Capítulo IV - A revolução alastra
Escrito por Fernão Lopes   
16-Ago-2009

 

A REVOLUÇÃO ALASTRA.

 

A divisão em grandes capítulos numerada em romano é apócrifa, tal como os respectivos títulos, e foi introduzida pelo «O Espaço da História».

 

40. COMO O MESTRE FALOU COM OS DO SEU CONSELHO SOBRE A SUA FICADA OU PARTIDA DO REINO.

 

Tornando a falar dos feitos do Mestre, de que cessámos para levar a Rainha a Santarém e trazer NunÁlvares ao seu serviço, sucedeu que nesta sazão em que NunÁlvares veio para ele era o Mestre posto em grande cuidado e desvairados pensamentos.

Porque alguns do seu Conselho lhe diziam que não aguardasse no reino a elRei de Castela com o seu grande poder, mas que se fosse para Inglaterra, apresentando muitas razões porque o devia de fazer, e assinalando certos proveitos e seguranças (vantagens e garantias) que daí se seguiam, dizendo, entre outras coisas, que por azo dessa partida ele poderia conseguir ali assaz ajuda de gentes para que, depois, pudesse tornar ao reino e cobrá-lo com muita sua honra sem perda das gentes e dano da terra. Outros, assim como NunÁlvares e Rui Pereira, Álvoro Vasques de Góis e o doutor João das Regras, Álvoro Pais e o doutor Martim Afonso eram de todo contra esta opinião, desfazendo os ditos daqueles com outras contrárias razões, dizendo que a partida do Mestre não era boa nem a serviço de Deus nem seu, porque indo-se ele para fora da terra ficava o reino desamparado e sem defensor. E entretanto elRei de Castela cobraria a cidade e os outros lugares que se lhe rebelavam, e dá-los-ia a tais pessoas e afortalezá-los-ia de tal guisa que se não poderiam depois cobrar senão com grande afã e muito espargimento de sangue, e que por isso lhe pediam por mercê que se deixasse ficar sossegado no reino e não se partisse dele, que Deus para isto o chamara e escolhera e encaminharia seus feitos com grande acrescentamento de sua honra e estado.

O Mestre ouvia as razões de uns e dos outros, e embora aqueles que o aconselhavam a que partisse do reino indicassem certas e notáveis razões porque o devia de fazer, seu grande coração desejoso de cavaleirosos feitos fazia-o inclinar a todavia ficar nele, e a arriscar-se a qualquer sorte por defensão da terra.

Mas desta tenção estorvavam-no muito os que lhe aconselhavam o contrário, de guisa que o faziam duvidar, e um dia, depois de comer, o Mestre mandou chamar os de seu conselho e, com eles, NunÁlvares, e quando todos foram juntos o Mestre propôs ante eles, dizendo desta guisa:

Amigos, vós vedes bem o grande perigo em que este reino está, e como partindo-me eu dele, segundo alguns de vós outros dizem, ele seria de todo perdido e sujeito a elRei de Castela, de guisa que tais aí há que dizem que melhor era por defensão da terra morrer honradamente de que cair em servidão dos seus inimigos. E de mim vos digo que eu tal tenção tenho e estou disposto para ficar nela, e a não me partir de maneira nenhuma, se vós outros o assim acordardes.

Os do Conselho que eram deste bando disseram que o Mestre dizia muito bem e foram mui ledos com as suas razões, pedindo-lhe por mercê que assim o fizesse e não curasse doutro conselho, e que eles e todos os outros o serviriam bem e lealmente, e que esperavam no poderoso Deus que ele traria os seus feitos a tão bom fim que seria muito com sua honra e de todo o reino.

E depois de grandes razoados que sobre isto estiveram a falar, foram todos de acordo que o Mestre ficasse no reino e não se partisse dele, e começaram a falar noutras coisas e na tomada do castelo.

 

41. COMO O MESTRE QUERIA COMBATER O CASTELO DE LISBOA, E COMO O TOMOU SEM COMBATE.

 

Acabado isto que haveis ouvido, disse o Mestre que um dos empachos que tinha neste feito era o castelo da cidade, que estava contra ele pela parte da Rainha, o qual cumpria muito de ser filhado para a cidade não receber dano a partir daí dalgumas gentes, se quisessem vir contra ela.

NunÁlvares e os outros do Conselho disseram que não se incomodasse nem se anojasse por isso, que Deus, que lhe dera a cidade, lhe daria o castelo. Ora assim aveio que pensando a Rainha nas coisas trespassadas (passadas, anteriores), era seu coração amiúde cercado de gastosos pensamentos, e receando o que depois se seguiu, estando ela então em Alenquer, falou com seu irmão o Conde João Afonso, que era Alcaide de Lisboa e tinha nela muitos e bons vassalos, para que lhes enviasse dizer que se lançassem no castelo com os seus escudeiros, por segurança de qualquer coisa que avir pudesse.

Outorgado pelo Conde que isto era bem feito, falou a AfonsEanes Nogueira, que estava ali e era um deles, para que se viesse à cidade e falasse com aqueles que eram seus e o fizessem assim. AfonsEanes chegou a Lisboa e todos aqueles com que havia de falar eram já do Mestre discípulos escondidos, tendo outra crença muito contrária da primeira e sendo já da parte dele contra a Rainha.

E como falou com Estêvão Vasques Filipe, depois com Afonso Furtado e com Antão Vasques e outros bons da cidade e os achou mudados do que cuidou que tinha neles, não o quis dizer a mais ninguém. E foi-se para a sua pousada e preparou-se o melhor que pôde, e lançou-se no castelo pela porta da traição com uns dez ou doze escudeiros.

E em se lançando assim, nasceu uma voz pela cidade, dizendo, Traição! Traição! Acorrei ao Mestre que querem matar.

As gentes, quando isto ouviram, foi nelas grande o alvoroço e começaram a armar-se e a correr à pressa para o castelo, porquanto o Mestre fora pousar nos Paços do Bispo, que são ali cerca dele, dado que o tencionava tomar. E vendo os que lá acorriam que não era nada do que lhes disseram, tornavam-se muito sanhudos, razoando muitas palavras de ameaça contra quaisquer que tal coisa se tremeteram de fazer (se tinham metido ou atrevido a fazer).

A Martim Afonso Valente – um dos honrados da cidade que era Alcaide do castelo pelo Conde João Afonso, irmão da Rainha – foi requerido que o desse ao Mestre e não consentisse que, por meio dele, viesse mal à cidade e a todo o reino, pois que português verdadeiro era, dando-lhe muitas razões porque o devia de fazer. Martim Afonso escusava-se disto, dizendo que não o faria por nenhuma guisa dado dele ter menagem feita e, assim, cair em mau caso, com grande doesto seu e de todos os que dele descendessem.

O Mestre ordenou então de os combater, e mandou fazer um artifício de madeira a que chamam gata, que, mal uma baixa cava (fosso) que então o castelo tinha fosse cheia, pudesse ir por cima (da cava) e juntar com ele (muro do castelo), e debaixo da qual se pudesse ir picar (ferir, derrubar) o muro e entrar dentro (tratar-se-ia, muito provavelmente, de um aríete coberto com um mantelete). E diziam os de fora aos do castelo que o dessem ao Mestre seu Senhor, senão, juravam a Deus, que poriam em cima da gata Constança Afonso, mãe de AfonsEanes Nogueira e irmã da mulher de Martim Afonso, alcaide do castelo, e que isto mesmo fariam às mulheres e filhos de quantos eram dentro, e que então lançassem de cima fogo e pedras em quais deles quisessem. Alguns de dentro, receando isto, diziam ao Alcaide que antes sairiam para fora, e não o ajudariam a defender o castelo, do que dariam azo a terem de matar as mulheres e os filhos da guisa que lho diziam.

Nisto, antes que a gata fosse feita nem que a cava estivesse cheia para se lhe poder passar por cima, disse NunÁlvares ao Mestre que ele queria ir falar com Martim Afonso Valente e com AfonsEanes Nogueira sobre o feito do castelo, e que pensava que lho dariam. O Mestre disse que lhe prazia, e NunÁlvares foi ao castelo e disse a Martim Afonso muitas razões porque o devia de dar ao Mestre, dizendo que não cumpria que por sua causa se perdesse a cidade e o reino fosse posto em aventura. A qual coisa, pois verdadeiro português era, não lho devia o coração consentir, e fazendo-o doutro jeito que todo o mundo lho teria a mal, e merecia que o apedrejassem todas as gentes da cidade por isso.

Com estas e outras razões que lhe NunÁlvares disse, depois vendo Martim Afonso todo o povo da cidade alvoroçado contra si e disposto a tomar o castelo, e o combate que lhe queriam dar, e como os que estavam com ele diziam que, se daquela guisa os combatessem, eles não haviam de matar as mulheres e os filhos para lho ajudar a defender, pensou que não havia de poder aguentar-se muito tempo. E então disse Martim Afonso a NunÁlvares que bem lhe prazia de dar o castelo ao Mestre, mas que o faria primeiro saber à Rainha e ao Conde dom João Afonso, a que dele tinha feita menagem.

NunÁlvares disse-lhe que logo ficasse determinado até que dia se absteriam de o combater, e que lhe desse garantia de reféns para o efeito, não sendo acorrido nesse prazo. Então se preitejou Martim Afonso que não lhe vindo acorro em quarenta horas o castelo fosse entregue ao Mestre sem mais contenda, e Afonse Anes Nogueira foi posto a refém em poder de NunÁlvares, que o trouxe consigo para a sua pousada.

Os da cidade, como souberam que o castelo fora preiteado, corriam todos para ali com armas, e toda aquela noite foi nele posta grande guarda, dormindo à volta do monte com muitas candeias acesas e velando com grande cuidado para embargar qualquer ajuda que pudesse vir ao Alcaide. Martim Afonso mandou à pressa um Escudeiro a Alenquer, fazendo saber ao Conde em que ponto estava com os da cidade, e como estes o queriam combater e de que guisa, e quando lhe contou como os da cidade diziam que lhes poriam a todos as mulheres e os filhos em cima da gata e que depois matassem quais deles quisessem, começou o Conde por sorrir e disse:

Em verdade bom bioco (capuz) era esse que eles vos punham para lhes haverdes de dar o castelo; dizei que houvestes vontade de lho dar e deste-lho; parece que fostes tais, com esse medo que vos puseram para vos espantar, como na estória da raposa que estava ao pé da árvore e ameaçava com o rabo o corvo que estava em cima, com o queijo no bico, para ele lho haver de deixar, e vós outros tais fostes, tomastes medo vão do que não havíeis de tomar e, para terdes azo de lho dar mais cedo, foste-lo aprazar a horas certas para não poder ser acorrido. Eu não tenho aqui assaz de gentes para lhe poder acorrer, e, mesmo que as tivesse, o prazo é tão pequeno que tão-somente para ferrar não haveria aí espaço. O Escudeiro respondeu que Martim Afonso não pudera haver tempo maior, e que mesmo aquele lho deram de muito má mente.

Falou então o Conde à Rainha e contou-lhe o jeito que os da cidade queriam ter em combater o castelo, e ela lhe disse que, pois que assim era, lhes mandasse dizer que lho entregassem, que quem depois houvesse a cidade haveria o castelo. Tornou-se o Escudeiro com este recado e, passado o prazo, foi entregue o castelo ao Mestre a trinta dias do mês de Dezembro, e ele foi pousar nele e mandou-o devassar e tirar-lhe as portas do lado da cidade, por conselho de todo o povo.

Martim Afonso, como deu o castelo ao Mestre, veio-se para a sua mercê com os que dentro eram, e ele e AfonsEanes e os outros todos serviram-no sempre bem e lealmente.

 

42. COMO FOI TOMADO O CASTELO DE BEJA E MORTO O ALMIRANTE MICER LANÇAROTE.

 

A Rainha antes disto, quando o Conde João Fernandes foi morto e o levante de Lisboa se deu, havia mandado pelo reino suas cartas, tanto aos alcaides dos castelos como aos homens bons das vilas e cidades, fazendo-lhes queixume do que havia acontecido e ordenando-lhes a maneira que haviam de ter em tomar voz por sua filha, e igualmente escreveu a elRei de Castela para que se trabalhasse de vir depressa ao reino, quando ele nesta sazão já era na Guarda, como adiante podereis ver. De modo que por azo da sua vinda, bem como por todos os maiores do reino serem da parte da Rainha, foi alçada voz e pendão pela sua filha da guisa que ela lhes escreveu em suas cartas, mas este tomar de voz e alçamento de pendão, com tal título como se apregoava, era grave coisa de ouvir à gente pequena dos lugares, e não o podendo contradizer às grandes pessoas, agastavam-se consigo próprios por o consentirem com medo e temor daqueles a que contradizer não podiam.

Tal como aconteceu em Estremoz, quando Joane Mendes de Vasconcelos, um primo da Rainha dona Lionor que naquele tempo tinha o castelo, mandou levantar voz e pendão pela Rainha dona Beatriz, e o trouxeram pela vila Lopo Afonso e Lourenço Dias com alguns outros do lugar, e porque viram que o outro povo era posto em turvação e mal contente deste feito, logo disseram que havia mister na praça de cepo e çaator (I) para decepar aqueles que contradissessem o que eles faziam. E durando esta divisão nos corações de uns e dos outros, foi sabido pelo reino como o Mestre tomara carrego de se chamar regedor e defensor dos reinos, e como tomara o castelo de Lisboa e o tinha em seu poder, e a alguns do reino que disto souberam parte (tiveram conhecimento) prouve-lhes muito, especialmente aos povos miúdos, ao mesmo tempo a outros, que eram da parte da Rainha, pesava assaz, ainda que pensassem que tudo aquilo não passava de vaidade.   

 

Nota (I): António José Saraiva transpõe, para português moderno, «cutelo», mas em português medieval tal palavra escrevia-se «cuitelo» e «coitelo» já em 1218. Nós pomos, por isso, outras duas hipóteses: ou «cautério», do latim «cauter», ferro em brasa; ou «sautor», isto é, as aspas, um aparelho de castigo e tortura.

 

Ora assim foi que em Beja estava por alcaide Gonçalo Vasques de Melo, e tinha em seu poder o castelo e voz pela Rainha; nisto escreveu outra vez a Rainha suas cartas ao concelho de Beja para que sempre mantivessem voz por ela, e que se acontecesse delRei de Castela vir por ali que o acolhessem na vila sem nenhum receio nem temor, pois ele os defenderia de quem quer que nojo lhes quisesse fazer, e lhes faria por tal muitas mercês.

Recebidas as cartas pelos principais do lugar, mandaram deitar pregão pela vila, para que todos no outro dia fossem ouvir recado de cartas que sua Senhora a Rainha mandara. No dia seguinte juntaram-se Estêvão Mafaldo, e João Afonso Neto, e mestre Joane, e Rui Pais Çacoto, e MendAfonso e outros honrados do lugar, e apartaram-se todos à porta pequena de santa Maria da Feira, e começaram de ver aquilo que a Rainha lhes escrevera.

Era muito o povo que estava pelo adro a aguardar que lhe dissessem que novas eram aquelas que a Rainha mandava dizer, e impacientando-se as vontades de todos, disse um que chamavam Gonçalo Ovelheiro para os outros: Não está agora aqui nenhum que vá saber que cartas são estas? Ou que recado é este que a Rainha agora manda?

Falou então um bom escudeiro que chamavam Gonçalo Nunes dAlvelos, que não era dos grandes nem dos pequenos, e disse para Vasco Rodrigues Carvalhal: Queres-me tu ajudar, e iremos saber que cartas são estas? E ele disse que lhe prazia. Então se juntaram com eles até uns trinta e chegaram aonde estavam aqueles honrados e falou Gonçalo Nunes, que disse:

Que cartas são estas que vós assim ledes de que nós não havemos parte? Porventura esta vila se há-de manter e defender por os quatro ou cinco que vós aqui sois? Certamente que não, mas por nós outros que aqui moramos.

Disse então Estêvão Mafaldo: Que união é essa com que vós assim vindes?

E respondeu Gonçalo Nunes, dizendo: Isto não é união, mas queremos saber que cartas são estas.

Falou então MendAfonso, e disse que ele perguntava bem e era de razão que as vissem. Então meteram-se todos no Paço do Concelho, e parte dos outros que ali foram com eles, e lidas as cartas, deram-nas a um tabelião que as publicasse aos de fora, e ele saiu a eles e disse:

Amigos, o feito é este, e eu não hei por que me mais deter em ler o que aqui vem, a conclusão é esta: Se antes quereis ter com a Rainha ou com o Mestre? E eles responderam todos a uma voz, dizendo: Com o Mestre! Com o Mestre! Aqueles maiorais, quando isto ouviram, partiram-se logo, cada um para sua pousada, e não ousavam de aparecer.

Eles nisto, sem mais tardança, viram aparecer gentes de armas no castelo, e então começaram todos a bradar: Alça-se o castelo! Alça-se o castelo! Gonçalo Nunes cavalgou célere e os outros todos se foram armar e começaram logo de o combater. O Alcaide, quando isto viu, pôs fogo a duas torres em que estava muito armazém (material de guerra), para os da vila se não prestarem dele no caso de o castelo ser tomado, e defendendo-se os de dentro rijamente e ferindo alguns de fora, puseram os da vila fogo às portas do castelo, e como foram ardidas, entraram ali dentro numa quarta-feira a horas do comer (almoço) e tomaram o Alcaide, que foi posto a salvo por alguns que lhe bem queriam.

Gonçalo Nunes e Vasco Rodrigues tomaram logo o castelo e tiveram voz pelo Mestre, roldando e velando a vila com as portas fechadas em nome dele. E velando-se assim a vila, alguns dias depois disto chegou ao serão, em cima duma égua, um homem do Campo de Ourique e falou aos da vela (vigias), pedindo que dissessem ao que tinha carrego de reger a vila que, aquela tarde, chegara micer Lançarote a um lugar que chamam os Colos, que são dali nove léguas, e que se ia a Odemira, que é no reino do Algarve, para se alçar com ele e tomar voz por elRei de Castela.

Gonçalo Nunes, como isto soube, levou consigo cinquenta de cavalo e um cento entre besteiros e homens de pé, e andaram toda a noite, de modo que chegaram ali antemanhã. O Almirante tinha já selado para cavalgar mailos os seus, e assim, armados como estavam, foram todos presos, e os Mouros e Mouras e azémolas, com quanto haver levavam, e aos seus tomaram as armas e as bestas e deixaram-nos ir, e o Almirante veio para a vila em cima duma mula.

Aí chegados, puseram-no na torre de menagem, dizendo ele afincadamente a todos: Amigos, mandai-me a meu Senhor, o Mestre, bem preso e arrecadado, e não me queirais matar sem por quê.

E eles diziam que não tivesse medo, e enquanto Gonçalo Nunes foi levar ao Mestre tudo quanto lhe haviam tomado, receando os da vila que o Almirante se levantasse com o castelo, foram-se um dia todos lá e disseram a Vasco Rodrigues que o lançasse dali para fora, e ele, receando-se deles, foi-se para sua casa e deixou-o na torre. O Almirante, quando isto viu, começou de se defender o melhor que pôde, e bradando-lhe eles que descesse cá baixo e não tivesse medo, houve-o de fazer e, cuidando de neles achar piedade e compaixão, mataram-no de má e desonrada morte, e assim acabou seus postumeiros dias.

 

43. COMO O CASTELO DE PORTALEGRE E O DE ESTREMOZ FORAM TOMADOS.

 

Desta guisa que haveis ouvido se levantaram os povos em outros lugares, sendo grande o cisma e a divisão entre os grandes e os pequenos.

Ao qual ajuntamento dos pequenos povos, que assim então se juntava, chamavam naquele tempo arraia-miúda. Os grandes, à primeira, escarnecendo dos pequenos, chamavam-lhes povo do Mexias (Messias) de Lisboa, que cuidavam que os havia de remir da sujeição delRei de Castela.

E os pequenos aos grandes, depois que cobraram coração e se juntavam todos num, chamavam-lhes traidores cismáticos, que estavam da parte dos castelhanos para darem o reino a de quem ele não era, e nenhum, por grande que fosse, era ousado de contradizer a isto nem de falar por si coisa nenhuma, pois sabia que, como falasse, má morte tinha logo prestes, sem ninguém lhe poder ser bom (poder valer). Era maravilha de ver que tanto esforço Deus punha neles, e tanta cobardice nos outros, que os castelos que os antigos reis, permanecendo sobre eles por longos tempos, não podiam à força de armas tomar, os povos miúdos, mal armados e sem capitães, com os ventres ao sol, antes do meio-dia os filhavam por força.

Entre os quais um foi o Castelo de Portalegre, de que era Alcaide o Prior do Hospital, dom Pedro Álvares, e que, tal como os outros castelos que estavam em sua mão, tinha voz pela Rainha; pois juntaram-se os da vila uma quinta-feira pela manhã e começaram de combatê-lo, e antes do meio-dia, com a ajuda de Deus, foi filhado.

Semelhavelmente os da vila de Estremoz, postos em grande alvoroço, cometeram ao Alcaide que deixasse o castelo e se viesse para a vila, pois doutra guisa não estariam dele seguros. Joane Mendes disse que o não faria por coisa alguma que fosse, que de o fazer lhe viria grande desonra e prasmo. Vendo eles esta sua resposta, determinaram-se de o combater, e pegaram num carro e puseram-no na praça, e trataram de pôr nele as mulheres e os filhos dos que estavam lá dentro do castelo com o Alcaide, que eram todos naturais do lugar.

E os de dentro, quando isto viram, disseram a Joane Mendes que deixasse o castelo aos da vila, que doutra guisa não entendiam de o ajudar. Vendo-se ele em tal aperto, mandou dizer aos de fora que lhe enviassem pessoa segura com que pudesse falar e que acordar-se-ia com eles. Mandaram então frei Lourenço, Guardião de são Francisco, e outros que com ele fossem ao castelo. E Joane Mendes apresentou muitas razões a escusar-se de não ter com Castela, mas ser verdadeiro português, como eles; mas as suas falas não prestando para nada, foi determinado que todavia deixasse o castelo e que este fosse entregue a um dos da vila, que o tivesse.

Outorgou o Alcaide que lhe prazia porque mais fazer não pôde, e foi entregue a um escudeiro que chamavam Martim Peres, e o Alcaide foi logo fora do castelo, e depois se foi para Moura, que tinha Álvoro Gonçalves por elRei de Castela. E os do Concelho mandaram tirar as portas da torre e as do castelo que davam para a vila, e derribar o parapeito e as ameias daquele lado, e daí em diante foi o castelo velado e roldado pelo Mestre, e posto em poder do povo miúdo.

E não somente os homens, como é dito, mas também as mulheres entre si formavam bando pelo Mestre contra qualquer que da sua parte não era, de guisa que um dia Mor Lourenço e Margarida Anes adela e outras mulheres se levantaram em razões contra Maria Estevens, mãe de Nuno Rodrigues de Vasconcelos, dizendo que seu filho dissera mal do Mestre e que era castelhano, e elas por si próprias o mataram e foram-no lançar do muro abaixo.

 

44. COMO O ALCAIDE DE ÉVORA QUISERA TER VOZ PELA RAINHA E FOI TOMADO O CASTELO PELOS DA CIDADE.

 

Ouvindo isto que acontecia em alguns lugares, Álvoro Mendes dOliveira, o Alcaide-mor da cidade de Évora que então tinha o castelo pela Rainha, vendo que semelhante caso como o que acontecia aos outros lhe podia acontecer a ele, e que não tinha outras gentes consigo com que o defender pudesse salvo alguns seus criados, tais como Gonçale Anes Melom, e Martins Bravo, e Rui Gil e outros até sete ou oito ao todo, mandou um dia chamar Martim Afonso Arnalho, que era então Juiz e estava casado com uma donzela da Rainha dona Lionor, e Gonçalo Lourenço, Alcaide pequeno, e Vasco Martins Porrado, escrivão da Câmara do Concelho, e Rui Gonçalves medidor, e Martim Velho, e Álvoro Vasques mercador e outros honrados do lugar. E indo todos ao seu chamado, ele propôs-lhes tantas e tais razões pelo lado da Rainha, de que ele queria estar, que todos outorgaram de se virem para ele e lho ajudarem a defender. E quando todos se lançaram dentro e foi sabido pela cidade, logo nesse dia Diego Lopes Lobo e Fernão Gonçalves dArca, e seu filho João Fernandes, que eram alguns dos grandes que aí havia, se levantaram contra eles, com todo o povo da cidade, e foram combater os do castelo, subindo ao cimo da e igualmente ao do açougue, que são lugares altos donde com as bestas lhes podiam empecer, e dali atiravam muitos virotões aos que estavam no castelo, o qual era muito forte de torres e muralha e cercado de cava, e muito mau de tomar sem grande trabalho.

E para os fazer render mais asinha (depressa), tomaram as mulheres e os filhos dos que eram dentro a defendê-lo e puseram-nos, em grupos, em cima de vários carros, todos amarrados a eles, que era um jogo que em semelhantes casos os povos miúdos muito costumavam então de fazer, e chegaram assim à porta do castelo bradando aos de cima que fossem fora e o desamparassem logo, senão que as mulheres e os filhos lhes queimariam a todos, à vista e na presença deles. E em dizendo isto começaram de pôr fogo às portas, com grande alvoroço e arruído de muita gente. O Alcaide, quando isto viu, falou com aqueles que eram lá dentro com ele e, receando-se de cair na destemperada sanha daquele povo, acordaram de lhes entregar o castelo antes que mais acontecesse, e a preitesia foi que os deixassem ir embora do castelo e da cidade a salvo e com a sua honra, e que lho deixariam desembargadamente, e logo que os seguraram com esta condição, foram lançados fora pela porta da traição, sendo cerradas todas as portas da cidade para que depois que saíssem os não fossem roubar os do povo miúdo.

O castelo era bem forte, e certo é que não seria tomado tão à pressa, da guisa que o foi, se não fora aquele modo que tiveram de pôr as mulheres e os filhos dos que dentro eram em cima daqueles carros. E como foi tomado, logo foi roubado de quanto aí acharam, e derribado por muitas partes, e posto fogo por ele adentro, de guisa que, queimadas as casas e quanto nele havia, ficou devassado como pardieiro, sem parte defensável que nele restasse. A porta da traição foi logo quebrantada, de modo que não podia entrar dentro do castelo nem sair ninguém, e o Alcaide foi-se para Fernão Gonçalves de Sousa, que estava em Portel e tinha voz por Castela, e dos outros alguns se foram para Pero Rodrigues da Fonseca, que era Alcaide de Olivença, e uma parte deles para Paio Rodrigues, Alcaide de Campo Maior, que tinham ambos voz por elRei de Castela. E foi a tomada deste castelo aos dois dias do mês de Janeiro da sobredita era de quatrocentos e vinte e dois anos (em 1384).

E quando esta coisa assim foi feita, logo à pressa escreveram ao Mestre de toda a maneira que nisto tiveram, e ele rapidamente mandou suas cartas aos principais que em tal feito foram e a Martim Gil Pestana, que era Alferes da cidade, dizendo que vira a carta do Concelho acerca da obra muito de louvar que todos haviam feito por serviço de Deus e honra do reino e da sua pessoa, pelo qual motivo era de sua obrigação acrescentá-los, fazendo-lhes muitas mercês como a bons e leais servidores, e que esperava em Deus que tal como fora o começo de tais feitos assim seria bom o meio e fim deles.

E que por isso lhes rogava, como verdadeiros naturais do reino, que em tudo trabalhassem e tivessem tão boa maneira que nem a si nem a eles pudesse vir qualquer dano.

 

45. COMO OS DA CIDADE SE LEVANTARAM CONTRA A ABADESSA, E DO JEITO QUE TIVERAM EM A MATAR.

 

Tomado o castelo da guisa que dissemos, ficou o povo da cidade cheio de grande alvoroço, fora de todo o bom costume, e começaram a mover-se por brava sanha, multiplicando novas queixas contra quem lhes não havia feito erro, e usavam de seu livre poder, desdenhando de quem ao princípio tomaram por capitães, assim como Diogo Lopes e Fernão Gonçalves e outros grandes do lugar. E pondo suspeita sobre eles, disseram-lhes que se amavam o serviço do Mestre e eram da sua parte que se fossem a Lisboa para o servir e ajudar a defender o reino, e eles, vendo que lhes não cumpria entrar em contenda sobre isto, assim o fizeram e vieram para o Mestre.

Os maiorais daqueste alvoroço eram GonçalEanes cabreiro e Vicente Anes alfaiate, e, prosseguindo os seus feitos como lhes dava a vontade, tinham como chamamento: Abite! Abite! Aqui dos de abite! E quando alguns deles diziam: Vamos a foão (fulano), matá-lo, e roubemo-lo, logo assim era feito, sem lhe valer nenhum dos grandes da cidade, ainda que por ele se quisesse pôr.

Ora aconteceu que nesta sazão estavam as Freiras e a Abadessa de são Bento, de um mosteiro não longe dali, dentro da cidade numas suas casas que estão no muro quebrado, por receio e temor da guerra que já então se iniciava abertamente, e andando o povo neste alvoroço, sem outra ocupação em que despendessem o seu tempo, nasceu uma voz, segundo recontam alguns, dizendo que GonçalEanes cabreiro, um dos capitães daquela união, falou para o povo e disse: Vamos matar a aleivosa da Abadessa, que é parenta da Rainha e sua criada.

Outros dizem doutra maneira, e esta parece-me com mais razão, convém a saber: que a Abadessa, ouvindo como eles andavam daquela maneira e as coisas que faziam, disse de jeito que eles o souberam: Eis os bêbados! Andam com a sua bebedice, deixai-os lá, que ainda eles se hão-de achar mal por estas coisas que andam a fazer. Ora, por qualquer guisa que fosse, o levante contra ela não foi em vão, e foram-na logo buscar às casas onde então pousava, e não a acharam nelas porque fora ouvir missa com as suas Freiras à igreja catedral da cidade, segundo tinha em costume. Uma servidora da sua casa, quando viu que assim a buscavam, correu à pressa e foi à Sé dizer-lhe como a buscavam daquela maneira.

Ela, com o grande medo que teve deles, de que defensão não esperava de haver, deixou de ouvir a missa e meteu-se no Tesouro, e tomou a copa em que vão comungar, onde então dizem que estava o Corpo de Deus consagrado, e tendo-a assim nas mãos, abraçando-se com ela, os que a não acharam em casa foram-na trigosamente buscar à Sé, entrando todos com grandes brados do chamamento que usavam: Abite! Abite! E como chegaram todos, perguntaram logo por ela, mostrando grande desejo de a achar.

Saíram então a eles Gonçalo Gonçalves, que era aí Deão, e Mem Peres, Chantre, e outros Beneficiados para os desviarem da tenção que traziam, e nunca tanto puderam fazer nem pregar da parte de Deus e de santa Maria, dizendo-lhes que por então a deixassem e a não tirassem da igreja, e que eles a teriam presa e bem guardada para se fazer nela justiça, se algum mal fizera ou dissera, mas foi como se nada tivessem feito. Nem igualmente as doridas preces dela puderam amansar a braveza daquele sanhoso povo, pois sem nenhuma reverência pelo Senhor que ela nas mãos tinha – Senhor que nessa ocasião os deixou usar do seu livre poder, por juízo a nós desconhecido –, tomaram-lhe a copa das mãos e tiraram-na para fora do Tesouro.

E levando-a assim pela Sé, antes que chegassem à porta da escada, lançou-se um deles a ela violentamente e arrancou-lhe o manto e as toucas da cabeça, deixando-a em cabelo sem qualquer outra cobertura. E indo mais adiante, antes de chegarem à porta principal, lançou-se outro homem a ela e cortou-lhe as fraldas de todos os vestidos, de modo que lhe apareceram as pernas todas e parte de seus vergonhosos membros, e assim a arrastaram desonradamente para fora da Sé e a levaram pela Rua da Selaria até à Praça, e naquele lugar um deles deu-lhe uma cutilada na cabeça de que caiu morta, e depois os outros começaram a acutilar nela, cada um como lhe prazia.

Então a deixaram assim jazer na Praça e foram comer e buscar outros desenfadamentos, e cerca da noite vieram aqueles que a mataram e lançaram-lhe um baraço aos pés e levaram-na, arrastando-a, até ao Rossio, perto do curral das vacas, e deixando ali aquele desonrado corpo, alguns que disto tiveram pesar o tomaram de noite e enterraram na Sé, escondidamente, que doutra guisa não eram ousados de o fazer em lugar público.

 

46. COMO FOI ALÇADA VOZ E PENDÃO PELO MESTRE NA CIDADE DO PORTO, E DA MANEIRA QUE O POVO NISSO TEVE.

 

Haveis de saber que mal o Mestre tomou carrego de regedor e defensor dos reinos, e soube que elRei de Castela vinha com o seu poder para entrar neles, logo escreveu as suas cartas a algumas vilas e cidades, e o mesmo fez em relação a certas pessoas, notificando-lhes nelas que bem sabiam da guisa em que estes reinos estavam a ponto de se perder, e como elRei de Castela vinha para os tomar e colocar os povos deles na sua sujeição, contra a ordenação dos tratos que prometidos tinha, a qual coisa deviam de ter por tão grave e tão estranha que antes se deviam todos aventurar a morrer em tal demanda do que cair em servidão tão odiosa. E que ele, por honra e defensão do reino e dos naturais dele, se dispusera a tomar carrego de os reger e defender, o que com a graça de Deus entendia de levar por diante com a boa ajuda deles. E que por isso lhes rogava que todos de bom coração, como verdadeiros portugueses, tivessem voz por Portugal, e que não curassem de nenhumas cartas que a Rainha e elRei de Castela em contrário disto lhes mandassem.

E entre os lugares a que o seu recado chegou estava a cidade do Porto, onde suas cartas não foram ouvidas em vão. Pois como foram vistas, logo com coração muito prestes se juntaram todos, especialmente o povo miúdo, que alguns outros dessa comunal gente, duvidando, receavam de pôr a mão em tal feito.

Então aqueles a quem chamavam arraia-miúda disseram a um, de seu nome Álvoro da Veiga, que levasse a bandeira pela vila em voz e nome do Mestre de Avis, e ele recusou levá-la, razoando que o não devia de fazer, pelo qual logo foi chamado traidor e de ser da parte da Rainha, dando-se-lhe tantas cutiladas e com tanta vontade que era sobeja coisa de ver. Morto este, não se fez mais naquele dia, mas juntaram-se todos no outro seguinte com a sua bandeira tendida na praça, tendo decidido que a levasse um bom homem do lugar chamado Afonso Anes Pateiro, e que se a não quisesse levar o matassem logo, como ao outro; AfonsEanes houve disto parte por alguns deles que eram seus amigos, e bem cedo pela manhã, sem que o convidassem para tal obra, foi-se à praça da cidade onde já todos eram juntos para a trazer pelo lugar, e, antes que ninguém lhe dissesse que a levasse, deitou ele a mão à bandeira, dizendo a altas vozes, que o ouviam todos: Portugal! Portugal! Pelo Mestre de Avis!

Então cavalgou AfonsEanes em cima dum grande e formoso cavalo, que para isto já ali estava prestes, trazendo-a muito honradamente por toda a cidade, acompanhado de muita gente, tanto clérigos como leigos, bradando todos a uma voz: Arreal (arraial)! Arreal! Por o Mestre dAvis, Regedor e Defensor dos reinos de Portugal!

E andando assim pela cidade foram-se à , onde longos tempos havia que era posto o interdito e não enterravam ninguém, e começaram de tanger os sinos e a fazer dizer missas, e a dessoterrar os mortos donde jaziam enterrados e a trazê-los para dentro da igreja, e nenhuma pessoa ousava de isto contradizer. Pregou então um Frade muito a propósito da intenção do povo, concluindo que todos deviam de ser duma vontade e desejo e não existir entre eles desvairo nenhum, mas servir o Mestre lealmente e de bom coração, como verdadeiros portugueses, pois que se punha a defender o reino para o livrar da sujeição delRei de Castela.

Todos ficaram muito contentes das razões que o Frade pregou, e daí em diante nenhum desacordo houve entre eles, mas todos de um talante se dispuseram a ter e a seguir a tenção do Mestre. E desta guisa que tendes ouvido tomaram os povos miúdos muitos castelos aos Alcaides deles – que para não alongar deixamos de dizer –, alçando voz com pendões pelas vilas, bradando todos e dizendo: Portugal! Portugal! Pelo Mestre dAvis! E não guardavam parentesco nem amizade a nenhum que a sua tenção não tivesse e, quantos eram da parte de Rainha, todos se iam pela espada.

Pensai em quanta discórdia então havia de pais com filhos, e de irmãos com irmãos, e de mulheres com maridos! Que a ninguém era ouvida razão nem escusa que pela sua parte quisesse dar, e como um falasse: E Foão deles é, não havia nada que lhe salvasse a vida, nem justiça que o livrasse de suas mãos, e isto acontecia especialmente contra os melhores e mais honrados que havia nos lugares, dos quais muitos foram postos em grande cajão (perigo) de morte e roubados de quanto haviam.

E alguns deles, com medo, fugiam para as vilas que tinham voz por elRei de Castela, outros iam-se para fora do reino, deixando os seus bens e tudo quanto haviam, os quais o Mestre logo dava a quem lhos pedia, e os miúdos corriam atrás deles e buscavam-nos e prendiam-nos tão com vontade que parecia que lidavam pela Fé.

 

 

 

Actualizado em ( 25-Ago-2009 )