acoimado por algum, houve naquela hora tão grande temor que esse medo lhe foi assim como um degredo que logo o fez sair da câmara para se ir à pressa para o seu condado. E em saindo pela porta, um escudeiro do Conde dom João Afonso, chamado por nome PedrEanes Lobato, sabendo como ele o quisera matar em Rio Maior, como dissemos, disse ao Conde se queria que então o matasse, pois via o tempo azado para o fazer a seu salvo, e o Conde de Barcelos, ainda que desejasse muito de o ver morto, defendeu-lhe que o não fizesse. E assim escapou o Conde naquele serão, porque parecia que ainda não viera a sua hora.
4. COMO O CONDE JOÃO FERNANDES HOUVERA DE SER MORTO E PORQUE AZO SE DESVIOU SUA MORTE.
Houvera ainda o Conde de ser morto noutra vez, e vede de que guisa se azava isto de ser. Assim é que escrevendo a Rainha a todos os fidalgos do reino para que viessem ao saimento do mês que se fazia por elRei dom Fernando, mandou o seu recado a NunÁlvares que estava Entre Douro e Minho com sua mulher, para que viesse àquele saimento. NunÁlvares, muito anojado (desgostoso) pela morte delRei, sem pôr mais tardança se fez logo prestes, com trinta escudeiros bem corregidos (equipados) de suas armas, e certos homens de pé com eles, e nenhum outro veio ao trintário corregido com gentes senão ele, e assim chegou a Lisboa onde o saimento havia de ser. Feitas as suas exéquias e acabado tudo, foi um dia NunÁlvares ver o Prior dom PedrÁlvares, seu irmão, e depois que lhe falou e espaçou (conviveu) um pouco com alguns fidalgos que ali estavam, apartou-se sozinho pelo Paço, a cuidar o que havia de ser do reino que assim ficava deserto e quem o havia de defender dalguns que contra ele quisessem vir, mormente que se dizia que elRei de Castela prendera o Infante dom João e o Conde dom Afonso, seu irmão, quando soubera que elRei dom Fernando era morto, e que juntava gentes para entrar poderosamente no reino. E cuidando nisto, certificou-se no seu pensamento que não havia outrem que mais direita razão tivesse de se pôr por defensão do reino que o Mestre de Avis, filho de elRei dom Pedro, o qual ele sabia que era bom cavaleiro, e do qual tinha grão conhecimento havia tempo, e logo veio a cuidar que o começo de tal obra havia de ser o Conde João Fernandes dAndeiro ser morto, Conde este no qual a Rainha havia grande esperança. E andando aceso neste cuidado, olhou pelo Paço e viu Rui Pereira, seu tio, que ali estava, e chegou-se a ele e contou-lhe tudo o que havia pensado a propósito da defensão do reino e de quem devia dele tomar carrego, e sobre a morte do Conde João Fernandes, declarando-lhe com certeza que nisto seria ele de boa vontade, querendo o Mestre em isto pôr mão. Rui Pereira, que já isto trazia em grande cuidado, ficou muito ledo do que lhe NunÁlvares dissera. E tanto lhe prouve que o não pôde mais conter e foi-se logo ao Mestre fazer-lhe recontamento de tudo. O Mestre, sendo disto ledo, mandou logo chamar NunÁlvares agradecendo-lhe muito o que com Rui Pereira falara; mas no entanto disse o Mestre contra Rui Pereira: A mim parece que já não ouço agora as gentes murmurar tanto dos feitos da Rainha, nem falar nisto como soíam. Ó Senhor! – disse Rui Pereira – Pois vós não sabeis como isto é? Quando eu andava para casar com a minha mulher todos falavam como eu queria casar com Violante Lopes, e depois que fomos casados nunca mais ninguém falou do nosso casamento. E estes, Senhor, tais são, usaram tanto de sua maldade e por tanto tempo que já todos os hão por casados, e por isso não falam já deles como primeiramente. O Mestre começou por rir disto e encomendou a NunÁlvares que logo se trabalhasse de haver da sua parte as mais gentes que pudesse, para em outro dia ser morto o Conde João Fernandes, da qual coisa a NunÁlvares muito prouve, e logo se partiu do Mestre para a sua pousada, para se avisar e concertar do que a tal feito pertencia. E corregendo-se para isto com grande aguça (diligência), mandou-lhe o Mestre dizer que cessasse do que lhe dissera, que se não podia por então fazer. NunÁlvares foi disto muito anojado, por se pôr maior espaço em tal obra, e tornou-se ao Mestre falando-lhe muitas e boas razões sobre isto para o reduzir (convencer) a fazer-se logo, e vendo que não podia, despediu-se dele e foi-se após o Prior seu irmão, que já era partido a caminho de Santarém, e alcançou-o em Ponteval, onde esteve mui poucos dias. E desta guisa se desviou a morte do Conde João Fernandes desta vez e das outras, porque, como já dissemos, parecia que ainda não viera a sua hora.
5. COMO SE AZOU A MORTE DO CONDE JOÃO FERNANDES, E QUEM FALOU NISSO PRIMEIRO.
Soem às vezes haver começo por certas pessoas os altos feitos dos quais o azo nenhum povo comum poderia pensar que delas viesse. Ora assim aveio que em Lisboa havia um cidadão chamado de seu nome Álvoro Pais, homem honrado de boa fazenda e que fora Chanceler mor delRei dom Pedro e depois delRei dom Fernando. Este, vivendo em casa delRei e sendo muito doente de gota, veio a pedir a elRei por mercê que desse aquele ofício a quem de sua mercê fosse, e o aposentasse em Lisboa onde tinha suas casas e assentamento. Sua maleita não era porém tamanha quanto o foi o grande nojo (desgosto) que, por azo da desonra delRei, devido à má fama que a Rainha havia, se gerava em seu coração; e foi assim que elRei o aposentou honradamente em Lisboa. E a seu requerimento mandou aos Vereadores da cidade que nenhuma coisa fizessem sem o acordo dele, razão pela qual algumas vezes iam a sua casa ter conselho sobre o que haviam de fazer, quando ele por causa da sua enfermidade na câmara onde faziam seu conselho não podia ser presente. A natureza que força os homens a usar das condições que com eles nasceram constrangeu este Álvoro Pais de tal guisa que, não perdendo rancor e ódio pela desonra que a elRei seu Senhor fora feita, nenhuma coisa então mais desejava que ver o Conde João Fernandes morto, visto que o não fora em vida delRei dom Fernando. E parecendo-lhe o tempo ser azado para razoar nisto, falou secretamente com o Conde de Barcelos dom João Afonso, irmão da Rainha, que sabia bem que queria mal ao Conde João Fernandes por esta razão, e disse: Senhor, vós sabeis bem como eu sou criado delRei dom Fernando, cuja alma Deus haja, e a honra e acrescentamento que ele em mim fez, por a qual coisa eu e quaisquer criados que seus sejam se deviam muito doer de sua desonra, e vingá-la por onde quer que pudessem, posto que ele já morto seja, mormente aqueles que têm tal honra e estado que com facilidade o podem fazer. Ora, Senhor, vós sabeis bem há quanto tempo é que as gentes falam da má fama que a Rainha vossa irmã há com o Conde João Fernandes; e isto não somente em vida delRei, pois ainda agora a sua má fama não cessa, nem cessará enquanto este homem for vivo; e sendo morto, cessaria com o tempo e as coisas esqueceriam. Razão pela qual todos os bons se deviam doer de tal coisa, mormente vós que sois seu irmão: à uma pelas muitas mercês e grande acrescentamento que elRei em vós fez; à outra por ser vossa irmã e, desonrando-se a si, desonra-vos a vós e a toda a sua linhagem. E ainda que eu saiba que vós isto entendeis e que já lhe quisestes pôr mão, curei no entanto de vo-lo dizer. E vós podeis a tal tornar, como vossa mercê for, mas por mim vos digo que sendo eu quem vós sois, e podendo fazer como vós, desde há muito que eu não teria deixado passar tal coisa, pondo-me à ventura que Deus me dar quisesse. O Conde disse que bem sabia de tudo e que lhe agradecia a sua boa vontade, e que já tempo fora que houvera talante (vontade) de o pôr em obra, mas que por então não via jeito azado de o poder fazer. E falando eles nisto muito, disse o conde: Álvoro Pais, sabeis com quem me parece que é bom que faleis esta coisa? Falai-o com o Mestre de Avis, que tem tamanha razão de se doer da desonra delRei como eu, e não vejo aqui homem mais azado que ele para fazer isto e para travar em qualquer ardideza que lhe à mão vier. Muito me prazeria, disse Álvoro Pais, de o falar com ele, e com qualquer outro que eu entendesse que o poria em obra, mas quando vós, que tantos azos tendes mais que nenhum outro, o não quereis fazer, duvido muito de o ele ou outrem querer fazer. Eu direi ao Mestre, disse o Conde, que vós lhe quereis falar uma coisa de sua honra, e que porquanto vós sois embargado pela dor e não podeis ali ir, que quando cavalgar pela vila venha por aqui e vos fale, e dele bem creio que o queira fazer. Neste acordo ficaram e despediu-se o conde, e quedou Álvoro Pais com novo cuidado para falar ao Mestre.
6. COMO ÁLVORO PAIS FALOU COM O MESTRE SOBRE A MORTE DO CONDE JOÃO FERNANDES E DO ACORDO EM QUE AMBOS FICARAM.
Falou o Conde ao Mestre de Avis, dizendo-lhe como Álvoro Pais havia de falar com ele dalgumas coisas de sua honra e serviço, e que o fosse ver quando cavalgasse pela vila, porquanto por azo da sua doença não podia ir aonde ele pousava. O Mestre, para saber o que era, não tardou muito de ir ali, e foi-lhe falar à sua pousada. E sendo ambos em lugar apartado, começou Álvoro Pais a razoar tudo o que dissera ao Conde de Barcelos, e a resposta de escusa que nele achara; e que depois viera a cuidar que nenhum outro havia no reino que mais razões tivesse para o fazer que ele. Primeiramente, disse Álvoro Pais, por vós serdes irmão delRei, a que a sua desonra mais deve doer que a nenhum outro. A segunda porque fostes por azo dele e da Rainha preso (Crónica de D. Fernando), e posto em tal perigo como todos sabem; e que por mais não fosse do que para segurar a vossa vida, que nunca há-de ser segura enquanto o Conde João Fernandes for vivo, por isto somente o devíeis fazer, pois que agora que elRei é morto ainda mais usarão de sua maldade. E receando-se de vós, porque bem sabem que disto deveis ter maior sentido que nenhuma outra pessoa, sempre vos buscarão azo e caminho por onde vossa vida seja cedo finda; e pois que vingança deste feito a nenhum outro mais pertence do que a vós, fazendo-o da guisa que eu vos digo, praticareis em tal grande façanha e muito de lembrar aos que depois vierem, em tanto que nenhuma coisa de louvor entre os homens seria agora achada que fosse igual nem parelha desta. O Mestre ouvindo as suas boas e muitas razões, com a grande vontade que disto havia, bem outorgava de o fazer, mas faziam-se-lhe presentes tais e tão grandes dúvidas que todos os caminhos para o pôr em obra eram para ele escurecidos com grandes empachos, dizendo em especial o Mestre que quem a tal feito se houvesse de aventurar, mormente dentro da cidade, necessitava de ter alguma ajuda do povo, por causa do cajão (desaire) que se receber podia. Álvoro Pais, com o desejo que havia, mostrava ao Mestre serem todas as razões para isto acabar tão ligeiras como se tratasse dum pequeno feito. E quanto à ajuda do povo em que o Mestre muito falou, respondeu-lhe e disse que se ele o fazer quisesse lhe oferecia a cidade em sua ajuda, entendendo de o assim conseguir. O Mestre, cobiçoso de honra, por sua ardente natureza e grande coração, movido pelos ditos dele, determinou de o pôr em obra. O homem bom, quando lhe ouviu dizer que sempre queria pôr mão em tal feito, ficou tão contente que mais ser não podia; e assim como chorando com prazer se afastou dele um pouco, olhando-o, e disse: E é isto verdade, filho, Senhor, que vós tão boa coisa como aquesta quereis fazer? Certamente, disse o Mestre, sim. E que o não deixaria de acabar por coisa que avir pudesse. Então se chegou a ele Álvoro Pais e beijou-o no rosto dizendo: Agora vejo eu, filho, Senhor, a diferença que há dos filhos dos reis aos outros homens. Começaram então de falar muito sobre como melhor se podia azar a sua morte e por que guisa. E depois de grande espaço em que nisto estiveram falando, despediu-se o Mestre, e foi-se para a sua pousada.
7. COMO O CONDE JOÃO FERNANDES VEIO AO SAIMENTO DELREI, E O MESTRE FOI ORDENADO POR FRONTEIRO EM RIBA DODIANA.
Posto que dissemos do Conde João Fernandes que partira, na noite em que elRei se finou, muito trigoso (apressado) para o seu condado, receando-se naquela hora de receber dano pelo que tinha feito, bem podem alguns neste ponto dizer como é que depois foi ousado, quando de alguns tanto se receava, de vir ao saimento onde se juntaram muitos mais senhores e fidalgos do que aqueles que estavam presentes quando elRei morreu, pois que muito poucos eram em Lisboa naquela sazão (ocasião) em que ele se finou, porque quando vieram com a Rainha das bodas, um a um se foram para suas terras e alcaidarias, assim como Gonçalo Vasques dAzevedo para Santarém, onde era alcaide e tinha seus bens, e como ele outros muitos. Agora sabei que assim aconteceu que ele receando-se e com temor regressara, e quando a Rainha escreveu a todos os fidalgos que viessem ao saimento, e chegou a carta ao Conde João Fernandes, sua mulher lhe contradisse muito tal vinda, pedindo-lhe por mercê que se escusasse, que o não entendia de ser para seu proveito. E ele não curando do seu conselho partiu para Lisboa e chegou a Santarém, e foi pousar com Gonçalo Vasques dAzevedo, muito seu amigo segundo mostranças de fora (nas aparências), o qual o recebeu muito bem e começou de o prasmar (censurar) porque trazia preto e não burel, como os outros, e lho fez então vestir. O Conde perguntou-lhe se havia de ir ao saimento e ele respondeu que não, dando suas disfarçadas escusas; mas a verdade era que ele suspeitava o que depois aconteceu e não se queria ver em tal alvoroço, por não saber o que se havia de seguir, e por isso aconselhou-o a que não fosse lá. O Conde, se bem que se receasse de várias pessoas, de nenhum se tanto temia em seu ânimo como do Mestre de Avis, irmão delRei, contudo este receio que tinha do Mestre e dos outros não gerava nele por isso privança de fala, mas leda conversação e mostrança de bem-querer. E se alguma coisa ele se receava em vida delRei dom Fernando, e muito mais quando ele morreu, agora já ia cobrando mais seguro ânimo, entendendo que cada um em tal feito perderia o sentido por os muitos cuidados que se recresciam a todos, começando-se então mundo novo. E com esta afoiteza partiu entonces de Santarém, não crendo que nada contrário lhe pudesse avir, e ademais também a fortuna lho fazia mais largo entender assim, posto que tinha já ordenado de o cedo oferecer à morte, e chegou a Lisboa onde já achou muitos que vinham ao saimento. E bem recebido de todos, foi em grande privança e gasalhado da Rainha, desembargando esta com ele todos os desembargos do reino. E como o saimento foi feito, entrou logo a Rainha em conselho com os senhores para se falar nos tratos que entre os Reis havia, os quais se dizia que elRei de Castela queria quebrar, e que juntava gentes para entrar no reino. Foi acordado pela Rainha e por todos os que ali eram que o reino se defendesse, querendo elRei de Castela a ele vir, e que não lhe obedecessem de outra guisa salvo naquelas que nos tratos eram contidas, e pois que todos ali eram juntos, que ordenassem logo as frontarias e quais estariam nelas, e com quantas lanças cada um, e assim foi feito, pois que logo foram repartidas as comarcas. E foi ordenado ao Mestre defender as terras do Mestrado e certas vilas e castelos em redor, dando-lhe logo em escrito todos os que com ele as haviam de guardar e o desembargo do soldo para eles.
8. COMO FOI ORDENADA A MORTE DO CONDE JOÃO FERNANDES, E COMO O MESTRE PARTIU DE LISBOA NÃO LEVANDO TENÇÃO DE O MATAR.
Buscadas as razões dos que fizeram livros desta história pelo testemunho daqueles que foram presentes, segundo todos pela maior parte dizem, o Mestre, depois que teve acordado com Álvoro Pais de matar o conde João Fernandes, logo falou deste segredo com o Conde de Barcelos dom João Afonso e com Rui Pereira e outros, os quais lhe certificaram que seriam prestes com ele quando nisto quisesse pôr mão. E enquanto a Rainha ordenava suas coisas sobre o regimento e preparativos no reino, em que o Mestre para tal sempre estava presente, ia ele muitas vezes a casa de Álvoro Pais, algumas vezes com o Conde e outras à parte, falar com ele sobre a morte do Conde João Fernandes, e em especial de como se poderia haver pela sua parte a ajuda do povo. Álvoro Pais, muito desejoso de ver tal feito acabado, entretanto certificava-lhe que sim; não que ele descobrisse a ninguém tal segredo, mas porque considerava como certo que a não boa vontade que as gentes tinham à Rainha e ao Conde os faria a todos mover contra eles mal vissem lugar e tempo azado. E acordaram que para tudo se melhor fazer, logo que o Mestre chegasse aos paços e começasse nisto a pôr mão, que também logo Gomes Freire, seu pajem, encima do cavalo em que andava, começasse de vir rijo pela vila e bradando até casa de Álvoro Pais, dizendo em altas vozes que acorressem ao Mestre de Avis, que o matavam. E que então sairia ele (Álvaro Pais) com os seus em maneira de acorro, chamando quantos achasse pela rua, os quais se iriam com ele de boa mente como ouvissem tal apelido (o do Mestre), e que desta guisa se juntaria toda a cidade em sua ajuda. Falado o caso desta maneira e acordado de assim se fazer, foi o Mestre desembargado de todo, dando-se-lhe as cartas consoante cumpria, e despedido da Rainha para partir. Ora aqui desvairam alguns autores sobre a partida do Mestre, e dizem assim: uns contam que ele fingiu que se partia naquele dia, como efectivamente partiu, para o Conde João Fernandes se segurar mais dele, se algum receio tinha, e o Mestre tornar no outro dia e o achar mais desapercebido e não tão acompanhado, e para que entretanto Álvoro Pais se preparasse por sua parte. Outros afirmam a sua partida por outro modo, e deste nos praz mais, dizendo que não embargando que o Mestre ficasse com Álvoro Pais de pôr em tal feito mão da guisa que ouvistes, depois ele receava muito de o fazer, por estas seguintes razões. À uma porque tais aí houve com quem ele falou que se escusaram disto, quando o houve de pôr em obra, temendo-se que a Rainha, que tinha elRei de Castela por sua parte, lhe pudesse depois azar sua desonra e morte; a excepção foi Rui Pereira e alguns que eram do Mestre, a quem ele isto descobrira. Depois, duvidando muito o Mestre da ajuda do povo não se seguir como dizia Álvoro Pais ou de vir a tempo que não prestasse, era posto em grande cisma; contudo a principal razão sobre todas era o grande aguardamento de muitos e bons fidalgos que sempre acompanhavam com o Conde João Fernandes, tais como Martim Gonçalves dAtaíde e João Afonso Pimentel, e Pêro Rodrigues daFonseca e FernandAfonso de Miranda e outros, e bem trinta escudeiros de cote. Assim que cuidadas bem tais razões, não obstante seu ardido coração e boa vontade, foi-lhe muito duvidoso de começar tal feito. E partiu da cidade depois de comer e foi dormir a Santo António, uma aldeia que são daí três léguas, não levando já nenhuma tenção de matar o Conde. Ali ele voltou a cuidar que, como esta coisa já fora falada com tantos, porventura nessa hora ou mais tarde alguns, para cobrar as boas graças da Rainha, e também as do Conde João Fernandes, o podiam dizer a qualquer um deles, e que sendo esta coisa descoberta se seguia para ele e para os seus grande desastre e perda, bem como para todos os que estavam em tal conselho. E, cuidando bem nisto, começou a crescer nele um esforçado desejo e firme propósito de no outro dia matar o Conde, arriscando-se a qualquer ventura que pudesse acontecer. E, para evitar suspeitas sobre o seu regresso, chamou logo FernandÁlvares dAlmeida, um cavaleiro da Ordem e Vedor de sua casa, e disse-lhe: Tornai-vos logo a dormir a Lisboa, e fazei-me amanhã prestes o jantar, e dizei à Rainha que eu entendo de lá tornar porque me parece que não vou desembargado como cumpre. E este partiu de imediato e chegou alto serão à cidade, e, por isso, ainda falou à Rainha e ao Conde daquilo a que vinha e como no outro dia o Mestre havia de tornar porque lhe parecia que não ia desembargado como cumpria. A Rainha e o Conde responderam que tornasse muito em boa hora, que ele haveria desembargo tão cedo como chegasse.
9. COMO O MESTRE TORNOU A LISBOA, E DE QUE GUISA MATOU O CONDE JOÃO FERNANDES.
Ao outro dia pela manhã partiu o Mestre daquela aldeia onde dormira, e começou a andar o seu caminho sem trigança (pressa) alguma desacostumada, e no caminho dizem que descobriu o Mestre esta coisa a alguns dos seus, convém a saber: ao Comendador de Jurumenha, e a FernandÁlvares, e a Lourenço Martins de Leiria, e a Vasco Lourenço, que depois foi Meirinho, e a Lopo Vasques, que depois foi Comendador mor, e a Rui Pereira, que o foi receber. E disse a um deles: Ide-vos diante quanto puderdes e dizei a Álvoro Pais que se faça prestes, porque eu vou para fazer aquilo que ele sabe. O Escudeiro andou depressa e deu-lhe o recado, e voltou para onde vinha o Mestre. E este trazia uma cota vestida e até vinte consigo com cotas e braçais e espadas cintas como homens caminheiros, e chegou ao Paço à hora de terça ou pouco mais, sem se deter portanto em outra parte. E quando descavalgou e começaram de subir acima disseram uns aos outros muito manso: Sede todos prestes que o Mestre quer matar o Conde João Fernandes. A Rainha estava na sua câmara, com algumas Donas assentadas no estrado, e o Conde de Barcelos, seu irmão, e o conde dom Álvoro Peres, e FernandAfonso de Samora, e Vasco Peres de Camões e outros estavam num banco; e o Conde João Fernandes, que antes estivera à cabeceira deles, estava então diante dela e começava de lhe falar em voz baixa. E em lhe estando assim falando bateram à porta, e o Porteiro, como o Mestre entrou, quis cerrar a porta para que não entrasse nenhum dos seus e disse que o ia perguntar à Rainha, não por deles haver nenhuma suspeita mas porque a Rainha estava de luto e não era costume ninguém entrar, salvo aqueles senhores, sem lho primeiro fazer saber. E o Mestre respondeu ao Porteiro: Que hás tu assim de dizer? E nisto entrou de guisa que entraram todos os seus com ele, e ele moveu-se mansamente para onde estava a Rainha, e ela levantou-se, bem como todos os outros que eram presentes. E depois que o Mestre fez reverença à Rainha e mesura a todos os outros, e estes a ele recebimento, disse a Rainha que se assentassem, e falou ao Mestre, dizendo: E, pois, irmão, que é isto a que tornastes de vosso caminho? Tornei, Senhora, disse ele, porque me pareceu que não ia desembargado como cumpria. Vós ordenastes-me que tivesse carrego da comarca dEntre Tejo e Odiana, se porventura elRei de Castela quisesse vir ao Reno e quebrar os tratos entre vós e ele, e porque aquela fronteira é grossa de gentes e grandes senhores, assim como do Mestre de Santiago e do Mestre de Alcântara e doutros e bons fidalgos, e aqueles que vós assinastes para a guardarem comigo parecem-me poucos, por isso voltei para me dardes mais vassalos, para vos eu poder servir como cumpre à minha honra e a vosso serviço. A Rainha disse que era muito bem e mandou logo chamar João Gonçalves, seu Escrivão da Puridade, para que visse o livro dos vassalos daquela comarca e lhe desse quantos e quais o Mestre requeresse, de modo a que este logo fosse desembargado de todo. João Gonçalves foi chamado à pressa e foi-se assentar com os seus escrivães a prover dos livros para desembargar o Mestre. Nisto começaram os Condes a convidá-lo cada um por si, e igualmente o Conde João Fernandes, que se afincava mais do que os outros para que com ele comesse. O Mestre não quis tomar convite de nenhum, escusando-se por suas palavras e dizendo que já tinha prestes o comer que mandara fazer ao seu Vedor, contudo dizem que disse muito escondidamente ao Conde de Barcelos, que mais ninguém o ouviu: Conde, ide-vos daqui, que eu quero matar o Conde João Fernandes. E que este respondeu que se não iria, mas que ficaria ali com ele para o ajudar. Não fiqueis, disse o Mestre, mas rogo-vos todavia que vos vades daqui e me aguardeis para o jantar, porque eu, Deus querendo, mal que isto for feito logo irei comer convosco. A ventura, para melhor azar a morte do Conde João Fernandes, começou de lhe fazer temer a vinda do Mestre, por tal guisa que lhe pôs na vontade que mandasse a todos os seus que se fossem armar e se viessem para ele, e, de qualquer jeito que fosse, partiram-se os seus todos do Paço, tanto os fidalgos que o acompanhavam como os outros, e foram-se armar para se virem para ele, e esta foi a razão porque ele ficou sozinho de todos eles, e nenhum lá estava quando morreu. A Rainha também pôs cuidado nos do Mestre, e vendo-os assim todos armados não lhe prouve em seu coração, e disse falando contra todos: Santa Maria vale! Como os ingleses hão muito bom costume, que quando são no tempo da paz não trazem arma, nem curam de andar armados, mas boas roupas e luvas na mão como donzelas, e quando são na guerra então costumam trazer as armas, e usam delas como toda a gente sabe. Senhora, disse o Mestre, é mui grande verdade. Mas isso fazem eles porque hão muito amiúde guerras e poucas vezes paz, e podem-no muito bem fazer, mas para nós é ao contrário, porque havemos muito amiúde paz e poucas vezes guerra, e se no tempo da paz não usássemos as armas não as poderíamos suportar quando viesse a guerra. E, falando nisto e em outras coisas, chegavam-se as horas do comer, e o Conde de Barcelos despediu-se, e depois os outros, que aos mais deles dava a vontade daquilo que se depois fez. Ficando assim o Conde João Fernandes, consumia-se-lhe o coração, e tornou a dizer ao Mestre: Senhor, vós todavia comereis comigo. Não comerei, disse o Mestre, que tenho feito de comer. Sim comereis, disse ele, e enquanto vós falais irei eu mandar fazê-lo prestes. Não vades, disse o Mestre, porque vos hei-de falar uma coisa antes que me vá, e logo me quero ir, que já são horas de comer. Então despediu-se da Rainha e tomou o Conde pela mão, e saíram ambos da câmara para uma grande casa que era adiante, e os do Mestre todos com ele e Rui Pereira e Lourenço Martins mais de cerca. E chegando-se o Mestre com o Conde junto duma fresta, sentiram os seus que o Mestre lhe começava a falar baixo e ficaram todos quedos. E as palavras entre eles foram tão poucas e ditas tão baixo que mais ninguém por então entendeu quejandas eram, todavia afirmam que foram desta guisa: Conde, eu me maravilho muito de vós serdes homem a quem eu queria bem e de vos trabalhardes de minha desonra e morte. Eu, senhor! – disse ele – Quem vos tal coisa disse mentiu-vos mui grande mentira. O Mestre, que mais vontade tinha de o matar que de estar com ele em razões, tirou logo um cutelo comprido e enviou-lhe um golpe à cabeça, mas não era a ferida tamanha que dela morresse se mais não houvera. Os outros que estavam em redor, quando isto viram, puxaram logo das espadas para lhe dar, e movendo-se ele para se acolher à câmara da Rainha com aquela ferida, Rui Pereira que estava mais perto varou-o com um estoque de armas, do que logo caiu morto por terra. Os outros quiseram-lhe dar mais golpes, mas o Mestre disse que estivessem quedos, e ninguém foi ousado de lhe dar mais, e mandou logo a FernandÁlvares e Lourenço Martins que fossem cerrar as portas para que ninguém entrasse, e que dissessem ao seu Pajem que fosse a correr pela vila bradando que matavam o Mestre, e eles assim o fizeram. E era o Mestre, quando matou o Conde, com idade de vinte e cinco anos e andava nos vinte e seis; e este foi morto a seis de Dezembro na era já escrita de quatrocentos e vinte e um (1383).
10. DO QUE A RAINHA DISSE PELA MORTE DO CONDE E DOUTRAS COISAS QUE AÍ AVIERAM.
Deixemos o pajem ir aonde lhe mandaram e vejamos entretanto o que se fez no Paço da Rainha. Ora o que se passou foi que o estrépito e a volta que todos fizeram quando o Conde foi morto soaram rijamente na câmara onde ela estava, que era muito perto, e tais aí houve que pensaram que eram alguns que não tinham vindo ao saimento e que chegavam agora e faziam o seu dó. A Rainha, espantada da volta que ouvia, pôs-se em pé e não sabia o que pensar, e disse que vissem o que era aquilo, e os outros à pressa olharam por entre as portas e disseram que o Conde João Fernandes era morto. A Rainha quando isto ouviu sentiu grande temor, mas todavia disse: Ó Santa Maria vale! Que me mataram nele um muito bom servidor, e morre mártir, pois que o mataram muito sem porquê, mas eu prometo a Deus que me vou amanhã a São Francisco e que mandarei ali fazer uma grande fogueira, e eu farei tais salvas como nunca mulher fez por tais coisas. O que ela tinha muito pouco em vontade de fazer. Os outros que aí estavam, tanto homens como mulheres, quando isto viram, cuidando naquela hora ser todos mortos, não ousavam sair pelas portas mas fugiam pelas janelas e alguns deles pelos telhados, outros por degraus não contados, e assim cada um por onde melhor podia. Quanto a João Gonçalves, escrivão da Rainha, que estava vendo o livro dos vassalos, quando isto viu ele e os seus começaram de fugir, cada um por onde melhor azo achava. O Mestre saiu dali para um grande eirado, logo muito cerca, e a Rainha começou a dizer: Vão perguntar ao Mestre se hei eu de morrer. E foram-lho perguntar muito a medo, e ele respondeu muito mansamente: Dizei à Rainha minha Senhora, que Deus me guarde de mal, que assossegue em sua câmara e não haja nenhum temor, que eu não vim aqui para empecer a ela mas para fazer isto a este homem, que mo tinha bem merecido. E tornaram-se-lhe com esta resposta e ela disse: Pois se assim é dizei-lhe que desembargue os meus Paços, que ela não via a hora em que se o Mestre partisse, porque não era segura de sua vida enquanto ele ali estivesse. Nisto, tornando Lourenço Martins donde fora ajudar a cerrar as portas, viu que estava uma soma de prata numa mesa diante da cozinha, e, tomando-a toda, lançou-a na aba e levou-a ao Mestre, dizendo: Digo, Senhor, que já vós aqui tendes para a despesa de hoje. O Mestre respondeu-lhe asperamente que tornasse a pôr a prata onde a achara, porque ele não viera ali para aquilo mas para fazer o que tinha feito, e Lourenço Martins assim fez. Os fidalgos que acompanhavam o Conde e os que com ele viviam, não sabendo do que o Mestre tinha feito, vinham já todos armados para o Paço da Rainha; e vindo muito cerca deles o torvelinho da gente que já fervia pelas ruas, alguns que saíram de dentro lhes disseram que não fossem lá porque o Conde era já morto e as portas cerradas, e que eram tantas as gentes que vinham contra os Paços, segundo diziam, que se lá fossem jamais nenhum deles escaparia, e veriam de si muito mau pesar. Tornaram-se então para donde vieram, e cada um trabalhou de se pôr a salvo, receando-se de que todos os que eram da parte da Rainha e do Conde fossem mortos naquela hora.
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| Actualizado em ( 16-Ago-2009 ) |
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