O Espaço da História
29-Jul-2010
Início seta Crónica de D. João I, de Fernão Lopes seta Capítulo V - Diplomacia, dinheiro e mailoutras coisas
Capítulo V - Diplomacia, dinheiro e mailoutras coisas criar PDF versão para impressão enviar por e-mail
Escrito por Fernão Lopes   
26-Ago-2009

 

DIPLOMACIA, DINHEIRO E MAILOUTRAS COISAS.

 

A divisão em grandes capítulos numerada em romano é apócrifa, tal como os respectivos títulos, e foi introduzida pelo «O Espaço da História».

 

47. POR QUE RAZÃO ENVIOU O MESTRE EMBAIXADORES A INGLATERRA E DA RESPOSTA QUE DE LÁ LHE VEIO.

 

Porque toda a razão natural outorga que melhor e mais poderosamente podem os muitos dar fim a uma grande coisa, quando a começar querem, do que os poucos, por muito ardidos que sejam, ordenou o Mestre com os de seu Conselho que era bom de haver gentes em sua ajuda. E acordaram de enviar pedir a elRei de Inglaterra que lhe prouvesse dar ocasião e licença aos de seu reino para que, por soldo à sua vontade, os viessem ajudar contra os seus inimigos.

E foi ordenado de irem lá por seus embaixadores Lourenço Martins, servidor do Mestre que depois foi Alcaide de Leiria, e Tomás Daniel, inglês, os quais partiram em duas naus que estavam diante da cidade naquele mês de Dezembro; e depois foi acordado de mandarem dom Fernando Afonso dAlbuquerque, Mestre da Ordem de Santiago, e LourençEanes Fogaça, Chanceler mor que fora delRei dom Fernando, o qual então, na , o Mestre fez cavaleiro antes que partisse.

Ora sabei que este dom Fernando Afonso dAlbuquerque, estando na vila de Palmela, veio com todas as suas gentes a Lisboa para o Mestre, e recebeu-o como senhor e ficou por seu vassalo para o servir. Mas no entanto, não obstante isso, como ele fora feito pela Rainha, dele se receando que se poderia deitar para o lado delRei de Castela e dar-lhe as fortalezas do Mestrado, disseram que era bom que fosse como Embaixador, para ser afastado de tal azo; e depois, porque era maior honra do Mestre enviar tais Embaixadores do que outros de mais pequena condição, outorgaram todos de o enviar.

E embarcaram em dois navios, o Mestre em uma nau e Lourenço Eanes numa barca, e seguiram sua viagem, e chegaram daquele dia passados oito dias, que era sexta-feira (inícios de Abril de 1384), a uma vila que chamam Preamua, que é um lugar de Inglaterra; e ali houveram bestas e encaminharam para Londres, onde então elRei estava, e foram por ele bem recebidos, e por todos os senhores e fidalgos da corte. E depois que foram falar ao Duque dAlancastro, ordenou elRei de ter conselho, quando o Duque voltou, numa cidade de Sarasbri, onde os Embaixadores propuseram sua embaixada, cuja conclusão, em síntese, era esta: Que sendo o reino por seu azo despachado e livre de inimigos, toda a ajuda que os portugueses pudessem dar, tanto em galés como por seus corpos, onde ele entendesse mais para seu serviço seriam muito prestes de a dar, e que se o Duque dAlencastro pessoalmente quisesse vir cobrar o reino de Castela, que por azo de sua mulher lhe pertencia de direito, que tinham o tempo muito prestes e todo o Portugal em sua ajuda, levando o Mestre e LourençEanes para firmar isto, e outras coisas, grandes e largos poderes por procuração do Mestre e de Lisboa e do Porto.

Havendo elRei acordo sobre isto, prouve a ele e a todos os do Conselho que quaisquer gentes de armas que, a troco de soldo, em ajuda de Portugal quisessem vir livremente o pudessem fazer, jurando elRei e prometendo que menos não faria para pôr em obra toda a boa ajuda que neste feito pudesse dar do que faria para defender o seu reino.

E porquanto o Duque dAlancastro foi em Cales a tratar tréguas com elRei de França, e esperavam que ele chegasse em breve para elRei dar-lhe encarrego de como este assunto melhor se podia encaminhar, trataram entretanto o Mestre e LourençEanes Fogaça de enviar algumas gentes de armas e archeiros, devido à necessidade em que o reino estava, mas foram poucos; eram destes capitães um que chamavam Elisabri, e outro, Tersimgom, e um cavaleiro gascão que havia por nome mossem Gavilho de Momferro. E estando eles prestes para partir em duas naus, o Mestre mandou Lourenço Martins ao dito lugar de Preamua para ali os fazer vir e embarcar; e ele, como aí chegou, meteu-se com eles nos navios e veio-se para Portugal, como adiante diremos; da qual coisa o Mestre e LourençEanes houveram mui grande queixume por se vir daquela guisa.

E tanto prouve aos ingleses desta ajuda que os portugueses lhes requerer enviavam que muitos aí houve que lhes emprestaram dinheiros para pagar os soldos das gentes que logo haviam de enviar. Assim como mosse Nicoll, Mayre de Londres, e Amrrique Bivembra, cavaleiro, que lhes emprestaram três mil e quinhentos nobres, e assim emprestaram outros, mais e menos, como cada um podia; de guisa que com isto e com as mercadorias dos portugueses que lá achavam e tomavam a seus donos por escrito, dizendo que lhas pagariam depois, satisfaziam as gentes por tal modo que lhes prazia vir de alegre vontade.

E a resposta que elRei dInglaterra enviou ao Mestre sobre esta ajuda que então lhe foi demandada podeis vê-la pela seguinte carta:

«Ricardo, pela graça de Deus Rei dInglaterra e senhor dIbérnia, ao mui nobre e grande varão Joane, por essa mesma graça Mestre da Ordem da Cavalaria dAvis, Regedor e Defensor dos reinos de Portugal e do Algarve, nosso muito prezado amigo, saúde e desejo de limpa amizade.

Pouco há que recebemos ledamente os nobres e excelentes cavaleiros Fernando, Mestre da Ordem de Santiago, e Lourenço Fogaça, Chanceler mor de Portugal, vossos Embaixadores a nós enviados, e claramente entendemos o que nos disseram da vossa parte. E certamente, muito prezado amigo, do coração vos agradecemos o bom desejo que vós e os gentis-homens dessa terra a nós, por vosso azo, têm, segundo por obra e conhecimento vemos.

E no que concerne ao que por eles nos foi declarado sobre os vossos oferecimentos, assim de serviço de galés como doutras coisas, que desses reinos nos fossem cumpridoiras, isto vos agradecemos muito; e entre eles e os do nosso Conselho foi sobre isto feito certo trato, conforme esse mesmo Lourenço vos pode mais largamente recontar. E, para o acorrimento que a vós e a vossos aliados desses reinos cumpridoiro era, nós outorgamos aos ditos Embaixadores que da nossa terra pudessem tirar homens de armas e frecheiros a troco de soldo, quantos e quais lhes aprouvesse. O que em verdade, considerando as revoltosas guerras em que pelo presente somos postos, assim de ligeiro a outra pessoa não outorgaríamos. E queremos que num trato que por agora fizemos com nossos adversários de França e de Castela se aí entendam vós e vossos aliados.

E bem nos prouvera que os vossos Embaixadores tivessem dado a isto consentimento, mas escusando-se disseram que não haviam de vós mandato para tal. E porque não o traziam, aqueles que pela nossa parte ali eram insistiram para que vos escrevêssemos, e que o mesmo fizessem os franceses, da sua parte, ao ocupador de Castela, para que as tréguas por nós feitas com os ditos adversários até ao primeiro dia de Maio seguinte sejam respeitadas; coisa sobre a qual, se o nosso comum adversário não quiser consentir, nós vos reservamos a liberdade própria para haverdes guarda e defensão das nossas gentes.

E isto entendemos que era bem de escrever a Vossa Nobreza para fazerdes requerer esse vosso adversário o mais cedo que poderdes; por forma a que, vista a sua resposta, nós com bom e maduro conselho possamos examinar a vossa e, principalmente, a nossa comum defensão. Vós entretanto sede forte, tendo boa esperança em Deus, crendo firme que o Rei dos Reis, que é justo e não desampara os que por justiça pelejam, não desamparará os vossos feitos mas far-vos-á glorioso vencedor com grande e honrada vitória. Nobre e Excelente Varão, que todas as vossas obras guie o Senhor Deus, e vivais bons e prolongados dias a vosso prazer.»

 

48. COMO A CIDADE DE LISBOA DEU UM SERVIÇO AO MESTRE PARA AJUDA DE FAZER MOEDA.

 

Já vistes, no reinado delRei dom Pedro (na Crónica de D. Pedro), quanto os Reis de Portugal fizeram para juntar tesouros e haver riqueza, de molde a possuírem largamente o que despender quando lhes acontecesse ter de defender seus reinos ou mover outra guerra, se vissem que lhes cumpria; e quanto eles trabalharam para que esse tesouro não viesse a tal míngua que, em tais misteres, obrigasse a lançar peita ao povo. E como tanto trabalhou elRei dom Fernando de os gastar sem necessidade em guerras vãs e sem proveito!

E não somente gastou todos os tesouros que dos outros Reis lhe ficaram como lançou novamente sisas e mudou as moedas para grande dano e destruição de todo o seu povo, de guisa que quando o Mestre tomou carrego de regedor e defensor dos reinos não tinha coisa nenhuma com que manter a guerra, nem de que fizesse bem e mercê àqueles que a ele se chegavam para o ajudar a defendê-los. Então vendo todos que lhes convinha, para serem livres da sujeição castelhana, acorrerem a tamanha necessidade como esta, ordenaram (resolveram, decidiram) os da cidade de dar ajuda e fazer serviço ao Mestre de cem mil livras, em que mil dobras (cerca de 4.500 livras) eram pagas pelos Mouros e Judeus moradores nela, as quais lhe foram pagas em dinheiros miúdos e moeda branca e em prata. Moeda branca chamavam então aos graves, barbudas e pilartes; e certas pessoas recolhiam estes dinheiros pelas freguesias. E era mandado que qualquer um que levasse moeda para fora da cidade a perdesse toda, e fosse um quinto daquele que a tomasse, e filhavam-na a alguns que a levavam escondidamente e entregavam-na ao Mestre.

Além disso o Mestre pediu a algumas pessoas da cidade e do seu termo, que entendeu que o podiam fazer, certos dinheiros emprestados, e todos lhe ofereciam de boa vontade qualquer coisa com que o ajudar pudessem; e os da Comuna dos Judeus, afora o que pagaram no serviço, emprestaram-lhe sessenta marcos de prata. Emprestou-lhe também a clerezia, em cruzes, cálices e outros lavores, aquela prata que podia dispensar, de guisa que a igreja catedral da Sé mais as vinte igrejas que há na cidade lhe juntaram duzentos e oitenta e sete marcos, de que a Sé deu oitenta e sete e as outras igrejas segundo o que cada uma podia dispensar.

E ordenou o Mestre para ser Tesoureiro da sua Moeda a um mercador que chamavam Persifal. A este foram entregues todos estes dinheiros e prata que dissemos, e mais novecentos marcos de prata que o Mestre tinha em sua câmara e muitos dinheiros miúdos e moeda branca e outras moedas de Castela de que dizer não curamos e que lhe entregou Afonso Martins, o Escrivão da Puridade.

 

49. COMO O MESTRE ORDENOU DE FAZER MOEDA E DE QUE LIGA E TALHA FOI FEITA.

 

Mal o Mestre teve condições para poder fazer moeda, logo ordenou de mandar lavrar reais de prata, mas primeiro sabei que ao tempo em que o Mestre tomou esta voz de regedor e defensor do reino circulavam nele as moedas que já dissemos (Crónica de D. Fernando), convém a saber: dinheiros alfonsins, que nove deles valiam um soldo, e vinte soldos valiam uma livra; e mais barbudas, que valiam dois soldos e quatro dinheiros; e graves, que cada um valia catorze dinheiros; e pilartes, que valiam sete dinheiros, consoante está escrito naquele passo em que falámos do abaixamento que elRei dom Fernando fez nas moedas (capítulo 55 dessa Crónica); e corriam ainda reais de prata de lei de 10 dinheiros, e haviam cinquenta e seis no marco (marco = 230 gramas; ou seja, 56 moedas de real pesavam 230 gramas). E a razão porque foram postos então tais nomes a estas moedas vamo-la agora aqui dizer.

Quando elRei dom Fernando começou a guerra com elRei dom Henrique, como ouvistes, estava em Castela com ele muita gente dos franceses, a que chamavam companha branca, e vinham armados desta guisa, traziam bacinetes com estofas e camal de malha com cara posta, e chamavam-lhes barbudas; e o cunho com que era cunhada essa moeda tinha dum lado uma cruz em aspa e, no meio dela, um escudo com cinco pontos de quinas, e do outro lado a barbuda com a sua cara. E estas gentes de armas traziam graves com pendões pequenos em cima, a que agora chamam lanças de armas, e aos moços que transportavam as barbudas chamavam pilartes, e depois lhes chamaram porta-graves, e nós chamamos às barbudas bacinetes de camal e aos moços pajens. E daqueles nomes das armas tiveram nome aquelas moedas, pois também o grave tinha dum lado do cunho uma lança e um pequeno pendão em cima, e no outro a cruz em aspa e quinas.

E correndo assim estas moedas juntamente, valia ademais a dobra cruzada cinco livras, e a mourisca quatro livras e meia, e o franco de ouro de França quatro livras; e o marco da prata de lei de onze dinheiros, vinte e duas livras.

E o Mestre ordenou de lavrar moeda de reais de prata, e eram de lei de nove dinheiros (liga), e havia setenta e duas no marco; e depois mudou outros desse mesmo peso (setenta e duas moedas = 230 gramas)  para prata de lei de 6 dinheiros (liga com menos um terço de prata); e depois outros para prata de lei de 5; e pelo lavramento que mandava fazer de menos prata de lei ganhava para as despesas. E dizem alguns nas suas estórias que estes primeiros reais que o Mestre mandou lavrar prestavam para sarar algumas dores, e muitos encastoavam-nos em prata e traziam-nos ao colo.

E depois que o Mestre reinou, mandou lavrar reais de lei de um dinheiro, que valia cada um três soldos; e depois destes mandou fazer outros reais que valiam três livras e meia e eram de prata de lei de três dinheiros. E quando decidiu de tomar Ceuta, como adiante ouvireis, mandou lavrar uma moeda de reais que chamavam brancos e que valia, cada uma, dez de três livras e meia, e eram de prata de lei de três dinheiros e havia setenta e duas no marco.

E circulando assim estas moedas, nelas foram feitas tantas mudanças de liga e talha que seriam longas de contar; de modo que veio a valer uma coroa cento e cinquenta reais brancos de trinta e cinco livras cada um, e mil e quinhentos reais de três livras e meia, o que montava a cinco mil e duzentas e cinquenta livras; e assim, por quanto achavam no tempo delRei dom Fernando mil cento e setenta e três dobras (relação de troca à altura entre a livra e a dobra), não achavam depois mais duma dobra (aliás, a coroa valia um pouco menos do que a dobra; portanto, em rigor, nem mesmo uma dobra completa achavam). E estas mudanças lhe fizeram fazer as necessidades das guerras que muitas vezes com elRei de Castela houve, por azo das quais se lhe recresciam as grandes despesas que não podia escusar; e por isso cumpre aqui referir um grande dito e muito proveitoso que cada Rei e Príncipe deve de ter em seu conselho quando uma tal necessidade lhe advier que doutra guisa o remediar não possa:

«Que mais vale terra padecer do que terra se perder.»

Pois que por tais mudanças e lavramento de moedas, com a ajuda do muito alto Deus, o reino de Portugal foi por ele defendido e posto em boa paz com os seus inimigos, ainda que as gentes nisto alguma míngua e dano sentissem.               

 

50. COMO O MESTRE DEU LUGAR A ALGUNS QUE LAVRASSEM MOEDA, E PÔS MANTIMENTO A MUITAS PESSOAS.

 

Deixando as razões que com fartura alguns escrevem para mostrar quão proveitoso é ao reino de todos lavrarem moeda, quaisquer que o possam fazer, apenas do modo que o Mestre nisto teve iremos falar e mais não.   

Ora sabei que nesta sazão em que o Mestre mandou lavrar moeda, sentindo-o para seu serviço e proveito, deu licença ao Concelho de Lisboa que lavrasse uma certa soma de prata para ajudar a suportar os seus encargos, assim de gentes de armas que a cidade havia de pagar como doutras coisas necessárias à sua defesa, que por então lhe recresciam.

E disso mesmo encarregou o doutor João das Regras e outros, sem levar ganhança do que assim lavravam, pois quanto rendia lhe era entregue. E quando o Mestre teve feita a moeda, ordenou logo os respectivos mantimentos dos fidalgos e oficiais da sua casa.

Assim como ao doutor João das Regras, e ao doutor Martim Afonso, a cada um cem livras, e assim a outros segundo que tal era. E a dom Afonso, filho do Conde dom Álvaro Peres, e a dona Lionor Teles, mulher de dom Pedro de Castro, e a dona Beatriz, irmã dele, que haviam cem livras por mês, e dos mais não cumpre escrever.

Mas que mais havemos de dizer deste virtuoso Senhor e da sua grande bondade, pois não embargando que seu coração fosse então repartido por tantos e desvairados cuidados, como cada um pode imaginar que tal negócio requeria, não se esqueceu, nem assim, dos espirituais feitos. E ordenou logo um muito honrado saimento pela alma delRei dom Fernando, seu irmão, de que teve carrego Antão Rodrigues, Prior de são Nicolau, em que fez grande e larga despesa.

E ademais pôs mantimentos a certas pessoas devotas para que rogassem a Deus por ele e pelo estado do reino, assim como frei João da Barroca, e Margarida Anes e Maria Estevens, emparedadas, que haviam quatro soldos por dia.

Fez mais ainda uma coisa muito notável e de grão louvor entre as gentes, que todos tiveram por assinalado bem: que alguns que estavam presos em poder dos castelhanos, por a guerra já ser muito acesa, e não tinham por onde pagar as suas rendições (resgates), eles os mandava tirar de cativos, pagando por eles tudo o que deviam de dar, e a outros fazia grossas ajudas para logo serem livres do poder de seus inimigos.

E por estas e semelhantes coisas que obrava começou de ser tão amado do povo, que via nele largueza de dons com leda e prazível graça de dar, e, além disso, fé e saber, e grande avisamento na governança e regimento que tomara, com o que todos se tinham por bem-aventurados de o haver por Senhor.

 

51. COMO OS DA VILA DE ALMADA TOMARAM VOZ PELO MESTRE, E COMO FOI SOBRE ALENQUER.

 

Segundo ensina o longo uso, e a prática disto nos faz muito certos, em nenhuma parte tem a inveja tão grande morada como na corte dos Reis e Senhores, e tendo o Mestre amiúde conselho com os seus para prosseguir em tamanho negócio, falava porém às vezes à parte com NunÁlvares, dizendo-lhe algumas coisas de que os outros não tinham conhecimento. Ora assim sucedeu que este comum mal que é a inveja se veio a assenhorear tanto dos corações daqueles que eram do Conselho do Mestre, tal como Rui Pereira e Álvoro Vasques, e o doutor João das Regras, e de todos os outros seus privados, ao verem que o Mestre falava em especial com NunÁlvares acerca de algumas coisas e seguia nelas o seu conselho, que vieram todos a combinar em segredo, havendo disto grande despeito, que sempre fossem contra quaisquer conselhos que NunÁlvares desse ao Mestre, ainda que bons e razoados fossem, e que nunca se ativessem a eles, e de facto assim faziam.

NunÁlvares acabou por saber deste segredo, e não disse nada a nenhum deles; e falando-se ao Mestre um dia no seu Conselho duma coisa muito notável, respondeu NunÁlvares o que melhor entendeu, por guisa que prouve ao Mestre da sua resposta e se acordou com ele na sua tenção. Os outros do Conselho, porque o Mestre se atinha à opinião de NunÁlvares, não foram de tal acordo contentes, antes o contradisseram muito, apresentando assaz de razões porque o seu conselho não seria bom.

NunÁlvares vendo isto começou a rir, conhecendo bem porque é que o faziam. Então o Mestre perguntou-lhe porque assim se ria, e ele contou-lhe tudo como era e porque é que discordavam do que ele dizia, e o Mestre muito se espantou de tal inveja, e teve com eles jeito em lhes falar, de guisa que não mais tiveram tal tenção e dali em diante foram todos em um só acordo.

E, entre as coisas que naquele conselho foram faladas, foi referido quão necessário era que a vila de Almada tivesse a sua voz pelo Mestre, porquanto era assim como a chave do mar para qualquer armada que elRei de Castela quisesse trazer contra a cidade, e visto que a vila não tinha castelo, nem alcaide que dela tivesse feito a menagem, facilmente a poderiam haver. O Mestre teve isto por bom conselho e ali foi, e os da vila receberam-no bem e ficaram por seus para o servirem, e isto sucedeu no primeiro dia de Janeiro de mil quatrocentos e vinte e dois anos.

E quando tornou de Almada para Lisboa ordenou logo de ir sobre Alenquer, uma vila com seu castelo que está a oito léguas da cidade, onde estivera a Rainha após a morte do Conde João Fernandes e antes que partisse para Santarém, como já ouvistes, e nesta vila estava por Alcaide Vasco Peres de Camões, que a tinha pela Rainha dona Lionor. O Mestre juntou até duzentas lanças, e besteiros e homens de pé, mas não muitos, e foi nesse dia dormir à Castanheira, a uma légua do lugar; e no dia seguinte, bem cedo de madrugada, amanheceu sobre ele, e pousou no mosteiro de são Francisco, e NunÁlvares nas casas de Vasco Martins dAltero, que estava casado com sua irmã.

E logo à tarde foram os do Mestre escaramuçar com os da vila, aonde chamam a porta de Soire; e o Mestre chegou aí e fê-los recolher porque os feriam do muro com as bestas; e embora ali fossem feitas várias escaramuças, nenhuma coisa aproveitavam que prestasse porque o lugar era muito forte e eles não levavam engenhos de assalto. Mas agora convém cessar com isto e deixarmos o Mestre em Alenquer, e a Rainha em Santarém, e irmos ver que fez elRei de Castela no seu reino quando lhe chegaram novas de que elRei dom Fernando era finado.

 

 

 

Actualizado em ( 26-Ago-2009 )
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >