Crónica de D. João I, de Fernão Lopes
Capítulo III - Quem era Nuno Álvares | Capítulo III - Quem era Nuno Álvares |
| Escrito por Fernão Lopes | |
| 16-Ago-2009 | |
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QUEM ERA NUNO ÁLVARES PEREIRA.
A divisão em grandes capítulos numerada em romano é apócrifa, tal como os respectivos títulos, e foi introduzida pelo «O Espaço da História».
31. RAZÕES DO AUTOR DESTA OBRA ANTES QUE FALE DOS FEITOS DE NUNO ÁLVARES.
Escrevendo neste passo, sem constranger ninguém a que ouça, entendemos ter nos feitos deste homem o mesmo modo que têm alguns pregadores quando dentro do sermão enxertam a vida daquele de que pregam e, no fim dele, concluem seu tema. E, posto que nós já falássemos algumas coisas deste NunÁlvares, os seus gloriosos feitos adiante escritos convém que despertem perguntar a alguns (certamente levarão alguns a perguntar) donde veio a sua linhagem e qual foi seu primeiro começo, contudo, deixando um pouco de prosseguir a nossa ordenação, antes que isto em breve ponhamos e a modos de prólogo que ele bem merece, primeiramente dizemos assim. Porque a experiência nos ensina que não há aí tal que nasça sem algumas condições desvairadas, e que a nossa natureza não pode estar em tanto assossego que algumas vezes não receba turvação, depois, porque o ter discreto modo nas vãs deleitações é coisa muito grave (difícil) de fazer, por tudo isto é havido por bom aquele que em continuada batalha vence assim os seus naturais desejos de modo a que nunca nele é achada míngua (falta) onde grande lugar haja a repreensão. E se tal vontade traz consigo honra, este de que queremos falar a merece muito grande, pois, por peleja nunca finda, não sem grande esforço e resistência, subjugou de tal guisa os vícios carnais que, repleto de fruto de grande proveito (de grandes e proveitosos frutos), o não podia ninguém prasmar (culpar) de míngua alguma que notável fosse. E caso pudéssemos largamente ordenar seus prudentes feitos, isso ser-nos-ia gratificante lembrança, e coisa mais doce do que fácil de fazer. Mas quem poderá contar dignamente os louvores deste virtuoso varão cujas obras e discretos actos, sendo todos postos em escrito, teriam de ocupar grande parte deste livro? Certamente que a nós fora singular prazer se em sua história pudéramos seguir a ordenação dos que ditam as coisas em vida daqueles a quem acontecem, descendo a louvar cada uma das bondades por si, pois que quaisquer umas das virtudes são merecedoras de seus pregões, mas agora, depois do seu passamento, mortos os mais dos que lhe foram companheiros, já de seus bons feitos mais gastar não podemos senão as escassas relíquias deles. E assim é que antes preferiríamos despender longo tempo em ler e ouvir suas proveitosas obras do que em breve espaço sermos ocupados em as recontar e pôr em ordenança, mormente porque fugir não podemos aos que em repreender tomam deleitação e têm por costume, ajustando a sua repreensão a todo o propósito e parte que querem, que nós não podemos coisa alguma dizer que eles não julguem como repreensível. Pois alguns sem limpo desejo podem dizer que nós o louvamos mais do que seus feitos merecem, mostrando ainda que, segundo dissemos, neste século não pode haver ninguém tal que de alguma míngua possa estar isento, agravando nele por isso algumas coisas leves, com grande encarrego de repreensão. Ou há tais que dirão, porventura, que seu louvor é menos do que deve, tendo os seus feitos em muito maior conta do que por nós serão recontados, prasmando-nos da ousada presunção de querer pôr em escrito aquilo que já como cumpre fazer não podemos. Outros quererão dar por conto tão boas coisas feitas por alguns de menos autoridade e honra, dando razões para os igualar a este de mais grande estado. Mas ainda que alguns fizessem grandes e famosos feitos, cujas bondades não entendemos de esquecer, nós no entanto não achámos aí ninguém tal que, crescendo duma virtude em outra por meio de não fatigada firmeza, nele concorressem tantas bem-aventuranças. Assim, dando lugar a estes (outros autores) cujo ofício sempre acha em que obre, pois em vida dele não foi coisa alguma escrita, nós, não sem penosos desejos e trabalhosa cuidação, sob uma brevidade de curto estilo entendemos de seguir seus excelentes actos, os quais, ainda que a alguns não prazam, outros com aguilhões de proveitosa inveja podem despertar a fazer semelhantes.
32. DE QUE LINHAGEM DESCENDEU ESTE NUNO ÁLVARES, E QUEM ERAM SEU PAI E SUA MÃE.
Considerar devemos, quanto à ordem dos mundanais factos, que a primeira coisa que há a saber deste homem é, pois, o começo da sua linhagem, e, por isso, antes que às suas bondades encomendemos com algum louvor, vejamos quem foram seu pai e sua mãe, e quais deles descenderam. Ora assim foi que em Portugal houve um bom e grande fidalgo, nobre de linhagem e condição, que havia por nome dom Gonçalo Pereira. Este era de grande casa e estado, acompanhado de muitos e bons parentes e servidores, muito grado (liberal) e prestador tanto aos seus como a estrangeiros, em guisa que de sua grandeza se acha escrito que um dia, estando em Pereira, deu sessenta cavalos a fidalgos que lhe eram chegados. Sua linhagem, donde ele antigamente descende, quem largamente a quiser ver busque no Livro das Linhagens dos Fidalgos no título vinte e um, parágrafo undécimo, e por ali o pode saber cumpridamente. Ele houve certos filhos de que dizer não curamos, salvo de um a que chamaram dom Gonçalo Pereira como seu pai, que foi Arcebispo de Braga e um dos grandes prelados que houve em Portugal. Este Arcebispo dom Gonçalo Pereira houve um filho a quem chamavam dom frei Álvoro Gonçalves Pereira, que foi Prior do Hospital, o qual foi muito honrado, abastado de riquezas e boas condições. Ele foi fora deste reino ao convento de Rodes, muito grandemente e bem guarnido assim de escudeiros como doutra gente, pois ele passou àquela terra com vinte e cinco a cavalo, e por galardão de seus bons feitos o proveu daquela dignidade o Grão-mestre. Ele fez na Ordem, depois que foi Prior, muitas boas coisas para acrescentamento dela, entre as quais o Castelo da Amieira, que é assaz forte e bem formoso, e os paços e assentamento de Bom Jardim a par da Sertã, que é boa obra e graciosa de ver, e a forte casa de Flor de Rosa, que é cerca do Crato, lugar defensável e bem obrado no qual edificou uma grande e devota igreja em honra de santa Maria. E para ser mais honrada ordenou dela nova comenda com abastança de bens, que lhe deu para viver mais honrado o comendador dela. Este foi privado de três Reis de Portugal, convém a saber: delRei dom Afonso, e delRei dom Pedro e delRei dom Fernando, dos quais foi amado por sua bondade, especialmente delRei dom Fernando. Este Prior dom Álvoro Gonçalves viveu longamente e houve entre filhos e filhas trinta e dois, um dos quais era dom Pedro Álvares, que depois de seu pai foi Prior do Hospital, e depois Mestre de Calatrava em Castela, e este era filha de uma mãe, e NunÁlvares era filho de outra mãe, que chamavam Eyrea Gonçalves, natural de Elvas, o qual nasceu no mês de Junho de trezentos e noventa e oito anos. E esta foi mui nobre dama quanto a Deus e ao mundo, vivendo em grande castidade e abstinência, fazendo muitas esmolas e grandes jejuns, não comendo carne nem bebendo vinho pelo espaço de quarenta anos.
33. COMO NUNO ÁLVARES FOI TRAZIDO À CORTE DELREI DOM FERNANDO, E COMO TOMOU AS PRIMEIRAS ARMAS DA MÃO DA RAINHA DONA LIONOR.
Este dom Álvoro Gonçalves Pereira, Prior, segundo contam alguns nos seus livros, tal como era sisudo e entendido assim dizem que era astrólogo e sabedor, e quando alguns filhos lhe nasciam trabalhava-se de ver as nascenças deles, e pela sua ciência entendeu que havia de ter um filho o qual seria sempre vencedor em todos os feitos de armas em que se acertasse, e que nunca havia de ser vencido. E dizem que sempre em sua vida dom Álvoro Gonçalves pensou que quem esta virtude havia de haver era seu filho Pedro Álvares, que depois da sua morte foi Prior, e em tal conta o tinha entre seus irmãos. Outros escrevem isto pelo contrário, e desta opinião nos praz mais, dizendo que em casa deste Prior dom Álvaro Gonçalves andava um grande letrado e mui profundo astrólogo a quem chamavam mestre Tomás. E por ele contam que soube o Prior que um dos seus filhos havia de ser vencedor de batalhas e que este era NunÁlvares Pereira. E isto mostra-se claramente ser assim, porque vindo dom Álvoro Gonçalves a casa delRei dom Fernando enderençar seus feitos, pediu a elRei que tomasse NunÁlvares por seu morador, a qual coisa, prazendo-lhe, elRei o outorgou de fazer, e o Prior partiu-se para as suas terras e ordenou de mandar o seu filho à corte, e antes que o mandasse, chamou Martim Gonçalves de Carvalhal, tio de NunÁlvares, irmão de sua mãe, e deu-lhe a jurar que uma coisa que lhe queria descobrir a nunca dissesse ao dito NunÁlvares, e prometido por ele de a guardar em segredo, então lhe disse o Prior como queria mandar o seu filho à corte, e a ele por seu aio, para o ensinar, e que por isso lhe rogava que tomasse carrego de o bem criar, que o fazia certo de que aquele seu filho havia de haver tão boas andanças que em todas as batalhas que entrasse sempre delas sairia vencedor, contanto que se chegasse a Deus em todas as suas obras e nenhuma coisa fizesse em seu desserviço. E ordenado assim desta guisa, partiu o Prior para a corte quando elRei houve guerra com elRei dom Henrique, e passou por Santarém e levou certas gentes consigo e também alguns dos seus filhos, entre os quais era este NunÁlvares, moço de treze anos (isto passa-se, portanto, no nosso ano de 1373) que ainda nunca tomara armas. E passando as gentes delRei de Castela para Lisboa, onde já o seu senhor estava, mandou o Prior a NunÁlvares, embora fosse moço, que cavalgassem ele e seu irmão DiegÁlvares, um bom cavaleiro da Ordem, com alguns da sua casa que mandou ir com eles, para ver que maneira levavam aquelas gentes. E indo eles para aquela parte por onde diziam que passavam os castelhanos, e não vendo nenhuns deles, tornaram-se para a vila. E chegando a par do castelo onde elRei mais a sua mulher então pousavam, estando estes à mesa, mandaram-nos chamar, e, tendo-lhes perguntado onde foram e que acharam lá de onde vinham, eles lhes responderam a tudo, segundo as perguntas que lhes faziam. A Rainha dona Lionor, falando nisto, como era mulher muito paçã (cortês) e de graciosa palavra, disse a ElRei, como em sabor, que ela queria tomar NunÁlvares por seu escudeiro, e elRei respondeu que era bem feito, e que ele tomaria como cavaleiro DiegÁlvares, seu irmão. Então disse a Rainha, para NunÁlvares, que ela o queria armar de sua mão como seu escudeiro e que não queria que doutras mãos tomasse as armas senão das suas, NunÁlvares embora fosse moço, quando isto ouviu, disse que lho tinha em grande mercê, e que prazeria a Deus de que ainda lho ele serviria com bons merecimentos, e beijou-lhe as mãos por tal. A Rainha, querendo pôr em obra isto que assim dissera, mandou buscar um arnês convenhável para NunÁlvares, e, porque ele era de pouca idade, não lhe podiam achar um tão pequeno, então disseram à Rainha que como o Mestre dAvis tinha um arnês que houvera em sendo pequeno este seria bom para NunÁlvares, e ela mandou-lho pedir. E como lho trouxeram, deu-o logo a NunÁlvares, e assim tomou ele as primeiras armas da mão da Rainha dona Lionor, e ela daí em diante sempre o chamou por seu escudeiro.
34. COMO O PRIOR COMETEU A SEU FILHO QUE QUISESSE CASAR, E COMO NISTO CONSENTIU E CASOU COM DONA LIONOR DE ALVIM.
Andando assim NunÁlvares em casa delRei por morador, sendo de idade pouco mais de dezasseis anos, sucedeu que enviuvou uma dona de Entre Douro e Minho que havia por nome dona Lionor dAlvim, mulher que fora dum bom cavaleiro chamado Vasco Gonçalves de Barroso. Esta dona era bem filha de algo e completa de toda a bondade, assaz rica de bens deste mundo, assim de móveis como de raiz. O Prior, sabendo parte (tendo conhecimento) de sua fama e riqueza, mandou-lhe cometer (propor) casamento para NunÁlvares, seu filho, e quando João Fernandes, Comendador de Flor de Rosa, lhe foi cometer este casamento da parte do Prior, a dona deu em resposta que o fizessem saber a elRei, e do que a Sua Mercê sobre isto mandasse que ela não sairia do mandado. Tornou João Fernandes com este recado e o Prior fê-lo saber a elRei, pedindo-lhe por mercê que pusesse nisto a mão; a elRei prouve-lhe disso e mandou-a chamar por uma carta sua. Nesta sazão em que o Prior disto tratava, era NunÁlvares em sua casa sem de tal saber nenhuma parte, e um dia chamou seu filho, não estando aí outrem, e disse-se-lhe de esta guisa: Nuno, embora tu sejas moço e de nova idade, parece-me que é de bem e serviço de Deus e de tua honra que tu hajas de casar, e porque entre Doiro e Minho há uma muito nobre dona, manceba e de grande bondade, meu desejo é, se a Deus prouver, de tu casares com ela, e portanto quero de ti saber que é o que disto te parece, e mais não lhe disse. NunÁlvares, além de ser para todos mesurado (cortês, comedido) de sua natureza, era-o muito mais em relação a seu pai e muito mandado e obediente, e quando tal razão lhe ouviu dizer ficou um pouco como turvado. À uma pela vergonha que de seu pai havia, à outra por lhe falar a respeito de casamento, coisa de que a sua vontade andava muito afastada, pois que ele nesta sazão era de pequena idade e todo o seu cuidado não era outro salvo trazer-se bem a si e aos seus, e depois cavalgar a monte e à caça, não entendendo em amor de nenhuma mulher, nem tão-somente isso lhe vindo por imaginação, mas lia amiúde livros de estórias, especialmente a estória de Gallaz, que fala da Távola Redonda. E porque nelas achava que por virtude de virgindade Gallaz realizara grandes e notáveis feitos, que outros realizar não podiam, desejava muito de o assemelhar em alguma guisa, e muitas vezes cuidava para si de ser virgem se lho Deus guisasse. E portanto era muito afastado do que lhe seu pai falara a propósito de casamento, porém, para lhe obedecer e dar resposta à sua pergunta, disse-lhe desta guisa: Senhor, vós me falais em casamento, coisa de que eu não era avisado, por isso vos peço, por mercê, que me deis lugar a cuidar nisso, e assim vos poderei responder. O pai disse que era bem feito, ainda que se maravilhasse muito dele lhe assim responder, sendo homem tão novo de dias. E falou com sua mãe, Eirea Gonçalves, de tudo o que com ele lhe aviera, encomendando-lhe que o movesse a que consentisse em tal casamento. Sua mãe falou com ele, e, não o podendo convencer nem fazer mudar de sua primeira intenção, falaram com NunÁlvares Álvoro Pereira, seu primo, e Álvoro Gil de Carvalho, com que havia grande afeição, e pelas afincadas razões deles consentiu em o fazer, pois que a seu pai prazia. Entretanto chegou dona Lionor dAlvim a Vila Nova da Rainha, onde elRei e sua mulher estavam e, sendo bem recebida deles, fê-lo logo elRei saber ao Prior, e ele veio com seu filho NunÁlvares, e logo como chegaram o casamento foi feito e NunÁlvares recebido com a dona sem mais festa, porquanto era viúva. Em outro dia partiu o Prior com o seu filho e a nora para as terras da Ordem, a um lugar a que chamam Bom Jardim, e ali conheceu NunÁlvares dona Lionor sua mulher, à qual com verdade desde então podiam chamar dona, porque, se bem que por tal nome fosse antes tratada, ela verdadeiramente era donzela, dado que o seu primeiro marido nunca dela houve tal conhecimento, o que ela sempre bem encobriu por sua grande bondade.
35. COMO NUNO ÁLVARES PARTIU PARA SUA CASA, E DA MANEIRA DO SEU VIVER.
Folgou NunÁlvares com sua mulher em casa de seu pai durante alguns dias, depois partiu e foram-se para Entre Douro e Minho, onde ela tinha sua casa de morada e havia seus herdamentos, e foi ali bem recebido e visitado pelos bons da comarca, oferecendo-lhe suas amizades como é de costume. NunÁlvares era de pouca e branda palavra, e o seu bom gasalhado e doces razões contentava muito a todos. Ele era mais monteiro do que caçador, ainda que de tudo usasse quando cumpria. Em sua casa havia de cote (normalmente) doze a quinze escudeiros, e vinte a trinta homens de pé, segundo a terra requer, e estes todos bons e bem homens para tudo, que ele nunca doutros se contentava nem contentou em seus dias. Nenhuma coisa fazia com rancor ou ódio, mas pela grande custa (tarefa, trabalho) que tinha, e depois por a terra ser assim azada, às vezes passava além do razoado, mas ainda que não tanto que sempre nele não fosse o temor de Deus, ouvindo suas missas e vivendo bem e honestamente com a sua mulher, da qual houve três filhos, convém a saber: dois que logo morreram à nascença e uma filha que houve por nome dona Beatriz, que depois foi condessa e mui nobre senhora, como adiante diremos. Nesta sazão, ao cabo duns três anos, estando o Prior seu pai na Amieira, faleceu por morte devido à sua longa idade, e foram juntos ao seu finamento nove filhos e nove filhas, sendo um deles NunÁlvares. E realizadas naquele lugar as suas exéquias honradamente, dali foi levado à igreja de Flor de Rosa que ele edificara. Então foi feito prior seu filho dom PedrÁlvares, irmão de NunÁlvares, apesar de que dom frei Álvoro Gonçalves Camelo, que então era comendador de Poiares, tinha direito no Priorado, mas fê-lo assim fazer elRei dom Fernando. Depois disto, morto elRei dom Henrique e reinando em Castela dom João, seu filho, e havendo este guerra com elRei dom Fernando, ouvistes como foi chamado NunÁlvares para estar na frontaria com dom PedrÁlvares, seu irmão, depois como requestou João dAzores, filho do Mestre de Santiago de Castela, e como esteve com seu irmão, sendo este Fronteiro, em Lisboa, e do que aí lhe aveio numa escaramuça, e que maneira teve para estar com elRei na batalha que houvera de haver em Elvas (tudo episódios da Crónica de D. Fernando), e como depois da morte delRei dom Fernando quisera ser com o Mestre na morte do Conde João Fernandes, e porque então não se azou, como se despediu dele e se foi após seu irmão, o qual alcançou no lugar de Ponteval. E pois que já isto tendes ouvido, cumpre a tornar atrás para pôr em escrito o que lhe aveio em tempo do Mestre, depois que partiu da cidade de Lisboa, onde deixamos de falar de seus feitos.
36. COMO NUNO ÁLVARES SOUBE QUE O CONDE JOÃO FERNANDES ERA MORTO, E DAS RAZÕES QUE HOUVE COM SEU IRMÃO SOBRE ISSO.
E assim foi que partido NunÁlvares de Lisboa, por não se azar a morte do Conde João Fernandes, segundo dissemos em seu lugar, quando falou com o Mestre sobre isso, e indo-se para dom PedrÁlvares, seu irmão, foi-o alcançar num lugar que chamam Ponteval, a doze léguas da cidade. E estando ali com ele, chegou Gonçalo Tenreiro da parte da Rainha com o recado ao Prior de que todavia fosse em seu serviço, e que ela o acrescentaria, fazendo-lhe muitas mercês, e lhas faria fazer a seu filho elRei de Castela. Deste recado foram mal-contentes NunÁlvares e muitos dos outros que com o Prior estavam, especialmente NunÁlvares, a que muito desaprouve, de tal guisa que não se pôde ter que não falasse ao Prior, dizendo que não seria bom conselho dar lugar a tal embaixada, e o Prior não curou de seu razoar, nem lhe respondeu coisa nenhuma, e partiu-se dali e foi-se a Santarém. Estando eles naquele lugar, foi NunÁlvares aposentado em Santa Maria de Palhais, e um dia à tarde, depois da ceia, saiu Nuno Álvares a folgar pela praia (fluvial) afundo, contra a igreja de santa Eirea, e passando ante a porta dum alfageme viu que tinha uma espada muito limpa e bem corrigida, e tomou-a na mão e perguntou-lhe se corrigiria assim uma sua. E ele respondeu que sim e ainda muito melhor, e NunÁlvares fez logo ir por ela e mandou-lha dar para que a corrigisse. Noutro dia tornou NunÁlvares por ali à tarde e achou-a corrigida muito a seu gosto, e tomou-a na mão, sendo com ela ledo, e mandou a um homem seu que lhe pagasse bem pelo seu trabalho. O Alfageme respondeu e disse: Senhor, eu por agora não quero de vós nenhuma paga, mas ireis muito em boa hora e tornareis por aqui Conde dOurém, e então me pagareis o que mereço. Não me chameis senhor, disse NunÁlvares, que o não sou, mas todavia quero que vos paguem bem. Senhor, disse ele, eu vos digo a verdade e assim será cedo, prazendo a Deus. E assim foi depois, como ele disse, pois ele passado pouco tempo tornou por ali Conde dOurém e pagou-lhe bem o corrigimento da espada, como adiante ouvireis. Nisto chegaram novas a Santarém de como o Mestre matara o Conde João Fernandes, e que na mesma altura foram mortos o Bispo de Lisboa e outros. Nuno Álvares, como isto ouviu, foi-se logo ao Prior seu irmão contar-lhe estas novas que assim ouvira, dizendo que isto era obra de Deus, que se queria lembrar do reino de Portugal, pois que os da cidade queriam tomar o Mestre por seu regedor e defensor para defender o reino contra elRei de Castela, que era fama que vinha para entrar nele, e pois que tal coisa se começava, que lhe pedia por mercê que todavia se tornasse para o Mestre, para o ajudar e defender o reino. O Prior não curou de quanto sobre isto lhe falava, dizendo que aquela coisa era perigosa e muito mau começo para as gentes, e que disto se seguiria grande dano ao reino, e que não tinha siso aquele que ia pensar que tal feito havia de ir avante como ele dizia. NunÁlvares disse que aquilo não era mal e que o Mestre fizera bem e o que devia em vingar a desonra delRei seu irmão e se pôr a defender o reino que seus avós com grande trabalho ganharam, e que Portugal sempre fora reino e isento por si e não sujeito a Castela, e que agora não era razão de o ser. O Prior tornou a dizer que tal coisa não era para se falar, que Portugal não estava em ponto de se defender delRei de Castela, que era um tão poderoso Rei, ademais que teria com ele a maior parte de Portugal, pelas menagens que lhe haviam sido feitas segundo nos tratos fora estabelecido. NunÁlvares respondeu dizendo que tais menagens não eram de guardar, pois que elRei estava a quebrar os tratos, e que todos os fidalgos podiam acorrer em ajuda do Mestre sem nenhum prasmo (censura), o qual bem poderia juntar mil homens de armas e muitos homens a pé com que lhe poderia pôr batalha, e que mais valia o Mestre pôr-se com eles todos em aventura e pelejar contra elRei de Castela do que ficarem sujeitos de castelhanos que usariam depois deles a seu livre talante. O Prior disse que as coisas não estavam em estado tal para tal obra se poder começar e acabar seguramente e, por isso, que não falassem mais em tal estória. NunÁlvares, vendo que achava o Prior muito arredado da sua intenção, falou a DiegÁlvares, seu irmão, que se fossem todavia para o Mestre, e ele outorgou que lhe prazia, e ficaram ambos neste acordo.
37. COMO NUNO ÁLVARES DESCOBRIU AOS SEUS QUE SE QUERIA IR A LISBOA PARA SERVIR O MESTRE.
Partiu o Prior para as suas terras, seguindo o caminho da Golegã, e seus irmãos NunÁlvares e DiegÁlvares não foram com ele e encaminharam-se para Lisboa, onde estava o Mestre, conforme antes os dois tinham acordado, e sendo já arredados até três léguas do lugar, Diego Álvares arrependeu-se da partida (escolha) que fizera e disse que se queria tornar para o Prior seu irmão. NunÁlvares, que o de tal vontade desviar não pôde, teve de despedir-se dele e veio dormir nesse dia a uma aldeia que chamam a Eireira, e ali chamou à parte os seus escudeiros e disse: Amigos, eu vos quero contar um segredo e grande feito que trago em cuidado em meu coração, o qual é este: Ora assim é que eu vejo no meu entendimento um poço muito alto e muito profundo cheio de grande escuridão, e bem me diz a vontade que não há homem que nele salte que de lá possa escapar salvo por grande milagre, querendo-o Deus por sua mercê livrar dele. E não posso com meu coração senão todavia que nele salte, e porque há já dias que vós sois meus companheiros, e eu hei provado o vosso bom desejo acerca de meus feitos, portanto vos faço saber esta coisa, dado que eu todavia quero saltar nele. E aqueles de vós a que prouver de comigo nele saltarem, ter-lho-ei em grande bem e estremado serviço, e os outros a que não prouver podem ir-se para onde quiserem, e fazer de seus corpos o que para mais seu proveito sentirem. Os escudeiros, quando isto ouviram, ficaram espantados e não sabiam que dizer, por isso responderam e disseram: NunÁlvares, vós bem sabeis que nós somos vossos e prestes para o vosso serviço, mas esta coisa de que nos falais é de tal modo escura e tão má de entender que nenhum de nós sabe o que vos responda, por isso vos praza que no-la declareis, para sabermos o que é, e então vos daremos resposta segundo o que entendermos. NunÁlvares tornou então às suas razões e disse: Amigos, o poço muito alto e escuro que vejo ante meus olhos é a grande demanda que o Mestre dizem que quer começar, para defensão destes reinos, contra elRei de Castela, e entendo que a quem com ele nela entrar lhe será grave e muito perigoso, e nem mesmo é de pensar que dela escape, salvo por graça de Deus. E porque a minha tenção é de me ir para ele e de o servir nela, por isso vos disse se vos prazia de serdes nisto meus companheiros. Eles responderam então dizendo: NunÁlvares, nós somos vossos e para o vosso serviço, e somos prestes para vos acompanhar nesta demanda que quereis seguir, e em qualquer outra coisa que vós sintais para vossa honra e proveito, ainda que grande perigo seja, até despendermos os corpos e as vidas por vosso serviço. NunÁlvares agradeceu-lho por boas palavras, dizendo-lhes que ele estava pronto para lho galardoar em toda a coisa que de sua honra e proveito fosse, como a bons servidores e amigos.
38. COMO NUNO ÁLVARES CHEGOU A LISBOA E DAS RAZÕES QUE DISSE AO MESTRE.
NunÁlvares em outro dia seguiu seu caminho, estando então a Rainha em Alenquer e, com ela, os Condes seus irmãos, e outros muitos, como dissemos, e quando chegou a Alverca determinou de dormir ali. A Rainha soube como ele se ia a caminho de Lisboa para o Mestre, e tinha querido mandar contra ele certas gentes que o prendessem, dizendo para aqueles que estavam presentes: Vistes tal sandice de Nuno, que eu criei tamanino (de criança), que deixou o Prior seu irmão, com que ia, e vai-se agora a Lisboa para o Mestre? Senhora, disseram alguns que aí estavam e que queriam bem a Nuno Álvares, não haveis por que o mandar prender, posto que ele vá para Lisboa, pois não sabeis a intenção que leva, que porventura ele vai com tal vontade e desejo que de lá vos poderá tão bem e melhor servir do que se vier para vós aqui. NunÁlvares foi sabedor disto naquela noite que dormiu em Alverca e, temendo-se muito da Rainha o mandar prender ao caminho, falou com os seus escudeiros, avisando-os de que se tal coisa acontecesse antes todavia se deixariam morrer do que haverem de ser presos, e toda aquela noite nunca foram desarmados, nem as bestas desseladas. No outro dia chegou NunÁlvares a Lisboa e foi logo falar ao Mestre, que o muito bem recebeu, dizendo que lhe prazia muito da sua vinda e que há dias que o desejava de ver; os da cidade igualmente foram muito ledos com ele e receberam-no todos muito bem. E passados dois dias que NunÁlvares chegou a Lisboa, foi-se ao Paço do Mestre e falou-lhe nesta guisa: Senhor, grandes dias há que eu muito desejei e desejo de vos servir, e não foi minha ventura de até este tempo o poder fazer, e porque agora vós sois em tal ponto e estado que eu cuido que poderei cobrar o que tanto desejava, eu vo-lo ofereço, a mim e ao meu pobre serviço com muita boa vontade, e vos peço por mercê que daqui em diante me tenhais para todo vosso quite, servindo-vos de mim em todas as coisas, como homem que para isso serei muito prestes. O Mestre agradeceu-lhe muito a sua boa vontade, porque havia tempo que o conhecia por bom, recebendo-o para seu como ele disse, e fê-lo do Conselho como os outros que nele estavam (em pé de igualdade com os outros), e daí em diante não fazia coisa de que ele parte não houvesse.
39. DE COMO A MÃE DE NUNO ÁLVARES VINHA PARA AFASTAR SEU FILHO DO SERVIÇO DO MESTRE, E DO QUE SOBRE ISTO AVEIO.
Eyrea Gonçalves, mãe de NunÁlvares, estava a esse tempo na vila de Portalegre, que são quatro léguas do Crato, onde o Prior mailos seus irmãos haviam então chegado. E quando soube que seu filho NunÁlvares não voltara com eles veio-se logo ali à pressa, perguntando que era de NunÁlvares, seu filho. O Prior disse que estava em Santarém e que esperava a cada dia por ele, e ela respondeu que bem parecia que curava pouco de seu irmão, e que nunca lhe quisera bem, e que agora o mostrava por obra, pois que, vindo em sua companhia, não tivera conta de o trazer consigo. E partiu logo a caminho de Lisboa onde soube que NunÁlvares estava, e, falando com ele, disse quanto lhe parecia grave coisa e muito perigosa aquilo que ele fazer queria ao se oferecer para servir o Mestre e ajudar-lhe a defender o reino contra toda Castela e contra a maior parte de Portugal, mostrando-lhe por muitas e vivas razões que a intenção que tomava não podia ir adiante, nem podia por meio dela crescer em bem nem em honra. NunÁlvares, firme no seu propósito, dava-lhe outras contrárias razões, desfazendo quanto ela dizia, de modo que tanto razoaram sobre isto que, apesar de que ela vinha para convencer o seu filho a servir elRei de Castela, foi NunÁlvares que então a convenceu a ela a encaminhar-se para o serviço do Mestre. E sendo ambos de acordo que era bem o que ele lhe dizia, tornou ela a dizer a NunÁlvares: Filho, eu vos rogo e vos encomendo pela minha bênção, pois vós escolhestes o Mestre para o servir e ficar com ele, que vós o sirvais sempre bem e verdadeiramente e vos não partais dele em nenhuma guisa, por coisa que avir possa, e eu farei logo vir para vós Fernam Pereira, vosso irmão, para que seja vosso companheiro em seu serviço. E ele disse que assim o faria. O Mestre, sabendo como ela era na cidade, e como vinha para demover seu filho da vontade que tinha de o servir, foi vê-la às casas onde pousava. E contou-lhe como a sua tenção era de se dispor a defender o reino, e que entendia que ela não viera ali senão para demover o seu filho da vontade que tinha de o servir, e que por isso lhe rogava que em tal coisa se não quisesse intrometer nem o estorvasse, que isto a que ele se queria entregar era em serviço de Deus e honra do reino, e que esperava de Deus que ele lhe encaminharia tão bem os seus feitos que seu filho sairia deles com grande acrescentamento de sua honra. E, falando ambos nisto, ela lhe respondeu quanto lhe prazia de seu filho ficar com ele para o servir, e que assim lho tinha mandado na sua bênção. Então se partiu ela para donde viera, e falou com seu filho Fernão Pereira, e encaminhou as coisas de tal guisa com ele que logo se partiu com a sua gente e se foi a Lisboa para o Mestre.
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| Actualizado em ( 16-Ago-2009 ) |