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Crónica de D. João I, de Fernão Lopes
Capítulo VI - El rei de Castela prepara-se | Capítulo VI - El rei de Castela prepara-se |
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| Escrito por Fernão Lopes | |
| 26-Ago-2009 | |
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EL REI DE CASTELA PREPARA-SE.
A divisão em grandes capítulos numerada em romano é apócrifa, tal como os respectivos títulos, e foi introduzida pelo «O Espaço da História».
52. COMO ELREI DE CASTELA MANDOU PRENDER O CONDE DOM AFONSO SEU IRMÃO.
Assim sucedeu que estando elRei de Castela na Póboa de Monte Alvom, onde ficou quando deixamos de falar de seus feitos (Crónica de D. Fernando), chegou-lhe recado como elRei dom Fernando era morto; e tanto como o soube, logo no outro dia mandou chamar seu irmão dom Afonso, Conde de Gijon, à câmara onde estava e disse-lhe como lhe haviam trazido recado de que elRei dom Fernando, seu pai, era finado e que, por isso, para ficar dele seguro, porque estava casado com uma filha do finado e temia que se lançasse em Portugal a levantar alvoroço no reino, decidira de o prender. O Conde, ficando espantado quando isto lhe ouviu, pedia-lhe por mercê que lhe mantivesse o que lhe havia prometido quando com ele comungara o corpo de Deus. ElRei disse-lhe que não curava das suas razões, pois que era certo, depois que o Conde partira de Gijon e viera para a sua mercê, que ele lhe errara muito ao mandar algumas cartas a Portugal em seu desserviço. O Conde jurava que nunca tal coisa fizera, e que fosse sua mercê de lhe manter o que lhe prometera; elRei, não curando de cousa que ele dissesse, entregou-o preso a dom Pedro Tenoiro, Arcebispo de Toledo, e este trouxe-o para fora do Paço, onde já estavam à espera cerca de cinquenta a cavalo, e entregou-o a um dos mais honrados que com ele andavam, e foi-se aonde o Conde pousava e prendeu a Condessa sua mulher, e mandou-a logo a Toledo, que eram dali cinco léguas, e o conde igualmente foi para lá levado. E sendo o Conde preso por muito tempo, deu elRei a terra de Noruena à igreja de Ovedo, e confiscou para a coroa dos seus reinos todos os outros bens que o Conde havia nas Estuiras.
53. COMO ELREI DE CASTELA MANDOU PRENDER O INFANTE DOM JOÃO DE PORTUGAL.
Já tínheis ouvido, quando falámos da ida para Castela do Infante dom João (Crónica de D. Fernando), como por azo da Infanta dona Beatriz, sua irmã, mulher do Conde dom Sancho, fora encaminhado que ficasse com elRei, e foi assim que lhe deu elRei Alva de Tormes e Real de Maçanales e outros lugares, porém não vivia tão abastadamente como cumpria ao seu estado, pois não andavam com ele mais do que até dez ou doze que o acompanhavam de cote (usualmente), mas outros fidalgos que o amavam muito por ele ser quem era faziam-lhe no entanto grande honra e agasalho, acompanhando-o em sua casa e para o Paço, assim como dom João, filho de dom Tello, irmão delRei dom Henrique, que trazia dez vezes mais dos de sua casa que o Infante, e igualmente o Marquês de Vilhena, e Pero Fernandez de Valasco, que nunca andavam consigo menos de cento e cinquenta montados em mulas, e acompanhavam-no ainda João Duque e Rui Duque, seu irmão, e outros bons fidalgos da casa delRei. E como elRei de Castela casou com a Infanta dona Beatriz sabendo que elRei dom Fernando estava muito amiúde doente, logo se recearam que o Infante pudesse vir a reinar após a sua morte, e começaram a não se segurar dele e a ter maneira de que não fizesse por si coisa que elRei a não soubesse. Alguns dos seus que isto entendiam diziam-no por vezes ao Infante, e ele, como homem afastado de toda a malícia, não curava do que lhe diziam. E mal elRei fez prender o Conde dom Afonso, seu irmão, logo mandou prender o Infante dom João por Garcia Gonçalvez de Grisalva nas pousadas onde estava. E fez-lhe dizer que não o prendia por coisa que dele soubesse contra o seu serviço, mas porque se receava, dado que elRei dom Fernando era finado, que o tomassem alguns portugueses por Rei e fizessem bulício no reino contra a ordenação dos tratos, e que até que o reino fosse sossegado decidira detê-lo. Outros afirmam que a sua prisão foi muito por outra maneira. E dizem que mal se elRei dom Fernando finou, alguns do reino lhe escreveram à pressa como elRei seu irmão era morto, e que visse o que por sua honra lhe cumpria fazer sobre isto, e que ele, quando este recado lhe chegou, se foi a elRei e mostrou-lhe as cartas, e que este, dizendo que lho agradecia muito, então o mandou prender; todavia, de qualquer guisa que fosse, elRei mandou-lhe pôr boa guarda, e deu ordem para que prendessem, até sua mercê em contrário, qualquer dos seus que fosse achado naquela cidade para onde ele o mandara levar.
54. COMO ELREI FEZ EM TOLEDO EXÉQUIAS POR ELREI DOM FERNANDO, E DA MANEIRA QUE NISTO TEVE.
Presos assim o Conde dom Afonso e o Infante dom João, como ouvistes, ordenou elRei de fazer saimento por elRei dom Fernando na cidade de Toledo, e mandou lá preparar as coisas que cumpria, e ele ali atendeu até que isto fosse feito; e quando lhe trouxeram recado de que tudo era prestes, partiu elRei para lá e igualmente a Rainha, e elRei levava um saio preto, e a Rainha ia em umas andas (liteira) vestida de almáfega preta, e as andas iam todas cobertas de pano preto, que a não via ninguém. Os portugueses que com ela andavam levavam vestido burel branco, e isto mesmo as mulheres, e quando chegaram já era hora de véspera, e foram descavalgar a uma igreja que é muito perto do lugar, e vieram-se então para ela todas as donas da cidade, para irem em sua companhia. Dali levaram a Rainha à Sé, onde já estava um grande estrado feito e o ataúde fora posto em cima, tudo preparado como cumpria. E quando entraram pela porta da Sé, fizeram os portugueses todos grande dó, e a Rainha com as mulheres que de Portugal foram, e depois que acabaram as suas vésperas era já tarde, e foram para os seus Paços que eram dentro da cidade, onde a Rainha tinha na sala e na câmara tudo armado com panos tintos de preto. No outro dia pela manhã partiu elRei com a Rainha para a Sé, onde já estava feito um alto corregimento para eles, e, como entraram pela porta, fizeram seu dó assim como nas vésperas, e depois que isto cessaram, elRei despiu os panos pretos que levava e vestiu um comprido mantão de pano dourado forrado a arminhos e aberto pelo lado direito, e chamavam-lhes então mantões lombardos. A Rainha estava outrossim vestida mui ricamente daquele pano, e o sobrecéu e o assentamento em que estavam eram todos cobertos até ao chão desse mesmo pano dourado, e, estando eles assim, veio uma procissão nesta guisa: vinha o Arcebispo de Toledo, com capa bem rica e mitra na cabeça, e todos os cónegos e clerezia da cidade a rezar, e trouxeram a bandeira das armas de Castela com os sinais de Portugal cosidos em baixo, e levaram-na nesta procissão e puseram-na entre elRei e a Rainha. ElRei fez então chamar Vasco Martins de Melo, que fora de Portugal com a Rainha, e ele veio logo apresentar-se, e elRei disse que a coisa mais honrosa que havia no seu reino, a título de ofício, era ser seu Alferes mor, e que ele, para lhe galardoar a sua vinda, pois viera de Portugal com a Rainha sua mulher, e depois por o conhecer como muito bom, o fazia seu Alferes de Castela e Portugal, e que tomasse logo aquela bandeira e a levantasse por ele, conforme o costume quando se faz algum novo rei. Vasco Martins disse que lho tinha em grande mercê, mas que tal carrego não filharia por ser vassalo delRei dom Fernando e seu Guarda-mor, e que poderia ser que se recrescesse depois guerra contra o reino de que ele era natural, e cair ele em caso de menos valer.
55. DO QUE ACONTECEU QUANDO ALÇARAM PENDÃO POR ELREI DE CASTELA.
Quando elRei viu que a sua intenção era não tomar carrego de ser seu Alferes, mandou chamar João Furtado de Mendonça e deu-lhe aquele ofício, e entregou-lhe a bandeira. João Furtado teve-lho em grande mercê e levantou-a logo, e começaram de dar às trombetas, dizendo a grandes vozes: Arreal, Arreal! Por elRei dom João de Castela e de Portugal! E assim levaram a bandeira até fora da Sé. À porta estava já prestes um cavalo delRei, selado para nele se trazer a bandeira por toda a cidade; e estava aí João Nunez de Toledo, e outros a cavalo, cada qual com as suas hastes de dardo brancas nas mãos, e alfaremes nelas para irem em sua companhia. Montou a cavalo o Alferes e puseram-lhe a bandeira na funda que levava na sela, e João Nunez deu grandes vozes, para que todos dissessem: Arreal! Arreal! Por seu Senhor elRei dom João de Castela e Portugal! Começando a correr todos atrás da bandeira que ia adiante. E, correndo eles assim com grande prazer, descoseu o vento os sinais de Portugal que iam em baixo e ficaram pendurados, e o cavalo em que ia o Alferes foi topar num canto fora da Sé e quebrou-se-lhe uma espádua e caiu com ele. Alguns que isto viam tiveram-no por mau sinal, dizendo entre si que nunca elRei de Castela havia de ser Rei de Portugal. E disseram a elRei que não era bem que os sinais de Portugal andassem assim no fundo, e ele mandou logo pôr a ambos os sinais em escudos idênticos. E os portugueses que faziam dó por elRei dom Fernando, quando souberam o que tinha acontecido, do descoser da bandeira e da queda do cavalo com o Alferes, tomavam grande prazer com isso, dizendo uns aos outros que nunca Deus o havia de fazer senhor de Portugal. Nisto, desceu o Rei com a Rainha do assentamento em que estavam e vestiram os panos de dó que antes traziam, e revestiu-se o Arcebispo e disse missa por elRei dom Fernando, e, acabado o dó e suas exéquias, foram comer e depois partiram logo para a Póboa de Monte Alvom, onde antes pousavam, e ali estiveram cerca duns dez dias.
56. COMO ELREI TEVE CONSELHO ACERCA DE SE ERA BEM ENTRAR EM PORTUGAL, E COMO DETERMINOU DE O FAZER.
Estando elRei naquele lugar, teve conselho acerca de se era bem entrar logo poderosamente em Portugal para se assenhorear do reino, ou de que maneira nisto devia ter, porque, tanto como ele soube que elRei dom Fernando era finado, logo enviou a chamar companhias e homens de armas para entrar com elas em Portugal. E sobre isto houve um grande conselho que durou vários dias e estava partido em duas vozes. Os mais do Conselho, e que o melhor e mais sãmente aconselhavam, diziam assim: Senhor, vós não deveis nem podeis direitamente entrar em Portugal por esta guisa com gentes de armas, segundo os tratos que entre vós e elRei dom Fernando foram firmados, mas cumpre muito a vosso serviço, segundo a forma em que são jurados, de os guardar e cumprir em tudo e ter maneiras com as gentes de Portugal, de guisa que não vades por força entrar no reino. E, fazendo assim, guardareis vossa verdade, segundo prometestes, e nós igualmente, convosco, doutro modo, entrando em Portugal com o vosso poderio, não podeis evitar de fazer dano na terra, nem que seja, ao menos, no tomar das viandas, por a qual razão cresceria grande ódio entre os portugueses e os castelhanos, o que não seria para vosso serviço; depois, por também quererdes entrar com pouca gente, podia-se-vos seguir perigo; e por isso nos parece que é bem que vos vades para Salamanca, que é cerca de Portugal, e não envieis entretanto a chamar por nenhuma gente de armas. Mas mandai dali vossos embaixadores a Portugal, notificando aos senhores e poderosos dele como soubestes que elRei dom Fernando era finado, e que bem sabem como ficou por herdeira do reino sua filha a Rainha dona Beatriz, vossa mulher, e igualmente os tratos e avenças que foram sobre isto feitas e juradas, e que a vossa vontade é de guardar todas as coisas contidas nos tratos, segundo o tendes jurado e firmado, e que se eles entendem que há aí alguma coisa a acrescentar ou a reduzir neles, que seja em proveito e honra do reino, que sois muito prestes de o fazer, sendo nisso guardada a vossa honra e serviço. E que enviem os seus embaixadores àquela cidade para verdes o seu recado e concordar ali com eles em tudo o que para vosso serviço sentirdes. E ainda nos parece que é bem, vindo tais embaixadores a vós, que lhes façais muita honra, e repartais com eles de vossos dinheiros e jóias, e que lhes digais como queríeis e vos prazeria muito de ter tais maneiras com eles que fossem em vosso serviço e proveito do reino e honra dos moradores dele. Outrossim lhes podeis mais dizer que bem sabem como nos tratos jurados e firmados entre vós e elRei dom Fernando está prescrito que a Rainha Lionor, vossa sogra, haja a governança do reino até que vós tenhais filho que passe dos catorze anos, o qual há-de ser criado em Portugal, passado três meses do dia em que nascer, sob o poderio de sua avó, e que assim vos praz de o guardar e ter, e que se eles entendem outra maneira melhor de regimento, por algum ou alguns do reino que dele sejam regedor ou regedores, por qualquer guisa que eles virem que de mais proveito é, guardando vosso serviço e honra, que vos praz muito disso e que assim o quereis fazer, e que assim o digam os mensageiros que a Portugal mandardes àqueles fidalgos e senhores com que houverem de falar, e a eles prazerá de tais maneiras como com eles quereis ter, e assossegarão as suas vontades e havê-los-eis para o vosso serviço. Outros do Conselho, não verdadeiros conselheiros, vendo como elRei havia grande desejo de entrar em Portugal, não curando dos tratos nem dos juramentos que ele e os seus tinham feitos para guarda deles, nem das penas e caso em que caíam indo contra todos ou parte dos mesmos, mas somente por vontade de comprazer a elRei, louvavam tudo o que ele razoava, dizendo que era muito bem de entrar logo poderosamente em Portugal, sem curar de nenhumas avenças, e diziam a elRei que não era obrigado a guardar tais tratos, porque foram feitos contra sua honra e ainda contra o direito, e que, por isso, não deviam ser guardados. Mas que era muito bem que ele entrasse, antes que os portugueses houvessem sobre isto algum avisamento, com as suas gentes no reino para cobrar o direito que nele tinha; e que se alguma outra avença aí houvesse a fazer sobre isto, que mais de seu serviço seria fazê-la dentro de Portugal, e não ficando ele em Castela. ElRei, que grande vontade tinha de cobrar o reino por qualquer guisa que fosse, chegava-se a esta voz, louvando o que eles diziam. Os que primeiro falaram desfaziam estas razões, havendo-as a todas por jogo e não sãmente entendido, dizendo a elRei: Senhor, quanto o vosso estado é maior tanto mais vos deveis de guardar de nalguma serdes censurado, e assim como nas coisas boas a tardança é coisa feia, também a pressa onde não cumpre é contada por torpeza. Nem podemos crer que de tal entrada por este modo se siga tanto proveito que muito mais dano não seja; pelo menos, fazer-vos-á ficar em dobrada míngua, falecendo da prometida verdade e ademais do juramento e das menagens sobre ele feitas. Como se pode dizer pela vossa parte que fostes enganado nos tratos, sendo eles feitos contra vossa honra e proveito, como estes dizem, onde tantos letrados e também avisados e prudentes homens do vosso Conselho foram todos acordes antes que os outorgasses? E vós mesmo no juramento que fizestes em Badalhouce, aprovando todas as coisas que por vosso procurador foram feitas, tanto a respeito do vosso casamento como na sucessão do reino depois da morte delRei dom Fernando, dais de vós testemunho e fé que elas primeiro foram por vós vistas e examinadas, havendo sobre todas e cada uma delas largo e maduro conselho, e assim está contido e escrito nos tratos. Pois então como se pode dizer agora que foram feitos em vosso prejuízo? Dizem-no estes para vos seguirem a vontade, mas não para mostrar razão que de direito o podeis fazer, assim, antes quebrantais vossa verdade, e nós ficamos à fé de perjuros, e caímos em mau caso. ElRei, desejando entrar em Portugal, crendo que com o seu grande poderio lhe obedeceriam e cobraria o reino, não punha dúvida em o fazer nem curava de conselho que alguém contra isto lhe desse.
57. COMO O BISPO DA GUARDA DISSE A ELREI QUE LHE DARIA A CIDADE, E COMO ELREI DETERMINOU DE EM TODA A GUISA ENTRAR NO REINO.
Tendo elRei vontade de entrar desta guisa em Portugal, contudo duvidando ainda um pouco por azo dos muitos que lho desdiziam, andava aí um Bispo da Guarda, Chanceler da Rainha, que fora com ela de Portugal quando casara, segundo ouvistes. Este disse a elRei que a cidade da Guarda donde ela era Bispo era muito forte e na frontaria de seu reino, e que todos os mais que nela viviam eram seus criados e fariam o que ele lhes mandasse, e que se a elRei fosse sua mercê de lá ir, que ele o acolheria logo nela. A elRei prouve muito do que o Bispo lhe disse, e cresceu-lhe mais a vontade de todavia entrar em Portugal, e partiu logo da Póboa de Monte Alvom onde estava, enviando a chamar por companhas e gentes de armas que se viessem à pressa para ele, onde quer que estivessem. E chegou elRei mais a Rainha à ponte de Allcollea (I), que então o Arcebispo fazia no Tejo, e mandou-lhes o Arcebispo dar, a eles e a todos os seus, todas as coisas que mister lhes faziam, e estiveram aí dois dias, e partiram para Talaveira, e daí se foram a Prazença. Ali disse elRei aos de seu Conselho que o bispo da Guarda lhe afirmara que lhe daria a cidade, e o que é que disto lhes parecia.
Nota (I): A meu ver, deve haver erro na designação da ponte, talvez em resultado de confusão entre Alcantara e Alcolea.
E alguns deles lhe disseram outra vegada (outra vez de novo) que fosse sua mercê de guardar os tratos que entre ele e os de Portugal tinha firmados, e as juras e penas em que ele e os seus caíam em os quebrantando, pela qual razão de maneira nenhuma os devia esquecer. E que entrando por tal modo naquela cidade os do reino se temeriam dele, dizendo que contra a vontade deles e a seu pesar se queria apoderar da terra, ademais que a governança do reino, segundo os tratos, era da Rainha Lionor sua sogra, e que ele pelo direito de nenhuma guisa o podia fazer, e os que davam este conselho diziam além disso, para o desviar, que eles sabiam como na cidade da Guarda havia um castelo muito bom, o qual tinha Álvoro Gil Cabral, que não era da parte do Bispo, e que lhe não cumpria de entrar na cidade sem cobrar logo aquele castelo, e que, portanto, não se apressasse até que as coisas melhor se encaminhassem para seu serviço. Outros, que de nenhuma outra coisa curavam senão de falar à vontade delRei, diziam que era bem que elRei partisse logo e cobrasse a cidade, cabeça de toda a comarca da Beira, que era uma grande terra onde havia muitos ricos e honrados cavaleiros e escudeiros que se viriam logo para ele, querendo antes estar sob governação e senhorio seu do que da Rainha dona Lionor sua sogra. ElRei, sempre ansioso por cobrar o reino, postas adeparte (de lado) todas as juras e prometimentos que ouvistes, disse que era muito bom conselho, e mandou ao Bispo que se fosse adiante para logo ter prestes e encaminhado que ele fosse recebido na cidade.
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| Actualizado em ( 26-Ago-2009 ) |
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