História das Cruzadas
Capítulo VII - Os castelhanos entram em Portugal | Capítulo VII - Os castelhanos entram em Portugal |
| Escrito por Fernão Lopes | |
| 26-Ago-2009 | |
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OS CASTELHANOS ENTRAM EM PORTUGAL.
A divisão em grandes capítulos numerada em romano é apócrifa, tal como os respectivos títulos, e foi introduzida pelo «O Espaço da História».
58. COMO ELREI DE CASTELA ENTROU EM PORTUGAL, E DALGUNS FIDALGOS QUE SE VIERAM PARA ELE.
Foi-se o Bispo da Guarda e chegou ao lugar, e elRei partiu de Prazença e chegou a Perosim, junto com Fonte Guinaldo; e ali lhe veio recado do Bispo que já tinha a cidade por ele e que fosse depressa, de guisa a que amanhecesse no lugar, porque os da vila e do termo já sabiam como ele vinha, e que se naquele tempo não fosse, que era dúvida de o haver, pois seriam já todos percebidos e ele o não poderia bem suportar. ElRei, como viu o seu recado, partiu de Perosim à tarde e andou toda aquela noite, e a Rainha com ele, e chegou à Guarda em amanhecendo, e de seus oficiais, dos que habitualmente andavam com ele, não o acompanhavam mais do que até trinta homens de armas. O Bispo saiu a recebê-lo com a sua clerezia em procissão o mais honradamente que pôde, e assim entrou na cidade ele e a Rainha e os que com ele iam, e foi elRei pousar aos Paços do Bispo. Álvoro Gil não saiu a ele, ficando quedo em seu Castelo, sem mostrar de que lado estava. Mas veio Vasco Martins de Melo, que fora com a Rainha e pousava em Fonte Guinaldo, a quem elRei mandara dizer quando partiu de Perosim que se fosse após ele à Guarda. E Martim Afonso, rico homem seu irmão, que tinha Celorico e Linhares, foi o primeiro que se veio para elRei de Castela, e ficou por seu ali na Guarda, da qual coisa desprouve muito a seu irmão Vasco Martins, porque começara de se vir para ele antes que nenhum outro. A elRei chegou no outro dia alguma daquela gente por que mandara, que seriam até duzentas lanças; e ao cabo de três dias chegou o Conde de Mayorgas, depois Pero Fernandez de Valasco e Pero Sarmento e outros capitães com umas quinhentas lanças. ElRei, vendo que Álvoro Gil não lhe vinha falar nem saía para fora do Castelo, disse a Martim Afonso de Melo que se entendesse com ele para que lhe viesse falar. Assim o fez Martim Afonso e trouxe-o seguro de ida e volta, e ele falou com elRei e tornou-se para o seu castelo, e não lhe falou depois mais. No outro dia Vasco Martins mandou falar a Álvoro Gil por Martim Afonso, seu filho, dizendo que fizera muito bem em não vir para elRei de Castela, nem que se lhe desse, pois lhe garantia por certo que elRei não o assediaria, que apenas por aí passava e se ia em seu caminho, e que se por acaso aviesse que elRei o quisesse fazer, que lhe prometia juntar-se a ele, com os seus filhos e com os que tinha, e ajudá-lo-ia a defender o castelo. ElRei ficou aborrecido por Álvoro Gil não mais lhe falar nem vir para ele, mas vieram dos cavaleiros e escudeiros daquela comarca, enquanto elRei esteve na Guarda, estes que aqui se nomeia: Martim Afonso de Melo, que foi o primeiro; Vasco Martins da Cunha, Martim Vasques, seu filho, e outros filhos seus; FernandAfonso de Merlo, e Álvoro Gil de Carvalho, e outros. ElRei recebia-os muito bem, dizendo-lhes que lhe fizessem preito e menagem pelas fortalezas que tinham, e eles faziam-lhe menagem de receber e haver por sua rainha e senhora a Rainha dona Beatriz, sua mulher, e a ele também, como seu marido, e isto todavia com o entendimento de que os tratos fossem guardados pelo modo como foram postos entre ele e elRei dom Fernando. A elRei pesava muito desta condição que punham em tais menagens, porém dava lugar a isso, porque mais não podia fazer por então. E apesar de que estes cavaleiros e escudeiros se viessem ali para elRei, no entanto, segundo alguns escrevem, não se contentavam do agasalho e acolhimento que achavam, e assim como vieram para ele cedo, assim começaram a tratar entre eles para logo se partir, e dizem que isto foi por duas razões. A primeira porque elRei era homem de poucas palavras e não muito ledo, e eles haviam-se habituado com elRei dom Fernando, que era de grandes gasalhados; a outra porque elRei não lhes dava logo dinheiros, e isto não podia ele fazer, pois tão à pressa entrara no reino para cobrar a sua posse que não tivera o sentido de esperar por dinheiros nenhuns.
59. DAS RAZÕES QUE BEATRIZ GONÇALVES DISSE A SEU FILHO PARA NÃO DAR OS CASTELOS QUE TINHA A ELREI.
Um bom fidalgo daquela comarca, chamando-se de seu nome Gonçalo Vasques Coutinho, era Alcaide de Trancoso e Lamego e outros lugares, e estando ele em Trancoso quando elRei chegou à Guarda, elRei pensou que se viesse para ele, como fizeram alguns outros, e ele foi disso demovido, segundo alguns escrevem, mas outros assinalam em seus livros razões diferentes para o ter deixado de fazer. Uns contam que ele enviou então um escudeiro com cartas de credença (I), uma a Vasco Martins de Melo e outra a Vasco Martins o moço, seu filho, que morreu depois na batalha, como mais adiante ouvireis, pelo qual rogava-lhes que o aconselhassem a que maneira devia ter nesta entrada que elRei fazia no reino por esta guisa, porque via muitos fidalgos daquela comarca irem-se para elRei de Castela, e que ele não faria em relação a isto nenhuma coisa sem o seu conselho.
Nota (I): Presumivelmente, credenciais, ou seja, a mensagem não seria escrita mas transmitida oralmente pelo mensageiro, que para tal era credenciado.
E que eles lhe mandaram dizer que se não fosse para ele, que elRei de Castela não vinha senão para passar em seu caminho, e não para cercá-lo a ele nem a outros, ainda que logo para ele não viessem. Outros contam que não foi por esta razão, mas que Beatriz Gonçalves, sua mãe, estava com ele naquele lugar, e que falando com ela sobre a maneira que teria em seus feitos, pois elRei de Castela entrava no reino por aquela guisa, sua mãe lhe respondeu e disse: Filho, com os néscios e com os apressados ganham os homens, e nas coisas que são para esguardar (ver com cuidado) sempre a pressa é danosa, e os reis e os poderosos muitas vezes cuidam de acabar coisas de que hão grande desejo e às vezes não se lhes segue como eles pensam. ElRei de Castela entra neste reino quebrando os tratos como bem vemos, e posto que alguns se vão para ele e fiquem por seus, não praz a muitos, porém, com a sua vinda, antes pesa a todos os povos, crendo que faz o que não deve, como é verdade, quebrando as avenças que entre ele e elRei dom Fernando foram firmadas. Lisboa tomou o Mestre por regedor e defensor, como souberam que elRei de Castela queria vir, e são já outras cidades e vilas do reino com eles nesta tenção, de modo que já que estes feitos levam começo para não se decidirem muito de ligeiro, embora alguns digam que a voz que Lisboa e os outros lugares tomam contra elRei é um pouco de vento, por isso me parece que é bom que vos deixeis assim estar até que vejais que termo põe Deus nesta coisa, e assim podeis encaminhar vossos feitos como sentirdes mais por vossa honra e proveito. A ele este pareceu um bom conselho, e creu do que lhe dizia sua mãe, e esta foi a razão porque não veio falar a elRei, e não a primeira, como alguns disseram.
60. DO RECADO QUE MANDOU A RAINHA DONA LIONOR A ALGUNS CONCELHOS DEPOIS DA MORTE DO CONDE JOÃO FERNANDES.
No mês passado antes deste em que se começava o novo ano em Castela da nascença de nosso Senhor Jesus Cristo de mil trezentos e oitenta e quatro, e da era de César de mil quatrocentos e vinte e dois, já depois da morte do Conde João Fernandes, estando a Rainha então em Alenquer, mandara cartas a alguns concelhos em que largamente lhes fez saber quão lastimada e cheia de quebranto estava pela morte delRei seu marido, e como pelo seu finamento os reinos ficavam para a Rainha dona Beatriz, sua filha. E que para se não seguir o ajuntamento destes reinos com os de Castela, mas serem sempre coroa sobre si (independente) como até ali haviam sido, conforme nos tratos era divisado e elRei deixara em seu testamento, ela tomara encargo do regimento deles, por aquele tempo em que o havia de ter, se bem que nisto sentisse grande trabalho do corpo e aflição para a sua alma, mas que o fazia para salvação de todos eles, e para lhes compensar o muito serviço e honra que deles havia recebido. E que estando ela em Lisboa em seus Paços, ordenando o que cumpria por serviço de Deus e proveito dos reinos, que tornara o Mestre de Avis, que ela já tinha enviado para pôr recado nas vilas da Ordem e em algumas outras daquela comarca, e que matara o Conde João Fernandes, por cujo azo e alvoroço da cidade se partira desta e se fora para Alenquer. E que se enviava a querelar ante eles de tais coisas para disto se sentirem, sua tenção não era tornar a elas com vontade de vingança, mas somente para fazer direito e justiça. E que entendia de enviar recado a elRei de Castela que se sofresse (abstivesse) de entrar no reino, para todos eles não receberem dano e os reinos ficarem sobre si (em independência), o que seria em grande dúvida se a Rainha sua filha e elRei seu marido cobrassem logo deles o regimento; e que isto lhes enviava notificar como a pessoas de que muito se fiava, e para verem qual era a sua intenção em prol e honra de todos eles.
61. COMO A RAINHA ESCREVEU A ELREI QUE ENTRASSE NO REINO, E A TENÇÃO PORQUE O FEZ.
Mandadas tais cartas pelo reino, cujo conteúdo em breve dissemos, os enfermos corações de todos postos em grande pensamento não sabiam que cuidar em tais feitos. Era-lhes muito grave de ouvir que elRei de Castela viesse ao reino, vendo-o posto em grande balança para de todo ficar com Castela, e isto sentia a maior parte do povo miúdo, que não era do bando da Rainha. E uns tinham que elRei se sofrearia de tal entrada, escrevendo-lhe sua sogra da maneira que lhes dissera, mormente por razão dos tratos que com tais menagens e juramentos eram feitos. Outros de todo perdiam esta esperança ao verem os acontecimentos de desvairadas guisas que se espargiam pelo reino, e porque já diziam que vinha à pressa, para logo cobrar a posse dele. Em este comenos entrou elRei, como ouvistes, e estando na Guarda neste mês de Janeiro que dissemos chegaram afligidas cartas da Rainha, muito em contrário do que ela antes escrevera aos concelhos. Pois ela certificava-lhes que entendia de enviar recado a elRei que se abstivesse de entrar no reino, para todos eles não receberem dano, e nestas cartas fazia saber a elRei todas as coisas que em Lisboa se haviam passado, assim da morte do Conde João Fernandes, que o Mestre matara na sua presença, como da morte do Bispo e dos outros que naquele dia foram mortos na Sé. E que ela, com receio e muito nojosa, partira de Lisboa e se viera para Santarém, onde por então estava, e que por isso lhe rogava que pusesse aguça (diligência, pressa) em seu caminho e ali chegasse, que ela se tinha por muito desonrada do Mestre dAvis e dos moradores de Lisboa, os quais entendia que não queriam a ele obedecer nem haver a Rainha dona Beatriz, sua mulher, por senhora. E que a discórdia e levantamento dos da cidade, de que o Mestre era capitão e cabeça, pondo-se por eles para os defender e chamando-se Regedor e Defensor do reino em suas cartas, seria azo de seu grande acrescentamento. Porém que ela tinha irmãos e grandes fidalgos seus parentes que haviam assaz de fortalezas, com as quais lhe podiam dar boa ajuda em muitas guisas, e além disso a vila de Santarém, em que ela estava, que era uma das melhores do reino, e que portanto cumpria muito dar trigança à sua vinda para onde ela estava. ElRei de Castela, vendo seu recado, prouve-lhe muito com ele, e, como pessoa que havia grande desejo de entrar no reino, outra coisa não lhe fizeram estas cartas da Rainha, quando assim chegaram, senão ajuntar esporas ao que tinha vontade de correr, e logo no outro dia ordenou de partir. Agora sabei que a razão porque a Rainha escreveu tais cartas, segundo alguns em seus livros apontam, foi o grande queixume que ela havia do Mestre dAvis e doutros do reino de que suspeita tinha, e igualmente dos povos de Lisboa e dalguns lugares que estavam com eles. Entendendo ela que, depois que elRei de Castela chegasse com seu grande poder, faria com que as gentes lhe obedecessem e a vingaria de todos, especialmente dos homens e mulheres de Lisboa, das quais ela dizia que nunca havia de estar vingada até que tivesse um tonel cheio das línguas delas. E sem dúvida que se as coisas se seguissem como ela cuidava estranhas haveriam sido as justiças que ela mandaria fazer nos moradores daquela cidade, pelo que sabia que dela diziam abertamente aquando da morte do Conde. E depois que desta guisa fosse vingada, e o reino todo sossegado, que se tornaria elRei para sua terra, e ficaria ela em sua honra e regimento de modo a que nenhum daí em diante, por grande que fosse, e muito menos os pequenos povos, seriam ousados de a contradizer, receando vingança idêntica. E ela vingada e o reino sem alvoroço, ir-se-ia elRei para sua terra e ficaria ela como desejava.
62. COMO ELREI DE CASTELA SEGUIU SEU CAMINHO E CHEGOU A SANTARÉM.
Partiu logo elRei da Guarda e foi-se em romaria a Santa Maria dos Açores e jantou naquele lugar, e foi dormir a Celorico que já Martim Afonso de Melo lhe tinha dado, e esteve aí quatro dias; dali partiu e andou seu caminho, e chegou junto a Coimbra que tinha o Conde dom Gonçalo, irmão da Rainha, e onde estava Gonçalo Mendes de Vasconcelos, seu tio. E estes não se vieram para elRei nem o acolheram na cidade, mostrando que lhes não prazia de estar com ele; depois chegou a Miranda, onde estava o Conde de Viana, que veio recebê-lo e ficou por seu, e esteve elRei ali um dia. No outro dia seguinte partiu de madrugada e foi dormir ao Chão do Couce, e no outro dia foi comer a Ceras e dormir a Tomar. Ali pensou elRei que se viesse para ele o Mestre de Christos, sobrinho da Rainha dona Lionor, filho de sua irmã. E quando chegou a Tomar e soube que se partira dali houve disto grande queixume, porque cuidou que ficasse por seu, como os outros; e foi elRei pousar às pousadas do Mestre que estão no rossio. E certamente, conforme escreve um autor na sua estória, assim foi de facto, pois o Mestre ia-se ao caminho para elRei, para ficar com ele e o servir, e um Cavaleiro da sua Ordem, quando o viu assim ir e a tenção que levava, disse ao Mestre nesta guisa: Senhor, a mim me parece que vós ides receber elRei de Castela para ficar com ele e serdes seu, e vós, Senhor, se isto bem esguardardes, não o deveis de fazer assim até que vejais a que termo estes feitos querem ir, e depois que virdes como se encaminham, então podeis fazer o que sentirdes para vossa honra e proveito, sem ficar com nenhum prasmo. Com estas e outras razões que assim foram falando, foi o Mestre movido a não ir por diante, e tornou-se para Pombal e ali ficou. ElRei dormindo em Tomar, houve naquela noite guarda no arrabalde, e aconteceu uma escaramuça, de tal guisa que mataram um que havia de nome Anrique alemão e uns cinco até seis com ele. ElRei partiu dali à meia-noite e foi amanhecer à Golegã, e aí comeu, e partiu depois para Santarém, e a Rainha sua mulher com ele, e, duas léguas antes que ele chegasse a Santarém, reuniram-se-lhe esses que ali estavam com a Rainha (Leonor), não porém todos juntos, mas a cada qual como lhe prazia, e saíram-no a receber, beijando a mão a ele e à Rainha, oferecendo-se por seus. Entre os quais foi Gonçalo Vasques de Azevedo, e João Gonçalves Teixeira, dizendo a elRei, da parte da Rainha dona Lionor, que a Rainha sua mãe se enviava muito encomendar a ele e que fosse muito bem-vindo, que havia tempo que o desejava ver em Portugal. A Rainha dona Beatriz, antes que chegasse às vinhas de Santarém, deteve-se ali um pouco para se corregir como lhe cumpria, porque trazia os seus corregimentos pelo caminho, e mandou elRei a Pero Fernandez de Valasco e a Pero Sarmento que se fossem adiante e que o aguardassem junto ao Chão da Feira, que é ante a porta do castelo, e eles assim o fizeram, e Gonçalo Vasques e João Gonçalves tornaram-se para a Rainha.
63. COMO O MESTRE SE TORNOU DE ALENQUER PARA LISBOA.
O Mestre, que deixámos em Alenquer, trazia esculcas (vigias) com elRei de Castela, depois que lhe disseram que era na Guarda, para saber as gentes que com ele vinham e que caminho queria trazer, e antes alguns dias que chegasse a Santarém deram ao Mestre recado de como ele vinha para ali directamente, e que trazia as gentes espalhadas, e não estava muito acompanhado. O Mestre disse a NunÁlvares como elRei de Castela vinha pelo reino, e que seria muito cedo em Santarém, e que lhe parecia que era bem de se tornarem para a cidade, para pôr guarda e recado nela. Nuno Álvares respondeu a isto dizendo que, posto que eles se tornassem para a cidade, tão bem saberia elRei de Castela o caminho, para vir sobre ela, como eles, que a haviam de defender, e assim seu conselho era que, enquanto elRei de Castela vinha com pouca gente, antes que se juntasse com ele maior poder, se trouxesse esculca a segui-lo e, mal chegasse ao termo de Santarém, lhe saíssem de travessa ao caminho e pelejassem com ele, por cujo desbarato muito adiantariam em sua demanda. O Mestre disse que lhe parecia bom o seu conselho mas que isto não se podia fazer a seu salvo, porquanto eram ali muito poucos; nisto veio-lhe outro recado, informando-o de que elRei havia de ser naquele dia em Santarém, e o Mestre partiu com suas gentes e veio-se para Lisboa.
64. COMO ELREI FALOU À RAINHA E A LEVOU CONSIGO PARA O MOSTEIRO ONDE POUSOU.
Antes alguns dias que elRei de Castela chegasse a Santarém, mandou adiante Pero Carrilho, seu Aposentador mor, para requerer à Rainha que lhe mandasse dar pousadas e bairro para os seus, e ela houve conselho com esses fidalgos e senhores que com ela estavam, e acordaram que não pousassem dentro da vila nem elRei nem os que com ele vinham, mas que elRei pousasse num dos mosteiros, qual lhe mais prouvesse, e os seus no exterior, como melhor pudessem. O Aposentador, vendo isto, não se tornou por isso para elRei, mas aguardou ali até que viesse. A vila começou de se guardar melhor, que antes não o era, como se fosse em tempo de guerra. Ora contam alguns que, não embargando que a Rainha dona Lionor mandasse chamar elRei de Castela e lhe prouvesse muito da sua vinda, como era mulher sages e percebida em tudo, não tinha o coração bem seguro de que elRei teria nos seus feitos aquela maneira que ela desejava e queria. E, receando-se muitas destas coisas e de nenhuma estando segura, que duvidava muito de sair do castelo e de se pôr em poder delRei, receando o que depois sucedeu, e que não quisera sair cá fora a falar-lhe, mas que fosse elRei entretanto pousar a um desses mosteiros e que depois combinariam a maneira que teriam em suas falas. E diziam-lhe Martim Gonçalves dAtaíde e Gonçalo Rodrigues de Sousa e outros fidalgos que de toda a maneira não se pusesse em poder dele, porque poderia ser que a retivesse elRei até que lhe entregasse aquele lugar e todos os outros que por ela estavam. E Gonçalo Vasques e João Gonçalves disseram à Rainha que isto não fizesse por nenhuma guisa, pois que seus filhos eram e que os fizera vir do seu reino, chamados por suas cartas, e ela faria grande desmesura, e coisa de que elRei teria má suspeita e grande queixume, em não sair logo a recebê-los e lhes falar, mormente porque eles entenderam nele, quando o foram receber, que ele lhe tinha bom desejo e vontade de lhe fazer prazer em toda a coisa que pudesse. E dizem que nisto chegou elRei a Santarém numa terça-feira depois de véspera, aos doze dias de Janeiro, e a Rainha dona Beatriz sua mulher, a qual vinha em cima duma mula de sela coberta de dó, e dona Beatriz de Castro e outras mulheres e donzelas com ela. Com elRei vinham até cento e oitenta de cavalo todos armados, e lanças levantadas e trombetas consigo, mas logo mais tarde vieram muitos. E descavalgou ele e sua mulher num grande chão de feira que se faz ante a porta do castelo, e todos os fidalgos e donas e donzelas que em sua companhia vinham, e que estando assim pé terra o foram dizer à Rainha, e que então saiu ela de mamente (de má vontade), coberta de um grande manto preto, que lhe não aparecia o rosto, trazendo-a pelo braço Vasco Peres de Camões e vindo poucos com ela. E elRei, como a viu, foi-a logo receber, abraçando-o ele e sua filha, e ela, choramingando, começou logo a dizer a elRei: Filho, Senhor, faço-vos queixume do Mestre dAvis, que matou o Conde João Fernandes em meus Paços à beira de minhas fraldas, e me deitou fora de Lisboa, a mim e a quantos eram meus e tinham da minha parte. E que elRei lhe respondeu que a isso era vindo, para lhe fazer todo o prazer e honra e lhe dar vingança do que assim lhe fora feito. E que então se despediu a Rainha delRei e de sua filha e que se quisera tornar para o castelo, e que elRei a teria deixado ir se não fora Pero Fernandez Valasco, que disse que lhe parecia ser razoada coisa ele a levar consigo, pois já havia muito tempo que ela não o via a ele nem à sua filha, e que portanto a levasse. Sem embargo disto a Rainha quisera tornar-se para o castelo, dizendo a elRei que, visto que ainda não estava aposentado, a deixasse ir por então, e que no outro dia de manhã ela se iria para ele e para sua filha. E elRei disse que todavia se fosse com ele, e tomou-a pelo braço duma parte e a Rainha da outra, e levaram-na consigo para o mosteiro de são Domingos, onde elRei havia de pousar. Mas dado que desde o começo desta obra costumamos pôr diversas opiniões, para cada um reter qual lhe mais prouver, digamos aqui outro razoado, que em muita parte desacorda deste, pois um autor que dá testemunho que esteve presente diz que já ela estava na ponte à porta do castelo quando disseram que elRei vinha. E que elRei e a Rainha chegaram ambos juntos e a abraçaram, beijando-lhe sua filha a mão, e que as razões que eles houveram ninguém as ouviu; e que então a apartou elRei um pouco da Rainha sua filha e falou um mui pequeno espaço com ela, sem nenhum ouvir o que diziam, e então a levou para o mosteiro de são Domingos, e assim foi a sua partida, e doutra guisa não, pondo-se logo guarda a elRei essa noite de duzentas lanças, e assim daí em diante.
65. COMO ELREI ORDENOU DE SE VIR PARA A VILA, E DA MANEIRA COMO ENTROU NO LUGAR.
As falas e razões que elRei aquela noite ouve com a Rainha dona Lionor, sua sogra, ninguém claramente as põe em escrito, salvo quando dizem que elRei lhe afirmou que ele não lhe podia dar vingança do Mestre nem dos outros como ela queria, nem subjugar vila nem cidade das que tinham voz contra ela, se primeiro não renunciasse e entregasse a ele e a sua filha todo o regimento que havia de ter no reino segundo nos tratos era contido, e ela, mudando de seu propósito e vontade, determinou de o fazer. Nem valeu, segundo contam certos autores, o conselho que à Rainha deram alguns que disto tiveram conhecimento, dizendo que não podia alienar o regimento e senhorio que lhe ficara por morte delRei dom Fernando, indo contra a sua última vontade que, pelo direito, era havida como lei, ademais que tal renúncia era contra os tratos, nos quais não podia acrescentar nem minguar sem o consentimento dos prelados e povos do reino, como em eles se fazia menção. E ela disse que não havia por que pôr em dúvida tal coisa, que bem sabiam que elRei era senhor do reino de Portugal, e a Rainha sua filha, e que em tal assunto já não se podia mais fazer; e logo no outro dia, a quarta-feira, mandaram chamar um tabelião, e foi feita a escritura em que renunciou a todo o direito do regimento que havia de haver no reino, e pô-lo em ele e em sua filha. E na quinta-feira pela manhã, bem cedo, se veio a Rainha para o castelo e quitou a menagem a Gonçalo Vasques dAzevedo, que era aí Alcaide-mor, e mandou chamar João Gomes dAbreu, cavaleiro e um dos honrados moradores do lugar, e disse-lhe que quando fossem as horas do meio-dia fizesse abrir as portas de Leiria, que estavam fechadas e guardadas por gente da vila, que viria elRei de Castela, com a sua mulher e gentes, pousar dentro da vila. João Gomes respondeu que fosse sua mercê não querer que elRei de Castela nem as suas gentes entrassem no lugar, que melhor seria pousarem por esses mosteiros e lá fora, no arrabalde, onde lhes dariam mantimentos pelos seus dinheiros, do que lhe pôr a vila em seu poder e misturarem-se todos. A Rainha houve disto queixume, e disse a João Gomes, como que sanhuda: E como? Não quereis vós que meus filhos entrem dentro da vila? Eu vos digo que, se vós não quiserdes, eu lhes darei entrada pela porta deste castelo e sairão por esta outra porta, entrando na vila, e, onde eu tenho decidido de eles irem pousar às casas de Gonçalo Vasques dAzevedo, irão eles pousar às vossas, convosco. Respondeu então João Gomes e disse: Senhora, eu dizia isto por bem, entendendo-o para vosso serviço, mas pois que a vós assim não praz eu farei tudo o que vós mandais. E logo nesse dia após o jantar abriram as portas, e elRei, como comeu, veio-se à vila, e vinha em cima de um cavalo, e parte dos seus, armados de bestas e com as lanças levantadas, todos diante. E as ruas desde o castelo até SantEstevão, onde elRei havia de pousar, e dali até Alcáçova, todas primeiramente foram ocupadas e postos muitos homens de armas pé terra nelas, e mandou a Rainha aos Judeus que, com as Toras, fossem receber seus filhos fora da vila, e assim o fizeram. E quando elRei chegou à porta do castelo que saía para o Chão da Feira já ali estava a Rainha numa montada, e tomou-a elRei pela rédea, e após ela vinha a Rainha sua filha, a qual era levada pelo Infante de Navarra. E elRei ia armado dumas solhas, e com um ramo de cidreira na mão, e entraram pela porta de Leiria, e andaram todo o longo da rua até que chegaram às pousadas de Gonçalo Vasques dAzevedo onde haviam de pousar, que eram junto com a igreja de SantEstevão desse lugar, e ficou a Rainha dentro nas pousadas com elRei. E logo nesse dia lhe foi entregue o castelo e a Alcáçova, e foi tirado àquele que o tinha por Gonçalo Vasques e posto nele Lopo Fernandez de Padilha. E na Alcáçova puseram Garcia e Sancho de Vilhodre, dois irmãos, com oitenta lanças, e havia elRei sempre em seu Paço, de guarda de dia e de noite, cinquenta homens de armas.
66. DA MANEIRA QUE ELREI TEVE COM OS DESEMBARGADORES DA JUSTIÇA, E COMO MESCLOU AS SUAS ARMAS COM AS DE PORTUGAL.
Estando elRei assim em Santarém, que é uma das grandes e melhores vilas que há no reino de Portugal, e a mais abastada de todos os mantimentos, vinham-lhe a cada dia grandes capitães com muitas gentes de seus reinos. E o Aposentador da Rainha, junto com outro delRei de Castela, davam bairro a cada um, segundo o que era (posição social), dentro da vila e pelo arrabalde de fora. E não escusavam a ninguém de pousarem com ele, salvo na Judiaria, em que não pousavam, por azo de dom Davi Negro e dos Judeus de grande estado aliados da Rainha, e tinham os castelhanos boa maneira, logo no início, com aqueles onde pousavam e no comprar das viandas (da comida). E quando elRei de Castela chegou, estavam com a Rainha em Santarém todos os Desembargadores e oficiais da casa do tempo delRei dom Fernando, que se tinham vindo com ela quando partiu de Lisboa. Assim como Lourenço Eanes Fogaça, Chanceler mor; e Gonçalo Peres, seu escrivão; e o doutor Gil doSem; e João Gonçalves, e Fernão Gonçalves, e Lopo Estevens de Leiria, todos três licenciados em leis; e Rodrigo Estevens de Lisboa; e Gonçalo Peres, Prior dOurém, e Gonçalo Anes, ambos bacharéis em direito canónico; e estes e outros livravam (julgavam) todos os feitos (litígios jurídicos) de Portugal com grande deliberação e direito. E quando elRei chegou não quis desfazer o modo em que estavam e apenas pôs, de sua mão, cada um no ofício que tinha, e isso mesmo fez com os escrivães e todos os outros. E fez seu procurador Gonçalo Martins, bacharel em degredos, e todos receberam dele mantimento para dois meses, e em seu nome (do rei) se livravam os feitos, como pessoas que entendiam que ele já tinha o reino por seu. E andava Gil Eanes, Corregedor da Corte, e um Aguazil delRei pela vila, que a regiam, e ouviam alguns feitos (querelas) entre os castelhanos e os portugueses. ElRei de Castela, se bem que já antes se chamasse Rei de Castela e de Leão e de Portugal e do Algarve, começou ali a se nomear muito mais abertamente, por azo das sentenças e dos outros desembargos do reino, alçando pendões de suas armas com as quinas no cabo delas, como já haveis ouvido. E quando elRei ali chegou disse a Lourenço Eanes Fogaça, Chanceler mor que fora delRei dom Fernando, que lhe levasse os selos que tinha, assim chãos como pendentes, para os mandar desfazer e quebrar, e mandar fazer outros com as armas e sinais de Castela e as de Portugal mescladas com elas, dizendo-lhe que, como fossem feitos, logo lhos entregaria, porque não era seu desejo de ter outro Chanceler no reino que não ele. Lourenço Eanes cumpriu o seu mandado e entregou-lho os selos com pouca vontade de receber os outros e de ser seu Chanceler, e para ter azo de se partir a salvo, ele e Gonçalo Peres, seu escrivão, disse um dia a elRei de Castela: Senhor, eu e Gonçalo Peres, vosso escrivão da Chancelaria, não temos aqui nossas mulheres, pois eu tenho a minha em Lisboa e ele tem a sua em Évora; seja vossa mercê de nos dar licença para irmos por elas, tanto para sua segurança como para termos azo de vos melhor servir. A elRei prouve de tal requerimento, pensando que fosse como ele dizia, e eles foram-se para o Mestre, oferecendo-lhe seu serviço, e ele mandou Lourenço Eanes a Inglaterra como haveis ouvido, e depois Gonçalo Peres à cidade do Porto como adiante contaremos. O mesclar das armas fê-lo elRei por esta guisa: à redondeza do selo, partiu-o de todo pelo meio, e na primeira metade estavam as armas direitas de Castela, e na outra metade as direitas de Portugal, convém a saber: a barra de longo com a metade da redondeza era cercada de castelos, e dentro cinco escudos com as quinas; e as letras que cercavam todo o selo ao redor diziam: Johãnis Dei gratia, Regis Castelle et Legionis, et Portugallie. Seu ditado nas cartas e em quaisquer outras escrituras era este: Dom João pela graça de Deus Rei de Castela, de Leão, e de Portugal, de Toledo, de Galiza, e dos outros lugares que se costuma de nomear; e com tais selos e por tal ditado se designou então, e depois, por tempo. E decidiu o Concelho de Santarém de darem logo um serviço a elRei de Castela, e foram-lhe outorgadas pelos homens bons desse lugar trinta mil livras, as quais depois houve o Mestre, sendo Rei, daqueles que foram delas recebedores. E teve elRei conselho de fazer moeda em Santarém, e mandou lavrar uns reais de prata de lei de sete dinheiros, e coroados, e outras moedas de valor pequeno. E dizem que deu a Rainha dona Lionor a elRei de Castela muitas jóias das que ficaram delRei dom Fernando, e ele lhas agradeceu muito, e foram logo à primeira muito de acordo e bem amigos.
67. DOS FIDALGOS E CAVALEIROS QUE ESTAVAM COM ELREI EM SANTARÉM, E DO QUE AVEIO A GONÇALO VASQUES COM O SOLDO QUE MANDOU PAGAR AOS SEUS.
ElRei em Santarém, como dissemos, estavam aí dos fidalgos do reino estes senhores e capitães com ele, convém a saber: dom Henrique Manuel de Vilhena, filho de dom João Manuel, Conde de Seia que tinha Sintra; e dom PedrÁlvares Pereira, Prior do Hospital; e o Conde dom João Afonso, irmão da Rainha da Lionor; e o Conde de Viana; e Gonçalo Vasques de Azevedo, que tinha Torres Novas; e Vasco Peres de Camões, que tinha Alenquer; e João Gonçalves Teixeira, que tinha Óbidos; e DiegÁlvares e Fernam Pereira, irmãos do dito Prior do Crato; e Vasco Martins da Cunha, e Martim Vaz e Gil Vasques e Vasco Martins, seus filhos; e Vasco Martins de Melo; e João Afonso Pimentel; e João Rodrigues Porto Carreiro; e Martim Gonçalves dAtaíde; e Afonso Gomes da Silva; e Fernão Gomes da Silva; e Martim Afonso de Melo e os filhos deste e de Vasco Martins, seu irmão; e Fernão Gonçalves de Sousa; e Gonçalo Rodrigues de Sousa; e pelo reino havia outros muitos e bons cavaleiros que tinham grandes e boas fortalezas e que obedeciam a seu mandado. E destes senhores e fidalgos que ali chegaram a Santarém mandou elRei a alguns que se tornassem para seus lugares, e outros ficaram em sua companhia. Agora sabei que aos senhores e fidalgos que ali ficaram, bem como aos que se tornaram para os castelos que já lhe tinham oferecido, a todos elRei desembargava soldo para certas lanças com que o houvessem de servir, e a Gonçalo Vasques dAzevedo desembargou soldo para cem lanças. Gonçalo Vasques trazia grande casa, e era acompanhado de muitos e bons escudeiros que com ele viviam, assim como RodriguEanes de Barcos, Vasco Rodrigues Leitão, João Rodrigues da Mota e outros semelhantes de boa conta. E um dia foi ele ao Paço e deixou indicação ao seu Vedor para que desse o soldo a todos os seus, segundo já tinha ordenado. E ele pôs três montes de dinheiros em cima de uma mesa, um de florins, e outro de reais de prata, e outro de moeda corrente. E quando requereu aos escudeiros que o tomassem ninguém havia que os quisesse receber, mas tomavam os florins na mão e começavam a rir deles, e tornavam-nos ao seu lugar. Gonçalo Vasques a horas da ceia tornou para a pousada e, quando viu os dinheiros estar daquela guisa, não soube o que cuidar, e perguntou ao seu vedor porque os não dera como ele mandara. Sabei, disse ele, que todos convidei com eles, e não houve nenhum que os quisesse receber. Gonçalo Vasques esteve um pouco quedo, suspeitando porque o faziam, e disse que os guardassem dali e que pusessem a mesa. E então chamou-os todos à parte e disse: Espantado sou de vós serdes homens a quem eu tenho tal desejo quer de acrescentar em vossas honrarias quer de encaminhar vossos feitos com elRei, meu Senhor, por onde quer eu possa, e vós não quererdes tomar seu soldo para o haverdes de servir em minha companhia. Em verdade eu tinha de vós tal intenção que, não digo eu já com elRei de Castela, que é um senhor que todos somos teúdos de servir, mas ainda que me eu tornara Mouro e me fosse para Granada, para lá viver para sempre, vós vos tornaríeis Mouros comigo e me serviríeis em quaisquer coisas que de minha honra fossem, e agora me parece que estava enganado convosco, porque disto vejo muito o contrário, e, pois que assim é, rogo-vos que me digais porque o fazeis. E todos eles calando, respondeu Vasco Rodrigues e disse: Digo-vos, pois estes calam e não fala nenhum, que eu quero falar por mim e por eles. Sabei que não temos vontade, nem eles nem eu, por nenhuma guisa, de tomarmos o soldo delRei de Castela nem o vosso para o haver de servir, e mais depressa nos partiremos todos de vós do que haveremos de tomar seu soldo e sermos seus. Mas se vós quiserdes ter a tenção do Mestre e de Lisboa, digo-vos que não haveis mister de ouro nem de prata, nem doutro dinheiro que nos deis, pois todos de boa vontade despenderemos os corpos e as vidas, e quanto temos, para vos servir e morrer convosco aonde quer que vós fordes, e esta é a nossa final tenção, da qual já não temos de nos desviar, e se algum vos disser o contrário sabei que vos mente, e não o creiais nem fieis dele, nem de mim tampouco, posto que vo-lo diga. Gonçalo Vasques quando isto ouviu ficou espantado, e disse que, pois que assim era, ele não entendia de os perder nem forçar, mas que encaminharia as coisas de jeito a que isto não viesse mais à praça. E então houve com elRei que se fosse para Torres Novas e aí tivesse a guarda do lugar, e para ali se foi. Eles, vendo que seu desejo era de servir elRei de Castela e ter a sua tenção, partiram-se dele aos poucos e poucos, e foram-se a Buarcos para Álvoro Gonçalves, seu filho, que tinha voz pelo Mestre, e meteram-se na frota do Porto quando depois veio a Lisboa, como adiante diremos.
68. DOS LUGARES QUE TOMARAM VOZ POR CASTELA EM TODAS AS COMARCAS DO REINO.
Pois que dissemos parte dos senhores e fidalgos que se vieram para elRei de Castela, convém que digamos dos lugares que tomaram sua voz e lhe obedeceram, para verdes como teve grande parte do reino a seu mando por todas as comarcas dele. Não porém porque os povos moradores dos lugares lhos dessem nem lhe obedecessem por seu grado, mas porque os Alcaides e os melhores de cada um desses lugares lhos ofereciam e tomavam a sua voz, e a faziam tomar aos pequenos pela força. Assim como em Braga fez Lopo Gomes de Lira, intitulando-se Meirinho por elRei de Castela, que pela prisão que fez aos moradores do lugar e às pessoas eclesiásticas do Cabido da Sé os obrigou a prestar menagem ao Arcebispo de Santiago em nome delRei de Castela, e que tivessem sua voz e lhe obedecessem como a seu senhor. Porquanto o dito Lopo Gomes entrou na cidade contra a vontade do Concelho e do Cabido, e fez aí entrar o Arcebispo de Santiago e outras companhas da Galiza com ele. Depois Lopo Gomes mandou lançar pregão pela cidade, por forma a que todos os moradores dela, assim clérigos como leigos, se fossem logo ao claustro da Sé fazer ali menagem ao dito Rei de Castela e sua mulher, para que os houvessem por senhores e fizessem por eles paz e guerra, e que àqueles que o não quisessem fazer, que os degradava do senhorio dos reinos de Portugal, e que perdessem os bens que haviam. Além disso, estavam subjugados pelo castelo que está sobre a dita cidade, de que era Alcaide Vasco Lourenço, irmão do dito Lopo Gomes, sendo-lhes afirmado que, se não fizessem as ditas coisas que lhes Lopo Gomes mandava, seriam destruídos. E eles todos, com o temor, lhas fizeram então como ele quis; e por esta guisa e outras semelhantes se davam os povos a elRei de Castela, mas não de vontade. Onde cuidai que, tendo constado que elRei se partira de Castela para vir a Portugal, uma voz de grande espanto, como dissemos, foi ouvida em todo o reino quando as gentes foram certificadas que elRei de Castela queria nele entrar, vendo que tal entrada não podia ser sem grande escândalo e discórdia, a qual punha os humanais entendimentos em opiniões de muitas guisas. Pois, se bem que o amor da terra e a natural afeição constrangessem muitos fidalgos e alcaides de castelos a ter com Portugal, antes que com Castela, alguns porém aí havia tais que usando de cobiça misturada com intenção maliciosa, outros pelo temor e receio de cada um de perder a sua honra, e depois para cobrarem outra maior do que a que tinham, isto lhes fez de todo escolher o contrário, de tal modo que foi o reino diviso em si e partido em duas partes. E muito poucos lugares e fidalgos tomaram a voz do Mestre para o ajudar, e todos os outros se deram a elRei de Castela, obedecendo a seu mandado, assim que pelas comarcas do reino estavam por ele estas fortalezas, convém a saber: Na Estremadura: Santarém, Torres Novas, Ourém, Leiria, Montemor-o-Velho, castelo da Feira, Penela, Óbidos, Torres Vedras, Alenquer, Sintra. E Entre Tejo e Odiana: Arronches, Alegrete, Castelo de Vide, o Crato, a Amieira, Monforte, Campo Maior, Olivença, Vila Viçosa, Portel, Moura, Noudar, Mértola, Almada. E Entre Doiro e Minho: Lanhoso, Braga, Guimarães, Valença, Melgaço, Ponte de Lima, Vila Nova de Cerveira, Caminha, Viana, o castelo de Neiva. Trás-os-Montes: Bragança, Vinhais, Chaves, Monforte de Rio Livre, Montalegre, o Mogadouro, Mirandela, Alfândega, Lamas de Orelhão, Vila Real de Panóias. Na Beira: Castelo Rodrigo, Almeida, o Sabugal, Monsanto, Penamacor, a Guarda, Covilhã, Celorico, Linhares. Estes cinquenta e quatro lugares, e outros mais que dizer não curamos, teve elRei a seu mandar quando veio e antes que entrasse no reino. E ainda que os ricos e poderosos, assim alcaides de castelos como outros fidalgos, tivessem voz por elRei de Castela, os povos, porém, todos em seus corações eram contra ele e contra a Rainha, de guisa que, assim como dissemos, se levantavam muitas uniões em alguns lugares e tomavam os castelos aos alcaides deles, alçando voz pelo Mestre dAvis e escrevendo-lhe que queriam ser seus e o ajudar com os corpos e haveres. Assim como tomaram Évora a Álvoro Mendes dOliveira, e Estremoz a Joane Mendes de Vasconcelos, e Beja e outros lugares que ouvistes. E àquelas vilas que tinham voz por Castela mandava elRei gentes de armas, quantas viam que eram mester, de guisa a que os alcaides com elas e com os seus criados e amigos as pudessem defender como cumpria, que dos que moravam nos lugares não eram os alcaides muito seguros, por as coisas que viam acontecer. E das fortalezas que tinham voz por Castela saíam os alcaides portugueses a fazer grandes roubos e cavalgadas nos termos que estavam da parte do Mestre, prendendo e roubando e matando neles, como se lhes o devessem fazer por contrários merecimentos, de modo que os que deviam ser seus defensores e livrá-los das mãos dos inimigos eram aqueles que os matavam e perseguiam usando contra eles de toda a crueldade. Oh que forte coisa e mortal guerra de se ver, uns portugueses quererem destruir os outros! E aqueles que um ventre gerou e uma terra deu criação desejarem de se matar com toda a vontade, e espargir o sangue de seus dívidos e parentes!
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| Actualizado em ( 31-Ago-2009 ) |